Inabilidade crônica

agosto 14, 2015

A ideia, atribuída ao ex-presidente Lula, de aumentar a presença de Dilma no noticiário para que ela recupere a popularidade é uma das mais infelizes que um político já teve.

Dilma, na TV, depõe violentamente contra Dilma. O violentamente não é exagero. O tom agressivo e belicoso – de quem devia estar agora tentando esfriar os ânimos – é um atestado de inabilidade política.

O autor da ideia de por Dilma na TV se deu bem fazendo o contrário: quando a opinião pública se virou contra Lula, durante o Mensalão, ele sumiu de cena, para só voltar depois que os ânimos estavam menos exaltados.

Dilma faria bem em deixar Eduardo Cunha ganhar espaço no noticiário. Como Dilma, Cunha é a agressividade na tela – e o povo não gosta de ver gente agressiva no poder, gosta da calma plácida de um FHC ou de um Lulinha paz e amor (o criado por Duda Mendonça para as eleições de 2002).

Mas o mais curioso no noticiário de hoje foi ver os belicosos apoiadores de Dilma:

O primeiro foi o presidente da CUT, falando em pegar em armas pelo governo – em vez de defender os funcionários públicos filiados à CUT (a quem Dilma quer dar aumentos abaixo da inflação).

A segunda foi a presidente da União Nacional dos Estudantes, fazendo elogios rasgados à presidente da República – apesar do corte de verbas para as universidades federais e da greve na maior parte delas.

O terceiro foi o presidente do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, que diz adorar a presidente – e só faz passeatas contra o governo estadual da São Paulo (mais um cooptado).

Além de ser agressiva e ter defensores agressivos, Dilma parece conversar só com pelegos – que não têm relação com os grupos sociais que deveriam representar.

No meio da crise das universidades federais, a presidente da UNE defender o governo é totalmente abaixo da crítica (e a presidente da República chamar a presidente pelega da UNE para discursar a seu favor é sinal de que o governo não tem mais a quem recorrer).

Sim presidente, nós repeitamos o resultado das urnas. Agora avise a seus defensores raivosos que eles terão que respeitar o resultado do impeachment se ele for aprovado pelo Congresso.

Democracia é respeitar o adversário, como a senhora disse, então, por favor, respeite a população e não ponha mais pelegos para discursar contra os grupos que eles deveriam estar representando. Isso é falta de respeito.

"Esses discursos não vão acabar? Está na hora de ir para casa."

“Esses discursos não vão acabar? Está na hora de ir para casa.”

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Adeus Zingales

agosto 11, 2015

Luigi2

Desisti de ler Capitalismo para o povo, livro da moda entre os economistas ligados ao PSDB.

O livro – escrito por Luigi Zingales, professor da Universidade de Chicago – começa bem. Logo de saída, ele separa políticas pró-empresas de políticas pró-mercado – e mostra como as primeiras estão corroendo a economia americana. É o capitalismo de compadres, regime em que fazer lobby no Congresso compensa mais do que investir em pesquisa ou contratar técnicos.

É impossível não pensar no Brasil a cada parágrafo, nos primeiros capítulos.

Um dos alvos de Zingales é a parceria público-privada. Segundo ele, a parceria é  uma forma de transferir dinheiro público para empresas amigas (que agrada donos de empresas e grupos que querem implantar um projeto a qualquer custo).

Mas parei de ler o livro. Parei porque, depois de um diagnóstico bastante razoável, Zingales começa a segunda parte do livro com suas propostas para resolver os problemas da economia americana.

A primeira proposta é para o problema da baixa qualidade da educação.

Os EUA ficam atrás de muitos países desenvolvidos nas provas da OECD que medem o desempenho dos estudantes do ensino médio.

Em primeiro lugar no ranking, costuma estar a Finlândia. Mas, em vez de propôr que os EUA valorizem mais os professores – como a Finlândia – Zingales propõe que privatizem o ensino, adotando um sistema de vouchers do governo para alunos de escolas particulares (uma proposta antiga de Milton Friedman, também da Universidade de Chicago). Quer dizer: depois de condenar – em tese – a transferência de recursos públicos para empresas privadas, ele propõe uma transferência desse tipo como política pública.

Zingales claramente não gosta de órgãos públicos. Mas, em vez de tentar entender como as escolas públicas finlandesas fazem para funcionar tão bem, ele propõe ampliar o ensino privado – que normalmente se destaca em países subdesenvolvidos, com poucos recursos e infraestrutura alocados no ensino público.

Quer dizer: na hora de propor políticas públicas, Zingales segue seus preconceitos e não se importa em defender empresas.

Lê-lo não foi completamente inútil. Me fez pensar no programa brasileiro de transferência de recursos públicos para faculdades privadas (Fies) defendido ardorosamente, semana passada, em um quase-editorial lido por William Bonner no Jornal Nacional.

Enquanto as faculdades públicas estão em greve e não há verba para a limpeza de seus banheiros, enquanto as bolsas de pesquisa dessas faculdades são cortadas, há longas matérias de TV defendendo a transferência de dinheiro público para faculdades privadas com qualidade de ensino pior que a das públicas. É Zingales fazendo escola.

O modelo já existe nos pronto-socorros de vários Estados no Brasil. As UPAs do Rio de Janeiro funcionam assim: são empresas privadas contratadas para prestar um serviço público (contratadas sem licitação, por valores difíceis de mapear na contabilidade pública).

As escolas públicas brasileiras ainda são públicas. Mas seus professores estão no fim da linha na hierarquia de valorização profissional: ganham mal para fazer um trabalho difícil em condições horríveis.

Hoje, só aceita trabalhar como professor de escola pública quem não tem mais para onde correr.

Daqui a pouco, algum discípulo de Zingales vai encontrar a solução: vai propor que o governo pague para que uma empresa privada preste o serviço – cobrando 10 vezes mais por aluno (mas sem dizer isso muito alto).