Os heróis da Copa (em tempos de crise econômica, decadência política e desânimo profundo)

Em tempos de Copa do Mundo, vale a pena desencavar o trecho abaixo, um dos meus favoritos, que usei no primeiro post deste blog, mais de 10 anos atrás.

Ele é do Folhas inúteis, um dos livros anos 20 de Aldous Huxley:

“Fazer dos esportistas profissionais  e disputadores de prêmios  heróis efêmeros já é bastante mau; mas querer imortalizar-lhes a fama é certamente indicativo de profunda vulgaridade e degradação. Tal como a turba romana, as turbas de nossas modernas capitais deleitam-se com esportes e exercícios que elas próprias não praticam; mas, de qualquer maneira, a fama dos nossos esportistas dura apenas alguns dias após seus triunfos. Não gravamos suas efígies em mármore para que atravessem centenas de gerações. Gravamo-las em polpa de madeira, que é quase o mesmo que gravá-las na água. É reconfortante pensar que por volta de 2100 todo o nosso jornalismo, a literatura e a filosofia estarão reduzidos a pó.”

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(Mal) gravado em neon.

Como os economistas de extrema direita destruíram o governo do PT (por dentro)

É quase consenso que, sem a crise econômica, nenhuma pedalada fiscal teria derrubado o Governo Dilma. Foi a mistura de inflação em alta, recessão interminável e insistência na heterodoxia econômica que fez os apoiadores do governo desistirem dele.

No entanto, até hoje, os criadores da política econômica de Dilma escrevem em jornais como se fossem perfeitos inocentes. Luciano Coutinho escreve o Valor como se nunca tivesse presidido o BNDES. Nelson Barbosa, ex-Ministro do Planejamento e da Fazenda, escreve na Folha e deixa claro que não se arrepende das políticas que implantou.

Eles fariam tudo de novo. É por isso que tanta gente continuará fugindo do “programa econômico” do PT: o partido parece não ter entendido por que o país quebrou.

Li, há alguns meses, uma entrevista com o guru heterodoxo Ha-Joon Chang, um economista sul coreano que conseguiu espaço no cenário internacional escrevendo livros pró-protecionismo e pró-subsídios a grandes empresas.

Lembro que o repórter perguntou alguma coisa sobre haver espaço para políticas de esquerda como a dele. Com toda a candura, Ha-Joon Chang respondeu que, na Coréia e no Japão, suas propostas são consideradas de direita.

Não é à toa: elas são mesmo. Dar dinheiro público e crédito subsidiado para grandes empresas não é de esquerda nem aqui nem na Coréia do Sul. Protecionismo para a Anfavea e isenções fiscais para a Fiesp são políticas que nunca foram de esquerda. No entanto, foi isso que Mantega, Barbosa, Coutinho e afins fizeram.

Enquanto defender isso, enquanto defender transferências de dinheiro público para as maiores empresas do país, o PT não poderá dizer que é de esquerda. Ele será apenas uma versão mais populista do PMDB.

Se os caciques do PT fossem um pouco mais espertos, expulsariam os economistas heterodoxos do partido e defenderiam uma política econômica à Thomas Piketty (mesmo que fosse só para agradar a platéia, mesmo que fosse só para catar uns votos de esquerda de verdade).

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Encontro nacional de bodes expiatórios: criando justificativas para repetir a Nova Matriz Macroeconômica em 2019.