Concentração de renda

maio 28, 2017

Vivemos em uma boa época para quem estuda crises econômicas e recessões violentas. Basta dar uma volta pela rua para ver os seus efeitos: as placas de Vendo e Alugo nas janelas, os mendigos em número cada vez maior…

Mas além dos efeitos óbvios da crise, há alguns surpreendentes. Um deles é o aumento da concentração de renda e seus efeitos sobre o comércio. O que vender em época de queda acumulada de 9% do PIB (desde o segundo trimestre de 2014)? Quem tem dinheiro para comprar? O que essas pessoas querem?

A resposta está em uma loja recém aberta no Edifício Avenida Central, no Centro do Rio. A loja, no térreo (em um bom ponto), vende bonecos decorativos para adultos.

A crise, como também dá para ver a olho nu, é assimétrica: deixa milhões de pessoas sem emprego e renda, mas mal faz cócegas em alguns outros. O 1% mais rico pode gastar R$ 1.176 em um boneco do Coringa ou R$ 3.000 em um do Robocop (o mais caro que vi na loja).

Obra de arte?

Para os menos abastados, bonecos de desenho animado japonês por R$ 700.

Dourados: só para quem não vê os pedintes nas esquinas.

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Luz (fraca) no fim?

Lembro de meus posts de 2011 sobre o recém empossado governo Dilma. Minha impressão, na época, era de que o maior problema da presidente era a incompreensão do que acontecia na economia: o problema era mais burrice que maldade.

A esperança – eu pensava na época – era o debate. Se os problemas da economia fossem discutidos de forma clara e aberta, talvez se pudesse pôr a política econômica na direção certa.

Bom, eu errei em apostar no debate como solução para mudar os rumos do governo Dilma. O debate nunca aconteceu: o governo não estava interessado em ouvir críticas (por mais construtivas pudessem ser).

Votando aos dias de hoje: Michel Temer parecia, até agora, menos arrogante que a antecessora (o que era motivo de esperança). Mas a reforma educacional por decreto (literalmente por decreto) começou a me convencer de que talvez, de novo, eu estivesse sendo muito otimista.

O teto para as despesas federais, apresentado com pouco debate, também não é um a boa notícia.

Sim, o orçamento está completamente estourado e é preciso fazer cortes significativos. Mas não se corta por decreto. Não funciona assim. Apesar do discurso de que “a saúde será preservada” a proposta continua sendo reduzir a despesa per capita do governo com saúde ao longo dos próximos 20 anos.

Corrigir os gastos com saúde só pela inflação (quando a população cresce) é diminuir o gasto por pessoa ao longo do tempo.

Na saúde, o item em que é menos difícil cortar é a prevenção (é menos difícil que cortar o atendimento das pessoas que esperam na fila e protestam contra a falta de médico). O problema é que é mais destrutivo. Nós vimos isso com os surtos de Zika e Chicungunha no início do ano.

Cortar gastos com saúde pode sair incrivelmente caro – e a despesa extra virá com o carimbo de despesa emergencial, com preço superfaturado e dispensa de licitação…

A solução – mais uma vez – é discutir a sério o corte antes de fazê-lo. É discutir ouvindo as propostas de quem critica (e não dando um desconto no primeiro ano para servir de manchete n’O Globo e reduzindo o gasto per capita nos outros 19 anos do pacote).

Se quiser ser melhor que a antecessora, Temer não apenas terá que fazer cortes – o que ela sempre se recusou a fazer – terá que conversar e ouvir os críticos. Meireles e companhia terão que ouvir os críticos. Eles são bons economistas mas não entendem nada de saúde pública: têm que ouvir para avaliar direito o potencial destrutivo do que estão propondo.

Arrogância e desconhecimento – Dilma já provou – podem ser mais destrutivos que más intenções.

Vale a pena tentar não repetir os erros da presidente cassada.

 

A lei de Contra-Say

junho 19, 2016

Um dos argumentos teóricos favoritos dos autores da política econômica do governo Dilma pode ser chamado, sem muita controvérsia, de Lei de Contra-Say.

A Lei de Say original, proposta pelo economista francês Jean Baptise Say no século XIX, dizia, resumidamente, que a oferta cria sua própria demanda. Quer dizer: ao produzir, as pessoas geravam a renda que seria usada para comprar o que foi produzido.

A Grande Depressão, nos anos 30, enterrou a Lei de Say. Havia produção mas, com a demanda fraca, ela encalhava em pilhas de estoques.

A produção não gera necessariamente demanda pelo que foi produzido. Isso é mais ou menos consenso entre os economistas hoje. Em períodos conturbados, pessoas e empresas podem preferir guardar uma parte maior de sua renda – em vez de consumi-la ou de investir em produção. Em situações de crise de demanda (como nos anos 30), vale a pena que o governo incentive a demanda. Até aqui, tudo bem.

Mas os teóricos do governo Dilma deram um passo além: para eles, a demanda gerava sua própria oferta – em uma versão invertida da Lei de Say. Bastaria estimular a demanda e surgiria produção para atendê-la.

Em depressões econômicas, com fábricas fechadas e desemprego em massa, o estímulo à demanda pode sim levar a uma retomada na oferta (pois o conhecimento específico, a estrutura física e os trabalhadores já estão lá prontos para voltar a produzir). Em períodos normais, estímulos fortes à demanda levam apenas a aumentos de preços – como se pode ler em qualquer manual de macroeconomia.

Negando o manual, os teóricos do governo transformaram a população do país em cobaia involuntária de uma experiência fadada ao  fracasso. É claro que a inflação subiu. É claro que empresas e donos de ativos, vendo aquela política temerária ser implantada, não só não investiram como tentaram colher ganhos de curto prazo subindo preços.

Tudo isso era previsível. A única coisa surpreendente é que um governo com ambições  políticas de longo prazo tenha comprado o discurso de lobistas com um horizonte de tempo curto. O surpreendente é que o governo tenha acreditado na cascata acadêmica da Lei de Contra-Say.

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Contra-Say: A solução é construir pirâmides, esfinges e obras olímpicas.

Há empresas esvaziando seus estoques. A queda na produção de bens parece ter sido maior que a queda no consumo desses bens, quer dizer: há sinais de que haverá compradores se as fábricas aumentarem a produção.

