Cuidado com governos que acreditam na própria propaganda

Acreditar é um verbo quase proibido aos jornalistas. “O ministro acredita que…”. Não: o repórter não tem como saber se o ministro acredita ou só está dizendo que acredita. E faz diferença.

Pensei nisso vendo o Boletim do fim do mundo, de Bruno Torturra, ontem, no youtube. Torturra descreve Sergio Moro, Deltan Dallagnol e cia como pessoas que acreditam no que estão fazendo: que acreditam que não há problema em atropelar ritos e processos jurídicos se for “por um bem maior”. E, pior, segundo ele, boa parte dos admiradores de Moro e cia também acredita nisso: em uma espécie bastante agressiva de “os fins justificam os meios”.

Esses admiradores radicais não deixarão de seguir Moro só porque ele violou alguns princípios básicos do Judiciário. Eles até ficam felizes por ele ter violado.

O atual presidente – que aposta em acirrar os ânimos como se ainda estivesse em campanha – condecorou Moro com a Ordem do mérito naval dois dias depois do vazamento com as  instruções e dicas do então juiz à promotoria em um caso que julgava.

No mesmo dia, o governo federal exonerou todos os integrantes do órgão responsável por prevenir e combater a prática de tortura. E decretou que o órgão funcionará apenas com trabalhadores voluntários…

Tento enxergar alguma lógica nesse tipo de medida (que, além dos efeitos destrutivos diretos, aumentam o desgaste com o Congresso e com parte da população) e não consigo. Não faz sentido. A não ser que eles realmente acreditem que é melhor viver em um mundo onde se atropelam os ritos jurídicos e onde se estimula (em vez de reprimir) a prática de tortura. Eu sei, eles dizem esse tipo de coisa desde antes das eleições. Mas podia haver alguma diferença entre o que o que eles alardeavam e em que acreditavam.

Mas não. Parece que eles são mesmo sinceros.

A alternativa era serem cínicos e, entre fanáticos e cínicos, prefiro mil vezes os cínicos: são menos destrutivos.

As grandes tragédias, os grandes genocídios, perseguições e horrores da história da humanidade foram cometidos por pessoas que – até onde dá para dizer – eram muito convictas: eram gente que se comportava de acordo com o que alardeava em sua propaganda.

Não tem a menor chance de isso acabar bem.

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Quais são as saídas?

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Uma falsa sensação de segurança

Há pessoas internadas nos hospitais universitários e pessoas aprendendo a tratar de doentes nas universidades. Os economistas mais liberais aprenderam economia em universidades – e alguns até fizeram coisas boas com o que aprenderam. Talvez nos cursos de psicologia ou na medicina mesmo (na psiquiatria) alguém consiga entender o que vai na cabeça de políticos que cortam – ao nível do inviável – a verba de custeio das universidades federais.

Meu palpite é que é uma mistura de sentimento aristocrático com falsa sensação de segurança. Quem toma medidas muito destrutivas geralmente se julga a salvo dos seus efeitos: só os outros serão atingidos. É uma ideia falsa – além de má. Os mosquitos com chicungunha não respeitam aristocratas (e as pesquisas sobre a doença são feitas em universidades públicas). Políticas públicas de verdade – para resolver problemas de segurança, renda e caos urbano – nascem nas universidades.

O que nos separa das épocas mais pobres do passado é justamente o que aprendemos a fazer: é a tecnologia, a ciência e a cultura que acumulamos nos últimos séculos. Deixar isso de lado é voltar às trevas. Mas algumas pessoas acreditam que as trevas serão só para os outros, que elas estarão a salvo (morando em Miami, talvez).

Minhas referências são um pouco estranhas para essas coisas. Me lembro do Mandarim, de Eça de Queirós, de Fragile, do Sting (“For all those born beneath an angry star/Lest we forget how fragile we are“) e de Adam Smith, com seu livro sobre a empatia e os sentimentos morais.

Sim, falta empatia, falta saber que os pequenos ganhos conseguidos com a desgraça alheia acabam fazendo mal (Eça) e que um mosquito é o suficiente para lembrar aos aristocratas que também são humanos. Falta muita coisa.

Alguns vão sofrer mais do que outros. Mas, do jeito que as coisas vão, se salvar mesmo, acho que ninguém vai.

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Cortem tudo!

 

Tudo que você sempre quis saber sobre o PIB (mas tinha medo de perguntar)

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À venda, na Amazon.

Quando eu trabalhava calculando o PIB, uma das muitas coisas que eu (e a equipe das contas nacionais) não sabia era: o que dar para os novos funcionários lerem quando eles chegavam lá.

Os relatórios metodológicos e manuais tradicionais são inacreditavelmente chatos, são muito burocráticos. Então – enquanto preparava um curso sobre o PIB e os conceitos das contas nacionais – pensei em resolver logo os dois problemas: apresentar o básico que um analista precisa saber sobre o PIB e criar um livro curto e direto, sem muitas firulas, para servir de introdução ao tema.

