Gambiarra economics

março 18, 2017

Os remendos, as soluções de curto prazo com objetivos muito específicos, os subsídios, as taxas  juros especiais, os regimes tributários diferenciados, tudo isso faz parte de um modelo teórico heterodoxo que pode ser chamado – com muita precisão – de Teoria endógena da aplicação sequencial de gabiarras ou, como diriam os ingleses, gambiarra economics.

Um dos maiores consensos teóricos a respeito da economia da gambiarra é que ela é uma política de curto prazo: não resiste por períodos de mais de um ou dois anos:

” A gambiarra arrebenta”, já disse um de seus defensores, em voz baixa, em uma sala escura, sem gravadores ou câmeras ligados.

Os incentivos específicos, então, são apenas agrados a amigos. Quem os recebe sabe que eles não vão durar (mas os aceita assim mesmo, afinal, é descortês recusar presentes).

Quando as gabiarras arrebentam, em geral, vem o dilúvio. Os problemas que elas remendavam já cresceram o bastante para estoura-las e a crise vem pior do que parecia possível antes da adoção da política da gambiarra.

O dilúvio, no entanto, atinge com mais força quem estava perto da barragem. Nesse momento, os mais bem informados (ou bem relacionados) já terão fugido ou feito hedge de gambiarra no mercado financeiro.

Os responsáveis pela adoção da política, normalmente, voltam para a academia ou para alguma empresa amiga e imitam Luis XVI, dizendo sorridentes:

“Depois de mim, o dilúvio.”

DSCN4481

A crise bate à porta, entra e fica.

Encontrei o trecho abaixo lá pelo meio da Teoria dos Sentimentos Morais, primeiro livro de Adam Smith, publicado em 1759. O trecho é a melhor descrição que encontrei até agora para o ressentimento que parece mover a onda conservadora pela qual estamos passando.

Pela descrição, a impressão que fica é que o ressentimento não vai passar tão cedo.

“O propósito mais almejado pelo ressentimento não é tanto fazer com que nosso inimigo, por sua vez, também sinta dor, mas fazê-lo saber que a sente por causa de sua conduta passada, fazê-lo arrepender-se dessa conduta e perceber que a pessoa que ofendeu não merece ser tratada daquela maneira. O que mais nos enraivece no homem que nos ofende ou insulta é a pouca conta em que parece nos ter, a preferência insensata que dá a si mesmo em detrimento de nós, e o absurdo amor de si que o faz imaginar que outras pessoas podem a qualquer momento se sacrificar por seus caprichos ou humor.”

Não acho que os políticos religiosos e aristocráticos que estão sendo eleitos sejam as pessoas mais habilitadas para diminuir esse ressentimento. Pelo contrário, eles têm potencial para aumentá-lo.

Resta saber como o público vai reagir quando os problemas que esperava resolver crescerem mais em vez de diminuir.

Peru de natal preventivamente ressentido.

Peru de natal preventivamente ressentido.

 

Estudar o fim do mundo

novembro 25, 2016

Passo pelos repórteres acampados no caminho de casa e descubro que sou vizinho do ex-governador Anthony Garotinho (solto esta semana após pagamento de fiança).

Em casa, descubro que a água foi cortada por conta da lenta manutenção da Cedae.

A renda da família está menor graças ao governador Pezão – que parcelou em sete vezes o salário do funcionalismo estadual.

Diante da derrocada (que todos já esperávamos para o pós-Olimpíadas), começo a pensar em largar tudo e ir estudar.

Mas um ex-professor, que encontrei no aeroporto outro dia, traçou um cenário ruim aí também:

“Os centros de excelência”, ele disse, “estão preocupados em publicar artigos em revistas no exterior”. Diante da minha expressão de dúvida, ele continuou: “Os incentivos são para isso, para produzir coisas acadêmicas, teóricas, que sejam aceitas por revistas de fora. Essas coisas práticas que você quer estudar, dificilmente alguém nos principais cursos de economia aceitaria te orientar nisso. Não é algo que renda uma publicação na American Economic Review“.

Quer dizer: o mundo está acabando e até para estudar o fim do mundo é preciso bater de frente com algum incentivo distorcido…

dscn4218

Vaca cuja tese sobre a queda do muro de Berlim foi recusada na FGV.

