O PIB na TV

dezembro 4, 2013

A GloboNews deu hoje uma aula de como confundir um telespectador. Para comentar a queda de 0,5% do PIB no terceiro trimestre, o programa Conta Corrente convidou um funcionário da consultoria Luciano Coutinho e Associados (LCA) que – sem nenhum questionamento do apresentador do programa – transformou a má notícia em um sinal de que o governo é bom e está fazendo as coisas certas.

O entrevistado começou criticando os chutes de número – sempre errados – do ministro da Fazenda (mas não os da presidente da República, muito mais graves).

Na sequência, inventou um motivo para a queda dos investimentos (de 2,2% no trimestre):

– Foram as passeatas. Elas tiraram a confiança dos investidores.

Não fosse a ânsia em culpar a oposição pelo resultado ruim, talvez o entrevistado se desse conta de que, pelo lado da demanda, o investimento é o que deve fechar o ano com maior crescimento. Ele cresceu 7,3% na comparação com o 3° trimestre de 2012. Mas, como havia crescido mais de 9% no segundo trimestre (na comparação com o segundo de 2012), teve queda entre o segundo e o terceiro.

Quer dizer: os investimentos não estão crescendo pouco. Não há porque fazer acusações às passeatas. Não são elas que mantêm o crescimento do PIB nos níveis (baixos) em que tem estado.

Bom, o funcionário da Luciano Coutinho e Associados continuou: segundo ele, o governo se preocupa demais com o PIB. Ele disse isso como crítica ao ministro da Fazenda, mas logo generalizou: “o PIB é como uma pintura impressionista, não é para ser olhado com tanto detalhe”. Me lembrou os felicitólogos, aqueles que, sempre que o PIB cai, dizem que não devemos olhar para o PIB, mas para “indicadores de felicidade” e outras abobrinhas.

Em país pobre, mais que em qualquer lugar, o crescimento da renda (quer dizer, do PIB)  é, sim, muito importante.

A conclusão do consultor foi que o importante é olhar para “a qualidade do crescimento”.

– E o que é olhar para a qualidade do crescimento ? – levantou a bola Donny de Nuccio, o apresentador coxinha.

– É investir em infra-estrutura, o que, demos a mão à palmatória, o governo já está fazendo! – respondeu o funcionário da LCA.

Ou seja: o PIB vai mal, mas o país vai bem. Lembrou Médici, com seu fatídico “O Brasil vai bem mas os brasileiros vão mal”.

Quando ele culpou as passeatas pelo número negativo do investimento, me lembrou o sucessor de Médici – Geisel – que costumava culpar a oposição por suas decisões de fechar o regime. Para ele, a oposição devia ficar quieta, esperando a abertura política como uma benção do general-presidente. Se se manifestasse, devia ser reprimida.

No Jornal Nacional (mesmo com menos tempo de matéria), também tentaram empurrar para as passeatas a culpa por um crescimento menor. Se lessem os números direito, veriam que dá para defender o governo sem apelar para erros tão grosseiros.

Quadro impressionista, que não tem nada a ver com o PIB.

Quadro impressionista, que não tem nada a ver com o PIB.

Anúncios

A livraria Saraiva, no Edifício Avenida Central, está vendendo máscaras do filme V de Vingança. Se você tiver esquecido a sua no dia da passeata, a livraria pode funcionar como loja de conveniência. Sim, eu sei: as máscaras estão proibidas no Estado do Rio de Janeiro.

Seguindo pela Av. Rio Branco, é possível ver os bancos, ainda com as fachadas cobertas por tapumes. O curioso são as pichações nos tapumes. No tapume do Itaú, perto da Rua Buenos Aires, há um ofensivo: “Este banco financia o Jornal Nacional”.

Os “Fora Cabral! Vá com Paes” são bastante comuns mas, em frequência, nenhum texto bate o do cartaz “Temos carne de rã”, que, pelo que entendi, é realmente uma propaganda de carne de rã (o cartaz tem um número de telefone).

Há tapumes com propaganda de eventos e há até tapumes bem pintados, para ficar onde estão por muito tempo. Em um deles, vi uma pichação de financiamento para compra de carros: “Não pague juros altos”, dizia o texto.

A da loja era ainda mais simples do que esta.

A da loja era ainda mais simples do que esta.

PS.: Passei de novo em frente à Saraiva do Avenida Central. A máscara de plástico do V de Vingança estava lá: à venda por R$ 79,21. É para revoltados ricos.

Professores de escola pública, por exemplo, não podem comprar.

PS2.: Para quem não lê comentários de post: a máscara vem com a revistinha do V de Vingança – meio escondida no fundo da caixa, na vitrine. Ainda assim, R$ 79,21 é um exagero.