Livro de graça na Amazon

novembro 20, 2018

Está de graça, na Amazon, o livro que escrevi para o Prêmio Kindle de Literatura do ano passado (que não ganhei).

O livro é a história de uma estudante de economia que, depois de participar de uma boa quantidade de projetos e situações surreais na empresa onde trabalha, se convence de que vendeu seu tempo ao diabo.

Ela não é exatamente a bondade em pessoa, mas se assusta quando se dá conta do que está fazendo.

A versão grátis do livro é para kindle (e também pode ser lida em celulares, tablets e computadores).

Para quem preferir, há uma versão impressa – com capa fosca e papel creme – que atende a todos os caprichos de quem gosta do bom e velho livro em papel.

A versão impressa, no entanto, ainda não está a venda no site da Amazon Brasil. Na Amazon EUA, neste link, o livro pode ser comprado por US$ 4,95 (+ frete).

O site da Amazon só deixa a versão kindle com preço zero por cinco dias, quer dizer, até o dia 24/11.

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Não é o Harry Potter (mas vale a pena).

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Não matarás

outubro 12, 2018

Não sou religioso. Mas sempre levei a sério o sexto mandamento, o não matarás. É um principio básico de civilização: não dá para viver com muita gente por perto sem ele.

Ele é também um sinal de honestidade e humildade: nenhuma certeza, nenhuma convicção, nenhum rolex de ouro vale a vida de uma pessoa.

Mas me espanta ver religiosos (dos mais diversos credos) deixando de lado o não matarás. Eles idolatram um político que diz justamente: “Matarei!” e diz também: “A polícia matará” e diz: “Eu defendo valores cristãos”.

Não, não defende.

E se o não matarás – além de lei enviada por Deus – é também um princípio básico de civilização, então…

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Morte – México, Museu de Antropologia.

De volta à selva?

outubro 10, 2018

Darwin não tem culpa. Ele só descreveu o processo, não inventou o que aconteceu conosco. E o que aconteceu foi bom: conseguimos criar cidades, normas éticas, maneiras de viver muito melhores que as dos primeiros humanos (que tinham que caçar e, eventualmente, fugir de leões para sobreviver).

Só que nosso corpo não mudou muito desde o surgimento do primeiro homo sapiens. Nossos instintos e reações básicas são os de um caçador (e, eventualmente, de caça em potencial). Sentimos raiva e medo. E isso nos ajudaria a atacar ou a fugir de um animal selvagem – mas atrapalha muito quando vivemos em uma cidade densa esbarrando (tão educadamente quanto possível) em nossos vizinhos.

Ao longo dos séculos, no entanto, temos conseguido (em alguma medida) controlar nossos instintos mais apavorados e agressivos.

Há períodos, é claro, em que é mais difícil. Mas se adotarmos o padrão de comportamento da selva, acabaremos voltando para ela. Voltaremos a uma vida que o filósofo Thomas Hobbes chamou de estado natural – e descreveu como “solitária, pobre, sórdida, bruta e curta”.

Precisamos respirar fundo e, educadamente, falar. Falar até com os humanos mais detestáveis, porque, fora da selva, rugir, pular em pescoços ou sair atirando não vai resolver problema nenhum.

Na cidade, na civilização, no mundo do auto-controle, temos mais ferramentas para lidar com qualquer problema. E, ao longo da História, já saímos de várias crises de formas civilizadas. Temos a capacidade física de fazer isso (não só a de replicar os primeiros homo sapiens). A dúvida é se vamos fazer ou não.

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Respirem profunda e lentamente.

4% para a saúde

setembro 7, 2018

O governo gasta, com saúde pública, menos de 4% do PIB: 3,9% (incluindo hospitais militares, hospitais universitários e medicamentos distribuídos – e o SUS inteiro, claro).

É um pouco irritante ver candidatos e assessores de candidatos citarem números errados para tentar vender seus programas. Paulo Guedes, candidato a czar econômico de um dos candidatos a presidente, disse, em entrevista ao jornal El País, que o governo gasta 5% do PIB com saúde e 6% com educação. Seria pouco se fosse isso, especialmente com saúde, mas é menos ainda.

Custa usar o número certo?

O site do IBGE tem, além do PIB, o consumo do governo: o gasto do governo para produzir serviços públicos e para comprar os bens serviços que põe a disposição do público (como os serviços de santas casas conveniadas ao SUS). Com saúde o governo gasta 3,9% do PIB, com educação, 4,8%.

