As portas estão fechadas

setembro 21, 2016

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Nas ciências sociais é muito comum que as conclusões venham antes das provas, que venham antes até do início do estudo.

O clássico nesse campo é Karl Marx, que escreveu um panfleto cheio de conclusões (O manifesto comunista) e depois passou anos redigindo três volumes para deduzir, garantir, dar certeza de que o futuro seria exatamente como o panfleto previa.

Marx não foi o único. Uma legião de lobistas defende, todos os dias, as idéias mais viesadas e mal fundamentadas que se pode imaginar. Assim como Marx – que, curiosamente, era financiado por um industrial alemão (Engels) – muitos deles recebem dinheiro de grandes empresas. Outros estão confortavelmente instalados em cargos vitalícios na academia. E boa parte afirma ser capaz de prever o futuro, ou, pelo menos, de entender como a economia funciona.

Marx não devia aparecer nas prateleiras de economia nas livrarias. Estaria melhor classificado em ciência política ou história da filosofia (mas, talvez, políticos e filósofos discordem…).

De qualquer forma, ele tem mais a ver com a defesa de grupos de interesse que com a tentativa de entender como a produção se organiza e como a renda circula pela sociedade.

A dificuldade em perceber isso e a herança estranha que é ter sido obrigado a ler Marx nos primeiros períodos de faculdade mantêm as velhas idéias do filósofo-profeta em circulação nas universidades de todos os cantos do mundo.

Elas são pouco eficazes, as ideias de Marx. Quando chegaram ao poder, os marxistas russos não sabiam o que fazer (Lênin escreveu um livro sobre isso….), mas as ideias se mantêm circulando apesar disso.

A queda do muro de Berlim, em 1989, devia te-las enterrado de vez, não só por mostrar que as pessoas estavam presas do lado de lá do muro (que queriam sair e não podiam), mas por mostrar que a profecia marxista sobre o futuro não tinha se realizado.

Marx era essencialmente um profeta. Seus textos afirmam poder dizer como o futuro seria. Era esse o seu diferencial. Os reformistas bem intencionados, ele chamava de utópicos. Ele não. Não estava propondo melhoras: estava prevendo o desenrolar inexorável da História.

Bom, o futuro é bem menos previsível do que ele imaginava – como qualquer empresário falido já teve o desprazer de descobrir.

A sobrevida das ideias do velho Marx tem dois efeitos colaterais desagradáveis (além de servir de desculpara para ditadores na Coréia do Norte e em ilhas obscuras): ela dá discurso a políticos populistas e atormenta estudantes que poderiam estudar outras coisas (mas fazem matérias obrigatórias com velhinhos dogmáticos).

Marx, se vivesse hoje, seria publicitário. Seu maior mérito foi criar bordões e frases de efeito eficientes: frases que convencem rápido, mesmo que sejam mal fundamentadas ou, no fundo, não digam nada, enfim: frases publicitárias.

Essa herança propagandista foi o que os partidos populistas souberam usar melhor. Nada muito contra. Eles têm todo o direito de alardear velhos e novos slogans com pouco conteúdo.

O que lamento é  o espaço que ocupam – que poderia ser ocupado, até pelas mesmas pessoas, com ideias que descrevessem a realidade de forma um pouco mais precisa.

Ninguém sabe exatamente como o mundo funciona. Mas já temos alguma ideia de como ele não funciona. Temos alguma ideia do que é um delírio e produz catástrofes sociais e do que parece ter alguma chance de dar certo.

O segundo efeito colateral – o efeito sobre os universitários quase indefesos – é seletivo. Para a maior parte deles, as leituras d’O Capital, são um estorvo e as matérias obrigatórias, rapidamente esquecidas. O efeito é só a perda de tempo, esforço e dinheiro. Mas, para uma pequena parte dos alunos (talvez os mais ingênuos ou os maliciosos com interesse em virar acadêmicos com a benção de seus professores), as aulas realmente afetam o que dizem e até o que pensam. É uma deformação que pode levar anos  para ser corrigida – se algum dia for.

Não acho que deviam proibir cursos populistas. Seria usar autoritarismo contra autoritarismo – e o autoritarismo nunca deve ser usado.

A solução é argumentar, conversar, pôr as ideias à prova.

É preciso ter paciência, pois enquanto discutimos, continuaremos vendo grandes delírios sendo cometidos e defendidos por gente que cresceu ouvindo “proletários uni-vos” em uma economia que é basicamente de serviços. Gente que cresceu em uma economia onde o tal proletariado é uma expressão antiga, que não descreve mais os funcionários de fábricas. Hoje, nas fábricas – contrariando as previsões de Marx sobre a piora nas condições de trabalho – há turnos e expediente bem definidos, férias, décimo terceiro e seguro desemprego.

