A prisão do marqueteiro João Santana e a chance de que leve à cassação do mandato da presidente Dilma Rousseff mostraram que os investidores estrangeiros, afinal, não são loucos por trazer dinheiro para cá.

É uma aposta arriscada, realmente especulativa. Uma aposta que depende da política e do Judiciário e não de analises macroeconômicas ou de mercado. Se depender só da análise macro, é melhor ficar longe daqui. Afinal, a falta de horizonte na economia já faz os analistas falarem em calote, hiperinflação e em outras criaturas que não vemos desde o governo Collor.

Mas, se o Tribunal Superior Eleitoral cassar a chapa Dilma/Temer e um novo governo for eleito este ano ou no próximo, quem trouxe dinheiro para o Brasil (apesar da falta de horizonte que temos hoje) vai ter feito um excelente negócio.

Com a melhora nas perspectivas da economia, o real pode se valorizar e as empresas compradas na bacia das almas também podem se valorizar (em reais).

Como há excesso de liquidez em muitos países (taxas de juros próximas ou até abaixo de zero), faz sentido pôr uma parte dos recursos em apostas arriscadas como empresas brasileiras (uma parte pequena do total). Apostar no Brasil é coisa para especuladores com aplicações muito diversificadas: para investidores de grande porte. Não é o tipo de aplicação em que se põe a poupança para a aposentadoria.

Hoje, a chance de a chapa Dilma/Temer ser cassada é, paradoxalmente, a única justificativa razoável para o dólar não disparar. Como o governo pode cair, ainda é possível ganhar dinheiro com investimentos de longo prazo no Brasil. E, se ainda há chance de ganhar dinheiro, os investidores não saem correndo do país (o que ajuda a manter o dólar em R$ 4 e evita que a inflação dispare).

Aparentemente, a gestão de Nelson Barbosa na economia só consegue se manter sem produzir uma corrida ao dólar porque pode acabar de repente.

DSCN2952

Especuladores de olhos azuis, atacados por Lula em 2009, evitam que o dólar chegue a R$ 5.

Anúncios

Já era quase meia noite quando o ministro saiu de sua sala. O carro com motorista o esperava na garagem. Ele seguiu tranquilo para casa, sem pensar muito em ajustes fiscais ou altas de preços.

Três quarteirões antes de chegar, a correia de transmissão arrebentou – fazendo o motor quebrar irremediavelmente.

O ministro saltou do carro e deixou seu motorista a espera do reboque. Foi a pé para casa.

Mas, no meio do caminho, viu um bode. Não: era uma cabra, uma cabra notívaga pastando em um terreno baldio.

Longe, um relógio bateu meia noite e Barbosa, o ministro, ouviu ao seu lado uma voz cavernosa dizer:

– Boa madrugada, ministro.

Era Nelson, ou melhor, o fantasma de Nelson Rodrigues.

Branco, quase transparente, Nelson não seria como os repórteres do Planalto. Com ele, o ministro teria que falar a verdade ou, pelo menos, teria que ser sincero.

Então, tendo como testemunha apenas a cabra vadia que comia a paisagem, começou a entrevista:

Nelson: Ministro, todos os analistas de bancos e consultorias dizem que o governo tem que fazer um ajuste nas despesas, tem que fazer a despesa caber na receita para o país voltar a crescer. O senhor vai fazer isso?

Barbosa: Não. Acho que os analistas estão errados. A economia está em crise e, enquanto durar a crise, vou deixar a despesa solta. Vamos ter déficit de mais de 10% do PIB este ano, contando as despesas com juros e as com salários e materiais.

N: Então a crise não vai passar?

B: Alguma hora ela passa. Aí a arrecadação vai voltar a crescer e equilibramos a receita e a despesa.

N: Mas, e se o senhor estiver errado e a dívida pública disparar antes de o país voltar a crescer? O país vai dar calote? Vai imprimir dinheiro para pagar as contas?

B: Eu não estou errado.

N: Mas, só por hipótese: e se as coisas não acontecerem como o senhor espera?

B: Sim, aí teremos que ligar a impressora e trazer a hiperinflação de volta para conseguir fechar as contas. Mas há muitos estágios antes de chegar a esse extremo. Há tempo de mudar o curso se eu achar que estamos na direção errada.

N: Quais estágios?

B: Há o do ajuste inflacionário. Já estamos um pouco nele. Há dois anos não damos reajuste aos servidores. Isso diminui nossa despesa em termos reais. Também cortamos a verba que pagava os serviços de limpeza terceirizados de universidades e vamos reduzir a verba da saúde (que é indexada à receita de impostos). Enfim, há uma redução de despesa também. Podemos aprofundar um pouco isso se precisar.

N: Então há um ajuste fiscal?

B: Não. Quando há déficit público isso quer dizer que o governo está empurrando a demanda para cima (em vez de  fazer o ajuste para segurar a inflação). Aqui no Brasil temos déficit público: acreditamos em animar a demanda com o caixa do governo.