Quem gosta de comparações internacionais pode ver no site da OECD quanto os países com bons níveis de educação e saúde gastam com cada um (o dado de gasto com saúde no Brasil, no site da OECD, está defasado, parece ainda menor do que é).

Candidatos, discutam com os números certos.

Só para registro: o consumo do governo, em 2017, foi equivalente a 20,0% do PIB. Quer dizer: além dos menos de 9% gastos com educação e saúde, o governo gastou 11% do PIB com segurança, legislativo, judiciário, regulação, defesa e tudo mais que o governo produz. De novo, não é muito comparando a outros países, não justifica políticas que cortam a prestação de serviço público para economizar recursos.

O governo gasta mais de 40% do PIB, mas a maior parte disso não é gasta com serviço público é gasta com transferências (juros, aposentadorias, pensões, programas assistenciais e afins): é dinheiro redistribuído.

Para falar em corte de gastos, é preciso deixar absolutamente claro com o que se gasta.

Com saúde e educação, o governo gasta pouco, devia gastar mais.

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Temas espinhentos?

 

Cadê o TSE?

julho 23, 2018

Abaixo, os altos de página do Globo e Folha, exatamente como estão nos respectivos sites, agora, às 22h de domingo, dia 22 de julho.

A desproporção do espaço dado a Bolsonaro não é de hoje. Os jornais nunca deram um décimo desse espaço para Marina Silva. Nem para Geraldo Alckmin dão todo esse espaço.

Não adianta dizer que é para falar mal. Foi falando mal – e dando um espaço grátis impressionante em suas capas e programas de TV – que a imprensa americana ajudou a eleger Donald Trump.

Não havia uma lei sobre igualdade de espaço para candidatos na imprensa em tempos de eleição?

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É difícil defender redução de direitos trabalhistas e previdenciários ao mesmo tempo em que se defende a manutenção de isenções fiscais e de descontos de imposto para as maiores empresas do país.

O pato amarelo da Fiesp é isso: é a defesa – explícita e meio enfeitada – das reduções de imposto que alguma das maiores empresas do país conseguiram no apagar das luzes do primeiro governo Dilma.

Por que preservar a Fiesp e cortar direitos de futuros aposentados?

Eu sei: a tendência do déficit da previdência é crescer à medida que a população envelhece e, para que não fique explosivo, vai ser preciso mudar as regras. As mudanças de regras, na prática, só farão alguma diferença no longo prazo.

Eu sei também que é preciso discutir que mudanças fazer, que aumentar a idade mínima é razoável (porque as pessoas estão vivendo mais), mas aumentar o tempo mínimo de contribuição é regressivo, porque pune as pessoas que não conseguem ficar muitas décadas em empregos com carteira assinada: pune os mais frágeis.

Então, não dá para aprovar qualquer coisa.

Mas a reforma seria mais palatável se, ao mesmo tempo em que se cortam direitos previdenciários fixados em lei para a população, se cortassem as isenções tributárias concedidas em ano eleitoral a empresas que estão longe de precisar de caridade do Tesouro Nacional.

Se é para fazer as cosias direito, vamos começar assando o pato amarelo?

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Pato do imperador: assado no Egito, em 5.000 AC.

O PIB é pop

junho 9, 2017

Há toda uma geração de economistas que não leu Adam Smith – e que também não sabe o que é PIB.

Smith se encaixa na definição de clássico: é o autor que todo mundo cita e ninguém conhece direito.

Com o PIB é parecido: alguns odeiam, outros usam como denominador em um monte de contas, mas pouca gente sabe bem o que ele é.

Só para registro: ele é uma medida de geração de renda. O PIB não é “a soma de tudo que é produzido”, não é “a medida da riqueza do país” e muito menos “a soma das riquezas produzidas”.

Ele pode ser calculado de três maneiras diferentes (mas todas dão o mesmo resultado) e, ao longo do tempo, virou uma espécie de denominador universal para números grandes: o consumo, os impostos e até o valor dos empréstimos do BNDES são apresentados como percentual do PIB.

Nem sempre a divisão de alguma coisa pelo PIB faz sentido, mas ela normalmente dá uma ideia de ordem de grandeza.

Bom, para tentar explicar a um grupo ainda não muito definido de alunos o que é o PIB e como ele é calculado, preparei  o texto neste link (que não custa deixar aberto a quem se interessar). O texto vem com várias tabelas ilustrativas, com os dados das últimas contas nacionais anuais que o IBGE publicou.

