Chorem por ela

fevereiro 25, 2010

Madona, interpretando uma ancestral do populismo à Kirshner.

Depois de uma temporada na terra do bife de chouriço, o economista Fábio Giambigi traçou o retrato da decadência institucional levada ao extremo. É bom para ver o que teria acontecido por aqui se tivessem deixado outras áreas do governo (além do Itamaraty e do Desenvolvimento agrário) nas mãos da ala xiita do PT.

Abaixo, dois trechos da descrição, que está no link do Estado de S.Paulo – aberto também para não assinantes.

“o Indec (IBGE argentino) foi destruído. Há mais de três anos a inflação oficial é em torno de 10% inferior, a cada ano, à captada por outras fontes. Os índices oficiais não significam mais nada e deixaram de ser usados como balizamento dos reajustes salariais. Os melhores técnicos foram mandados embora, demitiram-se ou estão passando por tratamento psiquiátrico, tal é o ambiente que impera no órgão”

“(…) o encarregado de assumir o ‘trabalho sujo’ em nome de quem manda iniciou recentemente uma reunião com dirigentes empresariais que queria ‘domesticar’ com as seguintes palavras: ‘Tenho lá fora a minha rapaziada, especializada em quebrar espinhas e arrancar olhos'”.

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Presidenciáveis?

fevereiro 21, 2010

Hamlet: escolhas difíceis

Não consigo votar em candidatos que têm grupos religiosos – sempre ultraconservadores – defendendo sua eleição. A experiência do casal Garotinho no Rio foi traumática. O ideal é manter longe do governo qualquer um que possa diminuir a distância entre igreja e Estado. Marina Silva – da Assembléia de Deus – está fora da minha lista de candidatos.

Ciro Gomes, outro pré-candidato, ficou conhecido como o homem que é “contra tudo que está aí”. Foi ministro da Fazenda de Itamar e da Integração Regional, no primeiro governo Lula – e continuou contra tudo. Se ele é a favor de alguma coisa (como um programa de governo) ainda não conseguiu dizer.

Serra é contra a política econômica. Já era contra quando ela era a política do seu partido. Agora que é defendida por Lula, ele deve ser mais contra ainda. Sergio Guerra, presidente de seu partido, já deu entrevistas dizendo que, eleito, Serra mudaria câmbio, juros etc. Fora de cogitação.

Dilma é tão sem carisma quanto Serra e, aparentemente, tão autoritária quanto ele. A tendência conciliadora de seu padrinho político parece ser uma das virtudes que ela realmente não tem – e que fazem falta.

Ao lado da dificuldade que tenho em votar em candidatos com ranço ideológico de esquerda, esse autoritarismo irritado – que aparece até no jeito de tratar repórteres – faz dela uma pessoa a quem não gostaria de dar mais poder.

Sem conseguir chegar a conclusão nenhuma, a pergunta que me faço é: como chegamos até aqui? Por que os únicos nomes disputando a eleição para presidente são de pessoas que eu (e a torcida do Flamengo) não gostaríamos de ver na presidência?

Se os partidos políticos fizessem eleições primárias, como nos EUA, talvez surgisse alguma versão tupiniquim do Obama. Mas o critério de escolha dos partidos é outro: sai candidato quem conseguir se impor com mais força – independentemente dos meios que use para isso. Não fosse assim, dificilmente Serra seria o escolhido do PSDB.

O processo de escolha é, então, uma espécie de seleção adversa: só os mais sedentos de poder sobrevivem.

Não sei não, mas acho que essas eleições vão ser as mais difíceis desde a volta da democracia – pelo menos para os eleitores, que têm que escolher entre quatro nomes péssimos.

Mas ainda há esperança. Há tempo para mais alguém se lançar candidato. Esse candidato dificilmente estará num partido grande, vai ter poucas chances de ganhar mas, não sendo um canalha completo, já tem, pelo menos, o meu voto.

Goldman: excelência em criatividade contábil (agora também na Grécia!)

Depois que o New York Times denunciou a contabilidade criativa exportada pelo Goldman Sachs para o governo da Grécia, a imagem dos grandes bancos americanos consguiu ficar ainda pior. Resgatados com dinheiro público do governo dos EUA, eles agora vão fazer os governos europeus arcarem com os custos de suas criações contábeis:

“Os bancos deveriam se perguntar, sobretudo depois da crise financeira, se isso (esconder dívidas) se ajusta com seu código ético”, reclamou Olli Rehn, comissário para assuntos econômicos da União Européia. Segundo o Estadão de hoje, o Goldman teria cobrado 200 milhões de euros do governo grego para montar as operações que esconderam suas dívidas – dando a impressão de que o país atendia aos pré-requisitos necessários para adotar o euro, em 2001.

Para combater a maquiagem contábil, a União Européia deve dar mais poder à Eurostat, seu instituto de estatística. O instituto poderá ganhar autonomia para auditar diretamente os dados dos países, sem ter que esperar que cada país envie seus dados – diminuindo a chance de fraudes.

