– O senhor pretende desviar o dinheiro da prefeitura, pretende usar a verba de publicidade para financiar as suas próprias revistas ou as de seus amigos?

– Pretendo sim. A prefeitura agora vai pôr muitos anúncios na Caviar Lifestile, a revista mais cara do meu grupo, como o nome deixa claro.

Bom, a pergunta não foi assim – e a resposta, muito menos. Mas há alguns momentos em que é importante conhecer a definição clássica de hipocrisia: a hipocrisia é uma homenagem que o vício presta à virtude.

Explicando bem: mesmo que um político pretenda desviar dinheiro público para suas empresas ele tem que dizer, enfaticamente, que não vai fazer isso de jeito nenhum. É hipócrita, mas não fazer isso é ofender abertamente o público.

As respostas “não costumo comentar sob hipóteses” e “essa circunstância, como não existe, não é objeto de um comentário” não são boas.

A pergunta da repórter foi:

Julia Duailibi: “O que o senhor acha de usar recursos da publicidade da prefeitura para investir em revisas do estilo da Caviar Lifestile? 

João Doria : “Nunca teve isso. Você quer dizer hipoteticamente?”

Duailibi:”Hipoteticamente: uma revista com o perfil da Caviar Lifestile, se batesse lá na porta da secretaria de comunicação e pedisse recursos para publicidade. O senhor acha que recursos públicos poderiam ser usados para esse tipo de publicação?”

Doria: “Julia, eu não costumo comentar sob hipóteses. Essa circunstância, como não existe, não é objeto de um comentário.”

A repórter, vendo a derrapada do entrevistado, lhe deu outra chance:

Duailibi: “O senhor pode fazer um exercício intelectual, assim, pensando hipoteticamente…”

Doria: “Eu agradeço, mas fique com o seu exercício você mesma.”

Duailibi: “É de uma pessoa da plateia essa pergunta.”

Doria, virando-se para a plateia: “Também agradeço.”

Duailibi: “Uma boa pergunta.”

Doria, para a plateia: “Não precisa se apresentar mas guarde para você o exercício.”

A entrevista completa, em vídeo, está no site da revista Piaui. O trecho acima vai do segundo 55:11 ao 56:06.

Não acompanho de perto a política local de São Paulo. Nunca tinha visto uma entrevista longa com João Doria. Não tinha opinião formada sobre ele. Agora tenho.

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Pinguim piauiense na plateia se ofende com resposta de Doria.

As portas estão fechadas

setembro 21, 2016

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Nas ciências sociais é muito comum que as conclusões venham antes das provas, que venham antes até do início do estudo.

O clássico nesse campo é Karl Marx, que escreveu um panfleto cheio de conclusões (O manifesto comunista) e depois passou anos redigindo três volumes para deduzir, garantir, dar certeza de que o futuro seria exatamente como o panfleto previa.

Marx não foi o único. Uma legião de lobistas defende, todos os dias, as idéias mais viesadas e mal fundamentadas que se pode imaginar. Assim como Marx – que, curiosamente, era financiado por um industrial alemão (Engels) – muitos deles recebem dinheiro de grandes empresas. Outros estão confortavelmente instalados em cargos vitalícios na academia. E boa parte afirma ser capaz de prever o futuro, ou, pelo menos, de entender como a economia funciona.

Marx não devia aparecer nas prateleiras de economia nas livrarias. Estaria melhor classificado em ciência política ou história da filosofia (mas, talvez, políticos e filósofos discordem…).

De qualquer forma, ele tem mais a ver com a defesa de grupos de interesse que com a tentativa de entender como a produção se organiza e como a renda circula pela sociedade.

A dificuldade em perceber isso e a herança estranha que é ter sido obrigado a ler Marx nos primeiros períodos de faculdade mantêm as velhas idéias do filósofo-profeta em circulação nas universidades de todos os cantos do mundo.

Elas são pouco eficazes, as ideias de Marx. Quando chegaram ao poder, os marxistas russos não sabiam o que fazer (Lênin escreveu um livro sobre isso….), mas as ideias se mantêm circulando apesar disso.

A queda do muro de Berlim, em 1989, devia te-las enterrado de vez, não só por mostrar que as pessoas estavam presas do lado de lá do muro (que queriam sair e não podiam), mas por mostrar que a profecia marxista sobre o futuro não tinha se realizado.