Além de falar do PIB anual, o texto mostra um pouco das contas que levam ao PIB trimestral, objeto de culto em consultorias e em áreas de pesquisa de bancos.

Há um capítulo também (é pequeno) sobre contas de meio ambiente e um sobre classificações e definições (para quem sofre de insônia).

Se alguém ler até o fim, por favor, escreva avisando.

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Pavão: classificado como parte da Agropecuária.

PS. O curioso é que várias definições das contas nacionais já apareciam no Riqueza das Nações, de Adam Smith. Algumas, como a formação de capital (investimento), já aparecem até com o nome que ficou nas contas nacionais.

A crise da economia brasileira não tem a ver só com queda de arrecadação, tem a ver também com despesas crescentes. O governo Dilma falhou por não reconhecer isso. E, sem reconhecer o problema, não há como trata-lo.

A dúvida agora é se o governo Temer (cada vez mais provável) vai tentar resolver problemas como o do defict da previdência. Se não resolver, sofrerá, até 2018, o mesmo desgaste enfrentado pelo governo Dilma.

A situação das contas públicas chegou a um ponto em que não é possível postergar ajustes – embora Dilma ainda tente posterga-los. Até 2008, ainda havia algum controle sobre a relação entre a dívida pública e o PIB. Mas, depois da crise de 2008/2009, o governo abandonou a contenção de gastos em nome de políticas de incentivo à demanda. Hoje, o Estado gasta crescentemente mais do que arrecada (e se endivida a taxas altas). Será preciso ajustar novamente a despesa à receita.

Parte do ajuste será via inflação (não corrigindo os salários dos funcionários públicos, por exemplo), parte terá que ser contenção do crescimento de itens como a previdência social.

O curioso é que, embora arrecade cerca de 34% do PIB em impostos (e gaste mais de 40%) o governo consome menos de 20% do PIB com a prestação de serviços públicos. O resto são transferências, são itens como juros, previdência e programas sociais (que crescem automaticamente, puxados pela dívida pública e pela demografia).

Algum ajuste virá, nem que seja um involuntário, com calotes e alta da inflação. Será melhor se o governo conseguir entregar um ajuste organizado, um ajuste intencional e bem planejado.

Nas últimas décadas tivemos ajustes de diferentes tipos: tivemos o Plano Real (que adotou a máxima do equilíbrio fiscal para conter a inflação), tivemos os ajustes dos anos 80 (que, sem a parte fiscal, foram paliativos e ineficientes) e tivemos o Plano Collor (um confisco temporário que deixou sequelas até hoje em muitos antigos poupadores).

Se servir como estímulo para os formuladores da política econômica de Temer, vale a pena lembrar que o efeito político desses ajustes foi o seguinte: o Plano Real elegeu um presidente, os ajustes do governo Sarney tiraram do PMDB a chance de se firmar como amplamente majoritário após o fim da ditadura. O Plano Collor levou ao impeachment de seu autor.

Assutador

Crise econômica. México, museu de antropologia.

Só este mês, conversei com cinco pessoas diferentes que receberam cartas ameaçadoras do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro. São pessoas formadas em economia mas que não ocupam cargos de “economista”, fazem trabalhos que também são feitos por engenheiros, matemáticos e afins.

Para o conselho, elas exercem ilegalmente a economia e devem ser processadas por isso.

Algumas já responderam ao conselho dizendo que não exercem a profissão – e receberam novas cartas com prazos para “regularizar sua situação” e pagar anuidades (ou responder a processos caso não façam isso).

O conselho, involuntariamente, aponta para uma das poucas coisas que o governo poderia fazer para melhorar o nível de eficiência da economia e mostrar luz no fim do túnel para país. Para aumentar a eficiência no uso dos recursos escaços do país, faria bem cortar custos que não trazem nenhum benefício.

A solução é fechar os conselhos regionais de economia.

Os conselhos – dizendo representar os economistas – protestariam contra a medida. Mas economista nenhum seria contra, até por uma questão de coerência com os livros de microeconomia.

O poder de lobby do conselho seria apenas o de sua diretoria, porque seus “representados” ficariam muito felizes por não ter mais que pagar anuidades caras em troca de nada: em troca de de receber um jornalzinho mal impresso de vez em quando.

Conselhos profissionais que não produzem nada (alguém sabe o que o conselho de economia faz? e o de administração?) são um peso morto: custo Brasil, dinheiro tomado de quem produz para enriquecer os “diretores” de uma espécie de cartório.

