Huxley em Olímpia

agosto 7, 2016

“É como se seus nomes fossem escrito em água”. A frase é de Aldous Huxley, não me lembro se do Contraponto ou do Folhas inúteis. Nos últimos dias, ela me vem à cabeça o tempo todo.

Sempre que vejo um atleta chorando ou dando pulos de alegria olímpica, na TV, penso em Huxley.

Alguém certamente já disse que é perigoso acreditar na própria propaganda. Mas estamos fazendo isso (eu mesmo não sou exceção). Estamos extasiados com imagens meio hipnóticas de gente correndo e pulando, de fogos de artifício e de cantores conhecidos.

Mas isso vai passar. A suave narcose olímpica vai durar um mês. Depois, vamos ficar com listas de nomes escritos em placares digitais (o que é quase o mesmo que escreve-los na água) e os mesmos problemas que tínhamos antes (e talvez mais alguns).

Difícil não pensar que os bilhões gastos em propaganda e entretenimento não pudessem ter um uso mais duradouro. Difícil não pensar nas dívidas que o governo assume para bancar os jogos.

Já ouvi de um governista que, sem os jogos, não teriam esticado o metrô até a Barra.

Nada contra o metrô, muito pelo contrário. Mas, se o critério para alocação de verba for esse (tem para evento, não tem para atender a população), estamos perdidos desde já.

A olimpíada vai criar boas externalidades: vai juntar as pessoas e talvez até esfriar os ânimos. Mas não se pode analisar nada olhando só para os benefícios. O mesmo recurso, usado em outras áreas, não seria mais proveitoso para a população? Se tivessem gastado em coisas básicas como saúde e educação, o resultado não seria melhor?

Não é uma crítica inútil. Por hora, vamos continuar hipnotizados diante da TV. Mas, no futuro, por favor, vamos tentar criar alguma coisa melhor do que emoções rápidas que não deixam traço.

 

PS.: O texto de Huxley é do Folhas inúteis. É o terceiro parágrafo neste link.

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Para o brejo?

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A partir do dia 27 deste mês, quem estampar placas com palavras como “ouro”, “vitória” ou mesmo “Rio”, no Rio de Janeiro pode ser preso por até 1 ano segundo uma lei especial criada para atender ao Comitê Olímpico Internacional publicada há dois meses.

Para usar essas e outras 759 expressões registradas no Instituto Nacional de Propriedade Industrial, só pagando patrocínio ao COI.

Os detalhes estão na matéria neste link.

Não dá nem vontade de ver os jogos na TV. A vitória, o ouro e mesmo a cidade (já ficou claro) são do comitê de Genebra.

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Difícil de engolir.

 

Cuidado! Você pode estar em um livro do Douglas Adams.

Podia ser pior (sempre pode): você podia estar no meio d’O Processo ou d’A Metamorfose.

Mas não pense que é engraçado viver em uma comédia.

No clássico de Adams, o Guia do mochileiro das galáxias, o personagem principal acorda com sua casa sendo ameaçada pelos tratores de uma empresa de demolição.

“O plano [de demolição] está disponível no escritório de planejamento há nove meses”, informa o chefe da equipe de tratores.

Qualquer carioca que veja explodirem (literalmente) seu caminho de casa em nome de planos indisponíveis há meses no escritório do prefeito sabe o quanto isso não tem graça.

Em nome de planos que ninguém sequer citou na propaganda eleitoral, a prefeitura tem destruído avenidas (avenidas como a Rio Branco, quebradas de ponta a ponta) e promete manter a locomoção na cidade impraticável por mais alguns meses.

Era preciso quebrar tudo ao mesmo tempo? E ficar com tudo quebrado o ano todo? (não dava para ir quebrando por partes?)

Lojas têm fechado, pessoas têm penado para ir e voltar do trabalho e ainda há políticos dispostos a se vangloriar das obras.

Os cariocas colecionam razões extras (além da crise econômica e dos escândalos políticos) para perder o ânimo.

Não à toa, muitos estão fugindo da cidade – e até do país.

Não tenho nenhuma estatística sobre isso, só a amostra pequena de amigos, parentes e conhecidos que estão indo embora. E eles nunca foram tantos quanto nos últimos dois meses.

Em minha pequena amostra, todos os neo-exilados têm uma boa formação acadêmica e poderiam insistir mais em viver aqui no Rio.

Minha impressão é de que vão embora não pelo que esperam encontrar, mas pelo que querem deixar para trás.

A vida de imigrante é dura. É não ter amigos próximos ou parentes para ajudar a cuidar das crianças, é ter que destrinchar novos labirintos burocráticos para resolver problemas, é ser alguém de fora em um lugar novo.

Mesmo assim, cada vez mais cariocas acham que vale a pena, só para sair daqui.

Tudo empacotado.

Tudo empacotado.

Lixo administrativo

março 5, 2014

Com cinco dias de greve da Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), as pilhas de lixo nas ruas do Rio de Janeiro começam a ficar altas. Mas elas incomodam menos que a decisão do presidente da empresa, Vinicius Roriz, de demitir 300 funcionários por faltar o trabalho durante o feriado de Carnaval.

Isso: depois de faltar três dias (sábado, domingo e segunda-feira de Carnaval) 300 pessoas foram demitidas, por fazer greve. Não existe alguma lei que impeça empresas de demitir pessoas por fazer greve? Ainda mais em um feriado? Não deviam tentar negociar por mais tempo antes de demitir? Não pensaram que, demitindo, só vão acirrar mais os ânimos? Não lembraram que vivemos em tempos democráticos, em que o que vale é a negociação?

