Grosseria contábil

janeiro 31, 2010

Hoje a Petrobras começou o dia completamente desproporcional – pelo menos na capa do Estado de S. Paulo. Segundo a chamada de capa, a empresa “já movimenta 10% do PIB”.

Quem está acostumado a ler os números da economia estranha. Afinal, em 2007 (último ano com dados desagregados disponíveis), o valor adicionado por todo o setor de extração de petróleo e gás representava 1,7% do total da economia. O refino representava 0,6%. A produção de químicos, resinas e defensivos agrícolas, chegava  0,8%. Somando tudo, temos 3,0% do valor adicionado total. E esses números são para toda a indústria nessas atividades, não só para a Petrobrás.

A chamada de capa tenta se safar com uma conta que ninguém faz, diz que “o valor adicionado pela estatal e seus investimentos já representam 10% do PIB”.

Não se pode somar valor adicionado e investimento. Isso cria um problema que os contadores nacionais chamam, muito candidamente, de duplacontagem. Mas, ainda que se pudesse, para chegar aos tais 10% do PIB, a Petrobras, sozinha, teria que ser responsável por metade do investimento do país. No terceiro trimestre de 2009, a taxa de investimento do país (investimento sobre PIB) foi de 17,7%.  Um ano antes – antes da crise internacional – ela era de 20,1%.

Mas o dado mais bizarro na matéria do Estadão está no corpo do texto, no caderno de economia: “As megarreservas do pré-sal e investimentos que superam US$ 170 bilhões até 2014 devem ampliar a participação da Petrobrás no PIB para 20%, estimam analistas.”

São cinco erros em uma frase: 1) os investimentos previstos para 5 anos (2010 – 2014) não podem ser comparados ao PIB de um único ano;  2) quando fala de reservas, a repórter está falando em patrimônio, não em geração de renda. É como querer comparar o estoque de carros já produzidos com a produção da indústria automobilística num ano, PIB é geração de renda, não patrimônio acumulado. Para comparar com as reservas de petróleo, ela teria que usar o patrimônio total do país. 3) “estimam analistas” é um recurso tosco usado para tirar o corpo fora sem responsabilizar ninguém pela informação: se alguém teve a cara de pau de dizer isso, diga quem foi, ou então não reproduza a besteira do sujeito. 4) Toda a indústria do país (TODA) respondeu, em 2008, por 27,3% do valor adicionado da economia (o Brasil é, hoje, uma economia movida a serviços – 66,7% do valor adicionado em 2008). A Petrobras sozinha não vai chegar a 20% do PIB nem que descubram uma nova Arábia Saudita embaixo de sua sede, na Av. Chile. 5) Por fim, o erro de conta: mesmo que se pudesse dividir patrimônio por renda e comparar cinco anos de investimento com o PIB de um ano, os US$ 170 bi somados ao valor adicionado pela Petrobras continuariam longe de 20% do PIB (que hoje é de mais de R$ 3 trilhões ao ano). Em outro trecho da matéria, a repórter cita uma capitalização de “dezenas de bilhões de reais” do governo, que quer incluir na conta. Não adianta: para chegar a 20% do PIB teriam que ser centenas de bilhões.

Anúncios

O turismo vai decolar

janeiro 26, 2010

Viajar é sempre uma oportunidade de se dedicar à reflexão acerca de imorredouras questões existenciais. Como a seguinte: o que fazem os órgãos responsáveis pela promoção do turismo no Brasil?

O sujeito chega à Colômbia, um país ainda sob a sombra das Farc e do paramilitarismo, da pobreza que assola grande parte da população e da lei do chumbo vigente em diversas regiões, e encontra um destino que recebeu 1.324.988 turistas estrangeiros em 2009.

Ponha-se o número em perspectiva, ante os cerca de 5 milhões em que o Brasil – o grande líder da América do Sul – patina há alguns anos, e o absurdo da situação começa a se revelar. Some-se Rio de Janeiro, Nordeste, Pantanal, Amazônia, Cataratas do Iguaçu, turismo de negócios, e a imagem passa a ganhar contornos surrealistas.

Comparar o nível do serviço de informação turística à disposição do visitante nos aeroportos de Bogotá e do Rio, por exemplo, é receita fácil para indignação. E se entreter, em Cartagena, nos estandes da iniciativa Colombia es Pasión? Puro masoquismo.

Enquanto a Colômbia aposta em planejamento e profissionalismo, o Brasil se escora nas firulas contábeis de sempre, contentando-se com migalhas do turismo global.

