Manifestante tem que ir em cana por 30 anos!

A ideia de intimidar manifestantes com a ameaça de penas de prisão bizarras não é nova. Está em um projeto de lei em tramitação no Senado que só não deve ser votado este ano por causa das eleições. O senador, pastor e candidato ao governo do Rio Marcelo Crivella é um dos autores do projeto, que tem o número 728/2011.

O resumo do projeto é o seguinte:

“Define crimes e infrações administrativas com vistas a incrementar a segurança da Copa das Confederações FIFA de 2013 e da Copa do Mundo de Futebol de 2014, além de prever o incidente de celeridade processual e medidas cautelares específicas, bem como disciplinar o direito de greve no período que antecede e durante a realização dos eventos, entre outras providências.”

O texto tem trechos como ” § 5º O crime de terrorismo previsto no caput e nos §§ 1º e 3º deste artigo é inafiançável e insuscetível de graça ou anistia”, que dão ideia de como pensa seu autor.

Considerado inconstitucional por muitos analistas, por ir contra, por exemplo, o direito de reunião em locais públicos, o texto poderia dar margem a abusos de interpretação, como o de considerar fechar uma rua privação de liberdade, ou dar um rolé no shopping infundir pânico generalizado (com penas altas para as duas coisas).

Se no Rio de Janeiro mais de meio milhão de pessoas foram às ruas ano passado para se manifestar às vésperas da Copa das Confederações (e outras tantas as apoiaram mas não foram pessoalmente) pode-se imaginar que as chances do autor de um projeto como esse ser eleito governador são poucas.

Os adversários só têm que mostrar o projeto na TV – se não forem colegas de partido dos senadores Ana Amélia (PP/RS) e Walter Pinheiro (PT/BA), coautores do texto. Ah, o vice-governador Pezão, que provavelmente gosta do projeto, também não deve critica-lo.

O papel de crítico – se Crivella começar a ter intenções de voto muito grandes – vai sobrar para Miro Teixeira, Bernardinho, ou para o histriônico Anthony Garotinho.

Crivella: vale tudo para defender a FIFA.

Crivella: vale tudo para defender a FIFA.

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Chamaram o Bashar?

janeiro 14, 2014

“Todos são bem vindos” diz o outdoor de uma empresa de cartão de crédito – patrocinadora oficial da Copa do Mundo. No cartaz, soldados do Império (do filme Guerra nas Estrelas) posam, metade em pé metade agachados, como um time de futebol. Ao fundo, uma praia carioca.

A Visa realmente pegou o espírito da coisa.

A Fifa, organização suíça, neutra e defensora do internacionalismo sem discriminação a ditadores sádicos e genocidas vai ter soberania sobre partes do território brasileiro durante a Copa e – para esses pequenos territórios – todos são bem vindos (menos vendedores de produtos não credenciados como patrocinadores, manifestantes locais e professores em greve).

Se, como lembra a propaganda da Visa, até Darth Vader é bem vindo, que dizer dos genocidas terrestres, como Bashar al Assad e Kim Jong-Un. Afinal, o que é executar milhares de pessoas perto da beleza do futebol?

Venham, venham: os piores carrascos do universo também são bem vindos.

Obrigado pelo convite. Que a força esteja comigo - e que a Visa volte a bloquear a conta do Wikileaks.

– Obrigado pelo convite. Que a força esteja comigo e que a Visa volte a bloquear a conta do Wikileaks.

Longe do finado ex-Hotel Glória, na outra ponta da Praia do Flamengo, mais um prédio abandonado dá uma ideia do que foi a passagem do ex-bilionário Eike Batista pelo Rio de Janeiro.

O prédio, com vista para o Pão de Açúcar e para a Praia do Flamengo (fica bem na curva), é talvez o maior da região e, a não ser pelos dois seguranças na porta, está completamente abandonado.

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Uma das empresas de Eike fez um acordo com o Clube Flamengo para transformar o prédio em hotel. Na prática, isso significou botar para fora todos os moradores, fechar a longeva academia de karatê, a de natação, a clínica de fisioterapia e o cabeleireiro que ficavam no primeiro andar para… deixar tudo abandonado.