O gráfico abaixo mostra a variação de estoques (acumulada a cada 4 trimestres para não ter sazonalidade) e a variação nominal do PIB de 4 trimestres sobre os 4 trimestres imediatamente anteriores.

Além de mostrar que há uma correlação razoável entre as duas variáveis, ele mostra também que a variação de estoques tem sido negativa, quer dizer: aparentemente há mais demanda que oferta no mercado de bens (os serviços são outra história).

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Com estoques caindo, as empresas, em algum momento, poderão se movimentar para repô-los (ou não vão conseguir atender à demanda).

A boa correlação entre as duas séries me fez tentar projetar a variação de estoques a partir da série do PIB. O resultado é a linha cinza no gráfico. Ela também é uma boa notícia: indica que os estoques estão caindo mais rápido do que se pode projetar a partir da variação nominal da renda (a variação do PIB nominal).

Com estoques caindo rápido, há estímulo para que a produção de bens volte a crescer logo.

É, pelo menos, alguma luz lá pelo meio do túnel…

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PS.: Sobre o gráfico acima, usei diferenças em reais para o PIB em vez de taxas de crescimento em percentual. Na série do PIB, os valores em milhões de reais correntes de cada período foram divididos por 10 (para a linha não ficar muito longe da linha da variação de estoques, facilitando a comparação).

A projeção em cinza foi feita com uma regressão simples, de mínimos quadrados.

Os dados originais estão na planilha de “Valores correntes”, no site do IBGE, neste link.

Saúde x Pato amarelo

junho 17, 2016

– Não há despesa órfã no Brasil.

Ouvi essa frase do então ministro Pedro Malan em um seminário no BNDES, em 2002. Malan sabia o que estava dizendo. Segundo ele, quando tentava cortar qualquer gasto, surgiam logo os pais, padrinhos e afins da despesa para defendê-la como a um filho querido.

Cotar é difícil. Alguns cortes, paradoxalmente, aumentam a despesa e não devem ser feitos. Cortar gastos no combate a mosquitos claramente aumenta a despesa (ou as mortes por doenças ligadas a eles). Cortar merenda escolar também não é recomendável.

Sim, há onde cortar. O governo aluga uma infinidade de andares e prédios e salas e é dono de outras tantas – vazias ou sub-utilizadas. A gestão de patrimônio do governo federal é temerária, há muito tempo.

Mas cortar esses gastos dá trabalho (embora não dependa de votos no Congresso). Da saúde não vão conseguir cortar muito. O Brasil gastam menos de 4% do PIB com saúde pública: é muito menos que a média da OECD (e a média da OECD, em % do PIB, é calculada como percentual de PIBs per capita bem maiores que o nosso). O gasto com educação pública é de 4,4% do PIB: pouco também. Não recomendo cortar.

Além de saúde e educação, o governo gasta 10,8% do PIB com o resto da administração pública, aí incluídos Legislativo, Judiciário, Defesa e segurança pública. Dá para cortar alguns gastos, mas não para espremer tudo que o governo quer/precisa.

Mas como passamos desses cerca de 20% do PIB para um gasto bem acima da carga tributária – de 33% do PIB? Faltou somar as transferências. Só com a previdência gastamos cerca de 15% do PIB (bem mais que toda a despesa com saúde e educação juntas). Com os juros da dívida gastamos mais que com saúde pública…

Mas os juros também não caem por decreto (e, com o crescimento da dívida pública, o total de gasto com juros cresce proporcionalmente…).

Bom, o fato é que, comparado ao de outros países,  o gasto com serviços públicos não é dos maiores aqui. As transferências são hoje tão grandes ou maiores que as despesas com serviços.

Para equilibrar receitas e despesas, o governo quer reduzir transferências como as aposentadorias. Isso não se faz de um dia para o outro. Mas vai ser feito, em alguma medida.

Há espaço também para aumentar alguns impostos. A alíquota mais alta do Imposto de Renda no Brasil é bem mais baixa que sua equivalente em quase todo o mundo civilizado. Ela pode ser aumentada. E se a Federação das Indústrias de São Paulo vier dizer que não quer pagar o pato, sinto, mas estamos no fundo do poço, entre outros motivos, por conta das políticas que a FIESP defendeu (como a redução populista da conta de luz, o protecionismo alfandegário amantegado e a redução forçada dos juros em 2012). Além disso, é muito razoável que as empresas mais ricas do país arquem com parte do ajuste.

O que não pode é aparecer no jornal defendendo que o pato seja pago pelos usuários do SUS. Para grande parte da população – a que depende da saúde pública – o calote na dívida federal e o inferno inflacionário são preferíveis à falta de hospitais no curto prazo.

Para quem se recente da falta de qualificação da mão de obra e da baixa produtividade do Brasil, cortar na educação também não é uma alternativa.

O que fazer então? Mudar os critérios para aposentadoria, melhorar a gestão do patrimônio federal, cortar isenções tributárias como as da Lei Rouanet  e melhorar a administração onde for possível.

(E, claro, mandar o resto da conta para a FIESP. Eles merecem pagar o pato.)

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– Não se preocupem: a verba da grande pirâmide não será cortada!

O fechamento da Fazenda

abril 24, 2016

Várias matérias de jornal compraram o “shutdown” anunciado pelo Ministério da Fazenda para pressionar o Congresso.

Se recusando mais uma vez a cortar ministérios e cargos comissionados, o Ministério ameaça com uma espécie de greve patronal caso o Congresso cumpra seu papel e impeça o governo de aumentar ainda mais o rombo no orçamento.

Senhores, façam os cortes e recolham o pires: o Congresso não vai autorizar rombos extras agora.

O novo governo – se o Senado aprovar a abertura do processo de impeachment – vai cortar despesas. A alternativa é ver a dívida pública explodir em um prazo muito curto.

Só se espera que o governo Temer tenha algum critério para fazer os cortes. O governo (federal, estadual e municipal) gasta 3,4% do PIB com saúde, 4,4% com educação, e 10,8% com o restante da máquina administrativa (sem contar transferências como aposentadorias a pensões).

Os gastos com saúde e educação são reconhecidamente baixos: ficam perto do fim da fila nas comparações internacionais. Mas na administração, na burocracia brasiliense e na grande conta de transferências (INSS, pensões, subsídios etc…) há espaço para cortes. Nelson Barbosa e cia já deviam ter feito alguns deles.

