De tempos em tempos, aparece uma matéria sobre o dano ambiental causado pelo descarte de pilhas, baterias, celulares e eletrônicos em geral. O tom é sempre de extrema preocupação com o futuro do planeta e com o bem-estar da humanidade. Tomemos como exemplo a abertura de uma matéria do Jornal Nacional de hoje:

Um problema causado pelos avanços da tecnologia: no mundo todo, 99% dos aparelhos eletrônicos, dos celulares, baterias e pilhas vão parar no lixo. Não é só desperdício, é um perigo.

Um perigo. E a solução, prossegue a matéria, é intensificar a coleta desses materiais para reciclagem. “A resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) dá um prazo de dois anos para que as lojas tenham os coletores”, informa, deixando uma esperança no ar. “A Associação dos Fabricantes de Eletroeletrônicos declarou que tem participado ativamente de discussões e projetos sobre resíduos sólidos, pilhas e baterias”, completa, numa demonstração de que as empresas também serão cobradas.

Mas há uma ponta solta: o sujeito que troca de celular todo ano. Esse cidadão, a despeito de só saber usar uma função de seus sempre ultramodernos aparelhos (o telefone), desfaz-se, de 12 em 12 meses, de um monte de produtos químicos e plásticos que, cedo ou tarde, vão parar num aterro sanitário perto de você. Pior: ele tem um amigo que, de dois em dois anos, atualiza o computador, para poder mandar emails e digitar documentos no Word com mais desenvoltura.

São dois personagens que, em seu papel de movimentar a economia, fortalecer a indústria, gerar empregos, não cansam de ser destaque na imprensa escrita, falada e televisionada. É sua outra faceta que nunca se revela. Como poluidores, ainda que involuntários, eles simplesmente não existem.

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Grandes expectativas

outubro 23, 2008

Torre de doces

Torre de doces

As continuações de filmes, quase sempre, decepcionam. Não é que sejam ruins. O problema é que vamos assisti-las com uma expectativa muito alta. O filme 1 foi bom (tanto que fizeram uma seqüência), esperamos que o 2 seja tão bom quanto.

 

Nos anos 70 um grupo de economistas concluiu que as pessoas não formam suas expectativas apenas olhando para trás, para o histórico de um diretor de cinema ou para o comportamento de uma empresa. Não. Segundo eles, as pessoas usam todas as informações disponíveis para formar suas expectativas.

 

Essa tese – batizada de teoria das expectativas racionais – tem várias implicações. Uma delas é que o efeito de informações novas deve ser imediato. Quando chega a notícia de problemas numa plataforma de petróleo da Petrobrás, suas ações caem imediatamente, se ajustam na hora às informações novas.

 

Mas os acadêmicos de Chicago – que defendem a teoria – nunca conseguiram provar que as expectativas são realmente feitas desse jeito.

 

Na dúvida, ou por segurança, a equação que projeta expectativas no modelo de metas de inflação do Banco Central faz uma média ponderada entre expectativas racionais e expectativas adaptativas (que levam em conta só o histórico).

 

A parte curiosa da história é que o mercado financeiro – com investidores sofisticados, abundância de análises e informação em tempo real – deveria ser o mercado com expectativas mais próximas das do modelo de Chicago.

 

Mas não é. Ou, pelo menos, não foi nos últimos meses. Os investidores se acostumaram com os ventos bons dos últimos cinco ou seis anos e passaram a acreditar que esse passado recente iria se repetir no futuro próximo. Completamente adaptativos.

 

Eles ignoraram o desequilíbrio da economia dos Estados Unidos e os sinais da bolha imobiliária para repetir o mantra de que as ações refletiam bem as perspectivas de lucro futuro das empresas. Elas estavam no preço certo. Qualquer queda seria passageira.

 

Mas há dois problemas nesse raciocínio. E os dois têm a ver com expectativas adaptativas.

 

O primeiro é achar que o mundo vai continuar crescendo, as empresas vão vender mais – como venderam nos últimos anos – e as projeções de lucros futuros dessas empresas (que definem o valor das ações) estão certas.

 

O segundo é um pouco mais sofisticado. Tem a ver com risco. As pessoas investem em coisas mais arriscadas se a perspectiva de ganho for maior. Por exemplo: a renda fixa oscila menos, é mais estável, então não dá um retorno tão alto.