Um dos objetivos da medida é descobrir se outros países usaram esquemas parecidos com o vendido pelo Goldman Sachs ao governo grego.

Salvem os Haroldos

fevereiro 17, 2010

Haroldo: ameaças e comemorações de ano novo

Ser tigre é cada vez mais difícil. De 100 mil no começo do século passado, sobraram 3.200 hoje, no mundo inteiro. A estimativa é da ong WWF. A espécie está ameaçada de extinção e algumas subespécies já sumiram do mapa.

Ambientalistas estão aproveitando o ano do tigre, na China, para reforçar as campanhas pró-tigre.

Quinze anos sem Calvin

fevereiro 7, 2010

Aposentados há quase 15 anos, os quadrinhos de Calvin e Haroldo (no original, Calvin and Hobbes) fazem sucesso até hoje, com republicações em jornais e coletâneas que já alcançaram a marca de 45 milhões de exemplares vendidos. O Cleveland Plain Dealer publicou, há uma semana, uma rara entrevista com o recluso criador da tirinha, Bill Watterson, reproduzida a seguir, em tradução livre do blog:

Passados mais de 15 anos de distanciamento e reflexão, o que havia em Calvin e Haroldo, para conquistar não só a atenção dos leitores, mas também seus corações?

A única parte que compreendo é o que estava envolvido no processo de criação da tirinha. O que os leitores pensam é com eles. Depois que a tirinha é publicada, os leitores acrescentam suas experiências pessoais, e o trabalho acaba ganhando vida própria. Cada pessoa reage de maneira diferente a cada aspecto.

Tudo que eu tentava era criar de maneira honesta. Tentava tornar esse pequeno mundo algo divertido de se acompanhar, para que as pessoas quisessem gastar seu tempo na leitura. Era só o que me preocupava. Você mistura um monte de ingredientes e, uma vez entre muitas, a química funciona. Não consigo explicar por que a tirinha deu certo do jeito que deu, e não acredito que seja capaz de reproduzir isso. Várias coisas precisam dar certo ao mesmo tempo.

O que pensa a respeito da herança deixada pela tirinha?

Bem, não é nada que me tire o sono à noite. Serão sempre os próprios leitores que decidirão o que é significativo e relevante para eles. E consigo aceitar qualquer conclusão a que eles cheguem. Mais uma vez: acho que meu papel nisso tudo meio que acabou assim que a tinta secou.

A divertida dança de João e Tomás.

Os leitores criaram uma relação de amizade com os personagens. Por isso, de modo compreensível, eles lamentaram – e ainda lamentam – o fim da tirinha. O que gostaria de dizer a eles?

Não é algo tão difícil de se entender quanto as pessoas gostam de fazer crer: depois de dez anos, eu já havia dito quase tudo que tinha a dizer.

É sempre melhor sair cedo da festa. Se eu tivesse pegado carona na popularidade da tirinha, se tivesse me repetido por dez, vinte anos, as pessoas que hoje “lamentam” o fim de Calvin e Haroldo estariam desejando minha morte e xingando os jornais por publicarem tirinhas chatas e antigas como a minha, em vez de dar espaço a artistas mais jovens e empolgantes. E eu concordaria com elas.

Acho que parte da explicação para Calvin e Haroldo ainda ter um público grande atualmente é que preferi não insistir até não haver mais nada.

Nunca me arrependi de ter parado quando parei.

Como muita gente se identificava com seu trabalho, os fãs se sentem ligados a você, como se o conhecessem. Querem mais trabalhos seus, mais histórias do Calvin, uma nova tirinha, qualquer coisa. É realmente uma relação semelhante à das estrelas do rock com seus fãs. Considerando sua aversão a ser o centro das atenções, como lida com isso hoje? E como encara o fato de que isso o acompanhará por toda a vida?

Ah, a vida de cartunista de jornal… como sinto falta das fãs, das drogas e da bagunça nos quartos de hotel!

A verdade é que, desde meus dias de “astro do rock”, o interesse do público já diminuiu muito. Na escala de tempo da cultura pop, a década de 90 foi há milhões de anos. Acontecem casos esporádicos de bizarrice, mas na maior parte do tempo simplesmente toco minha vida pacata e me esforço ao máximo para ignorar o resto. Tenho orgulho da tirinha, sou enormemente agradecido pelo sucesso e fico sinceramente lisonjeado que as pessoas ainda a leiam. Mas, quando escrevia Calvin e Haroldo, estava na casa dos 30, muito longe de onde estou hoje.

Um trabalho de arte pode se perpetuar, mas eu continuo avançando pelos anos como qualquer outra pessoa. Acho que os fãs de verdade entendem isso e aceitam me dar espaço para tocar a vida.

Quanto tempo depois de os correios [dos EUA] lançarem o selo do Calvin você pretende mandar uma carta com ele?

Imediatamente. Vou subir na minha carruagem e tratar de enviar um cheque para pagar a assinatura do jornal.

Como espera que as pessoas se lembrem desse menino de seis anos e de seu tigre?

Voto em “Calvin e Haroldo, a oitava maravilha do mundo”.