Marx era essencialmente um profeta. Seus textos afirmam poder dizer como o futuro seria. Era esse o seu diferencial. Os reformistas bem intencionados, ele chamava de utópicos. Ele não. Não estava propondo melhoras: estava prevendo o desenrolar inexorável da História.

Bom, o futuro é bem menos previsível do que ele imaginava – como qualquer empresário falido já teve o desprazer de descobrir.

A sobrevida das ideias do velho Marx tem dois efeitos colaterais desagradáveis (além de servir de desculpara para ditadores na Coréia do Norte e em ilhas obscuras): ela dá discurso a políticos populistas e atormenta estudantes que poderiam estudar outras coisas (mas fazem matérias obrigatórias com velhinhos dogmáticos).

Marx, se vivesse hoje, seria publicitário. Seu maior mérito foi criar bordões e frases de efeito eficientes: frases que convencem rápido, mesmo que sejam mal fundamentadas ou, no fundo, não digam nada, enfim: frases publicitárias.

Essa herança propagandista foi o que os partidos populistas souberam usar melhor. Nada muito contra. Eles têm todo o direito de alardear velhos e novos slogans com pouco conteúdo.

O que lamento é  o espaço que ocupam – que poderia ser ocupado, até pelas mesmas pessoas, com ideias que descrevessem a realidade de forma um pouco mais precisa.

Ninguém sabe exatamente como o mundo funciona. Mas já temos alguma ideia de como ele não funciona. Temos alguma ideia do que é um delírio e produz catástrofes sociais e do que parece ter alguma chance de dar certo.

O segundo efeito colateral – o efeito sobre os universitários quase indefesos – é seletivo. Para a maior parte deles, as leituras d’O Capital, são um estorvo e as matérias obrigatórias, rapidamente esquecidas. O efeito é só a perda de tempo, esforço e dinheiro. Mas, para uma pequena parte dos alunos (talvez os mais ingênuos ou os maliciosos com interesse em virar acadêmicos com a benção de seus professores), as aulas realmente afetam o que dizem e até o que pensam. É uma deformação que pode levar anos  para ser corrigida – se algum dia for.

Não acho que deviam proibir cursos populistas. Seria usar autoritarismo contra autoritarismo – e o autoritarismo nunca deve ser usado.

A solução é argumentar, conversar, pôr as ideias à prova.

É preciso ter paciência, pois enquanto discutimos, continuaremos vendo grandes delírios sendo cometidos e defendidos por gente que cresceu ouvindo “proletários uni-vos” em uma economia que é basicamente de serviços. Gente que cresceu em uma economia onde o tal proletariado é uma expressão antiga, que não descreve mais os funcionários de fábricas. Hoje, nas fábricas – contrariando as previsões de Marx sobre a piora nas condições de trabalho – há turnos e expediente bem definidos, férias, décimo terceiro e seguro desemprego.

Não é difícil imaginar uma dedicada estudante de primeiro período de Ciências Sociais, ou de História ou de Jornalismo perdendo horas para preparar um trabalho de dezenas de páginas sobre a “teoria do valor-trabalho” e acreditando que o valor do que ela escreve é dado pelo tempo que passa produzindo o texto: que o preço das coisas depende do número de horas usadas para produzi-las.

– Bom, se você encontrar alguém disposto a pagar o que quer que seja por esse texto… – rebateria um colega de turma menos ideológico.

A estudante ficaria triste por um minuto e, logo, começaria a pensar na injustiça do mundo e em como é difícil ter reconhecimento pelo esforço que fazemos.

Bom, é difícil mesmo. Mas isso não significa que suas 20 páginas descrevendo uma teoria antiga (e completamente errada) tenham algum valor.

A estudante – vamos chama-la de Célia – vai se juntar a outros colegas no Centro Acadêmico da faculdade. Mas logo vai perceber que a principal função do Centro Acadêmico é organizar festas (pois há muita demanda por festas na faculdade).

As festas ajudam a financiar viagens para encontros nacionais de estudantes – que também são festas, mas com gente de mais lugares.

Desiludida com o movimento estudantil, Célia vai procurar o partido político que acha mais simpático. Vamos chama-lo de Partido do Sol para Todos.

