Até o dia 8 de agosto, vai estar de graça, no site da amazon, o livro que inscrevi no Prêmio Kindle de Literatura.

O site não permite que os livros sejam anunciados de graça por mais de cinco dias (de 4/8 a 8/8). Depois disso, então, o livro passará a custar R$ 1,99.

O livro conta a história de três estudantes de economia – do dia do trote na faculdade até os empregos no mercado.

A personagem mais curiosa é Patrícia, que, vendo os projetos assustadores da consultoria onde trabalha e as coincidências estranhas que acontecem à sua volta, se convence de que seu chefe é o diabo em pessoa.

Tentei implicar democraticamente com todas as escolas de pensamento econômico. Mas a parte mais divertida do texto é a do chefe diabólico que, pragmático, não parece seguir escola nenhuma.

O livro pode ser baixado para kindle, ipad e afins (e também lido na tela do computador) a partir da página neste link.

Feito em casa.

MASSOLIT tupiniquim

março 29, 2016

É difícil não repetir a História como farsa. E é engraçado ver a esquerda fazer isso (mesmo quando a História é assustadora).

Nos anos 30, na União Soviética, o favorecimento aos artistas pró-regime era tão ostensivo que um escritor de oposição (Mikhail Bulgakov) não resistiu a registra-lo em livro. E assim, contrabandeada para fora da Russia e publicada postumamente, chegou ao ocidente a história da  MASSOLIT a (fictícia) associação literária de Moscou.

Seus integrantes, governistas ou dispostos a escrever por encomenda, viviam em um condomínio de luxo só para escritores e jantavam no excelente, exclusivíssimo  (e subsidiado) restaurante da associação literária.

Para qualquer governo preocupado com auto-promoção, pouca coisa é melhor do que cultivar escritores pró-regime. Mas arte pró-regime é que nem jornalismo pró-regime: é um armazém de secos e molhados (como disse Millor). Nem o pintor do rei da Espanha (Francisco de Goya) pintava decentemente quando tinha que retratar nobres sorridentes nos jardins do palácio. O Goya bom é o Goya velho e surdo: o Goya amargurado dos últimos quadros.

goya1.jpg

Melhor que financiamento via Lei Rouanet e patrocínio do Banco do Brasil, só há uma coisa: compra direta de serviços. E aí, de novo, a história tem casos clássicos que a esquerda faz força para esquecer. O mais famoso é o de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, contratado por Frederico III, rei da Prússia, para fundamentar a doutrina de que o o Estado é tudo e o indivíduo, muito pouco.

Depois do período napoleônico, não dava mais para dizer que o rei era rei por vontade de deus. Tinha que haver uma filosofia para justificar a concentração de poder nas mãos do rei. E, para criar essa filosofia, Frederico III contou com um funcionário contratado: Hegel.

Os detalhes sórdidos do caso são descritos pelo também filósofo Karl Popper, no excelente A sociedade aberta e seus inimigos. A descrição da MASSOLIT está em Mestre e Margarida (incrivelmente mal traduzido para o português). E a possibilidade de encontrar filósofos governistas hoje está à disposição de qualquer um que leia jornal.

Um filósofo pró-governo não é muito melhor do que um artista pró-governo. As pessoas de quem se espera crítica (serve até critica construtiva) não deviam ficar elogiando os poderosos. É constrangedor. Me sinto envergonhado por eles.

Mas vai ser ainda mais constrangedor (e mais engraçado) se eles forem elogiar Michel Temer daqui a alguns meses, quando o governo Dilma terminar (o que parece cada vez mais provável).

Viejos_comiendo_sopa

Goya, em sua melhor fase.

Há novos autores. Tempos instáveis são bons para a literatura.

Quanto maior o caos, melhor para os romancistas assustados.

Esta semana, li Digam a Satã que o recado foi entendido, de Daniel Pellizzari. O livro é da leva de romances em cidades estranhas – que a Cia. das Letras editou depois de deportar (temporariamente) um grupo de novos autores brasileiros – cada um para uma cidade. Pellizzari foi pra Dublin e, entre pubs e irlandeses desorientados (e também poloneses e uma eslovena), faz uma mistura meio ácida de humor e ceticismo. Sobra até para Chicomecoatl, a (vingativa) deusa asteca do milho.

Depois de uma apresentação categórica sobre como a evolução foi cruel com as mulheres russas – e dos delírios de um líder de seita neo-celta pró-ofídios que quer salvar o mundo do apocalipse – acho que entendi o recado.

Mas a melhor cena do livro é um dialogo entre dois estudantes da universidade local (um brasileiro e um belga) sobre livre arbítrio. A discussão é em voz baixa: acontece à noite, enquanto os dois – quase contra a vontade – tentam roubar múmias de um museu irlandês.

Sim, o recado foi entendido.

Na terra de Yates, com uma eslava explosiva.

Na terra de Yates, com uma eslava explosiva.