Ok. A empresa de petróleo do Sr. Batista deu calote e até mudou de nome. Mas isso quer dizer que todas param?

O esgoto que vazou há algumas semanas continua (já meio seco) sobre a calçada do prédio, o mato cresce no jardim, as esquadrias vão sendo – pouco a pouco – saqueadas e o ar de decadência é indisfarçável.

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Se fosse só isso, ainda dava para passar. O irritante é parar o que se fazia lá – fechar empresas, fazer pessoas serem demitidas, despejar moradores – para depois deixar o prédio abandonado.

Não dá para dizer que é por problemas burocráticos. Afinal, Eike é o homem que empresta jatinho para o governador.

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Os longos anos desde que Eike comprou e demoliu parte do Hotel Glória fazem a perspectiva parecer ruim para o início das obras do Hotel 2.

Estamos em 2014 e, começando agora, a reforma do prédio não acaba antes das Olimpíadas.

A grande obra de Eike, pelo jeito, vai ser só destruir o que estava lá, sem botar nada no lugar.

– Quem tem casa vive melhor – explica uma voz em off  a um menino, na propaganda do Banco do Brasil.

– Ah, entendi – diz o menino.

Mas ele poderia dizer alguma coisa como:

– Então porque quase todo mundo no mercado financeiro mora em apartamento alugado? Por que na Suíça mais da metade das pessoas mora em imóveis alugados? Na Alemanha, na Suécia e em Luxemburgo mais de um quarto da população vive em alugados.

O locutor o ignoraria e continuaria com o texto piegas, tipo minha casa minha vida:

– Porque para o Banco do Brasil não tem que ser bom só para a gente, tem que ser bom para você também.

O menininho, revoltado, gritaria:

– Você está dizendo que é bom para mim pegar um empréstimo monstruoso para comprar imóvel no auge de uma bolha de preços? E ainda em uma época de alta de juros?  Isso é uma campanha de deseducação financeira? Você está fazendo propaganda de banco, de programas do governo ou de produtos de construtora? Não tem nenhum órgão público que te multe por mentir em campanha publicitária?

– Um ano novo bom para todos! – responderia a voz em off.

BB, te ajudando a pagar centenas de milhares de reais por uma casinha (que você não devia comprar agora).

BB, te ajudando a pagar centenas de milhares de reais por uma casinha (que você não devia comprar agora).

Há novos autores. Tempos instáveis são bons para a literatura.

Quanto maior o caos, melhor para os romancistas assustados.

Esta semana, li Digam a Satã que o recado foi entendido, de Daniel Pellizzari. O livro é da leva de romances em cidades estranhas – que a Cia. das Letras editou depois de deportar (temporariamente) um grupo de novos autores brasileiros – cada um para uma cidade. Pellizzari foi pra Dublin e, entre pubs e irlandeses desorientados (e também poloneses e uma eslovena), faz uma mistura meio ácida de humor e ceticismo. Sobra até para Chicomecoatl, a (vingativa) deusa asteca do milho.

Depois de uma apresentação categórica sobre como a evolução foi cruel com as mulheres russas – e dos delírios de um líder de seita neo-celta pró-ofídios que quer salvar o mundo do apocalipse – acho que entendi o recado.

Mas a melhor cena do livro é um dialogo entre dois estudantes da universidade local (um brasileiro e um belga) sobre livre arbítrio. A discussão é em voz baixa: acontece à noite, enquanto os dois – quase contra a vontade – tentam roubar múmias de um museu irlandês.

Sim, o recado foi entendido.

Na terra de Yates, com uma eslava explosiva.

Na terra de Yates, com uma eslava explosiva.

Pequenos protestos

janeiro 2, 2014

Para quem achava que os protestos contra o governador do Rio de Janeiro tinham acabado, essa foi tirada hoje, na Rua Sete de Setembro, no Centro.