N: Mas o senhor apareceu na TV dizendo que ia fazer o ajuste fiscal.

B: Isso é só para enrolar os ortodoxos. Não acredito em ajustes de longo prazo na oferta, acredito em ajustes de curto prazo na demanda: é isso que sei fazer. Acredito que temos que estimular a demanda (pois surgirá oferta para atende-la).

N: Há mais algum razão para não fazer o ajuste fiscal, além de suas opções religiosas?

B: Sim. Estamos em um ano eleitoral. Não posso cortar todas as obras do PAC. As construtoras ficariam furiosas. Não é assim que as coisas funcionam. E, vamos ser claros, não dá para fazer reforma na previdência em ano de eleição. Os deputados do PT que querem ser prefeitos me matariam (ou, pior, votariam contra no Congresso).

N: Então sua equipe está apenas empurrando a política econômica com a barriga?

B: Estamos dizendo que faremos o que nossos críticos acham necessário. Isso nos poupa de críticas mais duras e nos dá mais tempo para esperar que a crise passe. Você pode chamar isso de empurrar com a barriga se quiser.

N: Mas esses críticos dizem que a crise não vai passar se o governo não fizer o ajuste fiscal, que a ameaça de uma dívida pública explosiva é o que mais deixa os investidores com medo de investir.

B: É, eles dizem isso. Mas estão errados. Vamos insistir com os financiamentos do BNDES e com o estímulo ao consumo e a economia vai retomar o crescimento, mesmo que, para isso, a inflação tenha que subir mais um pouco.

N: A inflação não vai convergir para a meta?

B: Não. Não acredito em meta de inflação. O governo Dilma nunca tentou cumprir a meta, nem vai tentar. Acho inflação um problema secundário.

N: Mas a renda dos trabalhadores está encolhendo por causa dela.

B: Quando os nossos estímulos fizerem a economia se recuperar, a renda crescerá novamente.

N: Esses estímulos são os da tal Nova matriz, que o primeiro governo Dilma adotou?

B: Sim, a ideia é basicamente a mesma: juros subsidiados para alguns grupos de empresas, Banco Central sob controle e expansão fiscal.

N: Mas não foi isso que provocou essa crise?

B: Em parte. A queda do preço do minério de ferro e de alguns produtos agrícolas que o Brasil exporta também atrapalhou.

N: Por que o senhor acha que, dessa vez, vai funcionar?

B: Nós temos o apoio da presidente, temos recursos para implantar essa política e não temos muito apoio político para fazer diferente. Além disso, fazer diferente teria um custo político alto.

N: Manter a crise também tem um custo alto.

B: Acho que nossa Nova matriz rediviva vai funcionar. Ela é o projeto da minha vida! Se não funcionar, retomo meu antigo emprego na UFRJ e deixo algum desses ortodoxos tentar arrumar a bagunça em 2019.

E, dizendo isso, o ministro virou as costas para o entrevistador (e para a cabra, que também o observava) e foi atender o celular. Era a presidente.

– Não, presidenta – disse, com o rosto colado ao iPhone – não se preocupe: está tudo sob controle.

A cabra arreganhou os lábios em uma espécie de sorriso e Nelson sumiu no ar, voltando para o purgatório dos cronistas.

O ministro seguiu para casa, sem pensar muito em coisas como inflação e contenção de gastos.

DSC_0877

Lhama diurna – que não testemunhou a entrevista.

Dinheiro de fora, até quando?

fevereiro 16, 2016

Ainda há investimento estrangeiro direto suficiente no Brasil para compensar o envio líquido de juros de dividendos ao exterior e segurar a cotação do dólar em R$ 4. Mas não consigo entender por quê.

Quem são os investidores externos que põem dinheiro aqui? Que luz no fim do túnel eles conseguem ver que eu não consigo?

Alguém vai dizer que são os juros reais de até 7% pagos por alguns títulos do Tesouro. Mas basta uma leve sacudida do câmbio para engolir os 7% em menos de uma semana.

Ontem fiquei feliz em ler a avaliação de um gestor de fundo de investimento que também não entende esse otimismo do investidor externo (feliz porque não sou o único que não entende).

Ok, o Brasil está barato. Mas, se a economia depender da habilidade e do realismo da atual equipe econômica, os ativos ficarão ainda mais baratos, perderão ainda mais valor.

A conclusão que dá para tirar desse não entendimento é que, se os investidores externos começarem a pensar como os brasileiros, o dólar pode subir mais (e, com ele, a inflação).

DSCN3127

Investidores externos a caminho da Bovespa.

Nada contra a nova alíquota do imposto sobre sorvetes e chocolates: 5%. Mas, até recentemente, a assessoria de propaganda do governo conseguia impedi-lo de produzir manchetes tão antipáticas quanto essa.

DSC04439

Chocolate: o calmante favorito dos atingidos por crises econômicas.