 

Para entrar em um negócio instável, o investidor vai querer uma rentabilidade maior. Quer dizer, só vai comprar uma ação que oscila muito se imaginar que ela está realmente barata, que o ganho por comprá-la será compatível com o risco.

 

Os investidores acharam que a oscilação média da bolsa ia se manter, no futuro, igual à do passado. Agora, com os preços subindo 8% num dia em caindo 10% no outro, muitos começam a achar que o risco é alto demais para o benefício esperado – e pulam fora.

 

Eles foram adaptativos na hora de analisar a volatilidade do mercado de ações e – encontrando alguns de mau humor ou realmente tristes – dá pra ver que eram adaptativos também quando olhavam para seu patrimônio e achavam que ele cresceria no futuro como cresceu no passado.

 

Perder dinheiro é sempre desagradável. Mas, se não servir para mais nada (além de acabar com a bolha e rebalancear a economia dos EUA) essa crise pelo menos mostrará que as expectativas das pessoas são feitas – com freqüência – olhando pelo retrovisor, e que a imagem rósea no espelhinho pode nos impedir de ver o muro em frente. 

Nossa própria bolha

outubro 19, 2008

Enquanto o mundo ainda curte os efeitos da bolha imobiliária americana, a imprensa brasileira, por razões insondáveis, continua cega para os absurdos do mercado nacional. Não há melhor exemplo que a própria capital federal. Sem ignorar fatores absolutamente mercadológicos, como os basilares oferta e demanda, Brasília, no que diz respeito à venda e ao aluguel de imóveis, tem características que beiram o surreal.

Vejam o caso da relação entre valor de venda e aluguel. Um imóvel com preço de mercado de R$ 250 mil pode ser alugado por, no máximo, R$ 1.200. O que isso significa? Que se em vez de desembolsar a quantia o cidadão optar pelo aluguel, mantendo os R$ 250 mil num fundo moderado com rendimento de 1% (R$ 2.500), acabará o primeiro mês com: a) aluguel pago (R$ 1.200); b) os mesmos R$ 250 mil no fundo; c) um excedente de R$ 1.300 para ser acrescentado às economias ou gasto livremente.

A opção pelo aluguel faz mais sentido, do ponto de vista estritamente financeiro, em muitas cidades, mas em nenhuma os números são tão contundentes. Não obstante, a imprensa brasiliense (e a nacional que cobre a capital) ignora a realidade, deixando o cidadão se iludir com argumentos tão populares quanto falsos. Por exemplo:

Ao comprar um imóvel, terei um bem, que me dará segurança.
O que proporciona mais segurança? Um bem que, num momento de necessidade, terá de ser anunciado, negociado e vendido, com todos os trâmites burocráticos e a natural demora, ou o valor correspondente no banco, permanentemente disponível?

O imóvel pode se tornar uma fonte de renda.
Quem repete esse “argumento” costuma se esquecer de que, para alugar um imóvel, o cidadão precisará de outro para morar. Portanto, sim, disporá de uma fonte de renda, mas terá outra fonte de despesa (ou deverá ser proprietário de dois imóveis). Outro esquecimento providencial é que o dinheiro investido num fundo, como demonstrado acima, também será uma fonte de renda.

Em Brasília, o imóvel é um bom investimento, porque se valoriza muito.
Aqui a cegueira é múltipla. O canto da sereia é a valorização aparentemente infindável dos imóveis no peculiar mercado brasiliense. Omitem-se, no entanto, pelo menos dois detalhes importantes. Para começar, uma das razões mais fortes da valorização é a própria crença nela, o que representa um ciclo com fim certo, embora não determinável. Para terminar, a valorização passada é normalmente “informada” em percentuais brutos, sem o desconto da inflação. Se o indivíduo adquire um bem por 10 e, dois anos depois, este bem vale 20, não houve uma valorização de 100%, mas sim de 100% menos a inflação do período.

Sendo dono do imóvel, economizo o aluguel.
Os cálculos simples, acima, mostram claramente que, com a quantia necessária para se comprar o imóvel, é possível pagar o aluguel e manter (e até aumentar) a “poupança”. Ao se escolher a compra do imóvel, por um lado o indivíduo não paga o aluguel, porém, pelo outro, não obtém qualquer rendimento. A “economia”, na verdade, sai caro.

