O PIB é pop

junho 9, 2017

Há toda uma geração de economistas que não leu Adam Smith – e que também não sabe o que é PIB.

Smith se encaixa na definição de clássico: é o autor que todo mundo cita e ninguém conhece direito.

Com o PIB é parecido: alguns odeiam, outros usam como denominador em um monte de contas, mas pouca gente sabe bem o que ele é.

Só para registro: ele é uma medida de geração de renda. O PIB não é “a soma de tudo que é produzido”, não é “a medida da riqueza do país” e muito menos “a soma das riquezas produzidas”.

Ele pode ser calculado de três maneiras diferentes (mas todas dão o mesmo resultado) e, ao longo do tempo, virou uma espécie de denominador universal para números grandes: o consumo, os impostos e até o valor dos empréstimos do BNDES são apresentados como percentual do PIB.

Nem sempre a divisão de alguma coisa pelo PIB faz sentido, mas ela normalmente dá uma ideia de ordem de grandeza.

Bom, para tentar explicar a um grupo ainda não muito definido de alunos o que é o PIB e como ele é calculado, preparei  o texto neste link (que não custa deixar aberto a quem se interessar). O texto vem com várias tabelas ilustrativas, com os dados das últimas contas nacionais anuais que o IBGE publicou.

Além de falar do PIB anual, o texto mostra um pouco das contas que levam ao PIB trimestral, objeto de culto em consultorias e em áreas de pesquisa de bancos.

Há um capítulo também (é pequeno) sobre contas de meio ambiente e um sobre classificações e definições (para quem sofre de insônia).

Se alguém ler até o fim, por favor, escreva avisando.

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Pavão: classificado como parte da Agropecuária.

PS. O curioso é que várias definições das contas nacionais já apareciam no Riqueza das Nações, de Adam Smith. Algumas, como a formação de capital (investimento), já aparecem até com o nome que ficou nas contas nacionais.

Há empresas esvaziando seus estoques. A queda na produção de bens parece ter sido maior que a queda no consumo desses bens, quer dizer: há sinais de que haverá compradores se as fábricas aumentarem a produção.

O gráfico abaixo mostra a variação de estoques (acumulada a cada 4 trimestres para não ter sazonalidade) e a variação nominal do PIB de 4 trimestres sobre os 4 trimestres imediatamente anteriores.

Além de mostrar que há uma correlação razoável entre as duas variáveis, ele mostra também que a variação de estoques tem sido negativa, quer dizer: aparentemente há mais demanda que oferta no mercado de bens (os serviços são outra história).

analise do estoque

Com estoques caindo, as empresas, em algum momento, poderão se movimentar para repô-los (ou não vão conseguir atender à demanda).

A boa correlação entre as duas séries me fez tentar projetar a variação de estoques a partir da série do PIB. O resultado é a linha cinza no gráfico. Ela também é uma boa notícia: indica que os estoques estão caindo mais rápido do que se pode projetar a partir da variação nominal da renda (a variação do PIB nominal).

Com estoques caindo rápido, há estímulo para que a produção de bens volte a crescer logo.

É, pelo menos, alguma luz lá pelo meio do túnel…

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PS.: Sobre o gráfico acima, usei diferenças em reais para o PIB em vez de taxas de crescimento em percentual. Na série do PIB, os valores em milhões de reais correntes de cada período foram divididos por 10 (para a linha não ficar muito longe da linha da variação de estoques, facilitando a comparação).

A projeção em cinza foi feita com uma regressão simples, de mínimos quadrados.

Os dados originais estão na planilha de “Valores correntes”, no site do IBGE, neste link.

Ciclotimia

abril 1, 2015

A economia tem ciclos. Não é teoria, é fato: é só olhar o gráfico e ver as subidas e decidas do crescimento.

Por que os ciclos acontecem já é terreno fértil para ódio e troca de insulto entre teóricos.

O Nobel de economia Robert Lucas ficou ainda mais famoso por dizer, no começo do século XXI, que os ciclos econômicos estavam domados, que a teoria econômica – com suas políticas fiscal e monetária – tinha enterrado de vez as oscilações mais fortes do ciclo.

Ele disse isso, aparentemente, só para ser desmentido pela crise de 2008.

O crescimento da economia: 1998-2014.