Vamos ver o que fará o novo governo.

Quanto ao shutdown, é uma expressão importada do governo dos Estados Unidos. La, quando o governo federal estoura o orçamento, os funcionários são mandados de volta para casa (sem salários).

Não é assim que funciona aqui. A lei brasileira não prevê isso.

Não vai ter shutdown. O que vai ter, provavelmente, vai ser impeachment e corte no orçamento. 

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Vaca sagrada – Ministério da Fazenda, 2016.

A crise da economia brasileira não tem a ver só com queda de arrecadação, tem a ver também com despesas crescentes. O governo Dilma falhou por não reconhecer isso. E, sem reconhecer o problema, não há como trata-lo.

A dúvida agora é se o governo Temer (cada vez mais provável) vai tentar resolver problemas como o do defict da previdência. Se não resolver, sofrerá, até 2018, o mesmo desgaste enfrentado pelo governo Dilma.

A situação das contas públicas chegou a um ponto em que não é possível postergar ajustes – embora Dilma ainda tente posterga-los. Até 2008, ainda havia algum controle sobre a relação entre a dívida pública e o PIB. Mas, depois da crise de 2008/2009, o governo abandonou a contenção de gastos em nome de políticas de incentivo à demanda. Hoje, o Estado gasta crescentemente mais do que arrecada (e se endivida a taxas altas). Será preciso ajustar novamente a despesa à receita.

Parte do ajuste será via inflação (não corrigindo os salários dos funcionários públicos, por exemplo), parte terá que ser contenção do crescimento de itens como a previdência social.

O curioso é que, embora arrecade cerca de 34% do PIB em impostos (e gaste mais de 40%) o governo consome menos de 20% do PIB com a prestação de serviços públicos. O resto são transferências, são itens como juros, previdência e programas sociais (que crescem automaticamente, puxados pela dívida pública e pela demografia).

Algum ajuste virá, nem que seja um involuntário, com calotes e alta da inflação. Será melhor se o governo conseguir entregar um ajuste organizado, um ajuste intencional e bem planejado.

Nas últimas décadas tivemos ajustes de diferentes tipos: tivemos o Plano Real (que adotou a máxima do equilíbrio fiscal para conter a inflação), tivemos os ajustes dos anos 80 (que, sem a parte fiscal, foram paliativos e ineficientes) e tivemos o Plano Collor (um confisco temporário que deixou sequelas até hoje em muitos antigos poupadores).

Se servir como estímulo para os formuladores da política econômica de Temer, vale a pena lembrar que o efeito político desses ajustes foi o seguinte: o Plano Real elegeu um presidente, os ajustes do governo Sarney tiraram do PMDB a chance de se firmar como amplamente majoritário após o fim da ditadura. O Plano Collor levou ao impeachment de seu autor.

Assutador

Crise econômica. México, museu de antropologia.

O atual ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, anunciou esta semana que o governo deve ter um déficit de quase R$ 100 bilhões este ano, sem contar as despesas com juros.

Como ainda estamos em março – e, este ano, o governo tem revisto as projeções de déficit para mais a cada mês – é difícil prever onde a conta vai parar.

Mantendo esse ritmo de crescimento, a dívida pode se tornar maior que o PIB já em 2019.

Uma dívida maior quer dizer mais despesas com juros sobre a dívida. Uma dívida de quase 100% do PIB – com taxas de juros brasileiras – simplesmente não é sustentável. Ela pode levar ao calote ou à monetização da dívida (hiperinflação).

Mas o pior não é ver o governo chutar o balde do endividamento, é ver o ministro da Fazenda dizer que faz isso de propósito, para “reaquecer a economia”.

O Brasil tem um regime de câmbio flutuante. Com câmbio flutuante, os gastos do governo têm pouca capacidade de estimular a demanda. Com câmbio flutuante, quem estimula a demanda (para gerar crescimento ou inflação) é a taxa de juros: é a política monetária.

Ou o ministro da Fazenda esqueceu o básico de macroeconomia ou está sendo pouco sincero em até em suas declarações mais estranhas.

A economia não está parada por falta de déficits públicos, está parada porque empresas e famílias não querem correr riscos ou assumir compromissos em um ambiente instável como o atual.

O aumento da dívida pública em ritmo insustentável contribui para aumentar os riscos e frear ainda mais o investimento privado.

O gasto a mais, anunciado por Barbosa, vai produzir mais dívida e mais gasto com juros, vai ter o efeito oposto do anunciado.

Se o ministro for esperar a volta do crescimento da economia para cortar gastos, vai esperar para sempre (ou até ser defenestrado).

Lagarto sorridente

Dragão da crise.

Quando o governo congelou os preços da gasolina, do diesel, da energia elétrica e do dólar, houve poucas reclamações do público.

Alguns congelamentos foram feitos com estardalhaço (como  o da energia, que teve anúncio da presidente em rede nacional), outros foram feitos de forma discreta, como o do câmbio, que foi segurado pelo Banco Central com vendas de títulos no mercado futuro.

Passada a eleição de 2014, foi preciso descongelar os preços. Como, além das famílias, as empresas também usam energia e combustível, como vários produtos são cotados em dólar ou diretamente importados, o efeito do descongelamento foi amplo.

Mas a parte mais complicada do processo veio depois. No Brasil, quase tudo, de tarifas públicas a aluguéis, é indexado. Quando a inflação sobe, todos querem repor a perda de poder aquisitivo reajustando seus preços de acordo com a inflação passada. Por isso, depois que a inflação sobe é difícil fazê-la cair novamente.

As ferramentas tradicionais para segura-la são as políticas fiscal (gastos do governo) e monetária (taxa de juros). E é nessa hora que dá para ver a maldade (ou a total incompetência) da gestão mantega no Ministério da Fazenda. O governo, até 2014, estimulou o consumo de todas as formas possíveis, “gastou por conta” de formas novas e em escalas inéditas. O resultado é que não pode mais aumentar suas despesas para estimular a economia. Na verdade o governo têm que conte-las para segurar a inflação. Mas conter despesa (fazer política fiscal) é difícil.

