A frase acima é o resumo de como boa parte dos economistas vê a decisão entre votar em Serra ou em Dilma. Serra já disse com todas as letras que não vai respeitar a autonomia do Banco Central (e nem sonha em lhe dar independência formal). Para os economistas isso quer dizer juros baixados na marra e caos monetário (inflação).

Dilma definiu sua posição sobre o controle de gastos públicos há muito tempo. Ela puxou o tapete de uma tentativa do então ministro da fazenda Anônio Palocci e do ministro do planejamento, Paulo Bernardo, que queriam criar limites formais para o crescimento da despesa pública. Foi Dilma quem impediu que a proposta fosse adiante.

Na dúvida sobre qual dos delírios é menos pior, eu, que sou assalariado, fico com o caos fiscal (que não corrói meu salário tão rápido quanto o caos monetário). Amigos que trabalham com autônomos ou no setor financeiro (e se defendem melhor da inflação) já me disseram que o caos monetário pode ser menos pior para eles.

Mas o pior mesmo é que – embora essa seja provavelmente a maior diferença entre os dois candidatos, o debate político vai passar longe disso. Na maior parte do tempo, Dilma e Serra estarão na TV sorrindo e discutindo abobrinhas – e não política econômica.

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Bomba! Bomba! A ANJ e a Abert entraram com representações no Ministério Público contra a Empresa Jornalística Econômico (do jornal Brasil Econômico e agora dos impressos do grupo O Dia) e a Terra Networks (do portal Terra) por violação da Constituição Federal. Defendem, por simples dever cívico, a obediência ao mandamento constitucional de que não mais que 30% do capital de empresas jornalísticas e de radiodifusão podem pertencer a estrangeiros. Até gente como o respeitado constitucionalista Luís Roberto Barroso, em entrevista a jornais, revistas e noticiários de TV das Organizações Globo, saiu em defesa da identidade e dos interesses nacionais. Afinal, é bem provável que os Marinho, Civita, Saad, Frias, Abravanel, Mesquita e outros Silvas se desfaçam, talvez logo amanhã pela manhã, de seus negócios pouco produtivos em termos de faturamento e poder, em favor de grandes grupos imperialistas.

Curioso mesmo é lembrar que a mesma ANJ e a mesma Abert boicotaram a Conferência Nacional de Comunicação, em protesto contra a proposta de criação de um Conselho Nacional de Comunicação e de um Conselho Federal de Jornalismo, instâncias de controle social (exercido pela sociedade) dos meios de comunicação e da imprensa. É ver, também, o silêncio ensurdecedor das duas entidades diante de casos pitorescos ocorridos no seio de grandes grupos de comunicação. E recordar que nunca se insurgiram, afora a escandalosa e preocupante questão dos estrangeiros, contra a legalidade da propriedade de vários desses grupos.

Na intenção de colaborar para a atuação sempre em prol da sociedade e da ordem constitucional por parte da ANJ e da Abert, relembremos, então, outros interessantes artigos da Carta Magna. Como no supracitado caso da propriedade estrangeira, esperamos, ansiosos, sua diligente ação.

Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição. (Art. 1º, parágrafo único)

Os Deputados e Senadores não poderão: firmar ou manter contrato com pessoa jurídica de direito público, autarquia, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviço público, salvo quando o contrato obedecer a cláusulas uniformes. (Art. 54, I, a)

Os Deputados e Senadores não poderão: ser proprietários, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contrato com pessoa jurídica de direito público, ou nela exercer função remunerada. (Art. 54, II, a)

A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição. (Art. 220)

Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio. (Art. 220, § 5º)

A Grécia faliu

maio 9, 2010

Pedaço de estátua grega que já viu crises piores - mas não passou bem por elas

A melhor explicação que li até agora para o aumento da instabilidade econômica nos últimos dias está em uma entrevista de Barry Eichengreen – economista da Universidade da Califórnia – publicada hoje no Estadão. Segundo ele, o pacote de ajuda da União Européia e do FMI à Grécia tem um erro crasso: não reconhece que a Grécia está falida, que vai dar calote na dívida.

Mesmo com empréstimos a juros mais baixos, corte de salários, aumento de impostos etc etc, a dívida pública da Grécia – sem calote – continuaria crescendo nos próximos quatro anos – até chegar a 150% do PIB. Este ano, o país deve ter que gastar cerca de 10% do PIB com juros da dívida (enquanto a população aperta o cinto). Muitos países já deram calote em condições menos assustadoras.

