Em 1989, pouco antes do início do governo Collor, os jornais passaram algumas semanas especulando sobre quem seria o ministro da Fazenda do novo governo. Os nomes lembrados eram de economistas conhecidos, como Mário Henrique Simonsen. Nenhum jornal levou a sério a hipótese de Collor escolher a assessora econômica de sua campanha, Zélia Cardoso de Melo.

O resto da história é bem conhecido.

Nove anos depois, no início de 1999, FHC convidou Francisco Lopes para ser presidente do Banco Central. A experiência durou poucos dias. Seu saldo foram duas falências de bancos (do tipo que a Policia Federal tem que investigar), o rápido esgotamento das reservas cambiais do país e a criação de um novo modelo de câmbio: a “banda diagonal endógena”.

Quando perguntaram a FHC por que tinha nomeado Lopes, o então presidente respondeu: “Quem não tem cão, caça com gato”.

Se os políticos estudassem história teriam entendido, a partir daí, que caçar com gato é, no mínimo, temerário, principalmente se for um gato doméstico, como um assessor econômico do partido ou um diretor ambicioso querendo ser presidente do BC.

De qualquer jeito, seis anos depois, quando Antônio Palocci foi acusado de quebra de sigilo bancário e deixou o ministério da Fazenda, Lula nomeou Guido Mantega para substituí-lo.

Na época, os jornais noticiaram a nomeação como sendo para um mandato tampão, de dois anos. Eram tempos de mercado externo tranquilo. Para o novo ministro, bastaria manter a política econômica de Palocci e repetir suas justificativas, com frases como: “O Brasil é como um transatlântico – e transatlântico não dá cavalo de pau”.

Mas veio a crise – e Lula manteve Mantega. Depois, Dilma o manteve também. O resto da história ainda não é completamente conhecido. Mas, a julgar pela inflação acelerada, pela queda do investimento e pela destruição institucional que se vê por aqui, a máxima do “não caçarás com gato” vai se mostrar, mais uma vez, verdadeira.

Bode - há outo anos no meio da sala.

Bode – há oito anos no meio da sala.

Em seu emocionante Conto de natal o blog BeyondBrics sugere que Dilma, nossa rena presidente, seja mandada de volta para os anos 70.

O blog foi muito atento. É para lá mesmo que ela parece estar indo (e nos levando junto).

As taxas de juros negativas do BNDES, o aumento das barreiras alfandegárias, o favorecimento a grupos de industriais, a aceleração da inflação, a pouca atenção à educação básica (responsável pela produtividade do trabalho) são marcas do Governo Geisel.

O resultado dessas coisas – os economistas não cansam de lembrar – foi a década perdida, entre os anos 80 e 90.

As discussões sobre o trem bala de Dilma me lembram sempre do trecho abaixo, do livro A ditadura encurralada, de Elio Gaspari. O trecho é sobre a Açominas, uma das muitas estatais que o governo Geisel criou porque não havia mais ninguém interessado em criar – a não ser alguns fornecedores, construtoras e teóricos da “substituição de importações”:

“Deveria ter custado 1,8 bilhão de dólares e entrado em funcionamento em 1980. Custou 7 bilhões e operou em 1986. Sete anos depois, falida, a siderúrgica foi privatizada por 598,5 milhões de dólares” (Gaspari, 2004, p.49).

Em vez de contratar e treinar professores, o governo quis produzir aço. O resultado do dinheiro mal usado é, ao mesmo tempo, investimento sem retorno e má formação profissional. Essas duas coisas juntas são parte da explicação para a década perdida: são queda de produtividade. Nossa produção por pessoa e por cruzeiro investido, passou a ser menor.

O gráfico abaixo é uma estimativa da produtividade da economia do país entre 1950 e 2000. Não precisa explicar muito, o gráfico fala por si.

A produtividade total dos fatores é, resumidamente, a geração de renda ajustada para os aumentos no estoque de capital e de mão de obra.

PTF

Fonte: Gomes, Pessoa e Veloso – 2003.

PS.: Não entendo bem por que os jornalistas daqui não conseguem produzir coisas como o conto de natal do blog do Financial Times. Às vezes tenho a impressão que isso é um dos efeitos do gasto reduzido em educação básica – que o Brasil, tradicionalmente, insiste em manter.

