Estagflação

setembro 28, 2012

Comparações com Geisel, construção de hidrelétricas, empréstimos do BNDES com juros  abaixo da inflação, protecionismo, mudança de regras no meio do jogo. Não há dúvida: o governo Dilma tem algo de saudosista, de anos70.

Agora, por exemplo, estão ressuscitando uma expressão que eu esperava nunca mais ouvir: estagflação.

Ontem, em seu relatório, o Banco Central admitiu mais uma vez: a inflação vai subir mais e a economia vai crescer menos do que ele esperava/previa/anunciava.

A “tendência” tem sido essa: revisão das previsões, sempre para pior, tanto na inflação quanto no crescimento.

Se continuar assim, será a velha e conhecida estagflação.

Mas governo, bancos e e afins garantem: 2013 vai ser diferente (no crescimento porque a inflação ficará acima da meta de novo).

Só que a previsão de crescimento para 2013 é menor que a feita um ano atrás – pelos mesmos analistas – para 2012. O governo anunciava uma previsão de 4,5% para o crescimento da economia em 2012.

A crise internacional não tem perspectiva de melhora (pelo contrário), a China está desacelerando e a política econômica daqui tem cada vez mais jeito de improviso.

Resultado: a estagflação virou, mais uma vez, um cenário possível (talvez até, provável).

Anúncios

A volta da dor de cabeça

setembro 24, 2012

Subdesenvolvimento não se improvisa. A frase, do velho Roberto Campos, ganha ares de novidade sempre que o governo adota uma nova “política inovadora” para a economia.

Nossos profissionais dessa área agora apostam na falta de comunicação. Hoje, diferente de há três, dez, ou doze anos, não se sabe qual é o modelo de política econômica do país. Oficialmente o câmbio é flutuante – mas o Banco Central o mantém extra-oficialmente fixo entre R$ 2,00 e R$ 2,05. A política monetária é baseada – oficialmente – em um regime de metas de inflação. Mas nenhum analista acredita que meta será cumprida este ano, ou no próximo. Ela também não foi cumprida nos últimos anos.

Há quem diga que o governo parou de mirar na meta e passou a mirar no topo do intervalo de tolerância para a inflação (6,5%). Mas o BC não admite que esteja fazendo isso.

O preço da gasolina é arbitrado pelo governo, o da luz também – e o investimento… O investimento não acontece porque, com toda essa indefinição em relação ao que o governo está fazendo, ninguém vai tirar o dinheiro do banco para pôr em um negócio.

O último que tentou, abriu uma concessionária de carros chineses e viu o governo, de um dia para o outro, criar uma sobretaxa de IPI de 35% especialmente para ele.

Para quem tem dinheiro, hoje, a boa é aplicar em alguma coisa indexada à inflação.

Essa política de grandes doses de intervenção e mudanças tributárias abruptas (alíquotas de IOF para importados, IPI reduzido para empresas amigas, créditos especiais do BNDES abaixo da inflação) nos aproxima, lentamente, de nosso vizinho do sul. Sim, nós estamos copiando a Argentina de novo – como fazíamos nos anos 80.

Isso é especialmente estranho se olharmos para os resultados desse tipo de política em nosso vizinho: inflação de 25% ao ano, estagnação econômica, extinção do câmbio oficial (não se pode nem usar cartão de crédito internacional)…

Quem mandou votar – de novo – na Cristina?

Mas se, por um lado, é assustador ver nossa argentinização, por outro, isso ajuda a entender como foi possível que a Argentina afundasse tanto. Foi aos poucos, como com o sapo na panela. Foi reagindo – sem planos – a cada evento em separado. Foi atendendo – em separado – a cada pedido de empresa aliada. Foi trocando – um por um – os técnicos do ministério da Fazenda por lobistas de empresas. Foi atropelando – com cada vez mais força – os mecanismos institucionais de controle do executivo.

Mas se, no curto prazo, controles de câmbio e políticas ultra-setoriais parecem funcionar, no longo (pelo menos na Argentina) resultam em panelaço.

