Sangue

agosto 12, 2008

Alguns esportes são como o circo romano – sem os leões. A disposição do público, pelo menos, parece a mesma.

O que me fez pensar nisso não foi nenhuma luta de boxe ou judoca saíndo de maca do tatame. Foram as menininhas da ginástica olímpica.

Não bastassem as expressões de pânico das ginastas – que aparecem em close na TV – havia a comentarista julgando suas performances:

– Esse salto foi muito baixo, ela deve perder meio ponto.

A apresentação vinha tensa e cheia de comentários duros sobre as menininhas voadoras, até que uma delas, na saída das barras assimétricas, pousou mal e caíu no chão.

– Menos oito décimos – disparou a comentarista.

A câmera mostrou então a pele levantada da mão da menina.

– Arrebentou o calo – disse a comentarista.

O médico da equipe veio estancar o sangue.

– Tem que estancar isso para disputar a próxima prova.

Mas o esdrúxulo, o que ninguém questiona, o que acham normal, é a menina ter aguentado a dor e rodado nas barras assimétricas com a pele da mão saíndo. Isso faz parte do show. Em alguma medida, pelo jeito, isso é o show.

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