República federativa

dezembro 30, 2014

No dia 1º de janeiro, quando tomar posse como ministro dos Transportes, Antonio Carlos Rodrigues (PR-SP) concluirá uma peculiar jornada na “república federativa” do Brasil. Em pouco mais de dois anos terá sido vereador, senador e ministro de Estado. Talvez o único caso comparável em exotismo se encerrará na mesma data: o do ministro-vice-governador Guilherme Afif Domingos (PSD-SP).

Rodrigues, em momentos distintos (mas constrangedoramente próximos), terá atuado em duas esferas (municipal e federal) e dois poderes (Legislativo e Executivo). Afif, amparado por um providencial – e criativo – parecer jurídico da Advocacia-Geral da União (AGU), terá sido por um ano e meio, ao mesmo tempo, autoridade do Executivo federal e do Executivo estadual de São Paulo.

Os constituintes de 1987 e 1998 deviam estar pensando em outra coisa quando falaram em “união indissolúvel dos Estados e Municípios” e “poderes harmônicos entre si”.

Como é que um membro do Legislativo federal, de volta de “empréstimo” ao Executivo federal, fiscaliza as contas do governo? Como é que um representante de um estado cobra mais recursos de si mesmo como representante da União?

E como é que ficam os outros estados e municípios, excluídos dessa admirável simbiose, à espera de um tratamento igualitário por parte do governo federal ou estadual?

Rodrigues e Afif são apenas dois exemplos – ainda que fantásticos exemplos. O novo ministério de Dilma Rousseff vem recheado de outros senadores e deputados federais. E a história se repete em estados e municípios.

Só falta mesmo é um ministro do STF se licenciar para embarcar no Executivo. Ou não. Em 1990, Francisco Rezek renunciou no Supremo para ser chanceler de Fernando Collor, que, num gesto elegante, nomeou-o de volta à Corte em 1992.

Tudo com muita independência.

Por que ler os clássicos

dezembro 17, 2014

Clássicos são livros que mudam até o que foi escrito antes deles.

Depois de ler um clássico – se for mesmo um clássico – você não vai conseguir ver com os mesmos olhos o que foi escrito antes.

Isso vale para literatura, mas vale mais ainda para as ciências e para coisas mais  ou menos científicas, como Economia.

Pensei nisso esta semana vendo um vídeo do analista de risco Nassim Taleb e do psicólogo Daniel Kahneman. Sempre achei Taleb um bom analista, mas coube a Kahneman, Nobel de Economia e especialista em escolhas e preferências, lembrar a Taleb que ele, Taleb, é um conservador – e que o que propõe é interessante para quem já tem uma boa conta bancária (mas inviável para a maior parte da população).

Esse comentário – rápido e discreto, no meio de um vídeo de mais de uma hora – me soou duro e certeiro. Mas soou assim graças a um outro teórico, Thomas Piketty, que mapeou a concentração de patrimônio e mostrou que a maior parte da população não tem nenhum: tem saldo zero na poupança ou até dívida, nem sonha em ter ações ou imóveis.

Para esses leitores descapitalizados, as recomendações de Taleb são bem menos aproveitáveis.

Os livros de Taleb, escritos antes, se tornaram menos interessantes depois da publicação de O Capital no Século XXI – desde já, um clássico.

piketty

Dois clássicos e um

bom livro.

bom livro.

.