Em um certo momento você faz a conta e descobre que não vale a pena produzir. É simples: é uma conta fácil. Geralmente ela é feita na hora de pagar alguma despesa pouco frequente, como um seguro anual ou a manutenção de uma máquina.

Nessa hora, há dois caminhos possíveis. Você pode insistir – torcendo para os preços do que você compra caírem e os do que você vende subirem – ou você pode mudar de ramo.

No meio de uma crise econômica, dá medo mudar de ramo. Por isso, muita gente está mudando – ao mesmo tempo – de ramo e de país: está indo para um país sem crise.

Insistir é continuar às voltas com a cesta fiscal brasileira (que inclui taxas para associações profissionais inúteis, taxas para a família imperial se você comprar imóveis em Petrópolis, contribuições para o Sistema S que, se são obrigatórias, deviam ter sua contrapartida auditada pelo TCU, extorsões de fiscais corruptos, contadores que acompanham as mudanças semanais nas regras tributárias etc.). Insistir é lidar com fornecedores que não cumprem prazos, com acidentes em estradas esburacadas, com serviços públicos à beira do colapso, com a concorrência desleal de empresas favorecidas por pagarem comissões a alguém e com o desânimo que vem com tudo isso.

É por isso que a economia está parando, porque é difícil produzir – por mais que se queira.

Nunca faltou demanda no país. Pelo contrário: o governo sempre precisou pular em cima da demanda para evitar que a inflação subisse. Agora não é diferente: os juros ficarão altos e será preciso cortar despesas públicas para que a demanda não faça a inflação se perpetuar.

– Mas economia está encolhendo! – gritaria um economista do governo.

Sim, está. Porque os produtores não conseguem mais dar murros em ponta de faca. Produzir é difícil. Se ajustar a todas as obrigações que o governo criou ao longo das décadas é inviável – e concorrer com as empresas amigas a quem ele dá regalias é ainda pior.

É melhor fechar, sair do país, fazer concurso público, se candidatar a uma pós-graduação na Escandinávia (e ficar por lá depois).

Se você for dono de alguma coisa (um depósito, um escritório, ações de estatais em crise), venda e veja se dá para viver de renda. Desmonte a empresa e aplique o resultado do desmonte em renda fixa. O governo paga bem a seus financiadores.

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Xochipilli, deus asteca das flores: esperando sentado pelo fim da crise.

Nos últimos 13 anos a história se repetiu, quase sempre como farsa: a inapetência administrativa do governo só foi superada pela incapacidade da oposição de apresentar um discurso decente.

Hoje, não há nenhum nome de PSDB, PPS ou afins em que o eleitor médio se sinta entusiasmado para votar. Os votos da oposição são votos contra o governo – e não votos a favor de Aécio, Serra ou Roberto Freire.

A maior parte dos deputados de oposição é de pessoas pouco conhecidas, eleitas “na aba” dos votos do partido ou de algum deputado bem votado.

E até os deputados bem votados são uma desgraça para a oposição. Jair Bolsonaro, do Partido Progressista do Rio de Janeiro, por exemplo, é tudo que a oposição não deveria ter.

Em disputas polarizadas, como as do cenário político atual, vence quem estiver mais perto do centro. Esse quase axioma eleitoral é o que orienta candidatos a cargos majoritários a não apresentar programas de governo e não tomar posição sobre temas polêmicos em suas campanhas.

Os radicais – pró-governo ou contra – já são voto garantido de cada um dos lados. São os centristas/indecisos que definem as disputas. E políticos como Bolsonaro – com seu discurso militarista/machista/anti-homossexuais/ultraconservador – espantam mais eleitores do que atraem.

Ele vai sempre se eleger como representante dos ultraconservadores (que merecem ser representados), mas como nome de destaque da oposição, seu papel é destrutivo, é o de empurrar votos de volta para o governo.

Essa é a lógica que sempre fez o PSDB ter tanto amor ao muro, à indefinição, ao esperar para ver.

