Cara de madeira

junho 26, 2013

Chamada do site do Estado de S. Paulo:

‘Não vi ninguém na rua falando em descontrole da economia’, diz Mantega

Abaixo, o lead da matéria o link para o texto completo. Acho que não preciso comentar.

BRASÍLIA – O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou nesta quarta-feira, 26, que não viu reclamações nas ruas sobre controle da economia. “Não vi ninguém na rua falando de descontrole da economia. Posso ter perdido alguma coisa”, afirmou, durante audiência na Câmara.

Texto completo

Máscara de madeira africana - início do século XX, Museu Smithsonian.

Máscara de madeira africana – início do século XX, Museu Smithsonian.

Anúncios

A falta de entusiasmo com que a presidente Dilma Rousseff leu seu discurso para acalmar os manifestantes é um sinal de que nem ela acredita no que está ali.

Estou doente, em casa. Já vi dezenas de vezes os apresentadores de TV se contorcerem para tentar dar a impressão de que vai sair alguma coisa dos R$ 50 bilhões prometidos pela presidente para a área de transporte.

Já prometeram muito mais dinheiro do que isso para obras pós-enchente, para programas de construção da casas populares e afins. Todo ano, o Tesouro Nacional repassa mais do que isso para o BNDES emprestar a empresas amigas (sem grandes resultados).

O fato é que o governo não cedeu nada. Ninguém abriu mão de qualquer regalia. Prometeram uma discussão sobre reforma política, coisa que – se sair – vai demorar anos para funcionar.

Não, não é isso que vai acalmar os manifestantes.

Prometeram tentar transformar a corrupção em crime hediondo. Tá bom. E aí?

Há vários casos de corrupção conhecidos, documentados e apurados. Desses, o que mais me assombra é o do Farmácia Popular. O Tribunal de Contas da União identificou superfaturamento de até 2.000% (dois mil por cento) na compra de alguns remédios pelo programa. Dilma suspendeu o programa? Pelo contrário, o ampliou – e usou com peça de propaganda política.

Das promessas, então, ela mesma não espera nada.

Mas o que poderia ter feito?

O básico: poderia tentar entender por que as pessoas estão nas ruas e tentar resolver o problema.

E por que elas estão lá?

A resposta é o clichê do único marqueteiro que não achava que tudo é questão de imagem: elas estão lá por causa da economia. Diretamente por causa da economia.

As expectativas criadas em 2010 – com o governo injetando todo o dinheiro que podia no mercado para eleger Dilma – não vão se concretizar. E, se o governo podia ter tentado segurar a inflação logo que Dilma assumiu, abriu mão de fazer isso, baixou juros e deixou os preços subirem.

Agora, os preços em alta empobrecem dia-a-dia os consumidores e as perspectivas de aumento da renda pioram mais ou menos no mesmo ritmo (as passagens de ônibus foram só mais um aumento de preços).

De novo: o que Dilma pode fazer? Pode fazer o que os oráculos ingleses da Economist lhe disseram para fazer seis meses atrás: mudar a política econômica (e o ministro da Fazenda). Se continuar com essa política, disseram os oráculos, não vai se reeleger.

Isso, mais uma vez, me convence de que Dilma não é uma pessoa maquiavélica. Se fosse, teria chutado Mantega e melhorado as perspectivas econômicas para os brasileiros. Ela parece acreditar na política econômica desastrosa que está implementando.

Mas, se continuar assim, a inflação vai continuar empobrecendo os brasileiros e suas esperanças de ter uma renda melhor vão continuar sendo destruídas.

Se continuar assim, a insatisfação que levou o povo para as ruas não vai passar.

Eu sei, é duro cortar gasto público no meio da crise. Mas ela podia compensar isso nos dando alguns aperitivos, como as cabeças de três ou quatro ministros.

Manchetes de hoje nos principais jornais do país:

O Globo: Dilma propõe pacto político e chama líderes de protestos

Folha de SP: Dilma promete ouvir ‘voz das ruas’ e coibir ‘arruaça’

Estado de SP: Dilma diz que receberá líderes, mas não ‘transigirá’ com violência

Correio Braziliense: Dilma repudia arruaça e pede diálogo nacional

Zero Hora: Dilma fala ao País “Não vamos transigir com a violência e a arruaça”

Jornal do Commercio: “Não vou transigir com a arruaça”

Alguém pode me indicar um jornal que não seja só reprodução de press release da assessoria de imprensa do Palácio do Planalto?