O que isso tudo quer dizer? Que nunca vale a pena comprar um imóvel? Claro que não. Vale, por exemplo, quando o sujeito acha que a sensação de ser dono, poder fazer obras livremente e saber que não precisará se mudar pela vontade de um terceiro, compensam o custo adicional. Trata-se, por óbvio, de um valor subjetivo, que não cabe tentar calcular. Vale, ainda, quando o imóvel se valoriza muito mais do que os outros investimentos acessíveis – descontado o custo de propriedade – o que não é tão freqüente quanto se pensa.

E o mercado? Quer dizer que, em Brasília, só comprar é uma má opção? Negativo novamente. Brasília é um mercado extravagante por várias razões: tem a maior renda per capita do país; tem limites rígidos à construção nas zonas centrais; tem um mercado de concorrência restrita e, segundo observadores, controlado por um “cartel imobiliário”; tem um vice-governador que é dono da maior construtora local. Assim, é até natural que os preços subam descontroladamente, criando um cenário artificial. O que parece evidente, apenas, é que as distorções são maiores no mercado de compra e venda do que no de aluguel. Afinal, o aluguel representa um custo fixo mensal, que se pode comparar com mais precisão – e razoabilidade – ao orçamento e a outros gastos. A compra, por outro lado, pela grandeza dos valores envolvidos, exige maior cuidado na análise, que acaba contaminada pela desinformação generalizada.

A imprensa poderia ajudar a mudar esse quadro. Mas talvez seja demais pedir que cumpra seu papel de informar.

Compre calma e felicidade

outubro 8, 2008

Consumidor mesopotâmio satisfeito
Consumidor mesopotâmio satisfeito

 

Comprar traz felicidade, pelo menos para 21% das mulheres brasileiras acima de 18 anos. A receita funciona também para cerca de 7% dos homens. Os números são da pesquisa O consumidor do século XXI, do IBOPE, que entrevistou 3.400 pessoas em 11 regiões metropolitanas. Os seus principais resultados estão no site do Globo. Do total de entrevistados, 14% disseram que vão às compras para se sentirem mais calmos e felizes.

 

Se for isso mesmo, a crise econômica que está começando, além de deixar as pessoas mais pobres, vai deixar algumas menos calmas – e menos felizes.  

A Grande depressão, imagino, não foi batizada assim só por ser uma grande inflexão para baixo nos gráficos de produção….

 

Em meio ao vexame das pesquisas eleitorais e ao clima apocalíptico na economia mundial, um professor de literatura mereceu uma página inteira no Globo desta segunda. Nas palavras do jornal, o mestre foi “demitido no dia 11 de setembro da Escola Parque, porque teria adotado livros considerados inadequados pelos pais de alguns alunos e já teria escrito poesias eróticas”.

O tema daria ensejo a um caloroso debate sobre censura e liberdade de expressão, não fossem outros aspectos, como a raleza da abordagem, muito mais proeminentes. [A demissão foi revelada na Folha de S. Paulo de domingo.]

Do título aos depoimentos, passando pelas omissões, o texto pouco lembra uma matéria de verdade, preferindo a conveniência de outro formato, o libelo. É assim que a imprensa, com freqüência, caminha hoje: provando, ou tentando provar, teses. A escola, ao demitir o professor, foi censora, obscurantista, arbitrária. Agora vamos mostrar isso ao leitor.

No terceiro parágrafo, um aviso, em tom quase orgástico: “A Escola Parque informou que não comentaria o caso”. Que sorte. Porém, contudo, entretanto, todavia, não se sabe, até agora, se os “pais de alguns alunos”, aqueles lá do primeiro parágrafo, também informaram que não comentariam o caso. Pois o que se lê depois da advertência é samba de uma nota só. Paulada na escola e nos pais conservadores.

“Um grupo de pais teria apresentado um dossiê sobre o caso e pressionado a escola, com o argumento de que o professor, autor de poesias eróticas, não poderia dar aulas a jovens de 14 a 15 anos“, informa o Globo. Para mostrar a falta de cabimento das medidas tomadas pela escola, sem deixar dúvidas, o que melhor do que ouvir os próprios pais e alunos? Que fale então a aposentada Luciane Félix, mãe da aluna Marcela, de 17 anos. Ou a própria Marcele, do 3º ano. Ou outra aluna do 3º ano, Maria Eduarda Barreiro, de 17 anos. Os alunos de 14 a 15 anos, obviamente, deviam estar no recreio. E seus pais, no trabalho.