Mas não se preocupem. Já temos um projeto infalível para alcançar a marca de 20 milhões de turistas estrangeiros em 2020. Chama-se Aquarela 2020.

Se mantivermos nossa tradicional competência no setor, porém, periga até a Colômbia pintar esse número antes.

Turismo no Brasil: em forma para decolar.

INDEC pra quê?

janeiro 16, 2010

Cansada de humilhar os técnicos do instituto de estatística argentino de formas tradicionais, a presidente Cristina Kirshner chutou o pau da barraca esta quinta-feira. Além de forçar os técnicos da manipularem os dados de inflação e crescimento, ela ainda tripudiou, anunciando os números do PIB antes da divulgação oficial do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (INDEC).

Segundo a presidente, a economia argentina cresceu 0,9% em 2009. Consultores independentes estimam que o PIB de lá tenha, na verdade, caído 4,5%.

Cristina Kirshner ainda não percebeu que ninguém mais acredita nos números do INDEC? Não se deu conta de que – se é para pôr qualquer número na taxa de crescimento – podia economizar uns pesos e fechar logo o instituto? Para o mesmo resultado, teria um gasto menor.

Sarcófago tão antigo quanto as idéias administrativas - e a estética - de Cristina Kirshner.

Chaves: "Se os preços se mexerem, atirem!"

O coronel Hugo Chaves mandou o exécito venezuelano fechar 70 lojas e supermecados por aumentarem os preços ontem. Chaves, que desvalorizou a moeda do país esta semana, esperava que os comerciantes absorvessem o prejuízo com o aumento de custo dos importados.

Proibindo aumentos, tudo que vai conseguir é uma crise de abastecimento – para combinar com a crise de energia que já tem.

Para os economistas, é sempre curioso ver o que acontece quando se contraria o beabá da teoria econômica. Mas podia ter sido uma experiência menos tosca, menos primária.

Que venha então a escassez (e o mercado clandestino e o ágio e as lojas fechadas e a queda da atividade econômica) .

Político francês - por Honoré Daumier - sec. XIX, Museu D'Orsay - Paris, 2008.

Todo economista sabe que o aumento do protecionismo foi uma das coisas que agravou a Grande Depressão, nos anos 30. O protecionismo não é uma boa idéia, nem na versão assumida nem em versões disfarçadas – como a apresentada agora pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy.

Segundo a edição de hoje do Estado de S. Paulo, Sarko “proporá a criação, na Organização Internacional do Trabalho (OIT), de selos de garantia social, como o ‘direito à saúde’, o ‘direito ao meio ambiente sustentável’, que seriam considerados numa balança que incluiria os ‘direitos de comércio’. O objetivo da proposta é combater o que os europeus chamam de ‘dumping social’, ou seja, a produção industrial com exploração de mão de obra excessivamente barata ou infantil.”

Na prática, ele quer acabar com empregos em países pobres para diminuir a concorrência com as empresas francesas. A “mão de obra excessivamente barata” geralmente é aquela que estava na extrema pobreza e conseguiu um emprego. Quem escolhe voluntariamente um emprego que paga mal, faz isso porque sua alternativa é ainda pior, é voltar à extrema pobreza. E é para lá que Sarkozy quer devolver essas pessoas.

Além de prejudicar os produtores no resto do mundo, as barreiras comerciais à la Sarko ainda aumentariam os preços pagos pelos consumidores franceses (justamente por diminuírem a concorrência).

As barreiras que Sarkozy quer criar parecem coisa de Cristina Kirshner. São uma barberagem econômica comparável à de propor que se pare a desvalorização do dólar no grito, como também defende o presidente francês.  “Se fabricamos em euros e vendemos em dólar, com o dólar que cai e o euro que sobe, como vamos compensar o déficit de competitividade?”, disse  ele, quinta-feira, em um seminário em Paris. Talvez Sarkozy devesse pensar em reformas econômicas, em aumentar de fato a produtividade na França…

Como os EUA têm um déficit externo gigantesco – consomem muito mais do que produzem – é natural que sua moeda perca valor. Com as taxas de juros baixas usadas para combater a crise econômica, isso é ainda mais natural. E não há discurso populista francês que mude isso.

Sarko está escrevendo seu nome em um seleto panteón de políticos caricatos da república. No século XIX, o chargista francês  Honoré Daumier já se divertia fazendo os bustos e caricaturas desses senhores.

O duro é pensar no estrago que um populista desses pode fazer na economia e, principalmente, no comércio internacional.

Mais políticos do século XIX - Daumier, Museu D'Orsay, 2008.