Se o governo quer propor medidas que tornam o país mais eficiente e não envolvem aumento do gasto público, essa devia ser a primeira: ela aumenta a eficiência da economia, diminui a insatisfação de todos os que recebem ameaças pelo correio para se filiar e ainda sinaliza que o governo, finalmente, teria uma agenda para diminuir a burocracia e o cartorialismo do país (e uma agenda bem vista pela população).

"É um absurdo! Sem o que recebo como diretora do conselho como vou pagar meus vestidos? E meus chapéus?!"

“É um absurdo! Sem o que recebo como diretora do conselho como vou pagar meus vestidos? E meus chapéus?!”

Eu também sou candidato a deputado. Nada mais justo. Primeiro: eu não pretendo fazer coisa alguma pela pátria, pela família, pela humanidade.

Um deputado que quisesse fazer qualquer coisa dessas, ver-se-ia bambo, pois teria, certamente, os duzentos e tantos espíritos dos seus colegas contra ele.

Contra as suas ideias levantar-se-iam duas centenas de pessoas do mais profundo bom senso.

Assim, para poder fazer alguma coisa útil, não farei coisa alguma, a não ser receber o subsídio.

Eis aí em que vai consistir o máximo da minha ação parlamentar, caso o preclaro eleitorado sufrague o meu nome nas urnas.

Recebendo os três contos mensais, darei mais conforto à mu­lher e aos filhos, ficando mais generoso nas facadas aos amigos.

Desde que minha mulher e os meus filhos passem melhor de cama, mesa e roupas, a humanidade ganha. Ganha, porque, sendo eles parcelas da humanidade, a sua situação melhorando, essa melhoria reflete sobre o todo de que fazem parte.

Concordarão os nossos leitores e prováveis eleitores, que o meu propósito é lógico e as razões apontadas para justificar a minha candidatura são bastante ponderosas.

De resto, acresce que nada sei da história social, política e intelectual do país; que nada sei da sua geografia; que nada entendo de ciências sociais e próximas, para que o no­bre eleitorado veja bem que vou dar um excelente deputado.

Há ainda um poderoso motivo, que, na minha consciência, pesa para dar este cansado passo de vir solicitar dos meus compatriotas atenção para o meu obscuro nome.

Ando mal vestido e tenho uma grande vocação para elegâncias.

O subsídio, meus senhores, viria dar-me elementos para realizar essa minha velha aspiração de emparelhar-me com a deschanelesca elegância do senhor Carlos Peixoto.

Confesso também que, quando passo pela Rua do Passeio e outras do Catete, alta noite, a minha modesta vaga­bundagem é atraída para certas casas cheias de luzes, com carros e automóveis à porta, janelas com cortinas ricas, de onde jorram gargalhadas femininas, mais ou menos falsas.

Um tal espetáculo é por demais tentador, para a minha imaginação; e, eu desejo ser deputado para gozar esse paraíso de Maomé sem passar pela algidez da sepultura.

Razões tão ponderosas e justas, creio, até agora, nenhum candidato apresentou, e espero da clarividência dos homens livres e orientados o sufrágio do meu humilde nome, para ocupar uma cadeira de deputado, por qualquer Estado, pr­víncia, ou emirado, porque, nesse ponto, não faço questão alguma.

Às urnas.

Correio da Noite, Rio de Janeiro, 16/1/1915

Afonso Henriques de Lima Barreto

 

Meu candidato.

Como diria Lima Barreto: já se vão 100 anos e os candidatos continuam iguaizinhos…

Meu velho professor de História dizia – assumindo a supersimplificação – que os comunistas prezavam mais a igualdade que a liberdade e a eficiência. Os liberais: punham a liberdade em primeiro e os fascistas, a eficiência, bem à frente de liberdade e igualdade.  

Aécio Neves e Eduardo Campos, candidatos da oposição ao governo, são hoje assessorados por economistas liberais. Bons economistas, bons liberais, algum dia já leram a definição de liberdade do ultra-liberal Friedrich Hayek.

Segundo Hayek, há liberdade quando existe um conjunto de regras, definido de forma relativamente consensual, e as pessoas podem fazer o que acharem melhor desde que não desrespeitem essas regras. Importante: as regras valem para todos e não podem ficar condicionadas à vontade de uma pessoa (o governante não pode passar por cima da lei).

