O fim está próximo?

novembro 21, 2013

Sob o sol carioca de 40 graus, a menina da Unicef se aproxima para pedir dados de cadastro para doações mensais. Sorrio e digo: “Já falei com vocês.” Ela sorri de volta. Este é o jeito menos indelicado que encontrei para dizer: “desculpe, não posso assumir mais compromissos.”

Desvio, depois, dos Médicos sem fronteira, que têm seus cadastradores doações perto da Rua Sete de Setembro. Na Av. Rio Branco – em pé sob os andaimes de um prédio em reforma – uma menina com canetas e chaveiros olha para mim: “Eu estou levantando dinheiro para…” (confesso, já não lembro mais a causa nobre). Compro uma caneta: R$ 5,00.

O estranho nisso tudo é que, quanto mais vejo o presidente do IPEA dizer que está tudo melhorando, que o país nunca esteve tão bem, mais vejo pessoas nas ruas pedindo dinheiro, mais vejo pessoas indo ao médico com novos problemas crônicos, mais as vejo não dando conta da rotina de trabalho. Tenho a sensação de que tudo pode desabar de uma hora para outra.

Não, eu não tenho nenhum número para “provar” a tese. Na verdade nem tenho uma tese: é só uma sensação de queda, uma espécie estranha de mal estar.

Começo, de algum jeito, a entender os malucos que saem com cartazes de “o fim está próximo” em filmes da Sessão da Tarde.

Esperando pelo fim.

Esperando pelo fim.

A livraria Saraiva, no Edifício Avenida Central, está vendendo máscaras do filme V de Vingança. Se você tiver esquecido a sua no dia da passeata, a livraria pode funcionar como loja de conveniência. Sim, eu sei: as máscaras estão proibidas no Estado do Rio de Janeiro.

Seguindo pela Av. Rio Branco, é possível ver os bancos, ainda com as fachadas cobertas por tapumes. O curioso são as pichações nos tapumes. No tapume do Itaú, perto da Rua Buenos Aires, há um ofensivo: “Este banco financia o Jornal Nacional”.

Os “Fora Cabral! Vá com Paes” são bastante comuns mas, em frequência, nenhum texto bate o do cartaz “Temos carne de rã”, que, pelo que entendi, é realmente uma propaganda de carne de rã (o cartaz tem um número de telefone).

Há tapumes com propaganda de eventos e há até tapumes bem pintados, para ficar onde estão por muito tempo. Em um deles, vi uma pichação de financiamento para compra de carros: “Não pague juros altos”, dizia o texto.

A da loja era ainda mais simples do que esta.

A da loja era ainda mais simples do que esta.

PS.: Passei de novo em frente à Saraiva do Avenida Central. A máscara de plástico do V de Vingança estava lá: à venda por R$ 79,21. É para revoltados ricos.

Professores de escola pública, por exemplo, não podem comprar.

PS2.: Para quem não lê comentários de post: a máscara vem com a revistinha do V de Vingança – meio escondida no fundo da caixa, na vitrine. Ainda assim, R$ 79,21 é um exagero.

Conhecido como o ministro do “Nada declarar”, Armando Falcão, ministro da Justiça de Ernesto Geisel, foi homenageado ontem na TV pelo ex-ministro da Cultura Gilberto Gil.

Gil adotou a política de Falcão e ficou mudo diante do microfone por longos minutos, olhando para o repórter (do Pânico) que perguntava sua opinião sobre biografias não autorizadas.

– Mas o público quer saber sua opinião, Gil. Você foi ministro da Cultura, defendeu a liberdade de expressão na época da ditadura. Só a Paula Lavigne fala sobre isso? O que você acha de Roberto Carlos, que saiu do grupo Procure Saber por achar que não se pode censurar biografias?

O repórter cercou Gil no desembarque do aeroporto. O ex-ministro olhou para a câmera várias vezes, tirou fotos com uma fã, ficou mudo diante do microfone de novo, mas não disse nada.