Mas logo ela vai perceber que o Partido do Sol não segue os preceitos do velho Marx, não acredita na vinda inexorável do comunismo (pois essa hipótese já foi refutada pelos fatos). O que os solares fazem é propor políticas (boas ou ruins) que acham que vão melhorar a vida das pessoas. Na prática, eles não são muito diferentes de um partido social-democrata.

Mas, quando ela diz isso a um representante do partido, sua reação é violenta:

– Não é verdade! Nós não somos como eles, não nos misturamos como eles!

Célia se espanta por o Partido do Sol votar quase sempre com o Partido dos Oligarcas Locais mas odiar o Partido Social Democrata (com quem o Partido da Ogra Defenestrada, aliado do Partido do Sol, disputa espaço em São Paulo).

Enjoada, e achando que tudo aquilo não passa de uma disputa por cargos e verbas, Célia deixa o partido solar e tenta se concentrar apenas em seu curso de jornalismo na UERJ.

Depois de alguns anos de estágio em jornais que se dizem liberais – mas fazem seus funcionários virarem noites nas sextas-feiras para fechar a edição de domingo – ela consegue um emprego na TV Planeta, canal conservador que paga salários um pouco mais altos que a média (e promete bons salários para quem chegar a cargos de chefia).

Em quatro ou cinco anos de TV Planeta, Célia já terá feito a transição de marxista radical para conservadora assustada.

Ela agora vai ter medo da violência urbana – que noticiou nos primeiros três anos como repórter de TV – vai defender a o aumento do número de policiais nas ruas e condenar os “baderneiros” que fazem protestos pedindo melhores serviços públicos.

A transição de uma ideologia simples para o medo de mudanças simples (o conservadorismo) é fácil porque, em geral, é feita sem muitas discussões: é como uma conversão religiosa, uma mudança de credo.

De um dogmatismo a outro, dá para ir sem passar pela liberdade de opinião ou pela defesa do direito dos outros de defenderem suas opiniões erradas.

Se o marxismo desemboca em regimes totalitários, o conservadorismo extremo faz a mesma coisa, pois nada como um pouco de repressão para impedir mudanças indesejadas e “manter as pessoas nos seus lugares”.

O que me assusta nisso tudo é a falta de debate, o excesso de convicção de conservadores assustados (e agressivos) e ideólogos empedernidos (e desatualizados).

Não há liberais. Não há ninguém que se proponha a discutir e a ouvir. Os que posam como liberais quase sempre são conservadores disfarçados, envergonhados por defender a manutenção de uma situação tão ruim…

Os conservadores em países pobres têm esse dilema: conservar “isso que está aí”? Mas eles, em geral, estão satisfeitos desse jeito e têm medo de ficar pior se as coisas mudarem.

Podiam discutir melhor o que mudar em vez de comemorarem a repressão a protestos de rua.

A impressão geral é de que falta debate, falta disposição das pessoas para admitir que podem estar erradas, que podem aprender alguma coisa ouvindo o que as outras pessoas pensam.

Vamos afundar por conta de uma mistura destrutiva de burrice e arrogância ideológica (antes, arrogância à Dilma, agora a arrogância de ministros nomeados para pilhar recursos sem ter que discutir projetos com ninguém. Discutir para quê?).

É curioso que se tomem decisões erradas porque todos acham que estão certos (até os corruptos, até os lobistas em pele de ideólogos…).

 

MASSOLIT tupiniquim

março 29, 2016

É difícil não repetir a História como farsa. E é engraçado ver a esquerda fazer isso (mesmo quando a História é assustadora).

Nos anos 30, na União Soviética, o favorecimento aos artistas pró-regime era tão ostensivo que um escritor de oposição (Mikhail Bulgakov) não resistiu a registra-lo em livro. E assim, contrabandeada para fora da Russia e publicada postumamente, chegou ao ocidente a história da  MASSOLIT a (fictícia) associação literária de Moscou.

Seus integrantes, governistas ou dispostos a escrever por encomenda, viviam em um condomínio de luxo só para escritores e jantavam no excelente, exclusivíssimo  (e subsidiado) restaurante da associação literária.