O crescimento da economia: 1998-2014.

Um colega de Lucas na Universidade de Chicago (Raguran Rajan) escreveu um livro para tentar provar que a culpa da crise de 2008 foi do governo, do presidente do Banco Central americano Alan Greenspan – que não soube fazer política monetária direito.

Em parte, foi mesmo. Mas a crise cresceu e ganhou escala por conta de empréstimos imobiliários temerários que os bancos tinham feito e de títulos obscuros que emitiram para bancar esses empréstimos.

De qualquer forma, toda boa teoria sobre ciclos tem um capítulo sobre o problema da defasagem no tempo.

Algumas reações demoram a acontecer e isso, naturalmente, provoca ondulações no crescimento econômico.

Para chegar à crise de 2008, o crédito ficou anos crescendo (inflando a bolha) até que isso ficasse insustentável e – com uma grande defasagem – o efeito dos empréstimos ruins chegasse (empobrecendo quem tinha tomado empréstimo e perdia a garantia e quem tinha emprestado e levava calote).

Isso tudo é para dizer que a economia do Brasil vai patinar por muito tempo. E não é só porque a conta dos empréstimos bilionários à Friboi e o pagamento do subsídio à energia elétrica estão chegando (é também por isso).

Mas, além do efeito defasado dos subsídios e incentivos distorcidos que o governo adotou até o ano passado, há a defasagem do ajuste do governo atual.

O governo, hoje, não tem muitas alternativas além de subir juros (para controlar a inflação), deixar o câmbio desvalorizar (porque no longo prazo não pode, nem deve, contê-lo), cortar gastos e aumentar impostos (porque não tem como pagar suas contas).

Os efeitos dessas três medidas não são imediatos. Quem já tinha planejado fazer uma grande festa de casamento desde o ano passado não deixou de fazer. Quem estava no meio do pedido de financiamento para comprar casa, comprou, enfim, muitas decisões de longo prazo mudam de vagar.  

Fora isso, reduzir o consumo (efeito de câmbio alto, juro alto e corte de gasto público) é uma coisa que só fazemos relutando e contrariados, é algo que fazemos aos poucos.

O efeito do ajuste também virá aos poucos, com grandes defasagens – e também passará aos poucos, depois de muito tempo.

Recessão amantegada

agosto 30, 2014

Os jornais se apressaram hoje em dizer que o país está em recessão técnica. 

Recessão técnica, segundo os jornais, é quando o país tem dois trimestres seguidos de queda no PIB.

O curioso é que a definição – usada por jornais do mundo inteiro  – só é usada em jornais: não está nos livros de economia.

Para os economistas, não faz sentido chamar de recessão dois semestres seguidos com taxas de -0.1% e não chamar outros dois, com taxas de 0 e -5%, por exemplo.

O “técnica”, ao lado do “recessão”, devia ser trocado por jornalística, simplista ou outro adjetivo qualquer.

Isso, no entanto, não muda o fato de que os números da economia no segundo trimestre foram bastante ruins: recessão ou não, a economia encolheu.

Mas, mais que que o destaque para um conceito de recessão que não está nos livros, o mais estranho na cobertura da imprensa sobre o PIB talvez tenham sido as declarações do ministro da Fazenda sobre os resultados. 

O ministro não têm a obrigação de dar declarações sempre que o IBGE divulga o PIB. Mas Guido Mantega faz isso – seja para se vangloriar, quando o PIB cresce, seja para dizer que não tem nada com isso (a culpa é da seca, da crise externa etc.) quando o PIB cai.

Desta vez, talvez com o estímulo extra da campanha eleitoral, o ministro deu declarações simplesmente erradas, como a de que os EUA também estão crescendo pouco, ou a de que já há sinais de recuperação para a economia no terceiro trimestre.

Os EUA cresceram mais de 1% no segundo trimestre e os poucos indicadores de julho sobre a economia brasileira já publicados não foram exatamente comemorados pelo governo (ou por quem quer que seja).

De qualquer jeito, o terceiro trimestre ainda está longe de acabar (e o futuro é muito pouco previsível, como o ministro sabe, ou deveria saber). 

Campanha ao pé do ouvido - Camille Claudel.

Campanha ao pé do ouvido – Camille Claudel.