Assustador, mas parece que o velho Efeito Orloff está de volta. Parece que nossos vizinhos aturdidos podem, de novo, olhar para nós e dizer: “Eu sou você amanhã!”

De cartas e bancos (re-redux)

setembro 19, 2012

Texto publicado há três anos e republicado no ano passado:

Carteiros e bancários estão simultaneamente em greve esta semana. As reivindicações, justas ou não, são bem parecidas: reajuste, demandas relativas à participação nos lucros, melhoria das condições de trabalho e contratações. A imprensa faz a cobertura de sempre, acompanhando as negociações, monitorando a adesão, registrando os transtornos ao resto da população e tentando esclarecer as dúvidas práticas decorrentes da paralisação.

De um aspecto, porém, não se fala, nem nos jornais, nem nas rodinhas de conversa: em larga medida, a greve, para essas duas categorias em particular, é um tiro no pé.

Além do governo e do patronato, carteiros e bancários enfrentam um inimigo cruel, conhecido vulgarmente como alternativa. E talvez não exista melhor exemplo, por unir as duas frentes, que o boleto bancário. Comumente recebido pelo correio, pode, em muitos casos, ser impresso nos sites das empresas e bancos. Um dia figura popular nas filas das agências bancárias, tornou-se, aos poucos, mais afeito à praticidade das caixas eletrônicas e do internet banking.

A greve, nesse contexto, só incentiva os resistentes ao meio eletrônico a abandonar de vez os caminhos tradicionais. E, quanto mais gente migrar para a internet e o autoatendimento, menos força terão as categorias profissionais e mais absurdas serão reivindicações como a contratação de mais empregados.

Talvez seja uma realidade cruel. Mas não menos real por isso.

Compensação

setembro 18, 2012

A ministra do planejamento “chamou a responsabilidade para si”, como se dizia antigamente. O que ela fez? Apareceu na Globonews, sorrindo, para dizer que ia pessoalmente aprovar cada um dos acordos de reposição de horas paradas durante a greve dos funcionários federais.

A responsabilidade é dela: ela a assumiu.

Os planos de reposição de horas têm requintes de maldade: são feitos para dar nó na vida dos servidores.

Por exemplo: onde trabalho, a cada semana, depois cumprir as horas normais de expediente, cada funcionário tem que compensar 5 horas. Horas além das 5 não são acumuladas para a compensação na semana seguinte.

Além das 5 horas, há os sábados. A presença aos sábados é obrigatória, mas só conta para a compensação se ocorrer exatamente no horário definido pela ministra. Minutos registrados fora desse horário são descartados: quem se atrasa um minuto é descontado proporcionalmente.

O objetivo disso, obviamente, não é repor o trabalho acumulado, é punir o servidor que fez greve.

Em vez de acalmar os ânimos depois de empurrar uma perda de salário equivalente à inflação de três anos, a ministra resolveu deixar irritados os funcionários de cuja produção depende para mostrar serviço.

Não, eu não entendo esse governo.

Já vi pessoas antes mais ou menos simpáticas à Era PT fazendo campanha pela oposição. É o mínimo que se pode fazer.

Acho que o PT vai ter seu pior resultado em muitas eleições. E espero que, depois, alguém se lembre da responsabilidade da ministra.

A cidade de Tóquio. Durante os longos anos 80, Tóquio foi atacada dezenas de vezes por monstros gigantes na TV.

Isso virou uma marca registrada. Hoje ninguém tem dúvida: Tóquio não se incomoda com o trânsito, com os apartamentos pequenos ou com o envelhecimento da população. Seu problema são os monstros gigantes.

Da mesma forma, os problemas do Rio de Janeiro não são a baixa qualidade das escolas e a falta de médicos na rede pública. Aqui, o importante é fazer obras e licitar linhas de ônibus. Isso é o que resolve todos os problemas.

Os seriados japoneses não eram tão engraçados quanto nossa propaganda política. Mas eram, certamente, menos destrutivos.

Monstro eleitoral francês (do Museu Rodin).