O pacote de ajuda podia ter admitido que os credores da dívida também iam ficar com uma parte da conta, podia ter proposto uma maneira organizada de fazer isso. Deixaram passar a chance. Por isso, a crise piorou.

Segundo Eichengreen, a disposição dos alemães para empurrar o pacote de ajuda para depois das eleições de seu país ajudou a complicar as coisas, mostrou uma reação lenta dos responsáveis pela administração do euro, o que contribui para derrubar o valor da moeda. Isso não tem nada a ver com delírios sobre a Grécia abandonar o euro, tem a ver com como a solução para a crise grega não pode depender do calendário eleitoral alemão.

A entrevista completa está no link abaixo.

Eichengreen sobre a Grécia

Ecos do atentado

maio 6, 2010

O atentado frustrado em Times Square, no fim de semana passado, deixou alguns brasileiros chocados. Não exatamente com a iminência de uma explosão no “coração de Nova York”, mas com o preço do Nissan Pathfinder 1993 usado pelo americano-paquistanês Faisal Shahzad para abrigar a bomba caseira. O veículo automático, com 141.000 milhas rodadas (227.000 km), teria sido vendido a Faisal por US$ 1.300, ou R$ 2.275, ao câmbio de hoje (R$ 1,75). No Brasil, embora não se encontre um similar com tanta quilometragem – ao menos declarada -, a brincadeira começa na casa dos R$ 15.000. No site Webmotors, encontra-se um exemplar 1993/1994, com 153.000 km, a incríveis R$ 25.000.

E o mercado de novos?

Nos EUA, um modelo SE 2010 (motor 4.0 a gasolina) tem preço inicial de US$ 30.890 (R$ 54.057). Aqui, um modelo SE 2009 (motor 2.5 a diesel) sai por R$ 120.000 (tabela FIPE).

Um terror!

Centro de Madri num domingo (11 de abril de 2010).

Taxa de desemprego de 20,05% (no Brasil é 7,6%), déficit público alto e governo anunciando cortes de despesas: a crise espanhola – com queda de 3,6% no PIB ano passado – não impede que ruas e restaurantes de Madri fiquem cheios e a população saia sorridente pelo centro para aproveitar os dias de sol.

É uma crise de primeiro mundo.

Há desempregados pedindo dinheiro na rua. Mas eles são bem mais difíceis de encontrar do que, por exemplo, os do centro do Rio de Janeiro. O seguro desemprego alto de lá ajuda a explicar isso. Mas a renda média alta também explica uma parte da história. A economia encolheu 3,6% ano passado, mas a renda per capita continua bem maior que a nossa – e isso faz diferença.

Os países ricos tiveram uma grande perda de riqueza com a crise internacional. Mas isso tem a ver com, por exemplo, o valor dos imóveis de espanhóis, americanos, irlandeses etc. De uma hora para outra, eles viram que esses imóveis não valiam tanto quanto seus preços indicavam. Isso fez as vendas de imóveis novos caírem – e as construtoras demitirem.  Se sentindo mais pobres e – em muitos casos – perdendo o emprego, as pessoas passaram a comprar menos. Nesse cenário a demanda tende a cair, a produção acompanha e a crise se espalha.

Mas, depois de ver Madri colorida e cheia de gente, passei a ter dúvidas sobre o tamanho dessa queda de demanda. O governo está segurando a queda com gasto público – por isso o déficit público disparou. Mas – a olho nú – a economia não parece fraca. Pelo menos não em Madri.

Boa parte das pessoas que trabalhava com construção vai ter que arrumar emprego em outro setor. Vai haver um ajuste estrutural na economia. E isso vai ser lento. Com um seguro desemprego alto, deve ser realmente lento. Mas a economia continua produzindo. A previsão do Eurostat é de uma queda de 0,8% no PIB espanhol este ano – o que ainda os deixará com uma geração de renda per capita muito acima dos padrões daqui.

Sim, há dúvidas sobre a capacidade do governo de manter o déficit público alto por tempo o bastante para que o setor privado se recupere.

Outra coisa que qualquer turista vê na Espanha são os preços altos, bem maiores que os brasileiros. Isso atrapalha a recuperação da economia. Reduzir preços (deflação) não é uma coisa muito fácil – em nenhum lugar do mundo. Aqui, a alternativa seria desvalorizar a moeda. Lá a moeda é o euro, que, de qualquer forma, parece já estar começando a perder valor.