Sair do Rio de Janeiro ajuda a pôr a cidade em perspectiva. Em outros lugares, há bons imóveis anunciados por R$ 150 mil. Na Zonal Sul do Rio, eles custam quase um milhão.

Com os aluguéis é a mesma coisa: muito mais altos no Rio.

Os preços dos serviços privados são mais altos e a prestação de serviços públicos está mais decadente no Rio. Os funcionários do Estado estão com os salários atrasados, as unidades de pronto atendimento de saúde estão com seus contratos (caros) precisando de revisão e a universidade do estado só não fechou as portas porque professores e alunos toparam trabalhar em condições ruins para universidade não fechar de vez.

Ficou caro e ruim viver no Rio. O Estado vai passar as próximas décadas pagando dívidas como a do metrô (assumida para pagar quase R$ 10 bilhões à Odebrecht e Associados). O município também tem dívidas olímpicas a pagar…

Que empresa com alguma capacidade de escolha abriria filiais ou novos negócios nessa  cidade cara e pouco funcional?

A alta de preços e a destruição dos serviços públicos,  então, sinalizam baixo crescimento à frete. E, com ele, virão menos trabalho, menos impostos, menos serviços públicos e uma espiral de decadência.

A saúde pública é um dos maiores exemplos. O atendimento básico – que deveria ser municipal – é feito pelo Estado, em unidades privadas terceirizadas contratadas sem licitação a preços, no mínimo, discutíveis (essas são as UPAs).

Por falta de caixa, o governo cortou os repasses a algumas UPAs, que cortaram o atendimento aos doentes. Há quem defenda que as UPAs deviam mesmo ser fechadas, mas antes é preciso saber o que pôr no  lugar.

Que empresa ou família vai querer se instalar em um lugar em que a saúde pública  é assim, os planos de saúde são caros e a rede hospitalar privada está sobrecarregada?

Sair do Rio é, cada vez mais, a opção para recém formados, aposentados e qualquer um que tenha uma oferta de trabalho ou fonte de renda fora de lá. É o que escuto cada vez mais, das pessoas mais diferentes.

E, de fato, a vida é mais tranquila fora do Rio. Fora de lá, não é preciso ouvir um governador que atrasa salários dizer que quer expandir o metrô até o Recreio dos Bandeirantes.

Se as coisas continuarem desse jeito, os que não forem expulsos da cidade pela crise econômica serão expulsos pelos insultos de Pezão e Associados.

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Urubu em Jurerê: fugindo do Rio de Janeiro.

Cidade de fachada

janeiro 24, 2016

No início do século XX, quando pôs abaixo centenas de casas para construiu “um boulevard com a mesma largura dos de Paris”, o então prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos, despejou milhares de pessoas. Para coroar sua obra, ele fez um concurso de fachadas, garantindo que a nova Avenida Central fosse vistosa.

Hoje, como no início do século passado, mosquitos assolam os habitantes da cidade – mas suas fachadas estão lindas. A prefeitura intima os moradores a pinta-las (e diminui impostos se pintarem com duas cores, destacando os arabescos do projeto original).

Lembrei de Pereira Passos ontem, andando pelas ruas do Rio e vendo as belas casas e prédios pintados e cheios de placas de “vendo” e “alugo”. São belas casas vazias, algumas com goteiras e mofo por dentro – mas (quase) todas devidamente pintadas por fora.

Das fachadas originais da Av. Rio Branco sobraram poucas. Da própria Rio Branco original sobrou pouco. Já remodelaram a rua para tirar os bondes e agora a estão quebrando de novo para reinstalar os bondes. As empreiteiras responsáveis pela obra agradecem.

É muito estranho passar pela Sete de Setembro e ver os trilhos do bonde antigo aparecendo no solo recém escavado. Depois de anos enferrujando sob o asfalto, eles serão finalmente arrancados, para dar lugar aos novos trilhos.

Os trilhos mudam, as fachadas são repintadas, as doenças transmitidas por mosquitos ressurgem, os despejos de moradores na Zona Oeste são rotina, a dificuldade em morar perto do trabalho a preços decentes persiste e os serviços públicos (principalmente a saúde pública) continuam lastimáveis.

Enquanto a grande preocupação do governo for a fachada, não se deve esperar nada muito diferente.

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Fachada em país rico – mais bonita que as daqui.

Quem anda hoje pelo Centro do Rio de Janeiro repara logo nas faixas de “vende-se” e “aluga-se” na frente de lojas e em janelas de escritórios.

Se a oferta de imóveis já é grande hoje, imagine quando as construtoras entregarem o emocionante “porto maravilha”, projeto privado para ocupar uma área decadente na ponta do centro da cidade.

Mas o que está acontecendo? Por que tantos imóveis anunciados?

Pode ter a ver com o preço dos imóveis e dos aluguéis – que disparou nos últimos anos.

Embora os donos de imóveis continuem com a expectativa de vende-los ou aluga-los por valores altos, não há mais quem pague o que pedem.

