Economia da saúde

abril 29, 2017

A gestão atual do Ministério da Saúde entrará para a História por sua criatividade sem limites.

Hoje pude ver de perto essa inovação curiosa que é a campanha de vacinação sem vacinas.

É simples: você chega ao posto de saúde e descobre que as vacinas acabaram antes das oito horas da manhã, logo que o posto abriu.

– É para febre amarela? Tem que chegar às 7h – me disse uma mãe de criança com o filho no colo. – Em Botafogo também já acabou.

Segui com minha filha para a Cinelândia, onde eu mesmo tomei a vacina há alguns anos. Lá, o segurança do posto de vacinação foi ainda mais claro:

– A gente só recebe 20 doses por dia. O melhor é agendar a aplicação.

Mas não era uma campanha de vacinação? Agendar no meio de uma campanha?

O verão já acabou e anda há tempo até os mosquitos voltarem a ser um dos grandes terrores cariocas. Mas mandar as pessoas aos postos de saúde sem ter vacinas para aplicar não parece o exemplo de gestão que o atual ministro prometeu quando recebeu o Ministério Saúde em troca dos votos da bancada do PP no Congresso…

Injeção? Vacina? Programa de saúde pública? Só pagando, na clínica particular. Vai um plano de saúde popular sem cobertura de internação também?

Anúncios
dscn3915

Luz (fraca) no fim?

Lembro de meus posts de 2011 sobre o recém empossado governo Dilma. Minha impressão, na época, era de que o maior problema da presidente era a incompreensão do que acontecia na economia: o problema era mais burrice que maldade.

A esperança – eu pensava na época – era o debate. Se os problemas da economia fossem discutidos de forma clara e aberta, talvez se pudesse pôr a política econômica na direção certa.

Bom, eu errei em apostar no debate como solução para mudar os rumos do governo Dilma. O debate nunca aconteceu: o governo não estava interessado em ouvir críticas (por mais construtivas pudessem ser).

Votando aos dias de hoje: Michel Temer parecia, até agora, menos arrogante que a antecessora (o que era motivo de esperança). Mas a reforma educacional por decreto (literalmente por decreto) começou a me convencer de que talvez, de novo, eu estivesse sendo muito otimista.

O teto para as despesas federais, apresentado com pouco debate, também não é um a boa notícia.

Sim, o orçamento está completamente estourado e é preciso fazer cortes significativos. Mas não se corta por decreto. Não funciona assim. Apesar do discurso de que “a saúde será preservada” a proposta continua sendo reduzir a despesa per capita do governo com saúde ao longo dos próximos 20 anos.

Corrigir os gastos com saúde só pela inflação (quando a população cresce) é diminuir o gasto por pessoa ao longo do tempo.

Na saúde, o item em que é menos difícil cortar é a prevenção (é menos difícil que cortar o atendimento das pessoas que esperam na fila e protestam contra a falta de médico). O problema é que é mais destrutivo. Nós vimos isso com os surtos de Zika e Chicungunha no início do ano.

Cortar gastos com saúde pode sair incrivelmente caro – e a despesa extra virá com o carimbo de despesa emergencial, com preço superfaturado e dispensa de licitação…

A solução – mais uma vez – é discutir a sério o corte antes de fazê-lo. É discutir ouvindo as propostas de quem critica (e não dando um desconto no primeiro ano para servir de manchete n’O Globo e reduzindo o gasto per capita nos outros 19 anos do pacote).

Se quiser ser melhor que a antecessora, Temer não apenas terá que fazer cortes – o que ela sempre se recusou a fazer – terá que conversar e ouvir os críticos. Meireles e companhia terão que ouvir os críticos. Eles são bons economistas mas não entendem nada de saúde pública: têm que ouvir para avaliar direito o potencial destrutivo do que estão propondo.

Arrogância e desconhecimento – Dilma já provou – podem ser mais destrutivos que más intenções.

Vale a pena tentar não repetir os erros da presidente cassada.

 

De alguns meses para cá, passei a detestar a definição de leveza de Milan Kundera, que aparece logo no início da Insustentável leveza do ser. No livro, o descompromisso do personagem principal, sua leveza, permite que ele sobreviva a uma ditadura opressiva sem ser esmagado pelas decisões do governo. O mundo é leve: é melhor não se preocupar.

Mas, no Brasil de hoje, acontece o contrário: os governantes são leves. Eles andam despreocupados, alocando no fundo partidário verba que podia ir para o combate à Zica. Na prática, matam gente para ter mais recursos para a propagada eleitoral. E isso, sem angústia, sem sentimento de culpa. O mundo é leve: é melhor não se preocupar.

O ministro da Saúde dá declarações em tom leve à imprensa, dizendo que é melhor as mulheres contraírem Zica antes da idade fértil, para se imunizarem antes da gravidez (sofrimentos, riscos e efeitos desconhecidos da doença à parte). O mesmo ministro diz que, se conseguirem produzir uma vacina, ela não será para todos (imagine gastar dinheiro público com vacinas!), será para grupos de risco. Quer dizer: em vez de política pública para erradicar a doença – como deve ser feito – ele optaria por um paliativo, que mantém para sempre a doença em circulação. Afinal, o mundo é leve e é melhor não se preocupar.

Essa capacidade de não olhar para os efeitos das próprias decisões é um primor de autonomia psicológica. É preciso ser muito duro (ou muito cego) para tomar decisões desse tipo e não fazer um harakiri depois. Ou então é preciso acreditar que o mundo é leve, que é melhor não se preocupar.

O ministro – trancado em um gabinete em Brasília – se sente a salvo do vírus (e de tantas outras doenças para as quais falta atendimento médico no país). Seus colegas, barganhando verbas de campanha, também se sentem a salvo (contanto que tenham verba para se reeleger). Ninguém se preocupa muito. O mundo é leve. Pelo menos para eles.

borboleta

Mais leve que uma pluma.