Uma nova Espanha?

dezembro 26, 2012

O Brasil de hoje parece a Espanha de 2005. A avaliação, feita por espanhóis – do alto dos seus mais de 25% de desemprego -, assusta um pouco. A comparação é a seguinte: o Brasil tem bolha imobiliária, consumo forte (movido a crédito  e começando a desacelerar), inadimplência em alta e investimentos mal alocados (mais de R$ 300 bilhões do Tesouro em financiamentos subsidiados do BNDES).

Essa, segundo eles, foi a receita da crise na Espanha.

A reversão de expectativas também atrapalha. Até o início de 2012, os estrangeiros conseguiam fazer projetos para investir no Brasil. Mas a mudança na política cambial fez muita gente engavetar os projetos. Passamos de câmbio flutuante com perspectiva de valorização – até o início de 2012  – para câmbio controlado com desvalorização forte durante o ano.

Projetos de investimento de longo prazo costumam depender muito de suas projeções de retorno nos primeiros anos. Quedas abruptas nessas projeções – como as que aconteceram por conta da desvalorização – simplesmente inviabilizam alguns projetos.

O governo tem tentado dar a impressão de que combate a espanholização da economia – e brande a queda dos juros reais para menos de 2% ao ano como um grande feito.

Mas a coisa não é tão simples. O governo não decidiu baixar os juros. Ele viu os juros caírem porque travou o câmbio. Com câmbio fixo, a taxa de juros passa a ser (quase automaticamente) igual à taxa de juros no exterior mais um prêmio de risco. Como os juros no exterior estão próximos de zero – e nosso prêmio de risco próximo de 200 pontos – nossos juros ficaram baixos.

O governo não admite que está controlando o câmbio, então não se sente obrigado a dizer porque travar o câmbio seria um boa ideia. Para os investidores, parece não ter sido.

Sobre os juros mais baixos, eles podem estar deixando a inflação mais solta. Certamente estão adiando o estouro da bolha imobiliária. O problema desse tipo de adiamento – pelo que se vê no histórico das bolhas especulativas das últimas décadas – é que, quanto mais  uma bolha demora a estourar, maior o estrago do estouro.

Nos EUA foram mais de 10 anos de alta forte dos imóveis. A Espanha também demorou a a explodir. Aqui, como nesses dois casos, governo, corretores de imóveis e donos de construtoras garantem (com a maior convicção): não há bolha imobiliária. Ok. Se estivermos mesmo parecidos com a Espanha em 2005, ainda podemos ter uns dois ou três anos antes da explosão. É esperar para ver.

Onde os gatos não têm vez..

Decadência: policiais prendem Hello Kitty no centro de Madri.

A Lei Seca na corda bamba

dezembro 21, 2012

O tom monocórdio – e eufórico – da imprensa nos últimos dias não deixa dúvidas: agora, sim, a Lei Seca pega. Afinal, as alterações no Código de Trânsito recém-sancionadas pela presidente Dilma dobram o valor da multa administrativa e permitem que “outras provas além do bafômetro, como vídeos e relatos de testemunhas, possam ser usadas para confirmar a embriaguez”, como afirma O Estado de S. Paulo.

Acontece que, até aí, não há novidade alguma. Para confirmar qualquer fato, e não só a “embriaguez”, qualquer meio de prova é aceito. Está lá, desde 1973, no Código de Processo Civil: “Todos os meios legais, bem como os moralmente legítimos, ainda que não especificados neste Código, são hábeis para provar a verdade dos fatos, em que se funda a ação ou a defesa”.

O problema nunca foi como provar, mas sim o que provar. Num exemplo singelo: uma foto pode provar que eu já estive ao lado do Aldir Blanc, mas não necessariamente que ele é meu amigo. E a lei dizer que a foto prova que ele é meu amigo não muda em nada a realidade.

