Saúde x Pato amarelo

junho 17, 2016

– Não há despesa órfã no Brasil.

Ouvi essa frase do então ministro Pedro Malan em um seminário no BNDES, em 2002. Malan sabia o que estava dizendo. Segundo ele, quando tentava cortar qualquer gasto, surgiam logo os pais, padrinhos e afins da despesa para defendê-la como a um filho querido.

Cotar é difícil. Alguns cortes, paradoxalmente, aumentam a despesa e não devem ser feitos. Cortar gastos no combate a mosquitos claramente aumenta a despesa (ou as mortes por doenças ligadas a eles). Cortar merenda escolar também não é recomendável.

Sim, há onde cortar. O governo aluga uma infinidade de andares e prédios e salas e é dono de outras tantas – vazias ou sub-utilizadas. A gestão de patrimônio do governo federal é temerária, há muito tempo.

Mas cortar esses gastos dá trabalho (embora não dependa de votos no Congresso). Da saúde não vão conseguir cortar muito. O Brasil gastam menos de 4% do PIB com saúde pública: é muito menos que a média da OECD (e a média da OECD, em % do PIB, é calculada como percentual de PIBs per capita bem maiores que o nosso). O gasto com educação pública é de 4,4% do PIB: pouco também. Não recomendo cortar.

Além de saúde e educação, o governo gasta 10,8% do PIB com o resto da administração pública, aí incluídos Legislativo, Judiciário, Defesa e segurança pública. Dá para cortar alguns gastos, mas não para espremer tudo que o governo quer/precisa.

Mas como passamos desses cerca de 20% do PIB para um gasto bem acima da carga tributária – de 33% do PIB? Faltou somar as transferências. Só com a previdência gastamos cerca de 15% do PIB (bem mais que toda a despesa com saúde e educação juntas). Com os juros da dívida gastamos mais que com saúde pública…

Mas os juros também não caem por decreto (e, com o crescimento da dívida pública, o total de gasto com juros cresce proporcionalmente…).

Bom, o fato é que, comparado ao de outros países,  o gasto com serviços públicos não é dos maiores aqui. As transferências são hoje tão grandes ou maiores que as despesas com serviços.

Para equilibrar receitas e despesas, o governo quer reduzir transferências como as aposentadorias. Isso não se faz de um dia para o outro. Mas vai ser feito, em alguma medida.

Há espaço também para aumentar alguns impostos. A alíquota mais alta do Imposto de Renda no Brasil é bem mais baixa que sua equivalente em quase todo o mundo civilizado. Ela pode ser aumentada. E se a Federação das Indústrias de São Paulo vier dizer que não quer pagar o pato, sinto, mas estamos no fundo do poço, entre outros motivos, por conta das políticas que a FIESP defendeu (como a redução populista da conta de luz, o protecionismo alfandegário amantegado e a redução forçada dos juros em 2012). Além disso, é muito razoável que as empresas mais ricas do país arquem com parte do ajuste.

O que não pode é aparecer no jornal defendendo que o pato seja pago pelos usuários do SUS. Para grande parte da população – a que depende da saúde pública – o calote na dívida federal e o inferno inflacionário são preferíveis à falta de hospitais no curto prazo.

Para quem se recente da falta de qualificação da mão de obra e da baixa produtividade do Brasil, cortar na educação também não é uma alternativa.

O que fazer então? Mudar os critérios para aposentadoria, melhorar a gestão do patrimônio federal, cortar isenções tributárias como as da Lei Rouanet  e melhorar a administração onde for possível.

(E, claro, mandar o resto da conta para a FIESP. Eles merecem pagar o pato.)

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– Não se preocupem: a verba da grande pirâmide não será cortada!

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Já era quase meia noite quando o ministro saiu de sua sala. O carro com motorista o esperava na garagem. Ele seguiu tranquilo para casa, sem pensar muito em ajustes fiscais ou altas de preços.

Três quarteirões antes de chegar, a correia de transmissão arrebentou – fazendo o motor quebrar irremediavelmente.

O ministro saltou do carro e deixou seu motorista a espera do reboque. Foi a pé para casa.

Mas, no meio do caminho, viu um bode. Não: era uma cabra, uma cabra notívaga pastando em um terreno baldio.

Longe, um relógio bateu meia noite e Barbosa, o ministro, ouviu ao seu lado uma voz cavernosa dizer:

– Boa madrugada, ministro.

Era Nelson, ou melhor, o fantasma de Nelson Rodrigues.

Branco, quase transparente, Nelson não seria como os repórteres do Planalto. Com ele, o ministro teria que falar a verdade ou, pelo menos, teria que ser sincero.