Com a economia em recessão, a arrecadação cai e o governo assume (mesmo sem querer) o papel de impulsionador da inflação. O problema é que a diferença entre o que o governo gasta e o que arrecada – o impulso fiscal, como o chamava Joaquim Levy – se amplia e se consolida. Quer dizer: hoje, com uma diferença de cerca de 10% do PIB entre suas receitas e despesas, o governo estimula, em vez de conter, a demanda: ele pede emprestado para gastar. Empurrando a demanda, o governo estimula a inflação.

Já não bastasse a inércia dos reajustes automáticos, ainda temos a política fiscal jogando contra. E, pior, temos um grupo de economistas no governo que acha que é melhor esperar a crise passar e a arrecadação crescer para, só aí, resolver o problema fiscal.

Do outro lado da mesa, economistas de fora do governo dizem que é melhor primeiro segurar a inflação para depois voltar a crescer.

É que segurar a inflação é difícil. Mesmo com uma recessão como não se via desde Collor, a inflação continua acima de 10% ao ano. Se não for contida, ela pode, sim, voltar ao padrão dos anos 80.

A inércia – o reajuste de passagens de ônibus e metrô, de contas de luz, gás, telefone e internet – mantém a inflação em 10%. E qualquer novo choque, como uma alta do câmbio, pode puxa-la para cima, para se estabelecer em um patamar ainda mais alto.

Por isso é preciso fazer política fiscal (cortar gasto público), conter logo o monstro antes que volte ao que era há 25 anos, nos tempos de Collor.

O curioso é que economistas heterodoxos reclamem do baixo crescimento da economia e peçam estímulos para o consumo. Se estimularmos o consumo agora, o dragão acordará para valer. É a recessão que o está segurando na caverna.

Um ajuste fiscal forte provocaria uma recessão ainda maior, no curto prazo, para depois – com os preços estabilizados – permitir a queda dos juros, a estabilidade do câmbio e a retomada da economia.

Mas “queda maior no curto prazo” é uma expressão abominada pelos heterodoxo-eleitoreiros. Eles a evitam, mesmo que, ao impedir uma queda de 5% no PIB, acabem ficando com várias de 4%…    

No fim, o ajuste de preços relativos será feito via inflação, corroendo a renda de quem não tem como reajustar o preço do que vende (os assalariados). A perda de renda real fará com que reduzam o consumo e, lentamente, isso conterá os reajustes de preços. Os beneficiários de concessões do governo continuarão com seus benefícios e reajustes de tarifas – e o ajuste da economia demorará vários anos, em vez de um ou dois.

O governo sabe disso. E prefere fazer assim.

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– Vai: descongela aí!

Já era quase meia noite quando o ministro saiu de sua sala. O carro com motorista o esperava na garagem. Ele seguiu tranquilo para casa, sem pensar muito em ajustes fiscais ou altas de preços.

Três quarteirões antes de chegar, a correia de transmissão arrebentou – fazendo o motor quebrar irremediavelmente.

O ministro saltou do carro e deixou seu motorista a espera do reboque. Foi a pé para casa.

Mas, no meio do caminho, viu um bode. Não: era uma cabra, uma cabra notívaga pastando em um terreno baldio.

Longe, um relógio bateu meia noite e Barbosa, o ministro, ouviu ao seu lado uma voz cavernosa dizer:

– Boa madrugada, ministro.

Era Nelson, ou melhor, o fantasma de Nelson Rodrigues.

Branco, quase transparente, Nelson não seria como os repórteres do Planalto. Com ele, o ministro teria que falar a verdade ou, pelo menos, teria que ser sincero.

Então, tendo como testemunha apenas a cabra vadia que comia a paisagem, começou a entrevista:

Nelson: Ministro, todos os analistas de bancos e consultorias dizem que o governo tem que fazer um ajuste nas despesas, tem que fazer a despesa caber na receita para o país voltar a crescer. O senhor vai fazer isso?

Barbosa: Não. Acho que os analistas estão errados. A economia está em crise e, enquanto durar a crise, vou deixar a despesa solta. Vamos ter déficit de mais de 10% do PIB este ano, contando as despesas com juros e as com salários e materiais.

N: Então a crise não vai passar?

B: Alguma hora ela passa. Aí a arrecadação vai voltar a crescer e equilibramos a receita e a despesa.

N: Mas, e se o senhor estiver errado e a dívida pública disparar antes de o país voltar a crescer? O país vai dar calote? Vai imprimir dinheiro para pagar as contas?

B: Eu não estou errado.

N: Mas, só por hipótese: e se as coisas não acontecerem como o senhor espera?

B: Sim, aí teremos que ligar a impressora e trazer a hiperinflação de volta para conseguir fechar as contas. Mas há muitos estágios antes de chegar a esse extremo. Há tempo de mudar o curso se eu achar que estamos na direção errada.

N: Quais estágios?

B: Há o do ajuste inflacionário. Já estamos um pouco nele. Há dois anos não damos reajuste aos servidores. Isso diminui nossa despesa em termos reais. Também cortamos a verba que pagava os serviços de limpeza terceirizados de universidades e vamos reduzir a verba da saúde (que é indexada à receita de impostos). Enfim, há uma redução de despesa também. Podemos aprofundar um pouco isso se precisar.

N: Então há um ajuste fiscal?

B: Não. Quando há déficit público isso quer dizer que o governo está empurrando a demanda para cima (em vez de  fazer o ajuste para segurar a inflação). Aqui no Brasil temos déficit público: acreditamos em animar a demanda com o caixa do governo.

N: Mas o senhor apareceu na TV dizendo que ia fazer o ajuste fiscal.

B: Isso é só para enrolar os ortodoxos. Não acredito em ajustes de longo prazo na oferta, acredito em ajustes de curto prazo na demanda: é isso que sei fazer. Acredito que temos que estimular a demanda (pois surgirá oferta para atende-la).

N: Há mais algum razão para não fazer o ajuste fiscal, além de suas opções religiosas?

B: Sim. Estamos em um ano eleitoral. Não posso cortar todas as obras do PAC. As construtoras ficariam furiosas. Não é assim que as coisas funcionam. E, vamos ser claros, não dá para fazer reforma na previdência em ano de eleição. Os deputados do PT que querem ser prefeitos me matariam (ou, pior, votariam contra no Congresso).