Não por acaso, desde a Lei Seca original, de 2008, não existe obstáculo à aplicação da multa e de outras medidas administrativas aos motoristas alcoolizados, mesmo nos casos de recusa em soprar o bafômetro. Definia, então, o texto como infração administrativa:

Art. 165. Dirigir sob a influência de álcool ou de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência:

(…)

Art. 276. Qualquer concentração de álcool por litro de sangue sujeita o condutor às penalidades previstas no art. 165 deste Código.

Ora, se o motorista desce do carro com os olhos vermelhos, falando arrastado e trocando os pés, ou ele está com “qualquer concentração de álcool por litro de sangue” ou precisa urgentemente procurar um médico.

Mas então por que ninguém é condenado criminalmente por dirigir sob efeito de álcool?

Porque, talvez para não soar repetitivo, ainda lá em 2008, o legislador resolveu tipificar de outra maneira o crime correspondente à infração administrativa:

Art. 306. Conduzir veículo automotor, na via pública, estando com concentração de álcool por litro de sangue igual ou superior a 6 (seis) decigramas, ou sob a influência de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência:

Numa simples mudança de redação, trocou embriaguez por alcoolemia (quantidade de álcool no sangue) e, de lambuja, livrou todos os motoristas beberrões de condenações penais. A culpa, no entanto, ficou na conta do Judiciário. Entre outras razões, porque, em decisões abarrotadas de juridiquês, os magistrados nunca conseguiram dizer o óbvio: foto não é prova de amizade.

Mas agora, os jornais alertam, tudo mudou. O novo texto do CTB diz claramente:

Art. 306. Conduzir veículo automotor com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência:
(…)
§ 1o As condutas previstas no caput serão constatadas por:
I – concentração igual ou superior a 6 decigramas de álcool por litro de sangue ou igual ou superior a 0,3 miligrama de álcool por litro de ar alveolar; ou
II – sinais que indiquem, na forma disciplinada pelo Contran, alteração da capacidade psicomotora.

A técnica legislativa exuberante quase dispensa comentários. Num tipo misto – que trata de duas ações – especificou-se como constatar apenas a primeira: conduzir veículo automotor com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de álcool. E, ainda assim, voltando a embaralhar alcoolemia (I) e embriaguez (II). Não é preciso ter a imaginação muito fértil para antever os novos questionamentos.

Se a conduta típica é simplesmente dirigir embriagado por que a especificação de índice de alcoolemia? Se não é, como prová-la, a conduta, apenas com “sinais que indiquem alteração da capacidade psicomotora”?

Por que não dizer apenas “dirigir sob influência de álcool” e ponto? Por que mais uma vez derrubaram, aos 45 do segundo tempo, a tolerância zero?

Dança na corda bamba
De sombrinha
E em cada passo
Dessa linha
Pode se machucar…

País frágil?

dezembro 17, 2012

Imprevisível?O trecho abaixo é uma tradução de Antifragile, Things That Gain From Disorder, de Nassim Nicolas Taleb.

Taleb é um analista de risco/escritor/filósofo que virou uma espécie de unanimidade no mercado financeiro. No mercado americano, em especial, os analistas o leem, gostam, mas não fazem o que ele fala: preferem ser socorridos pelo governo depois.

Lendo o parágrafo abaixo, pensei muito no governo brasileiro – e nas projeções de crescimento do ministério da Fazenda.

“De um modo geral você não consegue fazer previsões, mas você pode prever que aqueles que confiam em previsões estão assumindo mais riscos, vão ter algum problema, talvez até quebrar. Por quê? Alguém que faz previsões vai ser frágil à erros de previsão. Um piloto superconfiante vai eventualmente derrubar o avião. E previsões numéricas levam as pessoas as assumirem mais riscos.” (p.150)

Decadência sincera

dezembro 16, 2012

Governos populistas, cedo ou tarde, começam a entregar resultados ruins. Faz parte do processo. Se não fossem ruins no longo prazo, não haveria porque criticar as fanfarras e políticas imediatistas que adotam.

Mas um dos sinais mais assustadores de crise à frente é a sinceridade populista. É quando o governante começa a acreditar na própria propaganda.

Isso não é difícil, nem pouco comum. Os governantes vivem em um mundo à parte, embora, em muitos casos, andem pelos mesmos lugares que a gente.