Então, tendo como testemunha apenas a cabra vadia que comia a paisagem, começou a entrevista:

Nelson: Ministro, todos os analistas de bancos e consultorias dizem que o governo tem que fazer um ajuste nas despesas, tem que fazer a despesa caber na receita para o país voltar a crescer. O senhor vai fazer isso?

Barbosa: Não. Acho que os analistas estão errados. A economia está em crise e, enquanto durar a crise, vou deixar a despesa solta. Vamos ter déficit de mais de 10% do PIB este ano, contando as despesas com juros e as com salários e materiais.

N: Então a crise não vai passar?

B: Alguma hora ela passa. Aí a arrecadação vai voltar a crescer e equilibramos a receita e a despesa.

N: Mas, e se o senhor estiver errado e a dívida pública disparar antes de o país voltar a crescer? O país vai dar calote? Vai imprimir dinheiro para pagar as contas?

B: Eu não estou errado.

N: Mas, só por hipótese: e se as coisas não acontecerem como o senhor espera?

B: Sim, aí teremos que ligar a impressora e trazer a hiperinflação de volta para conseguir fechar as contas. Mas há muitos estágios antes de chegar a esse extremo. Há tempo de mudar o curso se eu achar que estamos na direção errada.

N: Quais estágios?

B: Há o do ajuste inflacionário. Já estamos um pouco nele. Há dois anos não damos reajuste aos servidores. Isso diminui nossa despesa em termos reais. Também cortamos a verba que pagava os serviços de limpeza terceirizados de universidades e vamos reduzir a verba da saúde (que é indexada à receita de impostos). Enfim, há uma redução de despesa também. Podemos aprofundar um pouco isso se precisar.

N: Então há um ajuste fiscal?

B: Não. Quando há déficit público isso quer dizer que o governo está empurrando a demanda para cima (em vez de  fazer o ajuste para segurar a inflação). Aqui no Brasil temos déficit público: acreditamos em animar a demanda com o caixa do governo.

N: Mas o senhor apareceu na TV dizendo que ia fazer o ajuste fiscal.

B: Isso é só para enrolar os ortodoxos. Não acredito em ajustes de longo prazo na oferta, acredito em ajustes de curto prazo na demanda: é isso que sei fazer. Acredito que temos que estimular a demanda (pois surgirá oferta para atende-la).

N: Há mais algum razão para não fazer o ajuste fiscal, além de suas opções religiosas?

B: Sim. Estamos em um ano eleitoral. Não posso cortar todas as obras do PAC. As construtoras ficariam furiosas. Não é assim que as coisas funcionam. E, vamos ser claros, não dá para fazer reforma na previdência em ano de eleição. Os deputados do PT que querem ser prefeitos me matariam (ou, pior, votariam contra no Congresso).

N: Então sua equipe está apenas empurrando a política econômica com a barriga?

B: Estamos dizendo que faremos o que nossos críticos acham necessário. Isso nos poupa de críticas mais duras e nos dá mais tempo para esperar que a crise passe. Você pode chamar isso de empurrar com a barriga se quiser.

N: Mas esses críticos dizem que a crise não vai passar se o governo não fizer o ajuste fiscal, que a ameaça de uma dívida pública explosiva é o que mais deixa os investidores com medo de investir.

B: É, eles dizem isso. Mas estão errados. Vamos insistir com os financiamentos do BNDES e com o estímulo ao consumo e a economia vai retomar o crescimento, mesmo que, para isso, a inflação tenha que subir mais um pouco.

N: A inflação não vai convergir para a meta?

B: Não. Não acredito em meta de inflação. O governo Dilma nunca tentou cumprir a meta, nem vai tentar. Acho inflação um problema secundário.

N: Mas a renda dos trabalhadores está encolhendo por causa dela.

B: Quando os nossos estímulos fizerem a economia se recuperar, a renda crescerá novamente.

N: Esses estímulos são os da tal Nova matriz, que o primeiro governo Dilma adotou?

B: Sim, a ideia é basicamente a mesma: juros subsidiados para alguns grupos de empresas, Banco Central sob controle e expansão fiscal.

N: Mas não foi isso que provocou essa crise?

B: Em parte. A queda do preço do minério de ferro e de alguns produtos agrícolas que o Brasil exporta também atrapalhou.

N: Por que o senhor acha que, dessa vez, vai funcionar?

B: Nós temos o apoio da presidente, temos recursos para implantar essa política e não temos muito apoio político para fazer diferente. Além disso, fazer diferente teria um custo político alto.

N: Manter a crise também tem um custo alto.