N: Então sua equipe está apenas empurrando a política econômica com a barriga?

B: Estamos dizendo que faremos o que nossos críticos acham necessário. Isso nos poupa de críticas mais duras e nos dá mais tempo para esperar que a crise passe. Você pode chamar isso de empurrar com a barriga se quiser.

N: Mas esses críticos dizem que a crise não vai passar se o governo não fizer o ajuste fiscal, que a ameaça de uma dívida pública explosiva é o que mais deixa os investidores com medo de investir.

B: É, eles dizem isso. Mas estão errados. Vamos insistir com os financiamentos do BNDES e com o estímulo ao consumo e a economia vai retomar o crescimento, mesmo que, para isso, a inflação tenha que subir mais um pouco.

N: A inflação não vai convergir para a meta?

B: Não. Não acredito em meta de inflação. O governo Dilma nunca tentou cumprir a meta, nem vai tentar. Acho inflação um problema secundário.

N: Mas a renda dos trabalhadores está encolhendo por causa dela.

B: Quando os nossos estímulos fizerem a economia se recuperar, a renda crescerá novamente.

N: Esses estímulos são os da tal Nova matriz, que o primeiro governo Dilma adotou?

B: Sim, a ideia é basicamente a mesma: juros subsidiados para alguns grupos de empresas, Banco Central sob controle e expansão fiscal.

N: Mas não foi isso que provocou essa crise?

B: Em parte. A queda do preço do minério de ferro e de alguns produtos agrícolas que o Brasil exporta também atrapalhou.

N: Por que o senhor acha que, dessa vez, vai funcionar?

B: Nós temos o apoio da presidente, temos recursos para implantar essa política e não temos muito apoio político para fazer diferente. Além disso, fazer diferente teria um custo político alto.

N: Manter a crise também tem um custo alto.

B: Acho que nossa Nova matriz rediviva vai funcionar. Ela é o projeto da minha vida! Se não funcionar, retomo meu antigo emprego na UFRJ e deixo algum desses ortodoxos tentar arrumar a bagunça em 2019.

E, dizendo isso, o ministro virou as costas para o entrevistador (e para a cabra, que também o observava) e foi atender o celular. Era a presidente.

– Não, presidenta – disse, com o rosto colado ao iPhone – não se preocupe: está tudo sob controle.

A cabra arreganhou os lábios em uma espécie de sorriso e Nelson sumiu no ar, voltando para o purgatório dos cronistas.

O ministro seguiu para casa, sem pensar muito em coisas como inflação e contenção de gastos.

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Lhama diurna – que não testemunhou a entrevista.

Adeus Zingales

agosto 11, 2015

Luigi2

Desisti de ler Capitalismo para o povo, livro da moda entre os economistas ligados ao PSDB.

O livro – escrito por Luigi Zingales, professor da Universidade de Chicago – começa bem. Logo de saída, ele separa políticas pró-empresas de políticas pró-mercado – e mostra como as primeiras estão corroendo a economia americana. É o capitalismo de compadres, regime em que fazer lobby no Congresso compensa mais do que investir em pesquisa ou contratar técnicos.

É impossível não pensar no Brasil a cada parágrafo, nos primeiros capítulos.

Um dos alvos de Zingales é a parceria público-privada. Segundo ele, a parceria é  uma forma de transferir dinheiro público para empresas amigas (que agrada donos de empresas e grupos que querem implantar um projeto a qualquer custo).

Mas parei de ler o livro. Parei porque, depois de um diagnóstico bastante razoável, Zingales começa a segunda parte do livro com suas propostas para resolver os problemas da economia americana.

A primeira proposta é para o problema da baixa qualidade da educação.

Os EUA ficam atrás de muitos países desenvolvidos nas provas da OECD que medem o desempenho dos estudantes do ensino médio.

Em primeiro lugar no ranking, costuma estar a Finlândia. Mas, em vez de propôr que os EUA valorizem mais os professores – como a Finlândia – Zingales propõe que privatizem o ensino, adotando um sistema de vouchers do governo para alunos de escolas particulares (uma proposta antiga de Milton Friedman, também da Universidade de Chicago). Quer dizer: depois de condenar – em tese – a transferência de recursos públicos para empresas privadas, ele propõe uma transferência desse tipo como política pública.

Zingales claramente não gosta de órgãos públicos. Mas, em vez de tentar entender como as escolas públicas finlandesas fazem para funcionar tão bem, ele propõe ampliar o ensino privado – que normalmente se destaca em países subdesenvolvidos, com poucos recursos e infraestrutura alocados no ensino público.

Quer dizer: na hora de propor políticas públicas, Zingales segue seus preconceitos e não se importa em defender empresas.

Lê-lo não foi completamente inútil. Me fez pensar no programa brasileiro de transferência de recursos públicos para faculdades privadas (Fies) defendido ardorosamente, semana passada, em um quase-editorial lido por William Bonner no Jornal Nacional.

Enquanto as faculdades públicas estão em greve e não há verba para a limpeza de seus banheiros, enquanto as bolsas de pesquisa dessas faculdades são cortadas, há longas matérias de TV defendendo a transferência de dinheiro público para faculdades privadas com qualidade de ensino pior que a das públicas. É Zingales fazendo escola.

O modelo já existe nos pronto-socorros de vários Estados no Brasil. As UPAs do Rio de Janeiro funcionam assim: são empresas privadas contratadas para prestar um serviço público (contratadas sem licitação, por valores difíceis de mapear na contabilidade pública).

As escolas públicas brasileiras ainda são públicas. Mas seus professores estão no fim da linha na hierarquia de valorização profissional: ganham mal para fazer um trabalho difícil em condições horríveis.

Hoje, só aceita trabalhar como professor de escola pública quem não tem mais para onde correr.

Daqui a pouco, algum discípulo de Zingales vai encontrar a solução: vai propor que o governo pague para que uma empresa privada preste o serviço – cobrando 10 vezes mais por aluno (mas sem dizer isso muito alto).

Um governo previsível?

fevereiro 19, 2015

Quando o que você acha que vai acontecer começa a ficar muito parecido com o que você quer que aconteça é porque sua previsão está errada – é só desejo disfarçado. Ou seja: o governo Dilma não vai pôr a economia em ordem. Não é esse o objetivo deles – por mais que você goste de acreditar que sim.