O PIB na TV

dezembro 4, 2013

A GloboNews deu hoje uma aula de como confundir um telespectador. Para comentar a queda de 0,5% do PIB no terceiro trimestre, o programa Conta Corrente convidou um funcionário da consultoria Luciano Coutinho e Associados (LCA) que – sem nenhum questionamento do apresentador do programa – transformou a má notícia em um sinal de que o governo é bom e está fazendo as coisas certas.

O entrevistado começou criticando os chutes de número – sempre errados – do ministro da Fazenda (mas não os da presidente da República, muito mais graves).

Na sequência, inventou um motivo para a queda dos investimentos (de 2,2% no trimestre):

– Foram as passeatas. Elas tiraram a confiança dos investidores.

Não fosse a ânsia em culpar a oposição pelo resultado ruim, talvez o entrevistado se desse conta de que, pelo lado da demanda, o investimento é o que deve fechar o ano com maior crescimento. Ele cresceu 7,3% na comparação com o 3° trimestre de 2012. Mas, como havia crescido mais de 9% no segundo trimestre (na comparação com o segundo de 2012), teve queda entre o segundo e o terceiro.

Quer dizer: os investimentos não estão crescendo pouco. Não há porque fazer acusações às passeatas. Não são elas que mantêm o crescimento do PIB nos níveis (baixos) em que tem estado.

Bom, o funcionário da Luciano Coutinho e Associados continuou: segundo ele, o governo se preocupa demais com o PIB. Ele disse isso como crítica ao ministro da Fazenda, mas logo generalizou: “o PIB é como uma pintura impressionista, não é para ser olhado com tanto detalhe”. Me lembrou os felicitólogos, aqueles que, sempre que o PIB cai, dizem que não devemos olhar para o PIB, mas para “indicadores de felicidade” e outras abobrinhas.

Em país pobre, mais que em qualquer lugar, o crescimento da renda (quer dizer, do PIB)  é, sim, muito importante.

A conclusão do consultor foi que o importante é olhar para “a qualidade do crescimento”.

– E o que é olhar para a qualidade do crescimento ? – levantou a bola Donny de Nuccio, o apresentador coxinha.

– É investir em infra-estrutura, o que, demos a mão à palmatória, o governo já está fazendo! – respondeu o funcionário da LCA.

Ou seja: o PIB vai mal, mas o país vai bem. Lembrou Médici, com seu fatídico “O Brasil vai bem mas os brasileiros vão mal”.

Quando ele culpou as passeatas pelo número negativo do investimento, me lembrou o sucessor de Médici – Geisel – que costumava culpar a oposição por suas decisões de fechar o regime. Para ele, a oposição devia ficar quieta, esperando a abertura política como uma benção do general-presidente. Se se manifestasse, devia ser reprimida.

No Jornal Nacional (mesmo com menos tempo de matéria), também tentaram empurrar para as passeatas a culpa por um crescimento menor. Se lessem os números direito, veriam que dá para defender o governo sem apelar para erros tão grosseiros.

Quadro impressionista, que não tem nada a ver com o PIB.

Quadro impressionista, que não tem nada a ver com o PIB.

Para repórteres e editores de jornal, é difícil distinguir algumas cascatas assustadoras de pesquisas acadêmicas sérias. Repórteres são generalistas. Quando um professor de universidade (de uma das mais famosas) diz para um deles que o PIB mede a riqueza do país, ele acredita.

Mas isso não justifica a sucessão de delírios da matéria abaixo. Os repórteres deviam ter consultado alguém que não estivesse só querendo vender peixe (de frescor nível 2), deviam ter consultado alguém isento.

A castata do Butão – tema da matéria de capa do caderno de economia do Estadão de hoje – é uma cascata antiga, ressuscitada sempre que a renda dos países começa a crescer pouco. O nome da cascata: Felicidade Interna Bruta (FIB), é uma referência direta ao Produto Interno Bruto mas, fora a citação, não significa absolutamente nada. Afinal, existe felicidade líquida? E felicidade  interna, quer dizer o quê?

O mais fácil, para dar ideia da sequência de delírios, é comentar a matéria que – me desculpem os autores e editores – é séria candidata ao prêmio de pior do ano, na categoria lobby e propaganda.