Não. Domingo, dia 2 de março, uma matéria da Agência Brasil, publicada no jornal O Dia, já mostrava como os garis seriam tratados. A passeata dos garis foi acompanhada por PMs desidentificados, sem nome ou número nas fardas. O coronel responsável pela tropa se justificou: as novas fantasias de Robocop usadas pela PM carioca para reprimir passeatas não têm nomes nem números. Segundo o coronel Wagner Vilares, a identificação dos PMs “não é uma obrigatoriedade legal, mas administrativa”. Isso quer dizer que eles podem bater impunemente sem identificação (e agora, com capacetes que escondem o rosto)?

A quantidade assustadora de lixo acumulada nas ruas em cinco dias é prova de que os garis cariocas trabalham. É trabalho pesado e é usado pela prefeitura como símbolo de eficiência administrativa. Não à toa, Cesar Maia adotou a cor da Comlurb (o laranja) como símbolo da sua administração. Não à toa, Eduardo Paes levou um gari para dançar no palco de encerramento das Olimpíadas de Londres: era a imagem publicitária perfeita para as Olimpíadas do Rio (um lugar onde os garis são felizes).

Na hora de faturar em cima da eficiência da Comlurb, os políticos estão lá. Mas na hora de negociar salários, mandam a polícia.

Em vez de negociar a sério, conversam com um sindicato não representativo, que não se incomoda em adotar cláusulas de demissão imediata em seu “acordo” com a Comlurb.

Isso não tem como acabar bem.

Demissões, ameaças e incapacidade de negociar.

Demissões, ameaças e incapacidade de negociar.

PS. Com o desemprego na mínima histórica, os garis não vão ter muito medo de perder os R$ 1.200 de salário (R$ 400 de adicional de insalubridade incluído). Para ganhar isso trabalhando domingos, feriados e em horários alternativos, não vai ser tão difícil arrumar outro emprego. Eles não vão se intimidar com demissões e ameaças.

É um pouco estranho ver os mal-treinados funcionários da CET-Rio gritarem com os pedestres para que saiam logo da faixa de pedestres. Vi a cena agora há pouco. Fui um dos corridos da faixa:

“O sinal está aberto!!!!”, gritou o sujeito de colete ao lado do meu ouvido.

“É a faixa de pedestres!!!”, devia ter gritado de volta.

Os sinais com tempo insuficiente para os pedestres passarem são só um dos muitos “ajustes” feitos pela prefeitura para tentar diminuir os engarrafamentos causados… pela prefeitura.

O gasto de tempo – e esforço – dos cariocas para tentar chegar ao trabalho (e voltar para casa) não entrou na conta do tal Porto Maravilha.

Acho que quase nada entrou. Como o atual prefeito não se cansa de repetir: é um projeto privado. E é isso mesmo: milhões de pessoas estão sendo prejudicadas para que um grupo de empreiteiras possa fazer mais um grande lançamento imobiliário: o Porto Maravilha.

Vários prédios comerciais novos serão vendidos (não serão baratos) em uma área que a prefeitura está revitalizando para tornar mais cara. O benefício, é claro, é dos donos de terrenos, construtoras, incorporadoras e imobiliárias.

Se alguém de fora quiser usufruir dessa beleza sem Elevado da Perimetral na frente, que pague o preço de um escritório em área recém-urbanizada.

Quem fica engarrafado hoje no Rio tem a sensação de que a cidade está se tornando inviável. Mas o pior é pensar que ela está ficando assim por conta de decretos da prefeitura – e que os beneficiários dos decretos…

Canary Warf, Londres, tudo que o porto maravilha não vai ser (e construído sem atormentar o trânsito inglês).

Canary Wharf, Londres, tudo que o porto maravilha não vai ser (construído sem  dar nó no trânsito inglês).

O carioca desidratado 2

fevereiro 16, 2014

Os habitantes do Rio de Janeiro se sentem cada dia mais desamparados. O prefeito da cidade demole as vias expressas e diz – como se não tivesse nada a ver com a história – que a cidade vai ficar intransitável. A sensação de violência (assaltos etc.) aumenta e o secretário de segurança aparece dizendo que quer proibir o uso de máscaras (no Carnaval). A ideia é reprimir qualquer coisa com caráter político. Para os crimes de sempre (que nunca contaram com máscaras) fica tudo como sempre.

Com o Carnaval, mais ruas serão fechadas – além da Avenida Rio Branco (proibida a partir de amanhã para os carros de passeio, por ordem do prefeito).

O carioca também não tem mais jornais (bom, ainda há O Dia). A imprensa – que já foi um dos orgulhos da cidade – praticamente não existe mais. Vemos só propaganda anti-protestos, pendurada todos os dias nas bancas de jornal.

Como se não faltasse mais nada, falta pasto para nós, pobres eleitores cariocas. A falta de chuva secou o mato e a grama da cidade e não temos mais nem a alternativa de pastar. É grave a crise.

Aterro do Flamengo: cartão postal amarelado.

Aterro do Flamengo: cartão postal amarelado.

Manifestante tem que ir em cana por 30 anos!

