É difícil ser isento quando se é parte interessada em alguma discussão. E os economistas não são exceção: bons economistas já foram vítimas do tal wishful thinking, que, na prática, significa tomar decisões achando que o futuro vai ser como você quer, e não como uma análise menos interessada ou otimista parece indicar que vai ser.

Esta semana foi a vez de Paul Krugman, Nobel de economia e colunista do New York Times, fazer essa besteira. Eu seu artigo sobre a recuperação da economia dos EUA, Krugman desanca o governo de lá por não ter feito o que ele, Krugman, disse que devia ter feito há mais ou menos um ano. É um artigo do tipo “Eu não te disse? Eu não te disse?!”.

Mas a virulência de Krugman fica um pouco engraçada se pensarmos que ele está errado.

Krugman reclama que a economia dos EUA está crescendo pouco, agora que o IBGE de lá reviu para 0,4% o crescimento do segundo trimestre sobre o primeiro. Nesse ritmo, segundo ele, o desemprego não vai diminuir.

Ok. Pode até ser que o desemprego não caia. Mas isso não é motivo para sair tomando decisões erradas como pressionar mais a China para valorizar sua moeda (uma das propostas de Krugman).

A principal razão porque o crescimento nos EUA vai ser baixo nas próximas décadas é que os americanos passaram um bom tempo vivendo acima das suas posses. Achavam que seus bens valiam muito mais o que valem e gastavam por conta. Agora, eles começam a perceber que apartamentos de dois quartos por US$ 1 milhão são uma coisa meio irrealista. Os preços de imóveis, ações e outros ativos vão continuar caindo na medida em que os estímulos temporários do governo forem sendo cortados. Os americanos, percebendo que não têm uma poupança tão valiosa quanto pensavam, vão consumir menos e poupar mais (o que é muito bom no longo prazo). Mas o efeito colateral dessa decisão simultânea de milhões de pessoas será menos consumo.

Quer dizer: o governo está se esforçando para evitar que mudança de padrão seja muito brusca. Mas não vai conseguir evitar a queda do crescimento – e os gritos de Krugman não mudam isso.

E, olhando em volta, para o resto do mundo, os gritos de Krugman parecem um disparate completo. Ele está reclamando de um índice de desemprego de menos de 10%. Aqui no Brasil, passamos anos com índices maiores. Na Espanha o desemprego está em 20%.

Além disso, crescer pouco quando se tem uma renda média do tamanho da americana é completamente diferente de crescer pouco em uma economia pobre. Lá, mesmo que a população cresça mais rápido que a renda por um período, a queda de renda per capita não vai fazer faltar comida ou água potável.

E, por fim, o PIB americano do primeiro trimestre cresceu 0,9%, quer dizer, o primeiro semestre já acumulou 1,3%  de crescimento. Depois da queda de 2,6% em 2009, não há como dizer (como disse Krugman) que essa não é uma recuperação.

Krugman: "Eu não te disse? Eu não te disse?!"

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Pela Bienal digital

agosto 14, 2010

Mais uma Bienal do Livro e lá vem de novo a história do livro digital entre os principais temas de debate (os outros são: Monteiro Lobato, Clarice Lispector e lusofonia). No início, bem no início, era divertido. “O livro eletrônico vai substituir o de papel?” Aí uns diziam “inevitável”, outros diziam “impensável”, e a conversa seguia, pontuada por previsões quase sempre certeiras em sua imprecisão. Hoje, no entanto, a balança pende para os e-books, restando tão-somente alguma polêmica a respeito do ritmo da mudança.

Mas o assunto continua em destaque na pauta da feira.

Bem, se o futuro pelo visto é mesmo digital, talvez fosse o caso de um novo formato para a Bienal.

Em 2012 (ou 2011, no Rio), Bienal Digital. E até rima, ainda que muito mal. Ops.

Mais sobre livros aqui e aqui.

O Globo e o Estado de S. Paulo publicaram hoje matérias de capa em seus cadernos de economia sobre o empréstimo de R$ 180 bilhões do Tesouro Nacional ao BNDES.

O Estadão fez duas matérias: uma mostrando como do dinheiro foi usado (para comprar empresas no exterior, aumentar o capital de giro de grandes empresas e comprar ações) e outra mostrando como a maior parte das empresas comuns tem dificuldade em ter acesso a crédito no Brasil.

Além das abobrinhas e das citações dos lobistas de sempre, a segunda matéria tem outro problema, esquece de que crédito tem a ver com poupança.

O crédito não sai do nada. Se alguém pegou emprestado, alguém emprestou. Nesse caso, o que aconteceu foi que o Governo federal captou R$ 180 bi de poupança de famílias, empresas e estrangeiros e repassou esse dinheiro ao BNDES.

Com R$ 180 bi a menos no mercado, não é difícil de imaginar que o crédito tenha ficado escasso. Crédito hoje, só para as grandes empresas que têm acesso ao BNDES. Para as pequenas – e para as não tão bem relacionadas – fica o que sobrar no mercado depois que o governo captar seus recursos (pagando, hoje, 10,75% ao ano).

Mas esquecer esse detalhe na matéria é um detalhe – e é um detalhe mesmo – comparado ao que fez O Globo. A matéria de capa da economia do Globo deste domingo mostra uma foto de Luciano Coutinho – atual presidente do banco – e Marcos Vianna – presidente do BNDES entre 1970 e 1979 – e lista declarações dos dois defendendo a política de subsídios da época de Vianna, que Coutinho parece querer ressuscitar.

Por que isso é tão horrível? Porque não foi feito por distração ou ingenuidade. George Vidor, que assina a matéria no Globo, não é um novato em matérias de economia. Ele listou os argumentos de Coutinho e Vianna sem lembrar de seus contrapontos – devidamente organizados em um dos textos mais conhecidos do país sobre sua História Econômica. O texto, do professor Dionísio Dias Carneiro, da PUC – Rio, mostra os efeitos desse tipo de política, descreve o que aconteceu nos anos 70.

Dionísio, que morreu esta semana, já está fazendo falta.

Para fechar, o box abaixo da matéria do Globo tem a seguinte chamada: “Estrutura do BNDES interessou ao governo Obama”. O box, com bastante espaço, fala sobre como, durante uma viagem de Coutinho a Washington, um assessor do governo de lá fez uma pergunta sobre como o BNDES lidava com a inadimplência.

Livro com o artigo de Dionísio sobre os anos 70.