Vou dar um exemplo. Nos anos 90, época em que a Telerj ainda era a única empresa com serviços de telefonia celular, o então presidente Fernando Henrique agendou uma visita à fazenda do então dono da Petróleo Ipiranga, em Itaipava.

A Telerj, que não planejava instalar antenas de celular na área por pelo menos três anos, mudou sua agenda e instalou uma antena provisória, feita com andaimes – e depois a substituiu por uma permanente.

Não me lembro mais por quê, mas a visita de FHC foi cancelada. Ficou só a antena de celular.

Na época, não pude deixar de pensar que, no país do presidente, havia celular em toda parte, no meu não. Certamente ele via as coisas com mais otimismo do que eu.

Ok. Agora voltando aos insinceros e aos populistas: José Dirceu, o líder condenado da quadrilha do mensalão, escreve um blog. Muitos de seus comentários são reproduzidos no Blog de Ricardo Noblat, colunista do Globo. Já li alguns. A falta de sinceridade é tão explícita que dá para ter certeza de que – embora escreva para um público de fiéis fanáticos ideológicos – ele não acredita em uma palavra do que escreve.

Tudo bem, a coisa é tão explícita que beira o curioso. Na prática, Dirceu me assusta menos do que sua sucessora na Casa Civil, Dilma Roussef. Dilma, diferente dele, parece acreditar no que diz sobre a política econômica.

Com a inflação acelerando e a renda per capta estagnada (se o país crescer 1%, como os analistas projetam para este ano, a renda per capta vai ficar igual à de 2011), ela aparece na televisão para elogiar a gestão Mantega e dizer que temos reservas de dólares no exterior (US$378 bilhões, que custam caro para manter), que temos uma relação dívida/PIB baixa e que confia na previsão de seu ministro de que o crescimento da economia vai se acelerar no próximo trimestre.

Só faltou dizer que este é o melhor dos mundos possíveis.

Ela pode até dizer isso para a patuléia (como diz outro colunista do Globo), tudo bem. O que me assustou foi o tom sincero (irritado mas, ao mesmo tempo, sincero) da declaração. A impressão que fica é que ela realmente não sabe o que está fazendo, que está cercada de ministros e assessores, que eles dizem que está tudo bem – e ela acredita neles.

Em Paris: Pensador e sombras no Portal do Inferno.

Em Paris: Pensador e sombras no Portal do Inferno.

A resposta do governo à queda do investimento e ao baixo crescimento da economia foi dizer que estava tudo bem e apresentar mais do mesmo: mais R$ 100 bi do Tesouro Nacional serão liberados para o BNDES, mais mudanças de regras setoriais serão feitas (agora no setor de gás natural) e já houve mais mudanças súbitas na política cambial.

O Banco Central, sem comunicar nada oficialmente, passou a puxar câmbio para baixo. Seu presidente – em entrevista, não em ata ou comunicado oficial – deu a entender que o BC estava segurando o câmbio para conter a inflação. Mas o câmbio não era flutuante? A inflação não era contida pelos juros?

Essa política de ir fazendo sem explicar dá uma liberdade enorme ao Banco Central. Mas seu efeito colateral é aumentar ainda mais a – já grande – imprevisibilidade da economia. Hoje não sabemos nem qual vai ser a política cambial do mês que vem. O governo continua jurando que o câmbio é flutuante, mas isso, pelo menos, temos certeza que não é.

Anunciar mudanças no setor de gás natural – como Mantega e o ministro condenado pelo comitê de ética do governo Fernando Pimentel fizeram em entrevistas em Paris – deixa claro que ninguém está a salvo da mão grande do governo federal: se o seu setor começar a dar lucro, dona Dilma vai mudar as regras.

Resumindo: hoje, quem investe aqui sabe que tem grandes riscos de surpresas negativas e que se – por muita sorte – tiver uma surpresa positiva (valorização do seu produto, descoberta de grandes reservas de petróleo etc.), o governo vai mudar as regras para encampar o lucro.

Depois não entendem porque ninguém investe.

