Preto no branco

junho 27, 2009

O conservadorismo dos jornais americanos garantiu que a melhor primeira página com a morte de Michael Jackson saísse do… Brasil. É do Extra, a despeito do tratamento de imagem meia-bomba, como se pôde ver entre as centenas de banalidades encontráveis no Newseum. Obs.: os jornais da Europa, África, Ásia e Oceania, pelo fuso, não deram a notícia nas edições de sexta.

Uma capa decente de uma fonte improvável.

Uma capa decente de uma fonte improvável.

Empresários e políticos têm uma capacidade impressionante de não ver o que não lhes interessa. Não estão vendo, por exemplo, que as importações do país tomaram um tombo impressionante no primeiro trimestre (mais de 16% em volume) e que, como aqui é um lugar menos pior que vários outros nessa época de crise, o investimento de estrangeiros no Brasil tende a aumentar.

Bom, talvez isso eles até estejam vendo. O que fingem que não vêem é que essas duas coisas fazem o Real se valorizar. Não vêem também que é muito contraditório criar barreiras à importação numa época em que as importações já estão caíndo. Criando barreiras para alguns produtos, vão fazer o Real se valorizar mais – pois vai sair menos dólar para pagar pelos importados – e a vida dos exportadores vai ficar mais difícil.

Não existe mágica para controlar o câmbio. Num artigo publicado hoje no Estadão, Rogério Werneck, da PUC-RJ, tentou lembrar os leitores disso. Boa parte vai  fingir que não leu e continuar falando em métodos da carochinha para controlar o câmbio.

Eu, que não influencio política nenhuma, vou aproveitar o câmbio que os industriais-incentivadores-de-barreira-alfandegária ajudam a valorizar: vou viajar nas férias, comprar dólares baratos e ir para o Chile, que está em promoção.

O Ministério da Saúde adverte que não é bom viajar para lá – o que derruba ainda mais os preços…

A crise - Museu de Belas Artes - Santiago do Chile

A crise - Museu de Belas Artes - Santiago do Chile

Homeland Security

junho 15, 2009

As companhias aéreas brasileiras bem poderiam vender bilhetes sem identificação do passageiro. Domingo, no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, embarquei num vôo da Gol e, do saguão à aeronave, não me identifiquei uma única vez. Livre de bagagem para despachar, fiz o check-in no auto-atendimento, entrei na área de embarque e subi no avião exibindo nada além do papelzinho cuspido pela máquina. Tudo bem que o Brasil seja o país da paz e do amor, portanto imune ao terrorismo e que tais, mas para que, então, pedir nome e documento do passageiro?

Detalhe: a mocinha posicionada ao lado dos totens de auto-atendimento ainda fez a gentileza de carimbar um “DOCUMENTO CONFERIDO” no meu cartão de embarque. Depois do check-in pelo celular, a Gol inova com a conferência de documentos por raios x.

A manchete de hoje no Estado de S. Paulo é um daqueles casos de livro texto, exemplo do que não fazer para estudantes que estão aprendendo a diferença entre notícia e editorial.

Na faculdade, se aprende que a notícia deve  ser tão isenta quanto possível. O editorial pode tomar partido. A manchete é a seguinte: “Brasil taxa aço importado para conter invasão chinesa”.

Para quem não se incomodou com a invasão chinsesa, vale a pena dar uma olhada na página B6 do caderno de economia. Lá, a notícia no alto da página é:  “Argentina barra mais produtos brasileiros”.

Nenhuma das duas matérias lembra que, no começo da crise internacional, presidentes de vários países se reuniram nos EUA e aprovaram um texto em que, entre outras coisas, prometem evitar o fechamento de seus mercados à concorrência estrangeira.

Na matéria de capa, o lobby das siderúrgicas contra o livre comércio vira “apelo das siderúrgicas, que estão perdendo mercado brasileiro para as importações” e o governo brasileiro aumenta as alíquotas de zero para até 14% para “proteger a indústria nacional”.

Na página B6, onde  a barreira alfandegária é estrangeira, “empresários argentinos dos setores de calçados e auto-peças conseguiram impor significativas reduções nas vendas de de produtos fabricados no Brasil para a Argentina, colocando de lado o espírito de livre comércio do Mercosul.”

Não custa tanto trocar o “invasão chinesa” por “concorrência chinesa” na manchete, porque é isso que o lobby das siderúrgicas quer conter.

A própósito, o que o texto chama de invasão é um crescimento de 53,8% nas importações de aço chinês entre janeiro e abril deste ano, comparado ao mesmo período do ano passado. São R$ 61,5 milhões a mais em importações. Para um mercado do tamanho do siderúrgico, é merreca.

Lobista da indústria siderúrgica esculpido em pedra - México, Museu de Antropologia

Lobista da indústria siderúrgica esculpido em barro - México, Museu de Antropologia

BRASIL!!!

junho 5, 2009

A idéia inicial era comentar a fixação da imprensa – ou talvez dos leitores – por casos de pessoas que escaparam “milagrosamente” de grandes tragédias. Eis que, durante breve pesquisa, encontrei uma matéria no site do jornal O Dia, que levanta um aspecto muito mais chocante. Segue um fragmento do texto. A versão integral pode ser lida aqui.

História de quem escapou da morte
Passaporte de analista judiciário estava vencido e coreógrafo brigou para ir em outro voo

Rio – Faltavam pouco mais de duas horas para seguir para o Aeroporto Tom Jobim quando o analista judiciário João Marcelo Calaça, 37 anos, percebeu algo impensável para alguém prestes a embarcar para Paris: seu passaporte estava vencido. Além da própria frustração, teve de enfrentar a fúria do amigo, o americano Thomas Blair, 43. “Fiquei revoltado, chateado mesmo. Afinal, como é que alguém pode deixar o passaporte vencer e não percebe? Agora não estou mais chateado. Já perdoei ele”, afirmou o amigo, aliviado por não ter embarcado no voo 447 da Air France.

João Marcelo passou o dia de ontem dando entrevistas e falando sobre o milagre que salvou sua vida. “Agora tenho dois aniversários. Vou marcar esta data também. Mas apesar da felicidade e do alívio de estar vivo, estou me sentindo dividido pela tristeza, já que é uma tragédia muito grande”, disse.

A irmã do analista judiciário, Tânia, lembrou que ele poderia ter tentado embarcar, já que tinha um amigo policial federal no aeroporto: “Ele até que poderia ter insistido e tentado embarcar. Mas, de repente, desistiu. Foi um agraciado”. Os amigos só descobriram o desastre por volta das 9h, quando João Marcelo acordou e viu 25 ligações perdidas em seu celular. Ele ligou a TV e soube do desastre. “Achei que fosse piada. Imediatamente avisei à minha família”, disse Thomas.