Não é difícil imaginar uma dedicada estudante de primeiro período de Ciências Sociais, ou de História ou de Jornalismo perdendo horas para preparar um trabalho de dezenas de páginas sobre a “teoria do valor-trabalho” e acreditando que o valor do que ela escreve é dado pelo tempo que passa produzindo o texto: que o preço das coisas depende do número de horas usadas para produzi-las.

– Bom, se você encontrar alguém disposto a pagar o que quer que seja por esse texto… – rebateria um colega de turma menos ideológico.

A estudante ficaria triste por um minuto e, logo, começaria a pensar na injustiça do mundo e em como é difícil ter reconhecimento pelo esforço que fazemos.

Bom, é difícil mesmo. Mas isso não significa que suas 20 páginas descrevendo uma teoria antiga (e completamente errada) tenham algum valor.

A estudante – vamos chama-la de Célia – vai se juntar a outros colegas no Centro Acadêmico da faculdade. Mas logo vai perceber que a principal função do Centro Acadêmico é organizar festas (pois há muita demanda por festas na faculdade).

As festas ajudam a financiar viagens para encontros nacionais de estudantes – que também são festas, mas com gente de mais lugares.

Desiludida com o movimento estudantil, Célia vai procurar o partido político que acha mais simpático. Vamos chama-lo de Partido do Sol para Todos.

Mas logo ela vai perceber que o Partido do Sol não segue os preceitos do velho Marx, não acredita na vinda inexorável do comunismo (pois essa hipótese já foi refutada pelos fatos). O que os solares fazem é propor políticas (boas ou ruins) que acham que vão melhorar a vida das pessoas. Na prática, eles não são muito diferentes de um partido social-democrata.

Mas, quando ela diz isso a um representante do partido, sua reação é violenta:

– Não é verdade! Nós não somos como eles, não nos misturamos como eles!

Célia se espanta por o Partido do Sol votar quase sempre com o Partido dos Oligarcas Locais mas odiar o Partido Social Democrata (com quem o Partido da Ogra Defenestrada, aliado do Partido do Sol, disputa espaço em São Paulo).

Enjoada, e achando que tudo aquilo não passa de uma disputa por cargos e verbas, Célia deixa o partido solar e tenta se concentrar apenas em seu curso de jornalismo na UERJ.

Depois de alguns anos de estágio em jornais que se dizem liberais – mas fazem seus funcionários virarem noites nas sextas-feiras para fechar a edição de domingo – ela consegue um emprego na TV Planeta, canal conservador que paga salários um pouco mais altos que a média (e promete bons salários para quem chegar a cargos de chefia).

Em quatro ou cinco anos de TV Planeta, Célia já terá feito a transição de marxista radical para conservadora assustada.

Ela agora vai ter medo da violência urbana – que noticiou nos primeiros três anos como repórter de TV – vai defender a o aumento do número de policiais nas ruas e condenar os “baderneiros” que fazem protestos pedindo melhores serviços públicos.

A transição de uma ideologia simples para o medo de mudanças simples (o conservadorismo) é fácil porque, em geral, é feita sem muitas discussões: é como uma conversão religiosa, uma mudança de credo.

De um dogmatismo a outro, dá para ir sem passar pela liberdade de opinião ou pela defesa do direito dos outros de defenderem suas opiniões erradas.

Se o marxismo desemboca em regimes totalitários, o conservadorismo extremo faz a mesma coisa, pois nada como um pouco de repressão para impedir mudanças indesejadas e “manter as pessoas nos seus lugares”.

O que me assusta nisso tudo é a falta de debate, o excesso de convicção de conservadores assustados (e agressivos) e ideólogos empedernidos (e desatualizados).

Não há liberais. Não há ninguém que se proponha a discutir e a ouvir. Os que posam como liberais quase sempre são conservadores disfarçados, envergonhados por defender a manutenção de uma situação tão ruim…

Os conservadores em países pobres têm esse dilema: conservar “isso que está aí”? Mas eles, em geral, estão satisfeitos desse jeito e têm medo de ficar pior se as coisas mudarem.

Podiam discutir melhor o que mudar em vez de comemorarem a repressão a protestos de rua.

A impressão geral é de que falta debate, falta disposição das pessoas para admitir que podem estar erradas, que podem aprender alguma coisa ouvindo o que as outras pessoas pensam.

Vamos afundar por conta de uma mistura destrutiva de burrice e arrogância ideológica (antes, arrogância à Dilma, agora a arrogância de ministros nomeados para pilhar recursos sem ter que discutir projetos com ninguém. Discutir para quê?).

É curioso que se tomem decisões erradas porque todos acham que estão certos (até os corruptos, até os lobistas em pele de ideólogos…).