Uma matéria realmente plural não poderia deixar de dar voz a autoridades no assunto (qual mesmo?). “O livre-arbítrio e o acesso à informação são básicos para a cidadania”, dispara Antonio Carlos Secchin, imortal, escritor e professor de literatura. Talvez, só talvez, fosse o caso de juntar à filosofia o direito. O Código Penal, quase tão imortal quanto o imortal, ainda considera que, nos crimes contra os costumes, há “presunção de violência se a vítima não é maior de catorze anos”. O Código Civil, ele mesmo um menino de seis anos, considera “absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os menores de dezesseis anos”. E o Estatuto da Criança e do Adolescente, de maioridade recém-completada, professa que “é direito dos pais ou responsáveis ter ciência do processo pedagógico, bem como participar da definição das propostas educacionais”.

Num de seus poemas mais controvertidos, o professor desempregado conta que:

a alice no país das baboseiras
é uma garota esperta

prefere foder com a coleguinha
usar celular
batom

cortar as cabeças
dos mendigos

Será que ela lê jornal?

O passeio do bêbado

outubro 5, 2008

 

 

De férias, tentando esquecer um pouco os números do trabalho, esbarrei – graças às recomendações da Amazon – em um livro sobre aleatoriedade, caos, essas coisas…

 

O livro, The drunkard’s walk – how randomness rules our lives, tem lá uns momentos meio auto-ajuda, mas é também um dos melhores textos sobre estatística que já li (não foram muitos, admito).

 

Os melhores trechos são os sobre probabilidades. Uma das historinhas do livro é sobre uma coluna de jornal nos EUA que tira todo tipo de dúvida dos leitores. E um deles escreveu perguntando o seguinte:

 

“Em um programa de auditório, uma pessoa está diante de três portas. Atrás de uma delas há um carro, atrás das outras duas, não. Ela escolhe a porta 1. O apresentador do programa – que sabe atrás de que porta está o carro – abre a porta 2 e mostra que o carro não está lá. Ele então pergunta se o participante quer mesmo abrir a porta 1 ou se prefere abrir a porta 3. O que ele deve escolher?”

 

 Bom, ele deve escolher a porta 3. O curioso é que dezenas de supostos especialistas, acadêmicos etc. escreveram reclamando que a resposta estava errada, e que tanto fazia escolher a porta 1 ou a 3, que a probabilidade de acertar era a mesma. Não é.

 

A probabilidade de o carro estar atrás da porta 3 é duas vezes maior do que a de estar atrás da porta 1.

 

Eu sei. Não é lá muito intuitivo. Mas faz todo sentido se você pensar que, no começo do programa, o carro tem 1/3 de chances de estar atrás de cada porta. A chance de a porta 1 ser a certa, então, é de 1/3. Há 2/3 de chance de a certa ser a 2 ou a 3. O apresentador sabe qual é a porta certa e não vai abrir a certa e estragar o jogo. Ele vai abrir a errada, aquela, entre a 2 e a 3 que estiver errada (se é que não são as duas as erradas). A porta que sobrar então terá 2/3 de chances de ser a certa. Por isso, é um chute melhor que a porta 1.

 

Meio errado

outubro 4, 2008

Os velhos teóricos da comunicação estavam certos. Alguns tipos de informação precisam de meios sob medida para chegar ao público.

Comprovei isso agora há pouco, quando recebi o áudio de uma palestra que tive que fazer esta semana. Não sabia que tinham gravado. Mas minha maior surpresa foi ao acordar, quando percebi que tinha dormido ouvindo a gravação. E dormi no começo dela.

Não é que a palestra seja chata. Não. Na platéia, havia até uma ou outra pessoa com a cara de quem prestava atenção – caras até melhores que a do vaso ao lado.

Mas ouvir a gravação, sem os power points para acompanhar, sem um café antes… Bom, se algum dia fizerem um vídeo de uma dessas apresentações, faço a comparação: vejo se com imagem funciona melhor. Por hora, defendo que essas palestras só funcionam ao vivo, olhando para a cara do público – ou com outro palestrante.