Quer dizer: disse. Se não falou nada é porque defende a censura prévia a biografias de pessoas públicas – mas se envergonha de dizer isso na frente de uma câmera.

Teria sido mais divertido se quem estivesse no desembarque do Aeroporto Tom Jobim fosse Caetano Veloso – o homem que fala sobre tudo (sem necessariamente dizer muita coisa).

Mas, se não servir para mais nada, essa discussão serve para mostrar como nasce um conservador. Gil, Caetano, Chico Buarque e outros cantores que faziam músicas de protesto 30 anos atrás, hoje são bem sucedidos administradores de imagem, donos de um grande patrimônio e – como qualquer grande proprietário – avessos a qualquer risco de mudança em seus domínios.

Nem o velho “fale mal mas fale de mim” os faz pensar em defender de novo a liberdade de expressão.

O medo do risco é o que define um conservador. E, pelo jeito, mesmo alguém com a vida ganha, ouvido e respeitado nos quatro cantos do mundo, admirado sem contestação em todo o país, pode ter medo do risco.

Minha reação, olhando para a TV, foi pensar: “Até tu Gil?”

Sim, até ele. E se Gilberto Gil não está a salvo de virar um reacionário, quem está?

Voltaire sem peruca - e sem medo de mostrar a careca.

Voltaire sem peruca – e sem medo de mostrar a careca.

PS. Estou muito curioso para saber o que Gil, Caetano, Chico e companhia não querem ver publicado. Biógrafos, jornalistas, historiadores, por favor, corram atrás. 

Conheço uma bióloga desempregada. Mas não vou dizer a ela que o governo do Estado do Rio de Janeiro abriu vagas de 16 horas semanais para biólogos (salário R$ 1.083) nas escolas da rede pública.

As vagas para matemáticos e físicos são para trabalhar 32 horas semanais. Não consigo imaginar o perfil dos aprovados. Afinal, há emprego para matemáticos e físicos em bancos, empresas de petróleo e telecomunicações e em todo tipo de órgão público bem remunerado. Quem sobra para as 482 vagas em escolas estaduais?

Depois de derrotar o sindicato dos professores em uma greve de mais de dois meses (em que os professores só conseguiram, na prática, evitar o desconto dos dias parados), o governo abre edital para ocupar as vagas dos que arrumaram empregos melhores ou se aposentaram. Segundo o governo, a maior parte das vagas foi aberta por aposentadorias.

Acho curioso. Afinal são 313 vagas para matemática e 22 para história. Os matemáticos da rede estadual são mais velhos que os historiadores?

Sem perspectiva de melhora – e a promessa de pancadas da polícia em caso de mais greves – a carreira de professor secundário fica cada vez menos atraente. Não adianta dizer que a hora/aula no Rio é maior que em outros lugares: o custo de vida no Rio é muito maior do que em outros lugares.

Considerando o despreendimento do governador na hora de fazer declarações surreais, não vou me espantar se, nos próximos meses, ele aparecer na TV fazendo propaganda do Rio: um lugar onde é fácil ganhar mais que físicos, matemáticos e afins (qualquer vendedor de shopping consegue).

Com seu salário, um professor de biologia que não coma nem ande de ônibus (nem tenha contas de luz, gás etc.) consegue comprar 15 potes grandes de Ginko Biloba importada todo mês!

Com seu salário, um professor de biologia que não coma nem ande de ônibus (nem tenha contas de luz, gás etc.) consegue comprar 15 potes grandes de Ginkgo Biloba importada todo mês!

Juntando um pouquinho de dinheiro para fechar a conta, o salário de professor de biologia compra 7 galinhas pintadinhas de pelúcia em um shopping de Botafogo.

Juntando um pouquinho de dinheiro para fechar a conta, o salário de professor de biologia compra 7 galinhas pintadinhas de pelúcia em um shopping de Botafogo.

Como vive alguém que passou por cinco anos de faculdade e ganha esse salário?

Como vive alguém que passou por cinco anos de faculdade e ganha R$ 1.083?