É também a lógica que fez o PT gastar horas de propaganda eleitoral para vender a ecologista Marina Silva como uma “representante dos banqueiros” (ideia tosca mas repetida incansavelmente, até isolar Marina longe do centro no espectro político).

Mas tudo isso é para dizer que, nos últimos meses, a oposição se superou em sua capacidade de fazer campanha contra si mesma. Na hora em que o governo estava mais frágil e a oposição devia ir para perto do centro para ocupar espaço, ela se isolou à direita.

O senador Aloysio Nunes (candidato a vice de Aécio) emendou a proposta de lei anti terrorismo para torna-la mais repressiva. Seu colega de PSDB, o governador Geraldo Alckmin, mandou a polícia bater em estudantes secundaristas que protestavam contra o fechamento de suas escolas. Enquanto ele fazia isso, seus colegas de partido apareciam na TV perguntando quando o povo irá às ruas pelo impeachment da presidente.

Bom, se depender do PSDB, nunca.

Quanto mais a oposição mostrar seu rosto conservador, seu lado elite paulistana, menos chance o impeachment vai ter.

Eu sei: o governo tem deixado claro que sempre se pode contar com sua capacidade de enfiar os pés pelas mãos e fabricar crises. Mas isso não muda o fato de que a oposição, nos últimos meses, passou de muda a auto-depreciativa.

Vejam a diferença: o governo trocou um ministro da Fazenda ortodoxo por um heterodoxo – que assumiu jurando que será ortodoxo. Ninguém acreditou. Se fosse para ser ortodoxo, era melhor manter o ministro antigo. Quer dizer: sozinho, mais uma vez, o governo cria a crise e enfia os pés pelas mãos. Mas, como concessão mínima ao centrismo e à marquetagem, o ministro heterodoxo assume o cargo jurando fidelidade à ortodoxia econômica.

É pouco? Sim. É só discurso? É. Mas nem isso a oposição sabe fazer.

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Pedras e espinhos. É tudo que a oposição tem para oferecer?

É a inflação, manés

dezembro 29, 2015

Que foi a economia que piorou nosso humor e nosso acesso a bens e serviços em 2015, todo mundo sabe. Que será ela quem fará o mesmo em 2016 e 2017, também é quase consenso.

Mas há ainda quem discorde sobre como ela faz isso. Para o governo, o problema é o baixo crescimento. Para os desempregados, é o desemprego. Para os assalariados, é a inflação. Para quem tem dinheiro aplicado, é a tendência de crescimento acelerado da dívida do governo. Para quem usa os serviços públicos (quem não usa?) é o colapso desses serviços (por sucateamento, não pagamento de salários, calote em fornecedores etc.). Para quem sabe que o mundo não é previsível, são as catástrofes inesperadas (já que o governo nem pensa em prevenção, planos de contingencia e similares).

Não é (só) porque sou assalariado, mas o problema mais destrutivo, o que fará mais estrago de longo prazo nessa lista (fora alguma hecatombe imprevista) é a inflação.

Se não tivéssemos inflação, o governo poderia baixar os juros, poderia deixar suas despesas no nível em que estão e isso reanimaria a economia. Isso diminuiria o desemprego, estancaria a queda na arrecadação e facilitaria o trabalho de conter o crescimento da dívida pública. Nesse cenário, os governos estaduais conseguiriam pagar os salários dos seus funcionários e os serviços públicos não se deteriorariam tão rápido.

Mas a inflação de 2015 vai ser de mais de 10% e a de 2016 vai estourar o teto da meta do Banco Central. Além da dor imediata causada pela corrosão do poder de compra dos assalariados, a inflação tem mais dois efeitos:

  • Primeiro, ela mostra que o problema da economia não é falta de demanda (que economia com falta de demanda tem inflação de 10% ao ano?). Enquanto os entraves do lado da oferta da economia e das finanças públicas não forem solucionados, a crise não vai passar.
  • O segundo problema é que, para conviver com a inflação – sem que ela dispare de vez – será preciso manter o freio de mão puxado, com juros altos e restrição de despesas do governo.