Para qualquer governo preocupado com auto-promoção, pouca coisa é melhor do que cultivar escritores pró-regime. Mas arte pró-regime é que nem jornalismo pró-regime: é um armazém de secos e molhados (como disse Millor). Nem o pintor do rei da Espanha (Francisco de Goya) pintava decentemente quando tinha que retratar nobres sorridentes nos jardins do palácio. O Goya bom é o Goya velho e surdo: o Goya amargurado dos últimos quadros.

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Melhor que financiamento via Lei Rouanet e patrocínio do Banco do Brasil, só há uma coisa: compra direta de serviços. E aí, de novo, a história tem casos clássicos que a esquerda faz força para esquecer. O mais famoso é o de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, contratado por Frederico III, rei da Prússia, para fundamentar a doutrina de que o o Estado é tudo e o indivíduo, muito pouco.

Depois do período napoleônico, não dava mais para dizer que o rei era rei por vontade de deus. Tinha que haver uma filosofia para justificar a concentração de poder nas mãos do rei. E, para criar essa filosofia, Frederico III contou com um funcionário contratado: Hegel.

Os detalhes sórdidos do caso são descritos pelo também filósofo Karl Popper, no excelente A sociedade aberta e seus inimigos. A descrição da MASSOLIT está em Mestre e Margarida (incrivelmente mal traduzido para o português). E a possibilidade de encontrar filósofos governistas hoje está à disposição de qualquer um que leia jornal.

Um filósofo pró-governo não é muito melhor do que um artista pró-governo. As pessoas de quem se espera crítica (serve até critica construtiva) não deviam ficar elogiando os poderosos. É constrangedor. Me sinto envergonhado por eles.

Mas vai ser ainda mais constrangedor (e mais engraçado) se eles forem elogiar Michel Temer daqui a alguns meses, quando o governo Dilma terminar (o que parece cada vez mais provável).

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Goya, em sua melhor fase.

A primeira parte da resposta é: o Brasil não tinha direitistas declarados porque é difícil ser abertamente conservador em um país onde é consenso que as coisas vão mal.

Conservar o país desse jeito? com desigualdade alta, escolaridade baixa e privilégios descarados? Até para quem achava que sim, era difícil dizer em voz alta.

Além disso, havia a memória dos tempos da ditadura que, sim, era conservadora e, sim, usou métodos no mínimo ilegais para preservar o status quo. Também difícil de defender.

Mas, de alguns meses para cá, a redução da maioridade penal, a liberação do uso de armas de fogo e todo um pacote na linha “uso da força” ganhou espaço na imprensa e no Congresso.

Por que agora?

O primeiro motivo é o governo. Depois de engolir toda a oposição que pudesse ter à sua esquerda, o governo só deixou espaço à direita para seus críticos.

Alguém sabe onde anda o PSOL? Da última vez que vi um deputado de lá, ele estava fazendo campanha política para a candidata Dilma Roussef.

Depois de abraçar – ou engolir – a maior parte dos grupos tradicionalmente de esquerda, o governo se desmoralizou completamente. Ele fez o contrário do que prometeu na campanha e ainda foi flagrado em esquemas de corrupção que são mais do que “malfeitos” constrangedores (são crimes).

Surgiu então espaço para a mistura de medo e raiva que anima um ultra-conservador.

Medo da violência (mas ela aumentou?) medo da crise, medo de qualquer coisa.

E a solução “prendo e arrebento” voltou a ser defendida em voz alta pelos antes acanhados “não esquerdistas” – que não tinham coragem de assumir seu lado “uso da força”.

Se seguirem desse jeito, as coisas não vão acabar bem.

O governo, desmoralizado como está, não vai se levantar mais. Nem deveria. Dezesseis anos no poder é tempo demais para qualquer grupo.

Mas tem que haver alguma alternativa razoável, alguma oposição que não queira prender adolescentes em presídios para adultos e dizer que isso resolve algum problema.

Fiquei feliz em ler (em uma nota discreta de jornal) que a Rede, de Marina Silva, vai finalmente ser aprovada pelo TSE. Espero que cresça e que surjam outros grupos de oposição não raivosa e não conservadora – porque agora, como antes, as coisas não estão bem – e é pouco razoável ser conservador (pró governo ou contra) em um país onde é consenso que as coisas vão mal.

"Não importa o governo, eu quero defender os valores cristãos e o Eduardo Cunha!"

“Não importa o governo, eu quero defender os valores cristãos e o Eduardo Cunha!”