Quando o governo começa a atropelar leis (especialmente as sobre garantias constitucionais e direitos civis) os liberais devem ser os primeiros a gritar (e a oposição liberal, a primeira entre os primeiros).

Mas isso não está acontecendo. O silêncio de Aécio e Campos é ensurdecedor. 

Seus assessores econômicos também seguem quietos. 

Se continuarem assim, correm o risco de provar que não são liberais, são meros conservadores.

Se não acreditam que o debate aberto pode mudar o modo como pensam eleitores conservadores (e têm medo de perder seus votos), então são candidatos (e assessores) sem esperança de mudar o que quer que seja. Não deviam se apresentar como oposição.

Liberada a campanha eleitoral, os candidatos à Presidência falam sobre tudo, da Copa aos médicos cubanos, da taxa de juros à vida em família. O curioso é que não tenham a mínima vontade de comentar as prisões de ativistas no Rio de Janeiro sob acusação de pensar em cometer crimes e atrapalhar investigações que duram mais de sete meses (e que, aparentemente, não haviam sido atrapalhadas até agora).

Não importa que uma seja ex-guerrilheira, outro neto de governador deposto e o terceiro se venda como herdeiro de figura-chave da redemocratização (e ainda uma candidata a vice que, empolgada, chegou a comparar as manifestações do ano passado à Primavera Árabe).

Agora, ninguém quer falar do assunto, não se sabe se para manter a afinação com o discurso dos meios de comunicação ou para não desagradar o eleitorado conservador, que, aparentemente, é o fiel da balança das eleições deste ano.

Tente perguntar: Dilma, Aécio, Eduardo, Marina.

Frase mais bizarra que li nos últimos anos: publicada hoje no site do jornal O Dia:

De acordo com os ex-ocupantes, o Conselho Tutelar passou, neste sábado, em frente à Prefeitura para recolher as crianças e levá-las para abrigos , mas advogados voluntários entraram com um pedido de habeas corpus coletivo no plantão do Judiciário para evitar que as crianças fossem levadas. O pedido foi concedido.”

O cena aconteceu porque cerca de 2 mil pessoas desalojadas da Favela da OI, no Engenho Novo, estão acampadas em frente à prefeitura do Rio de Janeiro. O governo quer que elas saiam.

Antes da tentativa de tomar os filhos de seus pais, o secretário municipal de Assistência Social Adilson Pires propôs que os acampados fossem até a sede da guarda municipal para serem “cadastrados”. Eles, obviamente, se recusaram.

Mulheres e criança se protegem de gás lacrimogêneo lançado pela guarda municipal - passarela do Metrô em frente à prefeitura, Rio de Janeiro, 14/04/2014.

Mulheres e criança se protegem de gás lacrimogêneo lançado pela guarda municipal – passarela do Metrô em frente à prefeitura, Rio de Janeiro, 14/04/2014.

 

Pequenos protestos 2

fevereiro 6, 2014

A mascara de Guy Fawkes não está mais na vitrine da Saraiva, no Edifício Avenida Central. Alguém deve ter comprado a revistinha cara (R$ 79,21) que vinha com o V de Vingança anexo.

Mas o responsável pela vitrine não bobeou. Agora, quem passa por lá pode ver uma boa edição de Walden e Desobediência Civil, os dois clássicos de Henry David Thoreau em um volume só, na vitrine.

E, melhor, se a mascara com revistinha era cara, o clássico anarquista americano – no original em inglês – sai por R$ 24,90: até um professor de inglês de escola estadual pode comprar.

O pequeno protesto é duas vezes bom: além de lembrar que simplesmente não fazer o que o Estado manda é uma das formas mais eficientes de revolta, a vitrine ainda nos lembra que livro brasileiro é caro e que comprar o importado ajuda a enfraquecer o oligopólio das editoras tupiniquins.

Mas, sim, é só para quem fala inglês.

Se o perfil dos manifestantes for mesmo o de estudantes de faculdade – como o prefeito do Rio aposta – a Saraiva pode ter mirado bem dessa vez.

PS.: Para quem não está no Rio: ao anunciar o aumento das passagens de ônibus para o próximo dia 8, o prefeito estendeu a gratuidade dos aposentados para os estudantes de faculdade – achando que assim ia estancar as revoltas e protestos contra o aumento. Ideia tosca: os universitários lêem Thoreau. Eu mesmo só não vou lá comprar uma cópia porque já tenho uma.

Thoreau, com leitores  desde 1854.

Thoreau, com leitores desde 1854.