O ajuste fiscal de Joaquim Levi será mantido enquanto servir ao objetivo de Dilma e seus amigos: se manter no poder. E ele só será implementado no mínimo necessário: é uma obra para evitar que a casa caia, não para deixa-la funcional.

Reformas estruturais, então, têm pouca chance de avançar. O que ouviremos nos próximos meses são coisas como a presidente pedindo que seus comandados defendam – não a política econômica – mas o ministro da Justiça, que se encontrou (sem registrar na agenda oficial) com os advogados das construtoras investigadas no escândalo da Petrobrás.

O que ouviremos são coisas como o convite da presidente para que Luciano Coutinho continue à frente do BNDES (mesmo depois dos empréstimo bilionários e da compra de ações das empresas de Eike Batista, mesmo com – talvez por causa – dos empréstimos para a Friboi, a maior financiadora de campanha de Dilma, mesmo com os bilhões de subsídio sem efeito sobre a o ritmo da economia que o banco queimou de 2010 para cá).

Enfim, se em algum momento parecer que as coisas estão melhorando, olhe direito: deve ser só wishful thinking.

Miragem: se parecer muito bom, é porque não está lá.

Miragem: se parecer muito bom, é porque não está lá.

A partir desta segunda-feira, o Banco Central vai pôr mais uma gambiarra na política econômica. O BC vai passar a rolar – todos os dias – até US$ 700 milhões em contratos de swap cambial (já explico o que é isso). O programa de intervenções se junta a outro que já vende diariamente US$ 200 milhões em swaps – e deve continuar fazendo isso pelo menos até o fim do ano. Ao todo, há US$ 110 bilhões em contratos desse tipo entre o BC e o mercado (bancos, empresas e investidores).

Para quem acompanha a economia, a notícia é mais assustadora que os escândalos da Petrobrás. Swap é um contrato de troca de rentabilidade. O BC usa esse contrato como uma espécie de seguro para quem quer comprar dólar. O contrato garante a rentabilidade do dólar a quem o compra – mas não afeta as reservas de dólares do Banco Central. É, na prática, um jeito de o BC vender dólar operando só em reais.

Por que isso é assustador?

Primeiro porque, se o dólar subir, o BC perde. Com US$ 110 bi em swap cambial, cada 1% de alta do dólar é o equivalente (em reais) a US$ 1,1 bi a menos nos cofres do BC.

Segundo (e mais importante): isso é assustador porque é jogar fora a política econômica, é aumentar a contradição lógica no que o BC faz, tornando mais alto o custo e pífio o benefício da política monetária.

Todo aluno de Macroeconomia 1 aprende que, com câmbio flutuante, a política fiscal é quase ineficiente e é a política monetária (os juros) quem tem o poder de frear a demanda e segurar a inflação. A política monetária faz isso por vários caminhos. Mas um deles é via câmbio. Quando os juros sobem, o país se torna mais atraente a investimentos de fora, o dinheiro entra, os investidores compram reais, o câmbio cai, o preço dos importados cai junto e ajuda a segurar a inflação. Há outros efeitos da alta dos juros (para segurar a demanda), mas esse ajuda a ter ideia de poque o câmbio fixo anula a política monetária.

Em regimes de câmbio fixo, é a política fiscal (gastos do governo) o instrumento de controle da demanda. É cortando gasto – ou aumentando impostos – que o governo segura a demanda e controla a inflação.

O governo daqui, hoje, evita usar os juros para segurar a demanda.  Para o dólar não subir, segura a cotação com uma gambiarra (os swaps). E, ao mesmo tempo que torna o câmbio mais rígido, aumenta o gasto público, faz política fiscal expansionista. O resultado é claro: inflação.

Em vez de o câmbio ajudar a puxar a inflação para baixo (como um dos efeitos da alta dos juros), ele é artificialmente controlado. O governo trata um sintoma em vez de cuidar das causas.

Isso é muito inconsistente e dificilmente se manterá no longo prazo. Por quê? Porque ao intervir para manter o dólar artificialmente baixo, o BC estimula as importações e desestimula as exportações – aumenta a demanda por dólar e a pressão por sua alta. Os dados da balança comercial já confirmam isso.

Ao não subir os juros, o BC estimula a saída de investidores (que também compram dólares e aumentam a pressão por sua alta).  Por mais reservas que tenha, o BC não pode manter essa inconsistência lógica por um muito tempo. Ele terá que subir juros e terá que deixar o câmbio flutuar mais livremente.

Mas, enquanto não faz isso, o BC dá a saída para quem quer tirar seu dinheiro do país sem prejuízo – garantindo um dólar barato para os investidores que quiserem ir embora.

O BC assume, em contratos de swap, a diferença entre o dólar hoje e o dólar de quando o investidor quiser sair: assume o prejuízo com a desvalorização do real. E, se não subir os juros, o prejuízo vai ser grande.

Talvez, mesmo subindo os juros, o BC perca bastante. Até lá, ele reforça a potência de uma política fiscal que tem o sinal oposto ao da política monetária: põe lenha na fogueira que os juros deviam apagar.

O swap cambial, na escala em que é usado, é um dos paliativos que o governo adota para  conviver com os desequilíbrios que se recusa a corrigir – e os paliativos têm seus próprios efeitos colaterais… É como tomar remédio para febre, banhos frios e analgésicos fortes (e, ao mesmo tempo, se recusar a tratar sua causa da doença).

Detalhe de parede em Cambridge, onde a política de controle da demanda foi inventada.  No longo prazo...

Detalhe de parede em Cambridge, na Inglaterra, onde a política de controle da demanda foi inventada. No longo prazo…

Cortar impostos dos produtos da cesta básica é uma boa ideia. Mas fazer isso quando a demanda está aquecida (consumo crescendo) e a oferta não acompanha é desperdiçar as boas intenções.

O saldo de cortar imposto em época de demanda forte é dar mais dinheiro para os produtores – que vão embolsar o imposto e manter os preços em alta. Se o objetivo do governo era conter a disparada da inflação, a data do corte de impostos foi mal escolhida.