B: Acho que nossa Nova matriz rediviva vai funcionar. Ela é o projeto da minha vida! Se não funcionar, retomo meu antigo emprego na UFRJ e deixo algum desses ortodoxos tentar arrumar a bagunça em 2019.

E, dizendo isso, o ministro virou as costas para o entrevistador (e para a cabra, que também o observava) e foi atender o celular. Era a presidente.

– Não, presidenta – disse, com o rosto colado ao iPhone – não se preocupe: está tudo sob controle.

A cabra arreganhou os lábios em uma espécie de sorriso e Nelson sumiu no ar, voltando para o purgatório dos cronistas.

O ministro seguiu para casa, sem pensar muito em coisas como inflação e contenção de gastos.

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Lhama diurna – que não testemunhou a entrevista.

O arsenal da Fazenda

janeiro 31, 2016

No início do ano, o mercado reagiu com ceticismo aos discursos ortodoxos do novo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa. Mas Barbosa ainda poderia usar medidas concretas para convencer empresários e investidores de que não adotaria o mesmo tipo de política que implementou no início do primeiro governo Dilma, quando era secretário de Política Econômica.

As medidas concretas, no entanto, foram na direção contrária.

Em menos de um mês, a nova gestão da Fazenda já tem um Banco Central completamente desmoralizado (o banco tinha recuperado parte de sua credibilidade no período de Joaquim Levy na Fazenda). A falta de credibilidade diminui o poder do BC para administrar expectativas e conter a inflação. A sinalização ruim indica que os gestores da política econômica não estão apavorados com a alta dos preços (e eles deveriam).

Esta semana, a Fazenda anunciou que despejará R$ 83 bilhões a juros baixos (TJLP) no mercado – o que também é inflacionário. Enquanto o Banco Central retira moeda da economia com os juros altos, a Fazenda a devolve com taxas mais baixas.

A heterodoxia é tanta que, entre as linhas de crédito do BNDES anunciadas, há uma para financiar capital de giro. Não dá nem para dizer que estão financiando investimento de longo prazo. Mais uma vez, o banco dará dinheiro a empresários a taxas de 6,25% ao ano (nominais) para que eles apliquem esse dinheiro a 14,25% (que é quando o governo paga quando pede emprestado). Mais uma vez, juros abaixo da inflação. Mais uma vez, a preferência por atender a demandas de curto prazo – em detrimento do controle da inflação no longo.

Se for por aí, o governo conseguirá – de novo – fazer os analistas de mercado parecerem otimistas ingênuos. As projeções de inflação para 2016 já estão acima de 7%. Mas, com mais medidas heterodoxas (e com a indexação generalizada que existe no Brasil), o governo pode conseguir resultados ainda piores.

Conseguiremos ter inflação acima do teto da meta e recessão (de novo), como em 2015.

É isso que o governo tem para oferecer? É essa a ortodoxia que prometeu?

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Enquanto a política monetária tenta enxugar a economia, os heterodoxos adotam o chfariz de liquidez.

É a inflação, manés

dezembro 29, 2015

Que foi a economia que piorou nosso humor e nosso acesso a bens e serviços em 2015, todo mundo sabe. Que será ela quem fará o mesmo em 2016 e 2017, também é quase consenso.

Mas há ainda quem discorde sobre como ela faz isso. Para o governo, o problema é o baixo crescimento. Para os desempregados, é o desemprego. Para os assalariados, é a inflação. Para quem tem dinheiro aplicado, é a tendência de crescimento acelerado da dívida do governo. Para quem usa os serviços públicos (quem não usa?) é o colapso desses serviços (por sucateamento, não pagamento de salários, calote em fornecedores etc.). Para quem sabe que o mundo não é previsível, são as catástrofes inesperadas (já que o governo nem pensa em prevenção, planos de contingencia e similares).

Não é (só) porque sou assalariado, mas o problema mais destrutivo, o que fará mais estrago de longo prazo nessa lista (fora alguma hecatombe imprevista) é a inflação.

Se não tivéssemos inflação, o governo poderia baixar os juros, poderia deixar suas despesas no nível em que estão e isso reanimaria a economia. Isso diminuiria o desemprego, estancaria a queda na arrecadação e facilitaria o trabalho de conter o crescimento da dívida pública. Nesse cenário, os governos estaduais conseguiriam pagar os salários dos seus funcionários e os serviços públicos não se deteriorariam tão rápido.