– Quem tem casa vive melhor – explica uma voz em off  a um menino, na propaganda do Banco do Brasil.

– Ah, entendi – diz o menino.

Mas ele poderia dizer alguma coisa como:

– Então porque quase todo mundo no mercado financeiro mora em apartamento alugado? Por que na Suíça mais da metade das pessoas mora em imóveis alugados? Na Alemanha, na Suécia e em Luxemburgo mais de um quarto da população vive em alugados.

O locutor o ignoraria e continuaria com o texto piegas, tipo minha casa minha vida:

– Porque para o Banco do Brasil não tem que ser bom só para a gente, tem que ser bom para você também.

O menininho, revoltado, gritaria:

– Você está dizendo que é bom para mim pegar um empréstimo monstruoso para comprar imóvel no auge de uma bolha de preços? E ainda em uma época de alta de juros?  Isso é uma campanha de deseducação financeira? Você está fazendo propaganda de banco, de programas do governo ou de produtos de construtora? Não tem nenhum órgão público que te multe por mentir em campanha publicitária?

– Um ano novo bom para todos! – responderia a voz em off.

BB, te ajudando a pagar centenas de milhares de reais por uma casinha (que você não devia comprar agora).

BB, te ajudando a pagar centenas de milhares de reais por uma casinha (que você não devia comprar agora).

O PIB na TV

dezembro 4, 2013

A GloboNews deu hoje uma aula de como confundir um telespectador. Para comentar a queda de 0,5% do PIB no terceiro trimestre, o programa Conta Corrente convidou um funcionário da consultoria Luciano Coutinho e Associados (LCA) que – sem nenhum questionamento do apresentador do programa – transformou a má notícia em um sinal de que o governo é bom e está fazendo as coisas certas.

O entrevistado começou criticando os chutes de número – sempre errados – do ministro da Fazenda (mas não os da presidente da República, muito mais graves).

Na sequência, inventou um motivo para a queda dos investimentos (de 2,2% no trimestre):

– Foram as passeatas. Elas tiraram a confiança dos investidores.

Não fosse a ânsia em culpar a oposição pelo resultado ruim, talvez o entrevistado se desse conta de que, pelo lado da demanda, o investimento é o que deve fechar o ano com maior crescimento. Ele cresceu 7,3% na comparação com o 3° trimestre de 2012. Mas, como havia crescido mais de 9% no segundo trimestre (na comparação com o segundo de 2012), teve queda entre o segundo e o terceiro.

Quer dizer: os investimentos não estão crescendo pouco. Não há porque fazer acusações às passeatas. Não são elas que mantêm o crescimento do PIB nos níveis (baixos) em que tem estado.

Bom, o funcionário da Luciano Coutinho e Associados continuou: segundo ele, o governo se preocupa demais com o PIB. Ele disse isso como crítica ao ministro da Fazenda, mas logo generalizou: “o PIB é como uma pintura impressionista, não é para ser olhado com tanto detalhe”. Me lembrou os felicitólogos, aqueles que, sempre que o PIB cai, dizem que não devemos olhar para o PIB, mas para “indicadores de felicidade” e outras abobrinhas.

Em país pobre, mais que em qualquer lugar, o crescimento da renda (quer dizer, do PIB)  é, sim, muito importante.

A conclusão do consultor foi que o importante é olhar para “a qualidade do crescimento”.

– E o que é olhar para a qualidade do crescimento ? – levantou a bola Donny de Nuccio, o apresentador coxinha.

– É investir em infra-estrutura, o que, demos a mão à palmatória, o governo já está fazendo! – respondeu o funcionário da LCA.

Ou seja: o PIB vai mal, mas o país vai bem. Lembrou Médici, com seu fatídico “O Brasil vai bem mas os brasileiros vão mal”.

Quando ele culpou as passeatas pelo número negativo do investimento, me lembrou o sucessor de Médici – Geisel – que costumava culpar a oposição por suas decisões de fechar o regime. Para ele, a oposição devia ficar quieta, esperando a abertura política como uma benção do general-presidente. Se se manifestasse, devia ser reprimida.

No Jornal Nacional (mesmo com menos tempo de matéria), também tentaram empurrar para as passeatas a culpa por um crescimento menor. Se lessem os números direito, veriam que dá para defender o governo sem apelar para erros tão grosseiros.

Quadro impressionista, que não tem nada a ver com o PIB.

Quadro impressionista, que não tem nada a ver com o PIB.

