Huxley em Olímpia

agosto 7, 2016

“É como se seus nomes fossem escrito em água”. A frase é de Aldous Huxley, não me lembro se do Contraponto ou do Folhas inúteis. Nos últimos dias, ela me vem à cabeça o tempo todo.

Sempre que vejo um atleta chorando ou dando pulos de alegria olímpica, na TV, penso em Huxley.

Alguém certamente já disse que é perigoso acreditar na própria propaganda. Mas estamos fazendo isso (eu mesmo não sou exceção). Estamos extasiados com imagens meio hipnóticas de gente correndo e pulando, de fogos de artifício e de cantores conhecidos.

Mas isso vai passar. A suave narcose olímpica vai durar um mês. Depois, vamos ficar com listas de nomes escritos em placares digitais (o que é quase o mesmo que escreve-los na água) e os mesmos problemas que tínhamos antes (e talvez mais alguns).

Difícil não pensar que os bilhões gastos em propaganda e entretenimento não pudessem ter um uso mais duradouro. Difícil não pensar nas dívidas que o governo assume para bancar os jogos.

Já ouvi de um governista que, sem os jogos, não teriam esticado o metrô até a Barra.

Nada contra o metrô, muito pelo contrário. Mas, se o critério para alocação de verba for esse (tem para evento, não tem para atender a população), estamos perdidos desde já.

A olimpíada vai criar boas externalidades: vai juntar as pessoas e talvez até esfriar os ânimos. Mas não se pode analisar nada olhando só para os benefícios. O mesmo recurso, usado em outras áreas, não seria mais proveitoso para a população? Se tivessem gastado em coisas básicas como saúde e educação, o resultado não seria melhor?

Não é uma crítica inútil. Por hora, vamos continuar hipnotizados diante da TV. Mas, no futuro, por favor, vamos tentar criar alguma coisa melhor do que emoções rápidas que não deixam traço.

 

PS.: O texto de Huxley é do Folhas inúteis. É o terceiro parágrafo neste link.

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Para o brejo?

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A partir do dia 27 deste mês, quem estampar placas com palavras como “ouro”, “vitória” ou mesmo “Rio”, no Rio de Janeiro pode ser preso por até 1 ano segundo uma lei especial criada para atender ao Comitê Olímpico Internacional publicada há dois meses.

Para usar essas e outras 759 expressões registradas no Instituto Nacional de Propriedade Industrial, só pagando patrocínio ao COI.

Os detalhes estão na matéria neste link.

Não dá nem vontade de ver os jogos na TV. A vitória, o ouro e mesmo a cidade (já ficou claro) são do comitê de Genebra.

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Difícil de engolir.

 

Prefeitos que fazem

agosto 21, 2012

O Brasil tem pouca tradição em ciência e pesquisa. Nunca ganhamos um prêmio Nobel (nem de literatura). Mas temos séculos de tradição e avanço técnico na área do desvio de verbas. Aqui foram estabelecidas as leis gerais do desvio. Uma delas, para quem não conhece, é a que prevê que o desvio de verba é proporcional ao orçamento da área.

Não à toa, o slogan Rouba mas faz surgiu em São Paulo, o estado mais rico do país. O slogan é tradicional – dos tempos do governador Ademar de Barros. Barros criou toda uma escola de pensamento. Seu maior herdeiro intelectual, Paulo Maluf, acumula décadas de serviços prestados ao desenvolvimento de tecnologia para o roubo. (Posso chamar de ladrão sem medo de ser processado, pois uma das condenações de Maluf foi em terceira instância).

Criatividade e dedicação à parte, Maluf não inovou nos fundamentos da corrupção: roubou fazendo, quer dizer, superfaturando obras.

E, espanto à parte, continuou sendo eleito. Fez isso graças ao bem pago marqueteiro Duda Mendonça (que trabalhou com ele antes de eleger Lula) e às obras superfaturadas, que até hoje apresenta como “prova” de boa administração. O mandato de deputado lhe dá imunidade parlamentar, quer dizer, o mantem longe das grades.

Mas é chato falar de São Paulo, quando vários dos maiores avanços nesse campo estão surgindo em outros lugares. Um que comprova a relação orçamento/desvio é o do Farmácia Popular. Ontem o Estadão publicou matéria mostrando como o programa superfatura a compra de remédios (pagando até 163 vezes mais do que a administração pública quando compra diretamente).

O assunto não é novo. O Tribunal de Contas da União tem mais de um relatório condenando o programa.

Mas tudo isso foi só para lembrar que um grande bolo de dinheiro está vindo para o Rio de Janeiro por conta da temporada olímpica daqui a quatro anos. Se vale a constate universal da corrupção (roubo proporcional ao orçamento) vem aí muito roubo.

Um dos grandes avanços tecnológicos na corrupção brasileira é o lema do prazo. Esse lema diz que quanto menor o prazo para a execução de uma obra, maior a chance de aditivos de contrato inflarem o pagamento (ele complementa, mas não chega a contradizer, a constante universal).

Muita gente vai gastar muito dinheiro nessa campanha para a prefeitura. Afinal, a prefeitura é quem organiza as obras. Mas, segundo os postulados da teoria do desvio de verba (conhecidos no Brasil com profundidade científica), o investimento eleitoral vai valer a pena.

Egito antigo: vítimas da corrupção de baixa tecnologia.