Bom, os trecho entre chaves são os comentários, o resto é o texto do jornal:

Índice vai medir felicidade do brasileiro

Metodologia desenvolvida pela FGV-SP leva em conta o grau de preocupação e satisfação da população, deixando a riqueza econômica em segundo plano

A riqueza do País pode começar a ser medida de outra forma [Outra? Mas não há nenhuma medida de riqueza no Brasil hoje. Não se conhece o valor do estoque de ativos – também conhecido como riqueza – do país]. No lugar do Produto Interno Bruto (PIB), a Felicidade Interna Bruta (FIB) [O PIB é uma medida de geração de renda, não de riqueza]. A Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP) está empenhada na elaboração da metodologia do novo índice. A intenção é fornecer os resultados ao governo federal para auxiliar no desenvolvimento de políticas públicas [O governo vai pagar por isso? encomendou isso? ou a frase quer dizer que o produto não tem comprador?].

O FIB já existe no Butão, um pequeno reino incrustado nas cordilheiras do Himalaia [com renda per capta de US$ 6mil por ano, ajustada para paridade do poder de compra]. Lá, o contentamento da população é mais importante que o desempenho da produção industrial [só para não deixar dúvida: a produção industrial representa menos de 30% do PIB no Brasil]. O índice pensado pela FGV, no entanto, não será tão radical. “O PIB estará entre os componentes do cálculo”, esclarece Fábio Gallo, professor da FGV-SP que, ao lado de Wesley Mendes, encabeça o desenvolvimento do estudo.

O PIB é considerado por diversos especialistas [quais? especialistas em quê?] um índice incompleto. Dados como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) ou o nível de segurança das cidades não são contabilizados [o PIB mede geração de renda, não qualidade de vida]. Portanto, listar o desempenho dos países pelos bilhões acumulados com produção industrial e comercial [de novo: PIB não é só indústria e comércio, nem é produção: é valor adicionado], por exemplo, é, para esses especialistas, uma distorção da realidade [para ver quanto foi gerado de renda, serve. O número não é uma panacéia, não foi desenhado para ser a medida de todas as coisas].

“Elaborar o índice que queremos é algo complexo. São muitos dados subjetivos [vão usar dados subjetivos? e o resultado, vai ser subjetivo também?] que variam de Estado para Estado”, explica Gallo. Num país do tamanho do Brasil, com regiões muito diferentes, a tarefa fica ainda mais complicada. “Tudo será sob medida para cada uma das regiões [vão usar questionários diferentes em lugares diferentes? e depois dizer que as respostas são comparáveis?]. Dessa forma, chegaremos a bons resultados, que reflitam a situação real do País”, completa Mendes.

Os professores dizem que a inclusão no PIB de gastos feitos para compensar danos ambientais causados pelo setor produtivo distorcem o resultado, uma vez que elevam o total de riqueza do País [riqueza à parte, a renda gerada em atividades ecológicas é menos renda que as outras?]. Outros desembolsos, como para a reconstrução de uma cidade atingida por um desastre natural, também são criticados por entrarem na conta [Um país que gera renda reconstruíndo, então, não deveria ser considerado como gerando mais renda que um igual que deixa tudo em escombros? Os salários dos operários não são renda?] .

O primeiro passo do desenvolvimento da metodologia do FIB já foi dado pela FGV, e mostra que a riqueza econômica não é o principal fator de felicidade da população. Um questionário com jovens adultos de São Paulo e de Santa Maria, pequena cidade no interior do Rio Grande do Sul, mostrou que o índice de satisfação dos jovens gaúchos é 22,5% maior que o dos paulistanos [tenho inveja desse nível de precisão]. Entre os 11 aspectos de vida estudados, os mais relevantes para a percepção de satisfação foram vida social, situação financeira e atividades ao ar livre.

Ainda de acordo com a primeira etapa da pesquisa, a principal preocupação dos paulistanos é com segurança pessoal, enquanto a principal satisfação é com perspectivas de crescimento acadêmico. Entre os gaúchos,a preocupação é com as expectativas de conseguir um bom trabalho. A satisfação é com a boa vida social. “Sociedade feliz é aquela em que todos têm acesso aos serviços básicos de saúde, educação, previdência social, cultura, lazer”, afirma Gallo.