O conselho do Globo

outubro 17, 2013

A primeira página do Globo de hoje é de tirar o fôlego. Um soco no estômago, um tapa na cara e todas as agressões figuradas a que se possa recorrer, mas, sobretudo, uma declaração de guerra ao leitor e ao jornalismo. Numa só manchete, o jornal destroça a literatura, a prosopopeia, a lógica, o direito e a ideologia. Mesmo em tempos de gás de pimenta, Amarildos, flagrantes forjados e prisões para averiguação, e uma fileirinha de homens e mulheres de bem a aplaudir atrás, é preciso coçar os olhos para crer estar diante do quadro fantástico pintado: Dostoiévski, uma lei dobrada sob o braço, a conduzir 70 criminosos ao cárcere. A caracterização geral dos detidos como vândalos já não é mais presunção amparada pelas notórias perícia e diligência policiais; é confissão despudorada de um jornal que amanheceu nesta quinta, 17 de outubro, metamorfoseado num inseto monstruoso. Era mais divertido antes, procurar um viés aqui e ali, disfarçado, ainda que mal e porcamente. Essa primeira página de hoje é outra coisa. É para guardar e mostrar ao filho um dia: “Eu te amo, mas ser jornalista, não.”

Uma pintura surrealista.

Uma pintura surrealista.

A grande preocupação dos governos (federal, estadual e municipal) hoje é a fachada. Vivemos sob um governo de aparências: se não sai na TV, não aconteceu.

É por isso que a nova lei municipal do Rio de Janeiro para a educação premia a “produtividade” dos professores. A produtividade é medida pelo número de aprovações. Assim, paga-se mais aos professores se aprovarem alunos ruins. O resultado: a melhora nos índices de aprovação nas escolas municipais.

No Estado, a polícia tentou, por três meses, esconder que torturou e matou um auxiliar de pedreiro que não queria dar informações na Unidade Pacificadora da Rocinha. Só depois de três meses de pressão, saiu na TV o que antes se falava em voz baixa.

Sem a pressão, o caso teria sido esquecido, quer dizer, não sairia na TV e não afetaria a “imagem” do governo. Os outros (muitos) casos similares, não aconteceram, não estão na TV.

No Governo Federal, os dados do Tesouro Nacional incluem uma coletânea de operações esdrúxulas de compras, vendas e empréstimos que disfarçam – mal – o descasamento entre receita e despesa, quer dizer, o aumento do déficit nas contas públicas. Além de ignorar a violência e o desrespeito aos direitos humanos no Rio de Janeiro, o governo Dilma, finge que não vê uma das principais causas dos protestos: a alta, persistente, dos preços no país.

Dilma levou para o IPEA, e depois para o cargo de ministro da Secretaria de Assuntos Especiais, um conhecido marqueteiro, o professor Marcelo Neri. Há quase 20 anos, Neri repete que estamos no melhor dos mundos possíveis, que o Brasil melhora sem parar, que nada pode dar errado. Neri é um especialista em pintar a fachada de rosa. Não à toa virou ministro tão rápido.

Mas se fosse só isso, tudo bem. O problema é que por trás da fachada, a situação está degenerando mais rápido do que esperávamos. O governo – em parte acreditando na própria propaganda – não dá sinais de se preocupar com o descontentamento da população. E, ao mesmo tempo, aprova as leis que estão sendo usadas para mandar para o presídio de Bangu perigosos manifestantes acusados de formar quadrilhas para cometer o horrendo crime de ocupar praças.

Hoje, o jornal O Globo publica as fotos de alguns desses perigosos ocupadores de praças. Ele as estampa na capa como se fossem de terroristas, do tipo que mata gente ou sequestra embaixador. As fotos, na capa do jornal, estão sob o “vândalos” da manchete.

Sim: lei de exceção, mais de 1.500 policiais para reprimir um protesto e um jornal oficial para aplaudir. Tudo isso enquanto o governo jura que está tudo bem: “pra frente Brasil!”.  Parece familiar?

Um fotógrafo que cobria o protesto de terça-feira foi preso e autuado por incêndio criminoso, roubo, depredação do patrimônio público e formação de quadrilha. Ele é um dos 70 “vândalos” cujo envio a Bangu O Globo comemora em sua capa.

Não dá  para fingir que não está acontecendo nada.

Cabral. A volta do "prendo e arrebento"?

Cabral. A volta do “prendo e arrebento”?