Mais do que isso: a solução de alguns desses problemas é contracionista, quer dizer: o ajuste dos gastos públicos, necessário para tirar parte do fardo do controle da inflação dos ombros (já muito tortos) do BC freia a economia. Por isso, dá para ter certeza que a contração da economia vai durar: para conviver com a inflação é preciso pisar no freio e para resolver o problema, também.

Sem encarar a agenda de baixa produtividade, entraves burocráticos e desequilíbrio orçamentário, sem entender por que é tão difícil produzir qualquer coisa no Brasil, o governo não vai superar a crise. E, sem retirar a espada da dívida pública crescente – hoje pendurada sobre sua cabeça -, o governo seguirá rumo a inflação desenfreada.

Isso acontecerá porque, se a dívida crescer demais como percentual do PIB, o governo não conseguirá mais se financiar a taxas viáveis e, em poucos anos anos, será forçado a apelar para a impressora para dar conta da folha de pagamentos. É um cenário possível, mas não provável. A proximidade dele deve ser suficiente para apavorar os gestores e faze-los se mexer.

O que os trava hoje é o mal uso do argumento de Paul Krugman contra o ajuste Alemão na Grécia. Krugman repete sempre que o ajuste fiscal imposto à Grécia não faz sentido porque contrai a economia e isso diminui a arrecadação. Com menos arrecadação, o desequilíbrio fiscal aumenta e é preciso cortar mais despesas (o que contrai e a economia e realimenta o ciclo).

A Grécia não tem moeda própria, não pode fazer política monetária ou desvalorizar (como já desvalorizamos aqui). Além disso, tem um economia bem mais restrita que a nossa – menos diversificada e com menos produtos para vender para o resto do mundo.

Mas, mesmo assim, o argumento faria sentido se o governo brasileiro tivesse um nível impressionante de credibilidade. O governo poderia sinalizar um ajuste fiscal de longo prazo – com reforma da previdência, reforma tributária, redução da burocracia, corte de nomeações políticas para áreas com grandes orçamentos etc..  Isso indicaria o fim da trajetória explosiva da dívida pública e daria um pouco mais de espaço para o governo gastar nos anos de queda na arrecadação.

Mas não é isso que vai acontecer. O governo já descumpriu tantas vezes suas promessas de fazer reformas, cortar cargos comissionados e arrumar a casa (descumpriram até a promessa simbólica de cortar o salário da presidente da República) que ninguém mais acredita na promessa de ajuste de longo prazo.

Empresários, investidores e afins só acreditarão vendo. Vão esperar pelo corte de gastos (contracionista) antes de se arriscarem a – eles mesmos – tirarem dinheiro do bolso.

E enquanto o governo não ajustar seus gastos e não propuser de forma concreta (não só com discursos vagos) reformas para o lado da oferta da economia, a crise vai se aprofundar, o desemprego vai aumentar e a saída, para muita gente, voltará a ser o aeroporto.

A inflação mostra que o problema do Brasil não é de demanda, como Dilma e seus seguidores preferiram acreditar nos últimos anos. O problema é de gestão: de políticas públicas mal formuladas e mal executadas.

Nesse campo, não há notícia de soluções concretas na agenda do governo.

Não parece haver luz no fim do túnel.

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Ruína grega do Parthenon exposta no Museu Britânico.

O lobby do ensino privado

dezembro 14, 2015

A crise na economia brasileira tem muito a ver com lobby político. Na primeira gestão Rousseff, o governo atendeu ao lobby da indústria para baixar o preço da energia, ao lobby das montadoras de automóvel para reduzir impostos, a lobbies fragmentados para dar empréstimos – via BNDES – com juros abaixo da inflação, enfim, o governo cedeu aos lobistas.

Os lobbies dos últimos anos tinham alguma sofisticação. Não diziam só “quero dinheiro barato do BNDES”. Para justificar as dezenas de bilhões de reais que o governo gasta por emprestar a taxas negativas, eles recorriam a teorias heterodoxas criadas justamente para fazer lobby pró-empresas.

Agora que a conta dos favorecimentos e da má política chegou, os heterodoxos de Campinas e da UFRJ começam a perder espaço e – naturalmente – outros grupos vêm ocupar o vazio.