A ideia de intimidar manifestantes com a ameaça de penas de prisão bizarras não é nova. Está em um projeto de lei em tramitação no Senado que só não deve ser votado este ano por causa das eleições. O senador, pastor e candidato ao governo do Rio Marcelo Crivella é um dos autores do projeto, que tem o número 728/2011.

O resumo do projeto é o seguinte:

“Define crimes e infrações administrativas com vistas a incrementar a segurança da Copa das Confederações FIFA de 2013 e da Copa do Mundo de Futebol de 2014, além de prever o incidente de celeridade processual e medidas cautelares específicas, bem como disciplinar o direito de greve no período que antecede e durante a realização dos eventos, entre outras providências.”

O texto tem trechos como ” § 5º O crime de terrorismo previsto no caput e nos §§ 1º e 3º deste artigo é inafiançável e insuscetível de graça ou anistia”, que dão ideia de como pensa seu autor.

Considerado inconstitucional por muitos analistas, por ir contra, por exemplo, o direito de reunião em locais públicos, o texto poderia dar margem a abusos de interpretação, como o de considerar fechar uma rua privação de liberdade, ou dar um rolé no shopping infundir pânico generalizado (com penas altas para as duas coisas).

Se no Rio de Janeiro mais de meio milhão de pessoas foram às ruas ano passado para se manifestar às vésperas da Copa das Confederações (e outras tantas as apoiaram mas não foram pessoalmente) pode-se imaginar que as chances do autor de um projeto como esse ser eleito governador são poucas.

Os adversários só têm que mostrar o projeto na TV – se não forem colegas de partido dos senadores Ana Amélia (PP/RS) e Walter Pinheiro (PT/BA), coautores do texto. Ah, o vice-governador Pezão, que provavelmente gosta do projeto, também não deve critica-lo.

O papel de crítico – se Crivella começar a ter intenções de voto muito grandes – vai sobrar para Miro Teixeira, Bernardinho, ou para o histriônico Anthony Garotinho.

Crivella: vale tudo para defender a FIFA.

Crivella: vale tudo para defender a FIFA.

Conheço uma bióloga desempregada. Mas não vou dizer a ela que o governo do Estado do Rio de Janeiro abriu vagas de 16 horas semanais para biólogos (salário R$ 1.083) nas escolas da rede pública.

As vagas para matemáticos e físicos são para trabalhar 32 horas semanais. Não consigo imaginar o perfil dos aprovados. Afinal, há emprego para matemáticos e físicos em bancos, empresas de petróleo e telecomunicações e em todo tipo de órgão público bem remunerado. Quem sobra para as 482 vagas em escolas estaduais?

Depois de derrotar o sindicato dos professores em uma greve de mais de dois meses (em que os professores só conseguiram, na prática, evitar o desconto dos dias parados), o governo abre edital para ocupar as vagas dos que arrumaram empregos melhores ou se aposentaram. Segundo o governo, a maior parte das vagas foi aberta por aposentadorias.

Acho curioso. Afinal são 313 vagas para matemática e 22 para história. Os matemáticos da rede estadual são mais velhos que os historiadores?

Sem perspectiva de melhora – e a promessa de pancadas da polícia em caso de mais greves – a carreira de professor secundário fica cada vez menos atraente. Não adianta dizer que a hora/aula no Rio é maior que em outros lugares: o custo de vida no Rio é muito maior do que em outros lugares.

Considerando o despreendimento do governador na hora de fazer declarações surreais, não vou me espantar se, nos próximos meses, ele aparecer na TV fazendo propaganda do Rio: um lugar onde é fácil ganhar mais que físicos, matemáticos e afins (qualquer vendedor de shopping consegue).

Com seu salário, um professor de biologia que não coma nem ande de ônibus (nem tenha contas de luz, gás etc.) consegue comprar 15 potes grandes de Ginko Biloba importada todo mês!

Com seu salário, um professor de biologia que não coma nem ande de ônibus (nem tenha contas de luz, gás etc.) consegue comprar 15 potes grandes de Ginkgo Biloba importada todo mês!

Juntando um pouquinho de dinheiro para fechar a conta, o salário de professor de biologia compra 7 galinhas pintadinhas de pelúcia em um shopping de Botafogo.

Juntando um pouquinho de dinheiro para fechar a conta, o salário de professor de biologia compra 7 galinhas pintadinhas de pelúcia em um shopping de Botafogo.

Como vive alguém que passou por cinco anos de faculdade e ganha esse salário?

Como vive alguém que passou por cinco anos de faculdade e ganha R$ 1.083?

O carioca desidratado

outubro 28, 2013

São três da tarde de segunda-feira, 28 de outubro. É o quarto dia de racionamento de água em meu prédio. A água fica aberta algumas horas por dia: tempo para preparar comida, tomar banho e encher baldes e garrafas de novo.

Passei a pé pelo Flamengo, depois do almoço. Contei cinco caminhões pipa em seis quarteirões. Considerando o tempo que leva para esvaziar um caminhão desses, é provável que todos os prédios em volta estejam pedindo um. O meu já pediu.

Tudo é bastante estranho nesse caso. Da falta de anúncio (ou péssima divulgação) sobre a manutenção na rede de água até a cobertura da imprensa – que dá mais destaque ao preço extorsivo dos caminhões pipa do que ao desrespeito completo da Cedae, a companhia estadual de saneamento.