GárgulaFalar mal da Globo todo mundo sempre falou. Entre os editores executivos da emissora, há um que passou toda a faculdade fazendo discursos contra ela (eu estava lá, eu vi).

Mas só podia falar mal com convicção quem tinha visto de perto uma notícia distorcida ou, no máximo, quem tinha lido “pesquisas” de intenção de voto que acabaram muito longe dos resultados eleitorais. Mesmo nesses casos, sempre aparecia um colunista de jornal com uma explicação perfeitamente razoável para a diferença entre os números publicados e a votação.

Esta semana, um colunista da Veja e uma editora do Globo se esforçaram ao máximo para atacar a última novidade na cobertura de protestos: a mídia Ninja. Na Veja, um colunista supostamente liberal mostrou que é, isso sim, um conservador. No Globo, foi Cora Rónai – uma quase-sócia do jornal – quem atacou os ninjas.

Mas por que eles se incomodam? Por que pessoas que falam em nome de grandes empresas de jornalismo se preocupam em atacar os ninjas?

Não é por se sentirem ameaçadas. Longe disso. Elas estão seguras, com bons salários – que vêm de grandes bolos de publicidade oficial em empresas que estão longe de falir. Não é por medo.

Então por quê?

Pela desmoralização.

A novidade dos ninjas foi mostrar, ao vivo e sem cortes, o que acontece durante os protestos: mostrar a violência policial, os choques com arma amarela, a maneira como a policia “dispersa” as pessoas, as falsas acusações contra manifestantes, enfim, mostrar o que TV aberta (e a cabo) e os jornais de cobertura nacional não mostram.

Quem vê os vídeos dos ninjas pode – como quem estava no meio da passeata – dizer que a imprensa cobriu mal, que não mostrou a repressão policial, que foi viesada ao mostrar 20 pessoas quebrando vidraças em vez de 500 mil protestando pacificamente (e, depois fugindo, desesperadamente, de tiros e bombas disparados por funcionários públicos).

Enfim, os ninjas deram material para o publico ver como o jornal tradicional é tendencioso no Brasil (como vovó já dizia, mas agora com muitas provas).

Foi isso que irritou os jornalões. É por isso que se esforçam para atacar os independentes e põem em campo sua tropa de repórteres para procurar o cantor que se sentiu enganado em um show (entre centenas) promovido pelo grupo Fora do Eixo – que apóia os ninjas. É por isso que tentam associa-los a grupos políticos, por isso que tentam, de qualquer jeito, desmoraliza-los.

Mas vídeo ao vivo e sem cortes – de vários ângulos, de várias câmeras – sempre vai ser mais confiável que notinha de colunista de jornal.

Isso é meio óbvio, eu sei. Mas não custa repetir.

Recomendada pelo oriente e pelos humoristas nacionais: Muita calma nessa hora.

Recomendada pelo oriente e pelos humoristas nacionais: muita calma nessa hora.

Bem vindo à ditadura

julho 24, 2013

Espero que o saldo deter mais de um milhão de turistas convivendo com cariocas por uma semana seja que eles possam levar para casa o recado de que o Brasil é uma ditadura policial.

Um lugar onde pessoas são presas sem acusação, um manifestante caído é eletrocutado ao lado do estádio de Fluminense, policiais em pickups perseguem manifestantes em fuga atirando (é contra a Convenção de Genebra) e isso não só não sai na TV como nenhum policial é punido é – sem a menor dúvida – um Estado policial.

O direito à manifestação está na Constituição. Mas ficou no papel. A repressão policial com o nível de covardia e ilegalidade que foi adotado na última segunda-feira só tem precedente em ditaduras escancaradas.

Como a imprensa brasileira não noticiou (no Jornal Nacional, disseram apenas que uma manifestação complicou o trânsito e atrasou o  carro do bispo), sabemos que não dá para contar com ela (é uma ditadura).

A melhor cobertura do protesto em Laranjeiras está no New York Times, neste link.

O Times reuniu vídeos que indicam que o cocktail molotov – justificativa usada pela polícia para atirar bombas e balas de borracha sobre os manifestantes – pode ter sido  lançado por policiais infiltrados na manifestação. O jornal mostra – com imagens difíceis de rebater – como foi a repressão policial segunda-feira.

Policial eletrocuta manifestante caído - Rua Pinheiro Machado, Rio de Janeiro, 22/07/2013

Policial eletrocuta manifestante caído – Rua Pinheiro Machado, Rio de Janeiro, 22/07/2013