PS. Me enviaram o link abaixo, a melhor coisa que ouvi até agora sobre os protestos.

Band News FM – Boechat

PS2: As coisas mais isentas que li sobre os protestos saíram em jornais estrangeiros, como essa charge aí embaixo e o editorial neste link. Para quem lê inglês, vale a pena, mesmo que seja só para ter ideia do contraste com a imprensa nacional.

Deu no New York Times.

Deu no New York Times.

PS3: Este link também está excelente. Por que isso não sai na capa dos jornais daqui?

Há anos o PT tenta emplacar uma lei que passe o controle editorial das emissoras de TV e jornais para uma junta de “representantes da sociedade”. Mas isso não emplaca no Brasil.  O governo então tomou um atalho. Em vez de tomar o controle com projetos de lei, o comprou.

As manchetes panos quentes do tipo “Dilma abre diálogo com a sociedade” dos jornais de hoje são um verdadeiro deboche. O secretário de segurança do Rio de Janeiro no Jornal Nacional dizendo que pode chamar o Exército para conter os protestos – sem nenhum contraponto de alguém que lembre que as manifestações são pacíficas e são contra o chefe dele (Sergio Cabral) – é uma ofensa.

Quanto custou o apoio? Foi pago com direitos de transmissão olímpicos ou com dinheiro mesmo?

Mas isso não é novidade. As Organizações Globo sempre apoiaram o governo (qualquer governo), sempre tiveram a imagem de empresa rica e vendida a quem pagasse mais.

“Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”, dizia o velho Millor.

Pois então estamos sem imprensa. O Dia, Folha de SP, Extra e outros vieram todos com manchetes panos quentes pró-governo.  O Jornal Nacional, da Globo, eu não assisto mais.

Antes, tínhamos mais jornais. O velho JB faz falta. Agora temos a internet, que vamos ver se consegue se contrapor à audiência da TV aberta…

O efeito dessa política é nos empurrar para um dos dois extremos. Ou a campanha publicitária em massa vai funcionar – e todos voltarão para suas casas esperando pelas promessas de Dilma, ou as pessoas vão se irritar mais ainda com a cobertura da imprensa – que mostra um mundo diferente do que vêem nas ruas todos os dias.

Minha aposta é na segunda alternativa.

Rio de Janeiro, 17 de junho de 2013.

Rio de Janeiro, 17 de junho de 2013.

A ênfase da imprensa em mostrar depredações em vez de dar destaque para a maior passeata das últimas décadas  esta quinta-feira não é sem objetivo. O discurso do prefeito e do governador do Rio de Janeiro – de contar placas arrancadas e chamar manifestantes de criminosos – não é sem objetivo. O uso enfático de adjetivos – contrariando todos os manuais de redação – pelos apresentadores de TV nos últimos dias não é sem objetivo.

Eles estão preparando a opinião pública para um massacre.

A polícia já deu um bom aperitivo do que é capaz de fazer em repressões a passeatas no protesto de ontem. Mas o que Cabral e seus cúmplices estão preparando é bem maior do que isso. O “discurso dos vândalos” vai justificar uma infinidade de arbitrariedades (de crimes mesmo) que a polícia está pronta para cometer.

Ontem à noite, a polícia perseguiu estudantes pelas ruas do Rio de Janeiro – depois de dispersar, com gás e balas de borracha, a maior manifestação da história da cidade desde o Comício das Diretas, em 1985.

Os jornais de hoje não mostraram a maior manifestação em 28 anos, deram destaque a um grupo de pessoas queimando um carro.

Os jornais não emplacaram a foto do post aqui em baixo – da Presidente Vargas lotada de manifestantes – não mostraram ao violência policial. Suas manchetes eram contra o “vandalismo”.

O discurso já está pronto, e muita gente já o comprou. Quando a polícia passar o rôdo, vão dizer que estavam combatendo vândalos. E O Globo vai publicar essa versão.

A passeata do dia 17 de junho, Av. Rio Branco e Cinelâdia.