Mas a inflação de 2015 vai ser de mais de 10% e a de 2016 vai estourar o teto da meta do Banco Central. Além da dor imediata causada pela corrosão do poder de compra dos assalariados, a inflação tem mais dois efeitos:

  • Primeiro, ela mostra que o problema da economia não é falta de demanda (que economia com falta de demanda tem inflação de 10% ao ano?). Enquanto os entraves do lado da oferta da economia e das finanças públicas não forem solucionados, a crise não vai passar.
  • O segundo problema é que, para conviver com a inflação – sem que ela dispare de vez – será preciso manter o freio de mão puxado, com juros altos e restrição de despesas do governo.

Mais do que isso: a solução de alguns desses problemas é contracionista, quer dizer: o ajuste dos gastos públicos, necessário para tirar parte do fardo do controle da inflação dos ombros (já muito tortos) do BC freia a economia. Por isso, dá para ter certeza que a contração da economia vai durar: para conviver com a inflação é preciso pisar no freio e para resolver o problema, também.

Sem encarar a agenda de baixa produtividade, entraves burocráticos e desequilíbrio orçamentário, sem entender por que é tão difícil produzir qualquer coisa no Brasil, o governo não vai superar a crise. E, sem retirar a espada da dívida pública crescente – hoje pendurada sobre sua cabeça -, o governo seguirá rumo a inflação desenfreada.

Isso acontecerá porque, se a dívida crescer demais como percentual do PIB, o governo não conseguirá mais se financiar a taxas viáveis e, em poucos anos anos, será forçado a apelar para a impressora para dar conta da folha de pagamentos. É um cenário possível, mas não provável. A proximidade dele deve ser suficiente para apavorar os gestores e faze-los se mexer.

O que os trava hoje é o mal uso do argumento de Paul Krugman contra o ajuste Alemão na Grécia. Krugman repete sempre que o ajuste fiscal imposto à Grécia não faz sentido porque contrai a economia e isso diminui a arrecadação. Com menos arrecadação, o desequilíbrio fiscal aumenta e é preciso cortar mais despesas (o que contrai e a economia e realimenta o ciclo).

A Grécia não tem moeda própria, não pode fazer política monetária ou desvalorizar (como já desvalorizamos aqui). Além disso, tem um economia bem mais restrita que a nossa – menos diversificada e com menos produtos para vender para o resto do mundo.

Mas, mesmo assim, o argumento faria sentido se o governo brasileiro tivesse um nível impressionante de credibilidade. O governo poderia sinalizar um ajuste fiscal de longo prazo – com reforma da previdência, reforma tributária, redução da burocracia, corte de nomeações políticas para áreas com grandes orçamentos etc..  Isso indicaria o fim da trajetória explosiva da dívida pública e daria um pouco mais de espaço para o governo gastar nos anos de queda na arrecadação.

Mas não é isso que vai acontecer. O governo já descumpriu tantas vezes suas promessas de fazer reformas, cortar cargos comissionados e arrumar a casa (descumpriram até a promessa simbólica de cortar o salário da presidente da República) que ninguém mais acredita na promessa de ajuste de longo prazo.

Empresários, investidores e afins só acreditarão vendo. Vão esperar pelo corte de gastos (contracionista) antes de se arriscarem a – eles mesmos – tirarem dinheiro do bolso.

E enquanto o governo não ajustar seus gastos e não propuser de forma concreta (não só com discursos vagos) reformas para o lado da oferta da economia, a crise vai se aprofundar, o desemprego vai aumentar e a saída, para muita gente, voltará a ser o aeroporto.

A inflação mostra que o problema do Brasil não é de demanda, como Dilma e seus seguidores preferiram acreditar nos últimos anos. O problema é de gestão: de políticas públicas mal formuladas e mal executadas.

Nesse campo, não há notícia de soluções concretas na agenda do governo.

Não parece haver luz no fim do túnel.

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Ruína grega do Parthenon exposta no Museu Britânico.

A mão invisível é como a seleção natural: uma ideia no mínimo cruel quando se é afetado diretamente por ela.

As duas parecem bons princípios organizadores no longo prazo, capazes de equilibrar sistemas e trazer uma espécie de tendência natural de organização a coisas que – de outra forma, poderiam tender ao caos. Agora vá você ser “naturalmente selecionado” (ou pior, não-selecionado) para ver como a experiência é ruim.

Com a mão invisível é a mesma coisa. O primeiro problema da mão invisível é que não é invisível. Como diria um ex-presidente do Banco Central (se fosse mais pobre e tivesse que pensar nisso): a mão invisível é a sua, a minha, as nossas mãos.

Resumindo muito, isso quer dizer que os preços só vão parar de subir depois que nós pararmos de comprar. A inflação vai continuar em alta – com produtores e comerciantes repassando aumentos de custo e segurando margens – até que simplesmente não consigamos mais acompanhar.