Não basta não avisar, não basta informar prazos sempre prorrogados para a normalização do abastecimento, não basta deixar escolas, hospitais, restaurantes e casas a seco, a Cedae ainda vai continuar fazendo o que sempre fez: quando a água voltar, voltaremos a ver o esgoto jorrando pelas calçadas – travado em tubos entupidos e subdimencionados – voltaremos a ver as contas altas e a nos lembar da marchinha dos anos 50:

“Rio de Janeiro / Cidade que seduz / De dia falta água / De noite falta luz.”

As caixas da Light pararam de explodir (por hora), mas os professores aceitaram um acordo ruim (para não ter seu ponto cortado depois de dois meses de greve) e a saúde pública continua mal.

O governo parece não entender que existe para prestar serviço público. Prefeito e governador acham que estão lá para repassar subsídios a empresas de ônibus lucrativas, licitar obras sem projeto (com o Regime Diferenciado de Contratação, aprovado em homenagem à Copa do Mundo) e contratar a Fundação Roberto Marinho para administrar museus.

Depois se espantam quando a população vai para a rua (e mandam a polícia “dispersar” a manifestação).

Cariocas: pacientemente esperando a Cedae

Cariocas: pacientemente esperando a Cedae.

O protesto dos professores

outubro 16, 2013

Cheguei tarde à passeata dos professores – e cheguei pelo lado da Av. Presidente Vargas. Tive que desviar do “bloco da polícia” que fechava a passeata. Era uma quantidade realmente grande de policiais – fechando (no sentido estrito) a manifestação.

Mas a passeata foi excelente. Se tivesse um pouco mais de traquejo com a parafernalha do blog postaria os vídeos de manifestantes cantando “A educação parô-ôu!”, com as vozes de dezenas de milhares de pessoas na Av. Rio Branco, às 19h de hoje.

Preocupava um pouco a presença ostensiva da Tropa de Choque. Eles ficavam a cada dois quarteirões, em grupos de 20 ou 30, com escudos e cacetetes, encostados a prédios da avenida. Sem nomes nas fardas, tinham as tais identificações alfanuméricas.

Vi o momento em que um grupo de mais de 20 policiais resolveu prender um manifestante (pacífico) no meio da multidão. Eles foram, os 20 ou 30, para cima do sujeito. Não sei se ele estava usando máscara ou qual foi a justificativa. Mas, em pouco tempo, havia uma roda de câmeras e filmadoras em torno da cena e a multidão gritava “au au au, cachorrinhos do Cabral!”.

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Os policiais se retiraram. Passaram ao meu lado na calçada e – pelo que pude ver – dessa vez não levaram ninguém. É difícil enfrentar uma multidão de professores.

Mas ser chamados de poodles do governador não foi o bastante para lhes ensinar a lição do dia.

Eu já estava longe quando a confusão do fim do protesto começou. Desenvolvi um sentido especial para pressentir o fechamento das portas da estação do Metrô e corri para lá a tempo de entrar.

O que posso dizer com segurança é que – pela quantidade de policiais no trajeto e no bloco de fechamento da passeata – houve certamente um momento, na hora da dispersão, em que eles se tornaram maioria.

Fico assustado vendo os narradores da TV dizerem em tom acusatório: “Vocês estão vendo um manifestante usar um tapume como escudo!”. Sim: como escudo, para se defender de alguma coisa. Fico assustado vendo a quantidade de bombas de gás voando e o locutor da Globo, o tal Bonner, dizer: “foi um grupo de mascarados…”

Alguém disse a ele para parar de dizer “vândalos”. Já é um progresso. Mas falta cobrir melhor como as passeatas são “dispersadas”: em que momento a polícia decide “dispersar” os manifestantes e a partir de que horas o Metrô fechado se junta à falta de ônibus (as ruas estão fechadas) e a polícia age como manda o governador.

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PS. Vi há alguns dias um documentário sobre o fim do comunismo no Leste Europeu. Os documentaristas recuperaram um trecho do jornal da noite da Alemanha Oriental de dias antes da queda do muro. Antes do muro cair, os alemães orientais já fugiam de carro, passando por outros países para chegar à Alemanha Ocidental. O locutor do jornal – com a cara mais dura do mundo – dizia que aqueles fugitivos estavam sendo “expulsos” do país.

Lembrei disso vendo o Bonner não dizer “vândalos” no Jornal Nacional. Não é ele quem decide como as passeatas serão mostradas no jornal da noite. Ele é um rosto, como o do apresentador alemão, alguém que está lá para repetir uma determinada versão.

Me senti, de novo, em um regime totalitário. Mas gostei de pensar que o status de celebridade de algumas figuras, de alguns apresentadores e “jornalistas”, se perdeu de vez.

Agora dá para ver melhor o que eles são.

PS2. Os jornais de hoje (16/10) mostram as decisões do comando da PM e do governador no fim da noite de ontem. Foram presas 190 pessoas. Os acampados – que estavam há semanas nas escadarias da Assembléia Legislativa – foram levados em ônibus para oito delegacias espalhadas pelas cidade, da Taquara à Ilha do Governador.

Por estar acampados perto do palácio, 43 pessoas foram acusadas de formação de quadrilha com agravante de aliciamento de menores.

PM

Policiais militares deram tiros para o alto  com munição real. Pelo menos um manifestante foi hospitalizado com um tiro – que o atingiu nos braços.

Segundo a Folha de S. Paulo, agora, cerca de 24h depois dos protestos, 64 manifestantes continuam presos. 

