Pequenos protestos

janeiro 2, 2014

Para quem achava que os protestos contra o governador do Rio de Janeiro tinham acabado, essa foi tirada hoje, na Rua Sete de Setembro, no Centro.

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O protesto dos professores

outubro 16, 2013

Cheguei tarde à passeata dos professores – e cheguei pelo lado da Av. Presidente Vargas. Tive que desviar do “bloco da polícia” que fechava a passeata. Era uma quantidade realmente grande de policiais – fechando (no sentido estrito) a manifestação.

Mas a passeata foi excelente. Se tivesse um pouco mais de traquejo com a parafernalha do blog postaria os vídeos de manifestantes cantando “A educação parô-ôu!”, com as vozes de dezenas de milhares de pessoas na Av. Rio Branco, às 19h de hoje.

Preocupava um pouco a presença ostensiva da Tropa de Choque. Eles ficavam a cada dois quarteirões, em grupos de 20 ou 30, com escudos e cacetetes, encostados a prédios da avenida. Sem nomes nas fardas, tinham as tais identificações alfanuméricas.

Vi o momento em que um grupo de mais de 20 policiais resolveu prender um manifestante (pacífico) no meio da multidão. Eles foram, os 20 ou 30, para cima do sujeito. Não sei se ele estava usando máscara ou qual foi a justificativa. Mas, em pouco tempo, havia uma roda de câmeras e filmadoras em torno da cena e a multidão gritava “au au au, cachorrinhos do Cabral!”.

passeata 15_10

Os policiais se retiraram. Passaram ao meu lado na calçada e – pelo que pude ver – dessa vez não levaram ninguém. É difícil enfrentar uma multidão de professores.

Mas ser chamados de poodles do governador não foi o bastante para lhes ensinar a lição do dia.

Eu já estava longe quando a confusão do fim do protesto começou. Desenvolvi um sentido especial para pressentir o fechamento das portas da estação do Metrô e corri para lá a tempo de entrar.

O que posso dizer com segurança é que – pela quantidade de policiais no trajeto e no bloco de fechamento da passeata – houve certamente um momento, na hora da dispersão, em que eles se tornaram maioria.

Fico assustado vendo os narradores da TV dizerem em tom acusatório: “Vocês estão vendo um manifestante usar um tapume como escudo!”. Sim: como escudo, para se defender de alguma coisa. Fico assustado vendo a quantidade de bombas de gás voando e o locutor da Globo, o tal Bonner, dizer: “foi um grupo de mascarados…”

Alguém disse a ele para parar de dizer “vândalos”. Já é um progresso. Mas falta cobrir melhor como as passeatas são “dispersadas”: em que momento a polícia decide “dispersar” os manifestantes e a partir de que horas o Metrô fechado se junta à falta de ônibus (as ruas estão fechadas) e a polícia age como manda o governador.

passeata 15_10b

PS. Vi há alguns dias um documentário sobre o fim do comunismo no Leste Europeu. Os documentaristas recuperaram um trecho do jornal da noite da Alemanha Oriental de dias antes da queda do muro. Antes do muro cair, os alemães orientais já fugiam de carro, passando por outros países para chegar à Alemanha Ocidental. O locutor do jornal – com a cara mais dura do mundo – dizia que aqueles fugitivos estavam sendo “expulsos” do país.

Lembrei disso vendo o Bonner não dizer “vândalos” no Jornal Nacional. Não é ele quem decide como as passeatas serão mostradas no jornal da noite. Ele é um rosto, como o do apresentador alemão, alguém que está lá para repetir uma determinada versão.

Me senti, de novo, em um regime totalitário. Mas gostei de pensar que o status de celebridade de algumas figuras, de alguns apresentadores e “jornalistas”, se perdeu de vez.

Agora dá para ver melhor o que eles são.

PS2. Os jornais de hoje (16/10) mostram as decisões do comando da PM e do governador no fim da noite de ontem. Foram presas 190 pessoas. Os acampados – que estavam há semanas nas escadarias da Assembléia Legislativa – foram levados em ônibus para oito delegacias espalhadas pelas cidade, da Taquara à Ilha do Governador.

Por estar acampados perto do palácio, 43 pessoas foram acusadas de formação de quadrilha com agravante de aliciamento de menores.

PM

Policiais militares deram tiros para o alto  com munição real. Pelo menos um manifestante foi hospitalizado com um tiro – que o atingiu nos braços.

Segundo a Folha de S. Paulo, agora, cerca de 24h depois dos protestos, 64 manifestantes continuam presos. 

Imagem resumo do protesto dos professores municipais, ontem, na Cinelândia, Centro do Rio de Janeiro. A repressão policial foi violenta (a Globo só mostrou pessoas quebrando vidraças) mas deu para ver que nem todo mundo se intimida com as balas de borracha e com o efetivo exagerado da polícia nas passeatas.

Fábio Motta, Agência Estado, 01/10/2013.

PS. A foto é também uma aula de jornalismo: ela não foi tirada nem do ponto de vista dos manifestantes nem do da polícia. O fotógrafo estava no espaço entre os dois grupos, assim como a professora que deu a bronca nos policiais.

PS2. Foi estranho – embora não surpreendente – ver no Jornal Nacional a proposta apresentada pelo prefeito Eduardo Paes – e aprovada pelos vereadores em seção fechada (com a polícia explodindo bombas na porta) – para o plano de carreira dos professores. Apresentada pela Globo, a proposta parece boa. Só esqueceram de dizer que ela vale para menos de 10% dos professores do município.