Vamos ficar pobres antes que os preços parem de subir. E, mesmo depois que ficarmos pobres, os preços ainda vão subir mais um pouco, até produtores e comerciantes se convencerem de que, subindo ainda mais os preços, a queda de vendas mais que compensa o ganho com o aumento de margem.

Essa pequena defasagem no tempo – esse período entre a hora em que ficamos pobres e a hora em que os preços param de subir – é uma falha da mão invisível: se ela fosse eficiente em prazos curtos, isso não aconteceria.

Mas a mão invisível é uma figura de linguagem – usada, meio por acaso, no meio de um livro de mais de 600 páginas cheio de figuras de linguagem – e usada para descrever cenários macroeconômicos no longo prazo.

Não que seu seja contra. A mão invisível é melhor que o caos. Mas, misturada com a ideia de defasagem no tempo, ela nos lembra de que não tem nada de ético ou moral, nada de normativo. Ela é só um mecanismo mais ou menos automático que faz os preços subirem quando falta produto – e caírem quando falta comprador, sem muita preocupação com o que “falta comprador” pode significar.

O irritante é pensar que os recursos públicos que poderiam amortecer os efeitos ruins do ajuste (que poderiam manter bons hospitais públicos e boas escolas públicas funcionando durante a crise) vão ser usados para garantir bons apoios políticos, com obras olímpicas e contratos de administração privada do museu MAR e do museu MIS / Fundação Roberto Marinho.

Quando a verba do governo cai por causa da crise, quem garante a sua é o mais forte (ou mais bem relacionado), mostrando que a versão gasto público da seleção natural / lei da selva também não é bonita de se ver.

Nova Iorque, hoje? Não. Deixa pra lá.

Nova Iorque, hoje? Não. Deixa pra lá.

PS.: Como o nível de renda não é uniformemente distribuído – uns ganham mais do que outros – o aperto da inflação atinge alguns com mais força que outros (e o lado lei da selva do ajuste macro via inflação fica ainda mais explícito).

PS2.: Ajuste macro via inflação é a redução dos salários – ou diminuição do custo de mão de obra, como dizem os donos de empresas – que está acontecendo agora no país (efeito da inflação alta e do desemprego em alta). Esse é outro daqueles conceitos interessantes em teoria, mas que ninguém quer sentir na própria pele. 

Não é por maldade

junho 13, 2013

Por que o governo deixou a inflação sair do controle? Por que baixou juros e aumentou gastos (política inflacionista)? Por que, em vez de dizer que a inflação vai convergir para meta, o presidente do Banco Central dá entrevistas dizendo que ela vai para “perto da meta”?

Por que, em vez de dizer que vai conter a disparada de preços, a presidente da República aparece na TV dizendo – irritada – que a inflação está sob controle e que quem diz o contrário está fora da realidade?

Nada disso traz qualquer benefício eleitoral ao governo. Não é por nenhum tipo de maquiavelismo ou plano de campanha que dizem e fazem essas coisas. Não é por maldade. É burrice mesmo.

Dizer ao pobre consumidor (que acabou de engolir o aumento das passagens de ônibus) que a inflação não é um problema é pedir para ser vaiado em praça pública. O presidente do BC não garantir que a inflação vai para a meta (sua função no cargo e faze-la ir) é pedir para ser chutado do emprego.

Enfim, a qualidade da gestão pública já sabíamos que era pouca. Agora sabemos que a qualidade do marketing político também deixa a desejar.

Hora de acordar

Hora de acordar.

PS. É bom ver os protestos contra os aumentos de preço das passagens de ônibus no Rio e em São Paulo. Depois de tantos delírios econômicos do governo – que passaram impunes – parece que os eleitores/consumidores das duas cidades finalmente acordaram.

Lembro até hoje de minha professora de História da sétima série dizendo: “Não se faz revolução a favor de nada. Revolução é sempre contra”. Ela era uma professora de História típica: mais para PC do B que para PT, do tipo que usaria o broche do partido se isso não fosse contra alguma norma da escola.

Lembrei dela lendo o caderno de política do jornal. PT e aliados têm dominado com tanta força o noticiário político que talvez a oposição já possa fazer o que o PT fazia quando era oposição: pode ser contra.

Em termos de propaganda política, esse é o melhor dos mundos. A oposição não precisa se comprometer com nada, ou propor qualquer coisa (o que sempre irrita quem discorda da proposta). Eles podem simplesmente bater no que o governo está fazendo.

E isso dá voto, o PT que o diga.