Imagem resumo do protesto dos professores municipais, ontem, na Cinelândia, Centro do Rio de Janeiro. A repressão policial foi violenta (a Globo só mostrou pessoas quebrando vidraças) mas deu para ver que nem todo mundo se intimida com as balas de borracha e com o efetivo exagerado da polícia nas passeatas.

Fábio Motta, Agência Estado, 01/10/2013.

PS. A foto é também uma aula de jornalismo: ela não foi tirada nem do ponto de vista dos manifestantes nem do da polícia. O fotógrafo estava no espaço entre os dois grupos, assim como a professora que deu a bronca nos policiais.

PS2. Foi estranho – embora não surpreendente – ver no Jornal Nacional a proposta apresentada pelo prefeito Eduardo Paes – e aprovada pelos vereadores em seção fechada (com a polícia explodindo bombas na porta) – para o plano de carreira dos professores. Apresentada pela Globo, a proposta parece boa. Só esqueceram de dizer que ela vale para menos de 10% dos professores do município.

PS3. Com um salário de R$ 1.224 para trabalhar 22h (poucos trabalham 40h e ganham R$ 4.000 como alardeou a secretária municipal de educação, Cláudia Costin), sem grandes perspectivas de melhora e ainda apanhando da polícia, quem ainda vai querer dar aula para alunos de primeiro grau? Afinal, comissões incluídas, o salário de um vendedor de roupas é melhor.

PS4. A Globo também lembrou – em algum dos seus jornais – que os professores são contra a “avaliação por desempenho”, proposta pela dupla Paes/Costin. Faltou explicar como o desempenho dos professores é avaliado. O número de alunos aprovados é um dos critérios. A aprovação automática, dos tempos de Garotinho no Governo do Estado, era, pelo menos, mais explícita.

PS5. Já me disseram que a imagem aí em cima não resume o que o batalhão de choque fez nem a quantidade de bombas de gás que a polícia jogou do alto dos prédios sobre os professores. Mas, de qualquer jeito, fiquei feliz em ler os posts de professores descrevendo como o Black Block chutou de volta as bombas de gás da polícia e ofereceu água e ajuda aos atingidos pelo gás lacrimogênio. O bloco parece, cada vez mais, um grupo disposto a defender os manifestantes da truculência policial. As agressões físicas, registradas nas passeatas, são sempre cometidas pela polícia – que recebe a famigerada ordem para “dispersar” e a executa com entusiasmo. Sem o Black Block para defender os manifestantes, o número de vítimas sérias do gás e de pancadas de cassetete seria, certamente, maior.

O desfile de beleza do PC

setembro 13, 2013

A curta temporada no Chile me deu – por alguns minutos – a impressão de que os protestos de lá são parecidos com os daqui. Mas é muita arrogância tentar entender um país em dois dias. E talvez mais arrogância ainda querer entendê-lo com dois dias e uma matéria longa da Revista Piauí. Mas é exatamente isso que vou fazer.

Aqui no Brasil, os protestos não têm líder. Os assessores de Sérgio Cabral ficam perdidos procurando um representante dos manifestantes para tentar corromper. No Chile, há lideranças claras. Uma delas, destacada com foto de uma página e um quarto na Revista Piauí deste mês, é Camila Vallejo, a futura-deputada mais bonita da História do Chile.

Formada em Geografia há poucas semanas, a líder estudantil de 25 anos ganhou fama internacional com os protestos por educação superior gratuita no Chile – que começaram em 2011. Ela é bonita, articulada e filiada ao Partido Comunista.

Aí a semelhança com o Brasil aumenta. Não com os protestos brasileiros, mas com o Brasil. Os nomes mais conhecidos do PC do B, hoje, são duas beldades: Manuela D’Ávila, deputada federal pelo Rio Grande do Sul, e Vanessa Grazziotin, senadora pelo Amazonas.

Os PCs latino-americanos, pelo jeito, apostaram na beleza e – pelo menos nesse ponto – acertaram.

O curioso é que, enquanto os protestos brasileiros usam estruturas em rede, vídeo em tempo real e novas mídias, os chilenos se apoiam em uma instituição bizarramente obsoleta: o Partido Comunista.

Eles poderiam defender o ensino superior gratuito a partir de um discurso liberal. Os liberais colecionam argumentos pró ensino gratuito, da externalidade positiva da educação à redução de barreiras à entrada em mercados com monopólio de conhecimento (como a medicina). Nos anos 60, Kenneth Arrow, nobel de economia em 1972, já reclamava do custo alto dos serviços de saúde por conta da dificuldade dos estudantes para bancar uma faculdade de medicina. Sem os comunistas no pacote, os protestos teriam mais chance de aceitação pelo público chileno.

O combate à repressão policial fica muito melhor no discurso de um liberal (alguém que defende a liberdade de comércio, opinião e manifestação) do que na de alguém cujo partido têm nas costas décadas de repressão na Europa, China e Coréia do Norte. Quer dizer: quem dá tapinhas nas costas de Raul Castro têm mais dificuldade para reclamar de repressão.

E a repressão no Chile é violenta até hoje. Os conservadores de lá merecem ser tirados do poder e jogados no lixo da Historia. Mas não deveriam ser comunistas quase adolescentes os responsáveis por fazer isso. 

Onde estão os liberais de verdade de lá (os que querem progresso e não manutenção do status quo)?

Porque, no fim, fica a impressão de que Camila e seus amigos se destacam por falta de alguém melhor para fazer oposição ao governo, alguém para dizer que ensino é prioridade de qualquer país que queira progresso tecnológico e produtividade alta.