Mas por que agora? Por que, às vésperas da Copa do Mundo, dois anos antes das Olimpíadas etc. etc.?

O problema é que a bolha imobiliária nunca teve nada a ver com Copa ou Olimpíadas. Ela tinha a ver com juros e câmbio. O resto era conversa de corretor.

O preço dos imóveis – no Rio e em outras cidades – começou a subir em 2008, no começo da crise nos Estados Unidos e na Europa.

Os juros, no mundo rico, caíram para perto de zero (para menos de zero, descontando a inflação). Os ricos do mundo rico trataram de levar seu dinheiro para onde rendesse um pouco mais. Vieram para cá e para outros países onde juros, ações e imóveis fossem render mais do que o zero que ganhavam em casa.

O efeito disso foi que o real se valorizou fortemente entre 2008 e 2012, as ações no Brasil subiram de preço e os imóveis – comprados por estrangeiros, fundos imobiliários e brasileiros pegando carona – também.

Mas já começam a haver sinais de recuperação nos EUA. Ontem, o BEA (o IBGE americano) anunciou que a economia de lá cresceu a um ritmo anualizado de 2,6% no quarto trimestre do ano passado. A presidente do BC de lá já avisou que eles vão – aos poucos – parar de imprimir dinheiro para jogar no mercado (o que eles chamam de quantitative easing), em suma: para muitos investidores estrangeiros, começa a ficar próxima a hora de vender o que compraram aqui e voltar para casa.

O Banco Central daqui está fazendo malabarismos para evitar que a saída de dinheiro desvalorize o real muito rapiadamente e, para os estrangeiros, esse é exatamente o problema. Se demorarem muito para sair, o real perderá valor e seus ganhos por investir aqui virarão fumaçam. Então, é melhor se antecipar um pouco e não esperar pela alta dos juros nos EUA.

Resumindo: não sei quem vai comprar os imóveis do porto maravilha. Não sei nem quem vai alugar ou comprar os que já estão anunciados no Centro do Rio. Com o aumento dos juros aqui, até os compradores mais necessitados vão passar a pensar dez vezes antes de pegar financiamentos imobiliários. O cenário, cheio de “vende-se” e “aluga-se”, lembra muito o que vi em uma viagem à Inglaterra em 2007 (pouco antes do estouro da bolha imobiliária de lá).

Edimburgo, 2007. Às vésperas da crise.

Edimburgo, 2007. Às vésperas da crise.

 

Pela quantidade de policiais nas ruas, o governo esperava que a cidade fosse tomada por uma horda de torcedores de futebol irritados, ou de “vândalos”, como os repórteres da Globo gostam de dizer. Mas os peregrinos que vieram ver o papa são um modelo de educação e civilidade.

Não há como não passar por eles: são onipresentes no Rio. No metrô, então, há quase um a cada dois metros quadrados. Eles se atordoam com a publicidade colorida que cobre a cor original das catracas (há uma cor de roleta para cada tipo de passagem) mas acabam descobrindo como passar.

Diferentemente do que a prefeitura parece ter imaginado, eles não trouxeram asas ou outro equipamento para voar pela cidade. O transporte, então, é um problema. O metrô e os ônibus já não davam conta do fluxo normal de moradores nos dias normais. Com um milhão e meio de pessoas a mais, as coisas ficaram bem confusas. Mais confusas ainda se lembrarmos que os milhares de policiais nas ruas não estão lá para dar informações – eles não tinham nada a dizer durante o colapso do metrô na tarde de ontem. Eles estão lá para… Bom não está claro para que os policiais estão lá.

O ajuste dos preconceitos oficiais à realidade dos religiosos tem sido muito lento, o que produz cenas realmente surreais. Hoje, por exemplo, os auto-falantes do metrô anunciavam que, às 16h30, a estação São Francisco Xavier seria fechada devido à grande quantidade de peregrinos na região.

Eu sei, é um processo lento de aprendizado. Mas, cedo ou tarde, a administração do metrô e do município vai aprender que, quando muitas pessoas querem ir para um lugar (e especialmente quando não sabem direito como chegar lá) o papel delas é ajudar – e não impedir ou sabotar o acesso.

Acostumados a bater em quem reclama, a fechar o metrô em áreas de passeata e a infernizar a vida dos caricas, Eduardo Paes e seu mentor, Sergio Cabral, estão agora torturando os peregrinos. “Peregrinação é isso”, deve estar pensado o prefeito.

Mais um preconceito que – ao lado do dos missionários vândalos voadores –  precisa ser deixado de lado.

O papa – em sua passagem pela Tijuca, daqui a pouco – podia criticar a maneira como a prefeitura local trata seus fiéis. Talvez a crítica papal faça o prefeito ver a luz (ou, pelo menos, fazer o dever de casa com medo da publicidade negativa).

Peregrina estóica tenta ignorar os tormentos  provocados pelo  prefeito do Rio de Janeiro.

Peregrina estóica tenta ignorar os tormentos provocados pelo prefeito do Rio de Janeiro.