Se a inflação continuar acelerando, vai ser difícil para o governo manter o poder de compra de todas as bolsas de ajuda que mantem. A inflação, quando acelera, é mais rápida que o reajuste dos salários (e benefícios). Então, sim, há esperança para a oposição.

É por isso que Eduardo Campos e Marina Silva estão dando sinais de vida. Por isso que Aécio Neves parou de se fingir de morto. Eles só precisam começar a bater.

Ah, é por isso também que o governo está tão ansioso para ocupar ainda mais espaço e (com mais de um ano de antecedência) só pensa em eleições. O curioso é que o ímpeto eleitoral está atrapalhando. O esforço para manter a popularidade alta está impedindo que o governo adote medidas mais duras no curto prazo – que ajudariam a segurar a inflação até as eleições.

O pensador político - e suas orelhas.

O pensador político – e suas orelhas.

Galinha pirata

abril 27, 2013

A galinha azul estava no alto da pilha. O camelô perto do Largo da Carioca estava desmontando a barraca e ela era uma das poucas coisas ainda não embrulhadas.

Galinhas pintadinhas são uma espécie de hit entre os menores de cinco anos. Duas semanas atrás, vi uma delas a venda por R$ 160 em um shopping de Botafogo.

Por um segundo pensei em comprar a versão pirata do camelô.

Sou um adepto do livre mercado, quer dizer: acho que o mercado tem alguns mecanismos de auto-correção que não devem ser desprezados.

Um deles é a pirataria.

Sempre que alguém abusa de um monopólio (cobra preços delirantes pelo uso de uma marca ou registro), surgem cópias piratas.

Para estimular a pirataria, então, pensei em comprar a galinha azul.

Mas não cheguei a perguntar o preço. O azul do pelo (tecido, não pelo, muito menos penas) era meio desbotado e o bico da galinha pirata tinha um ar realmente triste.

Não dou bonecos tristes para crianças.

Segui em frente, então.

Estamos em uma época estranha. Galinhas de pelúcia são vendidas por R$ 160 em shoppings, os jornais ignoram surtos de dengue, o governo diz que a alta da inflação é bobagem, o legislativo faz propostas para extinguir o STF e eu mesmo me entristeço porque a galinha falsa do camelô não está sorrindo.

Eu era menos sensível a essas coisas…

Pássaro de pedra egípcio, sem preço.

Pássaro de pedra egípcio, sem preço.

Repórteres pouco curiosos – que não fazem questão de entender as declarações que reproduzem – transformaram os cadernos de economia na parte mais chata do jornal.

Para recuperar a sinceridade desse tipo de notícia e deixa-la minimamente interessante, fizemos uma pagelança e trouxemos, do além, o fantasma de Nelson Rodrigues. Pedimos ao fantasma para entrevistar o ministro da Fazenda e ele concordou, com a condição de que fosse uma entrevista fictícia.

A entrevista então foi feita há meia-noite de ontem em um terreno baldio de propriedade do grupo EBX e teve como testemunha uma cabra vadia. O ministro concordou em responder de forma sincera a todas as perguntas e pediu apenas que a cabra testemunha fosse neo-novo-keynesiana e tivesse mestrado na Unicamp.

Fantasma de Nelson: A inflação está voltando?

Ministro: Já voltou. Nós estamos cortando impostos sobre a luz e outras coisas só para disfarçar, mas a oferta não cobre mais a demanda e isso quer dizer inflação acelerando.

FN: A culpa é do tomate?

M: Eu aprendi isso com o Delfim Netto: quando a inflação sobre, é melhor pôr a culpa em alguns produtos, dizer que ela não seria tão alta assim se não fosse por eles. Tirando os itens que subiram, a inflação parece sempre menor…

FN: É como a história do quiabo, na época da ditadura?

M: Sim. É isso mesmo. Preferimos dizer que é um problema pontual, embora 70% dos produtos do IPCA tenha aumentado.

FN: A economia também está crescendo pouco.

M: Dilma perguntou ao Delfim e ao [Luiz Gonzaga] Belluzzo o que fazer. Nesse caso, eles disseram que era melhor atirar no mensageiro: culpar o IBGE. Belluzzo disse para fingir que a economia vai bem e dizer que o IBGE não mede direito.

FN: Mas adianta ficar fingindo? A população não vai notar?

M: Até a eleição dá para fingir, depois, a inflação vai acelerar mais e a economia vai estar muito cheia de remendos, gargalos e travas. Mas o importante são as eleições. Como diz a presidenta, pelas eleições a gente faz o diabo.

FN: Mas, se vocês ganharem, a bomba vai explodir no seu colo, em 2015.

M: 2015 ainda está muito longe. Qualquer coisa depois das eleições está muito longe.