Deixar para a extrema esquerda a bandeira da defesa do ensino superior público é um erro que vai custar caro aos chilenos.

Aqui na terra dos papagaios (pelo menos no discurso), a defesa do ensino gratuito é uma unanimidade. Ai do político que falar contra.

Lá, o governo vai ter que aumentar a receita e bancar o que a população pede: mais ensino público. É isso ou se desgastar e dar espaço, pouco a pouco, a um PC que o velho Nelson chamaria de bonitinho, mas…

Manuela D'Ávila, o nome mais conhecido do PC do B.

Manuela D’Ávila, o nome mais conhecido do PC do B, nos dias de hoje.

40 anos esta noite

setembro 11, 2013

Saí do Rio logo depois do 7 de setembro, na madrugada do dia 8. A polícia já tinha parado de prender manifestantes nas ruas quando fui para o aeroporto. Quatro dias no Chile. Saí de lá hoje, 11 de setembro, aniversário de 40 anos do golpe de estado chileno.

Ontem à noite, a TV chilena mostrava os protestos locais – com estudantes bloqueando avenidas com galhos acessos.

O fogo era logo apagado por jatos d´água de um caminhão pipa carabinero (a polícia militar de lá).

Na TV, o locutor se referia aos manifestantes como “los anti-sociales”, reparava que  eram jovens – “menores de edad” – e não usavam máscaras.

Os estudantes, poucos onde as câmeras estavam, tratavam de desaparecer rapidamente antes que os carabineros chegassem. Eles parecem ter mais prática em lidar com repressão que os daqui.

Pulei para os canais vizinhos (eles têm até Al Jaseera na TV a cabo chilena). No canal alemão, um biógrafo de Pinochet debatia, em espanhol, com um apresentador e mais dois convidados.

“A estrutura de muitas coisas no Chile, do sistema financeiro ao sistema de educação, é pinochetista, até hoje. É difícil mudar isso. Ainda há muita resistência”, disse. Mas sua melhor tirada só poderia ser feita por um alemão de cabelo branco, como ele:

“Faz quarenta anos hoje. Agora as pessoas estão começando a discutir, a recuperar a memória. Quando acaba a ditadura há um bloqueio: as pessoas não querem falar sobre ela. Na Alemanha foi igual. Quanto tempo demoramos para começar a falar sobre o período nazista? Foi mais ou menos 40 anos.”

Ouço isso e não posso deixar de pensar que o golpe brasileiro é mais antigo que o chileno: tem quase 50 anos. Já deveríamos ter entendido bem o que ele foi. Não deveria ser possível que a geração que cresceu sob o golpe tolerasse que estudantes fossem espancados nas ruas no Rio de Janeiro, que levassem tiros de borracha e choques de teaser, que fossem perseguidos pela polícia após a dispersão das passeatas.

E a desculpa nem é “evitar o comunismo”, como era nos anos 60: é liberar o trânsito ou evitar que “baderneiros” reclamem do governador.

Tempos estranhos, sem dúvida.

La Moneda: bombardeado em 1973.

La Moneda: bombardeado em 1973.

O poder de empurrar

agosto 19, 2013

Há tempos o governo do Rio de Janeiro encontrou um jeito simples para resolver a maior parte de seus problemas: basta empurra-los para o cidadão.

A ideia é simples. Imagine que o governo tem um problema administrativo para resolver: tem que mandar a cobrança do IPVA para os donos de carros antes da data de vencimento.

Isso é um problema: é precio ter endereços, gastar com correio, dar conta das cartas que não chegaram… Solução: informar à imprensa que os boletos são emitidos via internet e que as datas também estão online, no site do Detran. Quem não olhar e correr atrás do prazo que pague a multa ou – eventualmente – tenha o carro apreendido.

Problema: é preciso organizar o sistema de transporte sem desagradar à empresas de ônibus que financiam os políticos eleitos. Solução: deixe como está que as pessoas dão um jeito de chegar ao trabalho ou em casa (por mais tempo e dinheiro que gastem com isso).

Problema: é preciso ter uma população educada, que se transforme em mão-de-obra eficiente para as empresas. Solução: oferecer salários baixíssimos para os professores públicos, atraindo apenas profissionais que não arrumam emprego em outro lugar. Isso é suficiente para cumprir as exigências do governo federal para repassar verba extra (Fundef, Fundeb e afins). A mão-de-obra depois será treinada em cursos on the job de uma semana nas empresas que tiverem a infelicidade de contrata-la.

Problema: é difícil marcar um exame ou uma consulta médica nas redes pública e privada de saúde. Solução: o estado não pode fazer tudo: as pessoas que esperem na fila, faltem o trabalho por estarem doentes e vejam seus parentes definharem por falta de atendimento.

O saldo, em economês, desse tipo de política é a baixa produtividade do trabalho. Se as pessoas, em média, têm uma formação escolar ruim, não têm como tratar da saúde, perdem horas para ir e voltar do trabalho, perdem tempo e paciência com obrigações burocráticas criadas pelo Estado (tipo vistoria de carro, renovação de carteira de motorista, emissão de certidão negativa, quitação eleitoral etc.) não se pode esperar que tenham muita habilidade ou disposição para produzir.