Por fim, outra reação curiosa ao baixo crescimento da economia foi a de negação explícita. Um ex-diretor do BC (investigado pela quebra – com indícios de fraude e vazamentos de dados – de dois bancos) publicou artigos dizendo que não é nada disso, que a economia está crescendo apesar do que dizem os números. Alguns analistas estimam que ele está querendo cair nas boas graças do governo depois de 14 anos no ostracismo (desde que deixou o BC).

Um analista da consultoria Luciano Coutinho e Associados (LCA), publicou um artigo concordando com o ex-diretor investigado do BC: dizendo que está tudo bem, que dá para continuar com as políticas atuais. Depois, um subordinado direto de Luciano Coutinho (um diretor do BNDES) escreveu outro artigo dizendo para as pessoas não prestarem muita atenção nos dados do IBGE, para usarem o índice antecedente do Banco Central (IBC-Br).

O engraçado é que o IBC- Br foi criado para tentar antecipar os dados do IBGE. Ele é feito com muito menos informação (é divulgado com mais antecedência) e não desagrega informações como investimento e crescimento por setor. Ele é só uma tentativa mais rápida e simplista de antecipar o PIB. Parece que o diretor do BNDES não se informou bem sobre isso.

Em suma: se a crise de 2008 serviu de desculpa para abrirem o baú das políticas à Ernesto Geisel, o efeito dessas políticas não está servindo para fazer o governo parar com elas. O governo reage com negação e mais do mesmo.

Pelo jeito, a coisa ainda vai ter que piorar muito até pararem de negar os fatos e mudarem de política (e de ministro da Fazenda).

Pensador de pedra sabão.

Pensador de pedra sabão.

Sem mérito

dezembro 7, 2012

Acabo de ver na TV a presidente Dilma Roussef dizer que não vai levar em conta a “sugestão” da revista The Economist para que demita seu mal-sucedido ministro da Fazenda.

O tom irritado da presidente não é uma surpresa:  é sempre assim que ela fala com a imprensa. O curioso é a linha de argumentação: “não vou levar em conta o que diz uma revista ESTRANGEIRA [enfase dela] para tomar essa decisão”.

Por um segundo, meu lado otimista imaginou que Dilma fosse demitir o ministro sem levar em conta a reportagem: demitir porque ele está afundando a economia, independentemente do que a Economist diga. Mas logo Dilma disparou: “A economia está crescendo e vai crescer mais ainda no próximo trimestre”.

Vai? Como é que ela sabe? Ela confia na projeção de seu ministro da Fazenda (crescimento de 0,8% para o quarto trimestre)? Mas o trimestre ainda nem acabou. Os dados do segundo mês do trimestre ainda não estão disponíveis… E o ministro tem um histórico terrível no campo das previsões.

Se valem os argumentos da Economist, os investidores vão continuar parados, esperando pelos próximos surtos de mudança de regras do ministro. Para tentar se manter no cargo, ele cometeu uma série de distribuições de dinheiro público esta semana (anunciou mais R$ 100 bilhões para empresas amigas, via BNDES, ontem), mudou de novo a regra do Imposto sobre Operações Financeiras e mudou a tributação das construtoras. O imposto das construtoras agora é em cascata. Antes ele era sobre a folha de pagamento, agora é sobre o faturamento: em cascata.

Dá medo que a presidente queira manter o ministro no cargo só de picuinha, só para dizer que nenhuma revista inglesa derruba seu ministro. Da medo a ideia de que ela possa nos condenar à estagflação para defender o emprego (muito bem remunerado) de um economista incompetente.

A economia está crescendo menos que o previsto e a inflação está subindo mais do que o previsto (em novembro, o IPCA foi de 0,6%). Mais do que isso: os indicadores não são só piores do que o previsto: eles são ruins mesmo.

A inflação não é só alta: nos últimos meses ela foi cada vez mais alta. E o governo reage cortando juros e desvalorizando a moeda (o que aumenta a inflação). O crescimento é baixo (e o governo reage mudando as regras, o que desestimula o investimento e desacelera ainda mais a economia).

A estagflação vem aí – e vai complicar muito o trabalho da Fazenda. Coitado do sucessor do ministro. Porque ele vai cair. A única dúvida é quando: quanto tempo Dilma vai levar para se convencer de que Mantega era um ministro tampão para tempos estáveis. Quando ela vai se convencer de que precisa de um técnico (e não de um lobista) no ministério para tentar mudar o rumo da economia (que aponta para deterioração no futuro próximo)?