FN: Vocês não vão fazer nada para segurar a inflação e estabilizar a economia?

M: Só o que não tirar voto. A presidenta já disse: nós não acreditamos em medidas que afetem a popularidade no curto prazo. Esse tipo de política econômica está ultrapassado.

FN: Então vai ser o caos?

M: Não, o caos não. As pessoas vão perder renda por causa da inflação. E o crescimento baixo não vai ajudar. Mas isso não é o fim do mundo: já aconteceu antes e achamos que é um preço baixo a pagar pela reeleição.

FN: Até porque não são vocês que pagam…

M: Exatamente.

FN: Há alguma diferença entre o que vocês estão fazendo hoje e o que o Delfim fazia na época da inflação?

M: Não. É a mesma coisa. Por isso que a gente se consulta tando com ele. Nós até contratamos uns consultores para escrever artigos na imprensa com “justificativas teóricas” para a nossa política. É bem engraçado ver o tipo de malabarismo que eles fazem. Mas, na prática, eles fazem a mesma coisa que alguns acadêmicos fizeram nos anos 80 para justificar as políticas do Geisel.

FN: Então esses artigos dizendo que está tudo sob controle, que é só esperar que a inflação diminui sozinha…

M: Quem mais escreve essas coisas é um economista nosso que tem uma coluna no Estadão. Outro que escreve é da consultoria do Luciano Coutinho, nosso amigo… Pensamos em chamar gente de fora, mas preferimos ficar com gente em que a gente confia, manter como uma espécie de trabalho interno. Convidei a cabra que está testemunhando a entrevista mas, como boa cabra neo-novo keynesiana, ela não é muito articulada.

Depois da entrevista, o ministro admitiu que ficou espantado por a imprensa reproduzir sua declaração de que daria um Nobel para quem acertasse as previsões que ele errou.

Depois da entrevista, o ministro admitiu que ficou espantado por a imprensa reproduzir sua declaração de que daria um Nobel para quem acertasse as previsões que ele errou.

O jogo do pato

abril 8, 2013

Inflação é alta generalizada de preços. É quando, como agora, mais de 70% dos produtos que compõem o índice de preços ao consumidor têm aumento.

Quando isso acontece, as pessoas passam a não querer só aumentar o preço do que vendem: elas querem aumentar mais do que os outros estão aumentado. Quem se lembra do começo dos anos 90 sabe disso.

E a pressão por aumentos acima da média aparece até em setores com preços controlados, como o dos planos de saúde.

O Valor de hoje publicou uma bela peça de lobby divulgada pela assessoria de imprensa dos planos de saúde. A matéria, se fosse honesta, teoria o seguinte título: Planos pressionam por aumento 10 pontos percentuais acima de inflação. Como era uma peça de lobby, seu título era: “Custo dispara e desequilibra balanço”.

O texto relata como empresas do porte da Unimed Rio e da Bradesco Saúde estão sofrendo com aumentos em seus custos e tenta mostrar como elas devem repassar esses custos para seus clientes:

“Dados do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) mostram que os custos médicos nessa categoria [individual] de plano de saúde aumentaram 16,4% no acumulado de 12 meses encerrado em junho do ano passado (…)”

A matéria não diz o que é o IESS, e o site do IESS também não diz o que ele é, nem quem o financia. Mas a mas a matéria diz que: “Em relação aos planos de saúde individuais (cerca de 10 milhões no país), o reajuste ainda não foi definido pela agência reguladora, o que deve acontecer até o próximo mês. Mas ao que tudo indica o aumento deve ser expressivo.”

Matéria oportuna, sem dúvida.

Na corrida por reajustes acima da inflação, quem é mais lento fica para trás. Se você tem plano de saúde, prepare o bolso. Afinal, as seguradoras estão alardeando aumentos de custo e a agência do governo que teoricamente protege o consumidor do oligopólio dos planos foi – nos últimos anos – incrivelmente bondosa (com os planos) e concedeu reajustes bem acima da inflação.

Em alguns setores com preços regulados, os aumentos autorizados pelo governo são iguais à inflação passada menos uma estimativa de ganho de eficiência (capacidade das empresas de reduzir seus custos). Com os planos de saúde é o contrário. A hipótese do regulador é que eles ficarão mais e mais ineficientes, até consumirem toda a renda dos beneficiários (o que com aumentos sempre acima da inflação e com um horizonte de tempo suficientemente longo é matematicamente garantido).

Galinha pintadinha de R$ 159,00. Inflação para todas as idades.

Galinha pintadinha de R$ 159,90: inflação para todas as idades.