O assustador é que são outros grupos de lobistas – com outras teorias não comprovadas que só servem para favorecer empresas.

Hoje, o professor Ricardo Paes de Barros – da faculdade privada Insper – aparece na Folha de São Paulo atacando o gasto público com universidades públicas. Há algumas semanas, em entrevista ao Valor, ele já tinha atacado as universidades públicas – e defendido o repasse de dinheiro a universidades privadas via Fies.

Sim, é um funcionário de universidade privada pedindo dinheiro público e atacado a concorrência das universidades públicas gratuitas – sem ao menos uma nota de rodapé sobre conflito de interesse.

As faculdades públicas no Brasil são mais voltadas para pesquisa e têm um acesso mais baseado em mérito que as particulares. A maior parte das particulares pertence a grandes grupos de capital aberto, como o grupo Kroton e a Estácio.

O efeito da política pública de Paes de Barros é afastar bons alunos da pesquisa – feita em faculdades públicas – e aumentar o ganho por ação da Kroton.

Ontem, na Globonews, a economista Zeina Latif defendeu abertamente a privatização de universidades públicas.

Com tantos problemas sérios para resolver, esses analistas vão atacar agora o pouco ensino público que o país tem?

Paes de Barros chega a defender, no fim da entrevista, a privatização do ensino básico (com “charter schools”, uma proposta de Milton Friedman que nem nos EUA virou política pública).

Em seu pior momento na entrevista, ele diz: “No futuro, vão achar que éramos completamente malucos em ter escolas estatais. Não há o menor sentido em educação ser estatal.”

Pedra na cabeça

PS: Semana passada, Armínio Fraga deu uma entrevista a Miriam Leitão defendendo o fim de todas as vinculações entre receita a despesa no Orçamento da União: “um orçamento feito do zero”, propôs.

Mas a principal dessas vinculações é a que garante um orçamento estável e previsível para a Saúde pública.

Com todo o discurso pró-capital humano, economistas de mercado querem agora cortar verba da saúde e da educação?

Porque não propõem cortar o funding do BNDES?

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A mosca azul era a grande ameaça a quem chegava ao poder, décadas atrás. Hoje, os indicados para cargos de diretoria no governo são atacados, instantaneamente, pelo mosquito da microcefalia.

Eles dirão que não têm verba, que não têm equipe, que não têm apoio de Brasília para fazer o que precisam (e depois irão para um hotel de luxo passar o feriado).

Mas, se é para deixar os funcionários em um prédio com cortes de energia – ou empesteado de mofo – é melhor não assumir o cargo. Se é para faze-los trabalhar doentes (com alergia, legionela ou o que vier) é melhor não assumir o cargo. Se é para reclamar quando, à base de anti-histamínico, eles trocarem algum número na planilha, é melhor não assumir o cargo. Se é para fingir que está tudo bem enquanto a máquina administrativa se esfarela, é melhor entregar o DAS e procurar outra fonte de renda.

Se a diretoria não faz isso, é porque já perdeu a capacidade de ver ou pensar com clareza: enxerga (ou pensa) só até a porta da própria sala.

Mas isso tudo é para dizer que a crise atual não está só parando empresas privadas: está acabando com os serviços públicos também (e quem poderia reclamar com mais chance de ser atendido – a diretoria –  finge que não vê).

 

PS. Lembro de uma entrevista que vi, há anos, com o então prefeito do Rio Cesar Maia. Os surtos de dengue estavam voltando e Maia dizia ao entrevistador que se protegia usando meias e calça comprida, “porque o mosquito da dengue não voa muito alto”.

Do prefeito se esperam políticas públicas e orientações para ação coletiva, não sua receita pessoal para lidar com a falta dessas coisas.

De Maia para cá, a dificuldade dos gestores para falar como representantes de uma instituição – em vez de como pessoas físicas – só aumentou.

Para eles, então, recomendo: cuidado! Aqui os mosquitos andam de elevador – e espalham democraticamente suas doenças até o vigésimo andar.