Sim, o governo está reagindo ao anúncio do IPCA – que foi de 0,6% em um fevereiro com carnaval (poucos dias úteis). O governo, para não subir juros ou deixar o dólar cair, apelou para um corte de impostos que beira o contraproducente – em termos de redução de preços.

Ao mesmo tempo, Dilma, Mantega e seus amigos dão mais um empurrão para cima na inflação. Cortar imposto é política fiscal, é quase como aumentar o gasto público. Sim, porque o governo corta sua receita sem cortar seus gastos, quer dizer, aumenta o déficit público (o que estimula a demanda, que pressiona os preços – para cima).

A impressão, para variar, é que a equipe econômica do governo simplesmente não tem um plano. Eles reagem a cada anúncio da inflação, a cada crescimento abaixo do esperado na economia. Sem necessariamente muita coerência entre as reações…

Doces - sem isenção de PIS e Cofins (pelo menos por enquanto).

Doces – sem isenção de PIS e Cofins (pelo menos por enquanto).

Um amigo me enviou outro dia um bom artigo resumindo as idéias do profeta heterodoxo Hyman Minsky. Profeta ou não, Minsky é um pouco chato no original. Por isso, vale a pena ler resumos sobre ele. Para quem quiser, este, de L. Randall Wray, dá uma boa ideia do que o analista de depressões econômicas pensava.

O texto tem um trecho especialmente bom sobre os efeitos da redução da taxa de juros em tempos de crise:

“Para Minsky, a taxa de juros não seria uma grande força de estabilização: (…) reduzir as taxas durante um colapso não faria muito para encorajar o endividamento se as expectativas estivessem muito ruins [devasted]” (página6).

Aqui na terra dos papagaios, é difícil prever como os juros baixos vão afetar o investimento (e o crescimento da economia). O Banco Central faz suas projeções a partir de modelos econométricos, mas a econometria tem limites: alguns bastante curtos.

O problema é exatamente o discutido por Minsky: a relação entre juros e consumo, entre juros e investimento, enfim, entre juros e demanda, não é simétrica.

É mais fácil ver isso pensando no caso da renda. Uma pessoa que tem um aumento de salário rápidamente passa a consumir mais. Uma que tem uma redução, demora a mudar seu padrão de consumo. Antes de cortar a assinatura do jornal e a sobremesa do almoço, ela pode gastar parte de suas economias, ou parar de poupar (se antes conseguia economizar).

Mas modelar essas diferenças de efeito é complicado. A maior parte dos modelos econométricos trata um aumento de 1% em alguma variável como tendo o mesmo efeito (mas na direção contrária) de uma redução de 1%.

Não temos um histórico muito bom de reduções de juros aos níveis atuais (simplesmente nunca aconteceu, pelo menos não desde que o Brasil passou a ter dados disponíveis para análises econométricas). As previsões, então, ficam mais difíceis.

Com mais dificuldade para enxergar o que vem por aí, governo e BC deviam ficar mais cautelosos – e não mais histriônicos – deviam esperar para ver (e não sair mudando IPIs, IOFs e outros). Deviam diminuir sua exposição aos efeitos de erros de previsão.

Mas a aceleração da inflação nos últimos meses – com queda nos juros e comunicados obscurantistas do Banco Central (ele não admite nem que está travando o câmbio), dão a impressão de que o governo quer pisar do acelerador – mesmo levando em conta a chance de abismo no fim da curva.

Areia na beira d'água em Armação dos Búzios: analise como conseguir.

Areia na beira d’água em Armação dos Búzios (RJ): analise como conseguir.

Decadência sincera

dezembro 16, 2012

Governos populistas, cedo ou tarde, começam a entregar resultados ruins. Faz parte do processo. Se não fossem ruins no longo prazo, não haveria porque criticar as fanfarras e políticas imediatistas que adotam.

Mas um dos sinais mais assustadores de crise à frente é a sinceridade populista. É quando o governante começa a acreditar na própria propaganda.

Isso não é difícil, nem pouco comum. Os governantes vivem em um mundo à parte, embora, em muitos casos, andem pelos mesmos lugares que a gente.

Vou dar um exemplo. Nos anos 90, época em que a Telerj ainda era a única empresa com serviços de telefonia celular, o então presidente Fernando Henrique agendou uma visita à fazenda do então dono da Petróleo Ipiranga, em Itaipava.

A Telerj, que não planejava instalar antenas de celular na área por pelo menos três anos, mudou sua agenda e instalou uma antena provisória, feita com andaimes – e depois a substituiu por uma permanente.

Não me lembro mais por quê, mas a visita de FHC foi cancelada. Ficou só a antena de celular.

Na época, não pude deixar de pensar que, no país do presidente, havia celular em toda parte, no meu não. Certamente ele via as coisas com mais otimismo do que eu.

Ok. Agora voltando aos insinceros e aos populistas: José Dirceu, o líder condenado da quadrilha do mensalão, escreve um blog. Muitos de seus comentários são reproduzidos no Blog de Ricardo Noblat, colunista do Globo. Já li alguns. A falta de sinceridade é tão explícita que dá para ter certeza de que – embora escreva para um público de fiéis fanáticos ideológicos – ele não acredita em uma palavra do que escreve.

Tudo bem, a coisa é tão explícita que beira o curioso. Na prática, Dirceu me assusta menos do que sua sucessora na Casa Civil, Dilma Roussef. Dilma, diferente dele, parece acreditar no que diz sobre a política econômica.

Com a inflação acelerando e a renda per capta estagnada (se o país crescer 1%, como os analistas projetam para este ano, a renda per capta vai ficar igual à de 2011), ela aparece na televisão para elogiar a gestão Mantega e dizer que temos reservas de dólares no exterior (US$378 bilhões, que custam caro para manter), que temos uma relação dívida/PIB baixa e que confia na previsão de seu ministro de que o crescimento da economia vai se acelerar no próximo trimestre.

Só faltou dizer que este é o melhor dos mundos possíveis.

Ela pode até dizer isso para a patuléia (como diz outro colunista do Globo), tudo bem. O que me assustou foi o tom sincero (irritado mas, ao mesmo tempo, sincero) da declaração. A impressão que fica é que ela realmente não sabe o que está fazendo, que está cercada de ministros e assessores, que eles dizem que está tudo bem – e ela acredita neles.