Apertem os cintos senhores, porque, como disse a Economist, com a incerteza criada por Mantega e suas mudanças de regras, a economia vai sacudir ainda mais se ele não deixar o cargo.

Sorriso amarelo...

Mantega: sorriso amarelo…

P.S.: O velho Roberto Campos – que viu de perto várias políticas econômicas delirantes – tinha uma frase de efeito para dar esperança nos casos em que o bom senso custa a prevalecer: “Se o país não puder ser salvo pelo silogismo”, dizia, “talvez seja salvo pela piada”.

Pode ser um pouco wishful thinking, mas acho que vamos ter um novo ministro na Fazenda porque o antigo virou piada.

Futurologia aplicada

dezembro 4, 2012

Governo, consultorias e bancos começaram o ano de 2011 prevendo um crescimento entre  4,0% e 4,5% para a economia. Ela fechou o ano em 2,7%. Em 2012 foi a mesma coisa: previsão de crescimento de 4,0% (e talvez não chegue a 1%).

Agora – quase surpreendentemente – estão prevendo os tradicionais 4,0% para 2013. Não vai ser nenhuma supresa se a economia crescer menos do que o previsto.

Mas por que 4%?

Bom, há alguns anos, um acadêmico estimou que a economia brasileira tinha potencial para crescer nesse ritmo sem acelerar a inflação. Ele estimou o que os economistas chamam – com alguma pompa – de Crescimeno Potencial do Brasil.

Sem melhores dados para falar sobre o futuro um ano a frente, quando têm que fazer uma projeção, os analistas de consultoria chutam o crescimento potencial.

Até o penúltimo dia do mês passado, esses mesmos analistas estavam estimando um crescimento de 1,2% para a economia do país no terceiro trimestre de 2012. Nesse caso, nem futurologia era: o terceiro trimestre já tinha acabado.

Bom, eles errarm. Todos erraram. A economia cresceu metade disso.

Mas como todos podem errar juntos e por tanto?

Essa é fácil: eles seguiram o Banco Central. Umas duas semanas antes da divulgação do PIB, o BC divulgou o IBC-Br, sua prévia do PIB. Se não consegue mais coordenar as expectativas de inflação, o BC, pelo menos, coordena as expectativas dos consultores para o crescimento da economia.

Resumindo: sem bons modelos para projetar crescimento, a maior parte dos bancos e consultorias foi atrás da projeção do BC – que também não era muito boa.

O assustador é pensar que – se os analistas erram, por muito, a projeção para o trimestre passado – a qualidade de suas estimativas para o futuro mais distante não pode ser das maiores.

Ok. Ninguém conhece o futuro. Mas confiar demais em quem diz que conhece pode ser trágico às vezes.

O efeito do erro pode ser especialmente grande se ele for em algo que atinge imediatamente a vida das pessoas, como os preços.

As projeções de bancos e consultorias para a inflação no ano que vem estão em torno de 5,5%. Mas o investimento está baixo, o consumo está crescendo mais do que a geração de renda há vários trimestres – e é impossível barganhar na hora de pagar coisas como mensalidade de escola e plano de saúde.

Se modelos econométricos são ruins (principalmente em época de mudança de política cambial e monetária), o que resta, para tentar ter uma vaga idéia de como será o futuro, é olhar para os grandes agregados e lembrar dos pricípios gerais de economia.

Hoje, eles indicam que há poucos incentivos para produzir (daí a queda do investimento nos últimos meses) e há um nível de renda alto, comparado ao histórico do país. Há mais crédito ao consumidor que em qualquer outra época (ele está cresceno mais de vagar, mas não parou de crescer). Resumindo, os ingredientes para o aumento da inflação estão aí. Vale a pena se preparar.

Se preparar para o pior cenário (que nesse caso é bastante provável) é melhor do que ficar tentando fazer uma projeção precisa e apostar nela. Afinal, não dá para fazer uma projeção precisa.

Dragão asteca da inflação: "Esperando sorridente".

Dragão asteca da inflação: “Esperando sorridente”.