A passeata do dia 17 de junho, Av. Rio Branco e Cinelâdia, Rio de Janeiro. No post abaixo estão as fotos da do dia 20 de junho, na Candelária e Av. Presidente Vargas.

Ontem fui a uma passeata tranquila e bem humorada. Havia centenas de milhares de pessoas e cartazes engraçados – como o de uma menina, com a frase “Me chama de Copa e investe em mim”.

Depois de mais ou menos duas horas andando, quando estava já no Sambódromo (vindo da Av. Rio Branco), ouvi de um manifestante que a cavalaria estava atacando a multidão e voltei para casa.

O que vi, pela internet, foi a polícia investindo contra uma multidão majoritariamente tranquila. Depois, vi a polícia perseguindo pessoas pelas ruas e disparando balas de borracha e bombas de gás em passantes que não tinham nada de ameaçador.

Liguei a TV e lá só aparecem uns tais vândalos que, pela descrição, parecem um pouco com os manifestantes de Londres ano passado ou com os de Paris, na época pré-Sarcozy.

Quem foi o infeliz que mandou os cavalos para cercar o palácio?! Depois de tantos protestos, ainda não entenderam que não se manda a cavalaria para reprimir passeatas? Não entenderam que a tropa de choque aumenta a violência?

Na hora fiquei sem entender. Afinal, os protestos são, em grande medida, contra a violência da policia. Eles cresceram depois que a polícia de São Paulo disparou balas de borracha no rosto de manifestantes quinta-feira passada. Foi isso que fez uma manifestação contra aumentos de passagem virar esse grande protesto nacional.

Com mais repressão, a população vai reagir e mais gente vai para as ruas.

O governador não sabe disso?

Mas a política de Sergio Cabral e seus amigos ficou mais clara quando liguei a TV hoje cedo. Lá, os tais vândalos – e não a cavalaria ou a tropa de choque – eram os personagens principais. Lá nem mostraram a manifestação bem humorada com várias centenas de milhares de manifestantes (se a polícia diz 300 mil, é porque não foram menos de meio milhão) que protestavam tranquilamente na avenida (até a polícia dispersá-los com bombas de gás).

A assessoria de imprensa do governo está trabalhando. Mas, em tempos de internet, vão ter mais dificuldade em vender o peixe de Sergio Cabral.

A violência foi da polícia.

Quem dá as ordens para a polícia é o governador.

É precipitado dizer que o governador é responsável pela violência? Podemos dizer que o vândalo está no palácio? Se estiver, quem vai tirá-lo de lá?

Rio de Janeiro 20_6_2013

Rio de Janeiro 20/6/2013

Polícia ataca a passeata (esses não estavam atacando a prefeitura, só protestando).

Polícia ataca a passeata (esses não estavam atacando a prefeitura, só protestando).

O batalhão de choque na Av. Presidente Vargas.

O batalhão de choque na Av. Presidente Vargas.

Não é por maldade

junho 13, 2013

Por que o governo deixou a inflação sair do controle? Por que baixou juros e aumentou gastos (política inflacionista)? Por que, em vez de dizer que a inflação vai convergir para meta, o presidente do Banco Central dá entrevistas dizendo que ela vai para “perto da meta”?

Por que, em vez de dizer que vai conter a disparada de preços, a presidente da República aparece na TV dizendo – irritada – que a inflação está sob controle e que quem diz o contrário está fora da realidade?

Nada disso traz qualquer benefício eleitoral ao governo. Não é por nenhum tipo de maquiavelismo ou plano de campanha que dizem e fazem essas coisas. Não é por maldade. É burrice mesmo.

Dizer ao pobre consumidor (que acabou de engolir o aumento das passagens de ônibus) que a inflação não é um problema é pedir para ser vaiado em praça pública. O presidente do BC não garantir que a inflação vai para a meta (sua função no cargo e faze-la ir) é pedir para ser chutado do emprego.

Enfim, a qualidade da gestão pública já sabíamos que era pouca. Agora sabemos que a qualidade do marketing político também deixa a desejar.

Hora de acordar

Hora de acordar.

PS. É bom ver os protestos contra os aumentos de preço das passagens de ônibus no Rio e em São Paulo. Depois de tantos delírios econômicos do governo – que passaram impunes – parece que os eleitores/consumidores das duas cidades finalmente acordaram.