PS3. Com um salário de R$ 1.224 para trabalhar 22h (poucos trabalham 40h e ganham R$ 4.000 como alardeou a secretária municipal de educação, Cláudia Costin), sem grandes perspectivas de melhora e ainda apanhando da polícia, quem ainda vai querer dar aula para alunos de primeiro grau? Afinal, comissões incluídas, o salário de um vendedor de roupas é melhor.

PS4. A Globo também lembrou – em algum dos seus jornais – que os professores são contra a “avaliação por desempenho”, proposta pela dupla Paes/Costin. Faltou explicar como o desempenho dos professores é avaliado. O número de alunos aprovados é um dos critérios. A aprovação automática, dos tempos de Garotinho no Governo do Estado, era, pelo menos, mais explícita.

PS5. Já me disseram que a imagem aí em cima não resume o que o batalhão de choque fez nem a quantidade de bombas de gás que a polícia jogou do alto dos prédios sobre os professores. Mas, de qualquer jeito, fiquei feliz em ler os posts de professores descrevendo como o Black Block chutou de volta as bombas de gás da polícia e ofereceu água e ajuda aos atingidos pelo gás lacrimogênio. O bloco parece, cada vez mais, um grupo disposto a defender os manifestantes da truculência policial. As agressões físicas, registradas nas passeatas, são sempre cometidas pela polícia – que recebe a famigerada ordem para “dispersar” e a executa com entusiasmo. Sem o Black Block para defender os manifestantes, o número de vítimas sérias do gás e de pancadas de cassetete seria, certamente, maior.

O desfile de beleza do PC

setembro 13, 2013

A curta temporada no Chile me deu – por alguns minutos – a impressão de que os protestos de lá são parecidos com os daqui. Mas é muita arrogância tentar entender um país em dois dias. E talvez mais arrogância ainda querer entendê-lo com dois dias e uma matéria longa da Revista Piauí. Mas é exatamente isso que vou fazer.

Aqui no Brasil, os protestos não têm líder. Os assessores de Sérgio Cabral ficam perdidos procurando um representante dos manifestantes para tentar corromper. No Chile, há lideranças claras. Uma delas, destacada com foto de uma página e um quarto na Revista Piauí deste mês, é Camila Vallejo, a futura-deputada mais bonita da História do Chile.

Formada em Geografia há poucas semanas, a líder estudantil de 25 anos ganhou fama internacional com os protestos por educação superior gratuita no Chile – que começaram em 2011. Ela é bonita, articulada e filiada ao Partido Comunista.

Aí a semelhança com o Brasil aumenta. Não com os protestos brasileiros, mas com o Brasil. Os nomes mais conhecidos do PC do B, hoje, são duas beldades: Manuela D’Ávila, deputada federal pelo Rio Grande do Sul, e Vanessa Grazziotin, senadora pelo Amazonas.

Os PCs latino-americanos, pelo jeito, apostaram na beleza e – pelo menos nesse ponto – acertaram.

O curioso é que, enquanto os protestos brasileiros usam estruturas em rede, vídeo em tempo real e novas mídias, os chilenos se apoiam em uma instituição bizarramente obsoleta: o Partido Comunista.

Eles poderiam defender o ensino superior gratuito a partir de um discurso liberal. Os liberais colecionam argumentos pró ensino gratuito, da externalidade positiva da educação à redução de barreiras à entrada em mercados com monopólio de conhecimento (como a medicina). Nos anos 60, Kenneth Arrow, nobel de economia em 1972, já reclamava do custo alto dos serviços de saúde por conta da dificuldade dos estudantes para bancar uma faculdade de medicina. Sem os comunistas no pacote, os protestos teriam mais chance de aceitação pelo público chileno.

O combate à repressão policial fica muito melhor no discurso de um liberal (alguém que defende a liberdade de comércio, opinião e manifestação) do que na de alguém cujo partido têm nas costas décadas de repressão na Europa, China e Coréia do Norte. Quer dizer: quem dá tapinhas nas costas de Raul Castro têm mais dificuldade para reclamar de repressão.

E a repressão no Chile é violenta até hoje. Os conservadores de lá merecem ser tirados do poder e jogados no lixo da Historia. Mas não deveriam ser comunistas quase adolescentes os responsáveis por fazer isso. 

Onde estão os liberais de verdade de lá (os que querem progresso e não manutenção do status quo)?

Porque, no fim, fica a impressão de que Camila e seus amigos se destacam por falta de alguém melhor para fazer oposição ao governo, alguém para dizer que ensino é prioridade de qualquer país que queira progresso tecnológico e produtividade alta.

Deixar para a extrema esquerda a bandeira da defesa do ensino superior público é um erro que vai custar caro aos chilenos.

Aqui na terra dos papagaios (pelo menos no discurso), a defesa do ensino gratuito é uma unanimidade. Ai do político que falar contra.

Lá, o governo vai ter que aumentar a receita e bancar o que a população pede: mais ensino público. É isso ou se desgastar e dar espaço, pouco a pouco, a um PC que o velho Nelson chamaria de bonitinho, mas…

Manuela D'Ávila, o nome mais conhecido do PC do B.

Manuela D’Ávila, o nome mais conhecido do PC do B, nos dias de hoje.