Saudades do dragão

fevereiro 26, 2008

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Eles andavam quietos, a ponto de muita gente achar que estavam extintos. Mas agora estão de volta, cuspindo fogo e assustando os consumidores. Sim, os velhos dragões da inflação estão acordando. Na China, o governo ficou anos enxugando dólares. Eles entravam no país, o governo os comprava e emitia yuans. Os yuans eram, em parte, recomprados pelo governo, que vendia títulos da dívida. E, em parte, os yuans ficavam lá alimentando o consumo – chamando o dragão. O consumo cresceu e os preços agora estão crescendo junto.

Nos Estados Unidos, o governo está distribuindo dinheiro para a classe média – que fica muito feliz – e o BC baixa a taxa de juros de um jeito que deixa os heterodoxos brasileiros morrendo de inveja. Ao mesmo tempo, o dólar perde valor, o que deixa todos os importados mais caros para o consumidor gringo.

Uma parte dos importados já ia ficar mais cara de qualquer jeito. A Vale já está fazendo reajustes de mais de 60% nos seus preços. O petróleo já andou ciscando acima dos US$ 100 por barril. Até os alimentos estão subindo de preço.

No Brasil, um grupo de saudosistas – que sempre cultuou a besta-fera – continua fazendo seus rituais de evocação do dragão. O mais ostensivo passo dessa espécie de dança da chuva para dragões foi dado há alguns meses pelo ministro da fazenda (sim , ele é um dos adoradores do dragão), que fincou o pé e pôs a meta de inflação em 4,5% (quando a criatura já estava em torno dos 4%).

As despesas públicas crescentes também são chamariz de dragão. Uma grande leva de recém nomeados para o Ipea sabe disso – e comemora. Eles acham que o dragão não faz mal a ninguém, que um pouquinho de dragão é até saudável.

Agora é esperar para ver o que vem por aí.

O papel de São Jorge está reservado para os bancos centrais, que costumam ser vaiados quando fincam a espada no bicho.

Gráfico

Os bem intencionados editores da Economist tentaram fugir dos temas típicos da revista para procurar uma correlação entre sexo e chocolate.

A matéria que acompanha o gráfico a cima diz que “Em algumas partes da Europa, sexo e chocolate andam de mãos dadas”.

Pelo jeito, eles escreveram enquanto comiam ou, por qualquer razão, viram só o que queriam ver. O gráfico mostra uma relação negativa entre o consumo de chocolate por habitante e a freqüência de sexo. Os países onde se faz mais sexo têm menos consumo de chocolate.

Pode-se pensar em muitas explicações para isso. Adeptos das teses de Max Weber podem concluir que, nos países puritanos, as pessoas têm mais dinheiro para comprar chocolate e mais tabus contra tudo que não é chocolate.  Os hedonistas vão dizer que, nos países com mais chocolate, as pessoas são menos atraentes – e sabe-se lá que outras explicações  podem inventar.

Mas nada disso serve de desculpa para a leitura invertida do gráfico – que talvez tenha alguma coisa a ver com o antepenúltimo lugar em freqüência dos inglêses, atrás apenas dos EUA e do Japão.

Em segundo no ranking dos comedores de chocolate, os ingleses da Economist podem ter se recusado a olhar direito para os pontos sobre o morango. 

A nota inteira está no link:

http://www.economist.com/displaystory.cfm?story_id=10700695 

Difamação

fevereiro 11, 2008

Inconformada com a absoluta independência dos moscosos, a revista Veja iniciou mais uma repugnante campanha de difamação, atestada pela “matéria” publicada na edição da semana passada. Confira no trecho abaixo:

“Para entender como o álcool atua no sistema nervoso, cientistas da Universidade do Estado da Pensilvânia resolveram embriagar drosófilas, as moscas-das-frutas, um dos organismos mais propícios a experiências de laboratório. Eles submeteram as drosófilas ao vapor alcoólico dentro de uma câmara de plástico apelidada de flypub (em inglês, bar das moscas). Quando expostos ao álcool, os machos da espécie ficaram excitados e passaram a cortejar outros machos. Chegaram a formar ‘trenzinhos’, um subindo sobre o outro. Sem o estímulo do álcool, os machos normalmente acasalam apenas com parceiros do sexo oposto. O estudo conclui que o álcool afeta da mesma forma o sistema nervoso dos seres humanos e das drosófilas, deixando-os mais desinibidos sexualmente. Há a hipótese de que o álcool apenas interfira na capacidade da drosófila de identificar os hormônios sexuais característicos das fêmeas.”

Moscones

fevereiro 6, 2008

Não consigo evitar. Desde que surgiu a larva deste blog minha mente faz uma associação automática entre moscosos e aspones. A explicação óbvia – sermos de fato aspones – é inverídica. Portanto, precisarei de mais tempo para refletir sobre o tema, em extenuantes sessões de auto-análise.

No ínterim, trago para debate, sem nenhuma razão aparente, dados interessantes publicados pelo Correio Braziliense na última quarta-feira, 30 de janeiro, em matéria revelando que as mulheres ganham mais do que os homens no Distrito Federal:

“A justificativa para o bom resultado das trabalhadoras nas duas unidades da federação, segundo análise de especialistas do ministério, é a forte presença do estado como empregador. Em Brasília, pelos números da Rais, 41,6% dos trabalhadores com carteira assinada estão no serviço público. No Amapá o número é ainda maior, de 43,3%, e mais que o dobro da média nacional, de 21,9%. “A presença do setor público na economia é muito grande nesses locais e os salários mais altos do setor público acabam puxando a média para cima”, justifica o diretor de qualificação do ministério, Ezequiel Nascimento.”

Remédios para a crise

fevereiro 6, 2008

Esfinge de BernankeOs parágrafos entre aspas abaixo são de Kenneth Rogoff, ex-economista chefe do FMI. Para ele, as políticas do FED (o BC gringo) e do governo dos EUA para lidar com a ameaça de recessão são muito diferentes das boas recomendações que o FMI fazia a outros países em crise. A política tradicional, como lembra Rogoff, seria identificar os bancos estão mal das pernas e deixar os ditos sofrerem as consequências das próprias escolhas, em vez de pôr panos quentes e baixar juros interbancários. Esse negócio de devolver dinheiro do imposto de renda também só piora as coisas, adia a solução do problema. 

Os economistas mais ortodoxos acham que a crise é um ajuste natural, uma correção do consumo e do crédito – que estavam em níveis  acima das possibilidades dos americanos. Não há como não frear o consumo em alguma medida. E o pacote fiscal tenta adiar a freada – ou empurra uma parte dos seus custos para depois das eleições.

“Reconhecidamente, o painel do FMI teria de enxergar além da atual hipocrisia americana. O Tesouro dos EUA encorajou a Ásia a endurecer a política fiscal durante a crise dos anos 90. Hoje, contudo, o Congresso e o presidente dos EUA desdobram-se para adotar um enorme e mal-aconselhado pacote de estímulo fiscal, cujo principal efeito será impedir o próximo presidente de eliminar o déficit orçamentário.

Os americanos disseram com firmeza ao Japão que a única maneira de sanear sua economia era expurgar os bancos insolventes e regenerar o sistema financeiro por meio da “destruição criativa” schumpeteriana.

Hoje, as autoridades dos EUA parecem dispostas a considerar qualquer medida, não importando seu poder inflacionário,para garantir que nenhum de seus grandes bancos e casas de investimento vá à falência.”

O artigo completo está no Estadão de hoje.

A imagem abaixo é uma reprodução do receituário heterodoxo (usado no Brasil nos anos 80) para lidar com crises econômicas.

Receituário heterodoxo