Em Paris: Pensador e sombras no Portal do Inferno.

Em Paris: Pensador e sombras no Portal do Inferno.

A resposta do governo à queda do investimento e ao baixo crescimento da economia foi dizer que estava tudo bem e apresentar mais do mesmo: mais R$ 100 bi do Tesouro Nacional serão liberados para o BNDES, mais mudanças de regras setoriais serão feitas (agora no setor de gás natural) e já houve mais mudanças súbitas na política cambial.

O Banco Central, sem comunicar nada oficialmente, passou a puxar câmbio para baixo. Seu presidente – em entrevista, não em ata ou comunicado oficial – deu a entender que o BC estava segurando o câmbio para conter a inflação. Mas o câmbio não era flutuante? A inflação não era contida pelos juros?

Essa política de ir fazendo sem explicar dá uma liberdade enorme ao Banco Central. Mas seu efeito colateral é aumentar ainda mais a – já grande – imprevisibilidade da economia. Hoje não sabemos nem qual vai ser a política cambial do mês que vem. O governo continua jurando que o câmbio é flutuante, mas isso, pelo menos, temos certeza que não é.

Anunciar mudanças no setor de gás natural – como Mantega e o ministro condenado pelo comitê de ética do governo Fernando Pimentel fizeram em entrevistas em Paris – deixa claro que ninguém está a salvo da mão grande do governo federal: se o seu setor começar a dar lucro, dona Dilma vai mudar as regras.

Resumindo: hoje, quem investe aqui sabe que tem grandes riscos de surpresas negativas e que se – por muita sorte – tiver uma surpresa positiva (valorização do seu produto, descoberta de grandes reservas de petróleo etc.), o governo vai mudar as regras para encampar o lucro.

Depois não entendem porque ninguém investe.

Por fim, outra reação curiosa ao baixo crescimento da economia foi a de negação explícita. Um ex-diretor do BC (investigado pela quebra – com indícios de fraude e vazamentos de dados – de dois bancos) publicou artigos dizendo que não é nada disso, que a economia está crescendo apesar do que dizem os números. Alguns analistas estimam que ele está querendo cair nas boas graças do governo depois de 14 anos no ostracismo (desde que deixou o BC).

Um analista da consultoria Luciano Coutinho e Associados (LCA), publicou um artigo concordando com o ex-diretor investigado do BC: dizendo que está tudo bem, que dá para continuar com as políticas atuais. Depois, um subordinado direto de Luciano Coutinho (um diretor do BNDES) escreveu outro artigo dizendo para as pessoas não prestarem muita atenção nos dados do IBGE, para usarem o índice antecedente do Banco Central (IBC-Br).

O engraçado é que o IBC- Br foi criado para tentar antecipar os dados do IBGE. Ele é feito com muito menos informação (é divulgado com mais antecedência) e não desagrega informações como investimento e crescimento por setor. Ele é só uma tentativa mais rápida e simplista de antecipar o PIB. Parece que o diretor do BNDES não se informou bem sobre isso.

Em suma: se a crise de 2008 serviu de desculpa para abrirem o baú das políticas à Ernesto Geisel, o efeito dessas políticas não está servindo para fazer o governo parar com elas. O governo reage com negação e mais do mesmo.

Pelo jeito, a coisa ainda vai ter que piorar muito até pararem de negar os fatos e mudarem de política (e de ministro da Fazenda).

Pensador de pedra sabão.

Pensador de pedra sabão.

A volta da dor de cabeça

setembro 24, 2012

Subdesenvolvimento não se improvisa. A frase, do velho Roberto Campos, ganha ares de novidade sempre que o governo adota uma nova “política inovadora” para a economia.

Nossos profissionais dessa área agora apostam na falta de comunicação. Hoje, diferente de há três, dez, ou doze anos, não se sabe qual é o modelo de política econômica do país. Oficialmente o câmbio é flutuante – mas o Banco Central o mantém extra-oficialmente fixo entre R$ 2,00 e R$ 2,05. A política monetária é baseada – oficialmente – em um regime de metas de inflação. Mas nenhum analista acredita que meta será cumprida este ano, ou no próximo. Ela também não foi cumprida nos últimos anos.

Há quem diga que o governo parou de mirar na meta e passou a mirar no topo do intervalo de tolerância para a inflação (6,5%). Mas o BC não admite que esteja fazendo isso.

O preço da gasolina é arbitrado pelo governo, o da luz também – e o investimento… O investimento não acontece porque, com toda essa indefinição em relação ao que o governo está fazendo, ninguém vai tirar o dinheiro do banco para pôr em um negócio.

O último que tentou, abriu uma concessionária de carros chineses e viu o governo, de um dia para o outro, criar uma sobretaxa de IPI de 35% especialmente para ele.

Para quem tem dinheiro, hoje, a boa é aplicar em alguma coisa indexada à inflação.

Essa política de grandes doses de intervenção e mudanças tributárias abruptas (alíquotas de IOF para importados, IPI reduzido para empresas amigas, créditos especiais do BNDES abaixo da inflação) nos aproxima, lentamente, de nosso vizinho do sul. Sim, nós estamos copiando a Argentina de novo – como fazíamos nos anos 80.

Isso é especialmente estranho se olharmos para os resultados desse tipo de política em nosso vizinho: inflação de 25% ao ano, estagnação econômica, extinção do câmbio oficial (não se pode nem usar cartão de crédito internacional)…

Quem mandou votar – de novo – na Cristina?

Mas se, por um lado, é assustador ver nossa argentinização, por outro, isso ajuda a entender como foi possível que a Argentina afundasse tanto. Foi aos poucos, como com o sapo na panela. Foi reagindo – sem planos – a cada evento em separado. Foi atendendo – em separado – a cada pedido de empresa aliada. Foi trocando – um por um – os técnicos do ministério da Fazenda por lobistas de empresas. Foi atropelando – com cada vez mais força – os mecanismos institucionais de controle do executivo.

Mas se, no curto prazo, controles de câmbio e políticas ultra-setoriais parecem funcionar, no longo (pelo menos na Argentina) resultam em panelaço.

Assustador, mas parece que o velho Efeito Orloff está de volta. Parece que nossos vizinhos aturdidos podem, de novo, olhar para nós e dizer: “Eu sou você amanhã!”