Aqui no Rio de Janeiro isso é gritante. A cidade do Rio ficou cara e lenta. Os entregadores de produtos erram o endereço e entregam o produto errado (e com atraso). Os caixas erram a conta (até para menos!), os ônibus caem de viadutos, os bueiros explodem, há esgoto jorrando em uma a cada cinco esquinas…

Produzir aqui é muito difícil. Há demanda – porque as pessoas precisam comer e se distrair – mas é cada vez mais difícil ofertar alguma coisa.

O cruzamento de demanda estável com falta de oferta se chama inflação: aumento de preços – que vemos em uma a cada duas esquinas.

Além de cara, a cidade vai ficando inóspita.

Para quem pode, a boa é fugir. A sensação é de que tudo pode desabar a qualquer momento.

Empurrar e morder.

Empurrar e morder.

Ratoeira carioca

julho 24, 2013

Fiquei preso no centro do Rio hoje. Normalmente, com cada pessoa saído do trabalho no seu horário, ônibus e metrô já ficam lotados. Hoje, com o feriado papal a partir de 16h, todos saíram ao mesmo tempo. E o metrô parou de funcionar.

O hábito de baixar decretos – adotado com entusiasmo pelo prefeito Eduardo Paes – atormenta os cariocas há tempos. Só esta semana teremos três feriados novos, infernizando a vida de empresas e de qualquer um que tenha prazos para cumprir.

Os decretos surpresa são muitos, a qualidade do transporte (e da saúde e da educação pública) é baixa e – para qualquer empresa que pretenda produzir com regularidade – a cidade vai ficando pouco atraente.

Ah, sem metrô, os missionários estrangeiros ficaram completamente perdidos.

Rio de Janeiro, 22/07, 21h – A cobertura dos protestos no Rio de Janeiro está sob censura policial. Os repórteres do último canal 100% independente que transmitia ao vivo (e sem edição) os protestos foram presos hoje pela Polícia do comandante Mariano Beltrame. Os três repórteres do grupo Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação (NINJA) que cobriam o protesto de hoje estão agora na delegacia do Catete, acusados de “posse de material explosivo” (seus telefones celulares?).

A cena de prisão, filmada pelos repórteres e transmitida ao vivo, não mostra nenhum “material explosivo”. O policial que fez uma das prisões recebeu a ordem para prender o repórter por telefone*.

Enquanto a Globo mostra o papa sorrindo na TV, a polícia do Rio de Janeiro dispara bombas de gás e balas de borracha contra os manifestantes perto do palácio do governo. A polícia, mantendo a tradição, esperou os políticos saírem para dispersar o protesto.

Passei por Laranjeiras hoje à tarde. Confesso que nunca tinha visto tantos policiais juntos. Eles estavam sorrindo – o que não achei um bom sinal – e carregavam escudos do Batalhão de Choque. Vi alguns com as balas de borracha  penduradas em diagonal sobre o peito.

Ah, sobre a visita papal, nada demais. João Paulo II deu tapinhas nas costas de Augusto Pinochet quando visitou o Chile. O papa Francisco cumprimentou Sergio Cabral na decida do avião, cumprimentou Renan Calheiros – e vai ficar sorrindo enquanto os caricas que reclamam do governo respiram gás lacrimogênio e tomam bala de borracha. Vai promover – voluntariamente ou não – os políticos que saem com ele na foto.

Se não reclamar da violência policial e da censura (da  prisão dos ninjas), o papa sairá do Brasil muito pior do que chegou – sairá conivente.

Abaixo, as fotos do bairro de Laranjeiras, tiradas há pouco, que já saíram nos sites de jornais:

policia reprime manifestação tiroRio 22_07_2013violencia policial

* PS.: Os jornais do dia seguinte (23/7) listaram a acusação como “incitar a violência”. Muita coisa foi dita pelos policiais no vídeo – até que os repórteres fossem soltos, por volta de 22h30.

Ontem fui a uma passeata tranquila e bem humorada. Havia centenas de milhares de pessoas e cartazes engraçados – como o de uma menina, com a frase “Me chama de Copa e investe em mim”.

Depois de mais ou menos duas horas andando, quando estava já no Sambódromo (vindo da Av. Rio Branco), ouvi de um manifestante que a cavalaria estava atacando a multidão e voltei para casa.

O que vi, pela internet, foi a polícia investindo contra uma multidão majoritariamente tranquila. Depois, vi a polícia perseguindo pessoas pelas ruas e disparando balas de borracha e bombas de gás em passantes que não tinham nada de ameaçador.

Liguei a TV e lá só aparecem uns tais vândalos que, pela descrição, parecem um pouco com os manifestantes de Londres ano passado ou com os de Paris, na época pré-Sarcozy.

Quem foi o infeliz que mandou os cavalos para cercar o palácio?! Depois de tantos protestos, ainda não entenderam que não se manda a cavalaria para reprimir passeatas? Não entenderam que a tropa de choque aumenta a violência?

Na hora fiquei sem entender. Afinal, os protestos são, em grande medida, contra a violência da policia. Eles cresceram depois que a polícia de São Paulo disparou balas de borracha no rosto de manifestantes quinta-feira passada. Foi isso que fez uma manifestação contra aumentos de passagem virar esse grande protesto nacional.

Com mais repressão, a população vai reagir e mais gente vai para as ruas.

O governador não sabe disso?