O fechamento da Fazenda

abril 24, 2016

Várias matérias de jornal compraram o “shutdown” anunciado pelo Ministério da Fazenda para pressionar o Congresso.

Se recusando mais uma vez a cortar ministérios e cargos comissionados, o Ministério ameaça com uma espécie de greve patronal caso o Congresso cumpra seu papel e impeça o governo de aumentar ainda mais o rombo no orçamento.

Senhores, façam os cortes e recolham o pires: o Congresso não vai autorizar rombos extras agora.

O novo governo – se o Senado aprovar a abertura do processo de impeachment – vai cortar despesas. A alternativa é ver a dívida pública explodir em um prazo muito curto.

Só se espera que o governo Temer tenha algum critério para fazer os cortes. O governo (federal, estadual e municipal) gasta 3,4% do PIB com saúde, 4,4% com educação, e 10,8% com o restante da máquina administrativa (sem contar transferências como aposentadorias a pensões).

Os gastos com saúde e educação são reconhecidamente baixos: ficam perto do fim da fila nas comparações internacionais. Mas na administração, na burocracia brasiliense e na grande conta de transferências (INSS, pensões, subsídios etc…) há espaço para cortes. Nelson Barbosa e cia já deviam ter feito alguns deles.

Vamos ver o que fará o novo governo.

Quanto ao shutdown, é uma expressão importada do governo dos Estados Unidos. La, quando o governo federal estoura o orçamento, os funcionários são mandados de volta para casa (sem salários).

Não é assim que funciona aqui. A lei brasileira não prevê isso.

Não vai ter shutdown. O que vai ter, provavelmente, vai ser impeachment e corte no orçamento. 

DSC03095

Vaca sagrada – Ministério da Fazenda, 2016.

O fim da Espanha

julho 21, 2012

A Espanha vai implodir. Encontrei a descrição detalhada da implosão em uma estante de casa. É praticamente um livro de profecias.

Escrito nos anos 80, nos Estados Unidos, o livro descreve em detalhes a crise Espanhola – inclusive os próximos capítulos. Pior: é um livro de economia heterodoxa e a descrição de como a Espanha vai naufragar aparece no capítulo em que o autor explica porque a teoria ortodoxa – a síntese neoclássica – não funciona.

Resumindo bastante: a queda nos salários durante a crise espanhola – segundo os neoclássicos – deveria fazer a Espanha recuperar sua competitividade. Com a recessão, o desemprego aumenta, os salários caem, o custo de produzir diminui, a produção é reanimada e os empregos crescem novamente.

Mas o livro de profecias diz que não vai ser assim. O modelo da síntese neoclássica esquece completamente o mercado financeiro. A simplificação parece razoável na sala de aula. Mas não é. Não dá para deixar todas as dívidas, empréstimos e afins de lado na hora de ver como a Espanha vai reagir ao corte de gastos do governo.

Empresas, famílias, bancos, talvez o próprio governo, diante da perspectiva de recessão à frente, verão seus ativos perderem valor, começarão a ter dificuldade em pagar suas dívidas, cortarão qualquer tipo de investimento e – sem conseguir financiamento para pagar as contas (e as dívidas) – irão à falência.

Com a falência, não surgirão novos empregos para os desempregados e a economia não voltará aos níveis normais de emprego e produção. Ela vai ficar décadas (sim, no plural) em crise.

A propósito, o livro de profecias, Stabilizing an unstable economy, de Hyman Minsky, desanca a teoria neoclássica de um jeito que nunca vi na faculdade. Segundo Minsky, os formuladores da teoria estavam preocupados em mostrar como a economia tenderia naturalmente a voltar ao equilíbrio depois de algum desajuste, não em entender como os desajustes acontecem.

O resultado é que os neoclássicos têm dificuldade em entender como se formam crises com o tamanho da atual e acham que é só questão de tempo para que passem – embora possam dar empurrõezinhos com quedas nos juros e aumentos de gastos públicos.

Mas hoje, nem o aumento de gasto público os espanhóis estão adotando. Empurrados pela Alemanha, eles  estão correndo para a própria falência. Talvez não custem muito a chegar lá.

Madri: na direção errada.