Não adiantaram nada os artigos de jornal, os editoriais e os protestos de economistas e especialistas em finanças públicas. O Tesouro Nacional vai entregar mais R$ 30 bilhões a uma empresa amiga via BNDES. O empréstimo a taxas subsidiadas, além de gerar prejuízo ao Tesouro por muitos anos, vai aumentar imediatamente a dívida pública. Afinal, como não tem dinheiro nem para fechar as próprias contas, para emprestar os R$ 30 bi, o Tesouro tem que pegar emprestado no mercado financeiro.

Depois de emprestar R$ 180 bi, os R$ 30 bi dessa nova leva podem nem parecer tanta coisa. Mas não se iludam: R$ 30 bi aumentariam muito salário de professor mal-pago, treinariam muita gente sem preparo e ajudariam centenas de milhares pessoas a conseguir atendimento médico na rede pública. R$ 30 bi é um daqueles valores que podem ser expressos até como percentual do PIB (que está um pouco acima de R$ 3 trilhões).

O governo vai, mais uma vez, esconder a conta de quanto vai gastar com os juros subsidiados. E o fato estranho de que a dívida pública continua sendo inflada – a menos de uma semana das eleições – não vai provocar nenhum discurso revoltado no Congresso, nenhuma intervenção do Tribunal de Contas da União, enfim, o ministro mantega vai continuar nos afundando em dívidas até o apagar das luzes da sua administração no Ministério da Fazenda.

A desculpa de que os empréstimos de pai para filho ao BNDES eram para combater a crise econômica, pelo menos, não tem mais como se sustentar. A economia está mais do que aquecida, com projeção de crescimento acima de 7,5% para este ano (segundo o boletim do Banco Central). A única justificativa para emprestar agora é… Bom, não há justificativa. Eles estão nos roubando abertamente mesmo.

Com o dinheiro do público: Robin Hood ao contrário.

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O triunfo dos lobistas?

setembro 20, 2010

Para que servem os economistas? Entre outras coisas, para não deixar os lobistas controlarem os debates sobre política econômica. Algém tem que lembrar, o tempo todo, que barreira alfandegária faz mal para a economia, que subsídio aos amigos do governo não é uma boa política e que baixar os juros na marra traz a inflação de volta.

As coisas ficam um pouco confusas quando se nomeiam lobistas formados em economia para comandar o ministério da Fazenda. Mas não é preciso ser muito esperto para encontrar as inconsistências no discurso do lobista – basta conhecer um pouco de teoria econômica.

Mas por que essa introdução tão longa? Porque estamos em uma daquelas épocas em que o futuro começa a depender – mais que o normal – de meia dúzia de disputas entre lobistas e economistas (e os lobistas têm mais amigos no governo e mais dinheiro para propaganda).

Os lobistas defendem – como sempre – que dinheiro público seja investido em negócios privados (ou de capital misto) e que o câmbio seja manipulado para favorecer as empresas que eles representam.

Pior: eles já estão conseguindo essas duas coisas – e em uma escala impressionante. A escala para eles é a das centenas de bilhões de reais.

É isso que o governo tem acumulado em dólares no exterior. Cada dolarzinho a mais lá fora provoca uma perda com os juros que o governo paga por pegar reais emprestados para comprar dólar. Cada dólar a mais lá fora gera um pagamento de R$0,1075 por ano, aqui.

Insatisfeito com a fortuna que o BC manda para fora, o ministério da Fazenda promete comprar ainda mais dólares para segurar o câmbio – emitindo mais dívida.

O dinheiro público em assuntos privados ganhou a escala das centenas de bilhões com a emissão de dívida pública para financiar empresas amigas através do BNDES (com taxas de juros subsidiadas). E vai continuar, na mesma ordem de grandeza, com a transferência de reservas de petróleo públicas para a Petrobrás.

As duas operações – com estímulos e subsídios públicos a investimentos de grandes empresas – lembram o malfadado governo Geisel.

Geisel – qualquer economista que não tenha emprego como lobista concorda – é o culpado pela década perdida que veio após seu governo. Ele encheu o governo de dívidas – e de investimentos com baixa rentabilidade. O resultado foi a pasmaceira econômica dos anos seguintes.

Não há nenhum bom motivo econômico para repetir a experiência. Os motivos para o que o governo fez nos últimos meses têm a ver com a influência de alguns grupos nas decisões políticas, têm a ver com lobby.

No começo do governo Lula, muitos economistas diziam que o mercado se encarregaria de vigiar os governantes: se cometessem muitos descalabros, o dinheiro começaria a deixar o país e teríamos uma das nossas tão conhecidas crises.

Mas com os juros perto de zero no resto do mundo e as economias mais ricas em marcha lenta, essa “vigilância do mercado” parou de funcionar: o governo aumenta a dívida, muda regras no meio do jogo e os investimentos externos continuam vindo para o Brasil. Para eles, no curto prazo, essa é mesmo a melhor opção. Resta saber quanto tempo vai durar esse curto prazo.

A definição da equipe econômica – no começo do próximo governo – vai ser uma boa oportunidade para ter idéia de quanto tempo a bonança vai durar.

Glauco: Lobby do/no Congresso.