Mas a política de Sergio Cabral e seus amigos ficou mais clara quando liguei a TV hoje cedo. Lá, os tais vândalos – e não a cavalaria ou a tropa de choque – eram os personagens principais. Lá nem mostraram a manifestação bem humorada com várias centenas de milhares de manifestantes (se a polícia diz 300 mil, é porque não foram menos de meio milhão) que protestavam tranquilamente na avenida (até a polícia dispersá-los com bombas de gás).

A assessoria de imprensa do governo está trabalhando. Mas, em tempos de internet, vão ter mais dificuldade em vender o peixe de Sergio Cabral.

A violência foi da polícia.

Quem dá as ordens para a polícia é o governador.

É precipitado dizer que o governador é responsável pela violência? Podemos dizer que o vândalo está no palácio? Se estiver, quem vai tirá-lo de lá?

Rio de Janeiro 20_6_2013

Rio de Janeiro 20/6/2013

Polícia ataca a passeata (esses não estavam atacando a prefeitura, só protestando).

Polícia ataca a passeata (esses não estavam atacando a prefeitura, só protestando).

O batalhão de choque na Av. Presidente Vargas.

O batalhão de choque na Av. Presidente Vargas.

A cidade de Tóquio. Durante os longos anos 80, Tóquio foi atacada dezenas de vezes por monstros gigantes na TV.

Isso virou uma marca registrada. Hoje ninguém tem dúvida: Tóquio não se incomoda com o trânsito, com os apartamentos pequenos ou com o envelhecimento da população. Seu problema são os monstros gigantes.

Da mesma forma, os problemas do Rio de Janeiro não são a baixa qualidade das escolas e a falta de médicos na rede pública. Aqui, o importante é fazer obras e licitar linhas de ônibus. Isso é o que resolve todos os problemas.

Os seriados japoneses não eram tão engraçados quanto nossa propaganda política. Mas eram, certamente, menos destrutivos.

Monstro eleitoral francês (do Museu Rodin).

Prefeitos que fazem

agosto 21, 2012

O Brasil tem pouca tradição em ciência e pesquisa. Nunca ganhamos um prêmio Nobel (nem de literatura). Mas temos séculos de tradição e avanço técnico na área do desvio de verbas. Aqui foram estabelecidas as leis gerais do desvio. Uma delas, para quem não conhece, é a que prevê que o desvio de verba é proporcional ao orçamento da área.

Não à toa, o slogan Rouba mas faz surgiu em São Paulo, o estado mais rico do país. O slogan é tradicional – dos tempos do governador Ademar de Barros. Barros criou toda uma escola de pensamento. Seu maior herdeiro intelectual, Paulo Maluf, acumula décadas de serviços prestados ao desenvolvimento de tecnologia para o roubo. (Posso chamar de ladrão sem medo de ser processado, pois uma das condenações de Maluf foi em terceira instância).

Criatividade e dedicação à parte, Maluf não inovou nos fundamentos da corrupção: roubou fazendo, quer dizer, superfaturando obras.

E, espanto à parte, continuou sendo eleito. Fez isso graças ao bem pago marqueteiro Duda Mendonça (que trabalhou com ele antes de eleger Lula) e às obras superfaturadas, que até hoje apresenta como “prova” de boa administração. O mandato de deputado lhe dá imunidade parlamentar, quer dizer, o mantem longe das grades.

Mas é chato falar de São Paulo, quando vários dos maiores avanços nesse campo estão surgindo em outros lugares. Um que comprova a relação orçamento/desvio é o do Farmácia Popular. Ontem o Estadão publicou matéria mostrando como o programa superfatura a compra de remédios (pagando até 163 vezes mais do que a administração pública quando compra diretamente).

O assunto não é novo. O Tribunal de Contas da União tem mais de um relatório condenando o programa.

Mas tudo isso foi só para lembrar que um grande bolo de dinheiro está vindo para o Rio de Janeiro por conta da temporada olímpica daqui a quatro anos. Se vale a constate universal da corrupção (roubo proporcional ao orçamento) vem aí muito roubo.

Um dos grandes avanços tecnológicos na corrupção brasileira é o lema do prazo. Esse lema diz que quanto menor o prazo para a execução de uma obra, maior a chance de aditivos de contrato inflarem o pagamento (ele complementa, mas não chega a contradizer, a constante universal).

Muita gente vai gastar muito dinheiro nessa campanha para a prefeitura. Afinal, a prefeitura é quem organiza as obras. Mas, segundo os postulados da teoria do desvio de verba (conhecidos no Brasil com profundidade científica), o investimento eleitoral vai valer a pena.

Egito antigo: vítimas da corrupção de baixa tecnologia.
 
 

Nos livros de História do colégio, a família real chega ao Rio de Janeiro despejando as famílias cariocas – que teriam suas casas ocupadas por nobres portugueses. As portas das melhores casas eram marcadas com as iniciais P.R. – que indicavam ao morador que tinha que ir para outro canto.

Hoje, com a alta delirante do preço dos imóveis – seguida pela de preço dos aluguéis – o efeito é parecido: moradores de vários bairros do Rio,  quando vêem seus contratos de aluguel vencer ou quando pensam em comprar um imóvel, têm que ir para longe, têm que se mudar para outro canto.

Mas, se no século XIX os cariocas sabiam quem os estava despejando, agora, isso não está tão claro.

Afinal: quem está pagando por esses aluguéis mais caros? Quem tem renda para pagar R$ 3.500 por mês por um aluguel de apartamento no Flamengo? Quem é o mané que paga R$ 800 mil por esse apartamento? Quem está botando o P.R. nas portas?