O resultado – graças às facilidades de publicação da Amazon – é este livro, que está à venda em formato kindle no site da Amazon.

Editei também uma versão em papel em formato pocket (que ainda não consegui deixar disponível no site da Amazon Brasil). Ela pode ser comprada por este link.

A versão impressa – em papel pólen, leve e (modestamente) muito bem editada – também serve como presente para estudantes de economia. Eles têm sempre uma matéria obrigatória de contas nacionais na faculdade e, agora, já podem ler alguma coisa simples e interessante sobre o tema.

Para os não economistas, o livro serve para desfazer os mitos sobre o PIB – como o de que é uma medida de riqueza (não é, é de geração de renda). Como número mais pop da economia, o PIB é citado por muitas pessoas, mas a maior parte delas não sabe muito bem o que ele mede.

Para estudantes de economia e para quem quer saber o que é o PIB

A Amazon não cresce à toa. É, provavelmente, a única editora que fica fustigando as pessoas a escrever e publicar. Semana passada, recebi um e-mail de seu serviço de publicação (kindle direct publishing) sobre sua nova ferramenta de edição (que torna mais fácil formatar textos com tabelas e gráficos).

Formatei então o pequeno manual que fiz para um curso de contas nacionais. A versão impressa ficou com 100 páginas em formato pocket. A versão kindle ficou com 4352KB – o que quer que isso signifique. Deve ser o único livro de contas nacionais de bolso.

Ele tem o básico – e tenta desfazer os mitos sobre o PIB. O PIB não é uma medida de riqueza (é de renda), o PIB não mede produção (mede valor adicionado), o PIB não foi feito para medir bem estar social (para isso, há outros indicadores), o PIB não é ruim (há quem diga que é, mas medir a renda não é ruim, é produzir informação).

Incluí no texto dois boxes com códigos de R usados para fazer o ajuste dos dados do PIB trimestral ao anual e para fazer ajuste sazonal (do jeito que é feito nas Contas nacionais). Para quem é estudante de economia, as definições e tabelas com exemplos devem ser a parte mais útil do texto. Para quem só quer não repetir as besteiras que todo mundo diz sobre o PIB, os três primeiros capítulos já são mais que o suficiente.

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Como alguns economistas ficam maus?

Como alguns economistas ficam maus?

A dúvida não é por quê, mas como: o que acontece com eles para querer reduzir as pensões de viúvas e órfãos ou para pensarem em baixar para R$ 400 o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS) de boa parte dos velhinhos sem dinheiro que hoje têm direito a ele?

Este romance é a história de uma economista assim.

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Prática, mais do que teoria.

 

 

Não matarás

Não sou religioso. Mas sempre levei a sério o sexto mandamento, o não matarás. É um principio básico de civilização: não dá para viver com muita gente por perto sem ele.

Ele é também um sinal de honestidade e humildade: nenhuma certeza, nenhuma convicção, nenhum rolex de ouro vale a vida de uma pessoa.

Mas me espanta ver religiosos (dos mais diversos credos) deixando de lado o não matarás. Eles idolatram um político que diz justamente: “Matarei!” e diz também: “A polícia matará” e diz: “Eu defendo valores cristãos”.

Não, não defende.

E se o não matarás – além de lei enviada por Deus – é também um princípio básico de civilização, então…

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Morte – México, Museu de Antropologia.

De volta à selva?

Darwin não tem culpa. Ele só descreveu o processo, não inventou o que aconteceu conosco. E o que aconteceu foi bom: conseguimos criar cidades, normas éticas, maneiras de viver muito melhores que as dos primeiros humanos (que tinham que caçar e, eventualmente, fugir de leões para sobreviver).

Só que nosso corpo não mudou muito desde o surgimento do primeiro homo sapiens. Nossos instintos e reações básicas são os de um caçador (e, eventualmente, de caça em potencial). Sentimos raiva e medo. E isso nos ajudaria a atacar ou a fugir de um animal selvagem – mas atrapalha muito quando vivemos em uma cidade densa esbarrando (tão educadamente quanto possível) em nossos vizinhos.

Ao longo dos séculos, no entanto, temos conseguido (em alguma medida) controlar nossos instintos mais apavorados e agressivos.

Há períodos, é claro, em que é mais difícil. Mas se adotarmos o padrão de comportamento da selva, acabaremos voltando para ela. Voltaremos a uma vida que o filósofo Thomas Hobbes chamou de estado natural – e descreveu como “solitária, pobre, sórdida, bruta e curta”.

Precisamos respirar fundo e, educadamente, falar. Falar até com os humanos mais detestáveis, porque, fora da selva, rugir, pular em pescoços ou sair atirando não vai resolver problema nenhum.

Na cidade, na civilização, no mundo do auto-controle, temos mais ferramentas para lidar com qualquer problema. E, ao longo da História, já saímos de várias crises de formas civilizadas. Temos a capacidade física de fazer isso (não só a de replicar os primeiros homo sapiens). A dúvida é se vamos fazer ou não.

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Respirem profunda e lentamente.