Cortar impostos dos produtos da cesta básica é uma boa ideia. Mas fazer isso quando a demanda está aquecida (consumo crescendo) e a oferta não acompanha é desperdiçar as boas intenções.

O saldo de cortar imposto em época de demanda forte é dar mais dinheiro para os produtores – que vão embolsar o imposto e manter os preços em alta. Se o objetivo do governo era conter a disparada da inflação, a data do corte de impostos foi mal escolhida.

Sim, o governo está reagindo ao anúncio do IPCA – que foi de 0,6% em um fevereiro com carnaval (poucos dias úteis). O governo, para não subir juros ou deixar o dólar cair, apelou para um corte de impostos que beira o contraproducente – em termos de redução de preços.

Ao mesmo tempo, Dilma, Mantega e seus amigos dão mais um empurrão para cima na inflação. Cortar imposto é política fiscal, é quase como aumentar o gasto público. Sim, porque o governo corta sua receita sem cortar seus gastos, quer dizer, aumenta o déficit público (o que estimula a demanda, que pressiona os preços – para cima).

A impressão, para variar, é que a equipe econômica do governo simplesmente não tem um plano. Eles reagem a cada anúncio da inflação, a cada crescimento abaixo do esperado na economia. Sem necessariamente muita coerência entre as reações…

Doces - sem isenção de PIS e Cofins (pelo menos por enquanto).

Doces – sem isenção de PIS e Cofins (pelo menos por enquanto).

O mal aos pouquinhos

fevereiro 6, 2013

A frase mais famosa de Maquiavel é aquela sobre o bem e o mal. O bem, segundo ele, deve ser feito aos poucos, o mal, de uma vez.

Fazer o mal aos poucos é pedir para ser odiado pelo público. É o pior dos mundos para um político.

É por isso, provavelmente, que a inflação é um veneno tão eficiente contra a popularidade do governo. Ela é o caso extremo de mal aos pouquinhos.

Todos os dias, o pobre consumidor vê algum preço subir: pode ser o cafezinho, pode ser o aluguel, pode ser o plano de saúde, pode ser a gasolina. Todo dia ele é lembrado de que está ficando mais pobre.

E a culpa, não há dúvida: é do governo.

E nesse caso é mesmo. É o fim da política econômica que está trazendo a inflação de volta. A inflação era controlada por uma política de metas (juros), câmbio flutuante e déficit sob controle nas contas públicas (também conhecido como superávit primário). O governo abandonou as três coisas. Não deveria ficar surpreso com a alta dos preços.

Também não deve ficar surpreso com o horror dos eleitores, que virá, cedo ou tarde.

O nível baixo de desemprego tem segurado a popularidade de Dilma & cia. Mas, para ficar nos chavões: ganhar, para depois perder, é pior que não ganhar. A renda cresceu – para agora ser engolida pela inflação. E engolida aos pouquinhos, do jeito mais doloroso.

Vítimas do mal feito aos poucos. Santiago, Chile, Museu de Belas Artes.

Vítimas do mal feito aos poucos. Santiago, Chile, Museu de Belas Artes.

Futurologia aplicada

dezembro 4, 2012

Governo, consultorias e bancos começaram o ano de 2011 prevendo um crescimento entre  4,0% e 4,5% para a economia. Ela fechou o ano em 2,7%. Em 2012 foi a mesma coisa: previsão de crescimento de 4,0% (e talvez não chegue a 1%).

Agora – quase surpreendentemente – estão prevendo os tradicionais 4,0% para 2013. Não vai ser nenhuma supresa se a economia crescer menos do que o previsto.

Mas por que 4%?

Bom, há alguns anos, um acadêmico estimou que a economia brasileira tinha potencial para crescer nesse ritmo sem acelerar a inflação. Ele estimou o que os economistas chamam – com alguma pompa – de Crescimeno Potencial do Brasil.

Sem melhores dados para falar sobre o futuro um ano a frente, quando têm que fazer uma projeção, os analistas de consultoria chutam o crescimento potencial.

Até o penúltimo dia do mês passado, esses mesmos analistas estavam estimando um crescimento de 1,2% para a economia do país no terceiro trimestre de 2012. Nesse caso, nem futurologia era: o terceiro trimestre já tinha acabado.

Bom, eles errarm. Todos erraram. A economia cresceu metade disso.

Mas como todos podem errar juntos e por tanto?

Essa é fácil: eles seguiram o Banco Central. Umas duas semanas antes da divulgação do PIB, o BC divulgou o IBC-Br, sua prévia do PIB. Se não consegue mais coordenar as expectativas de inflação, o BC, pelo menos, coordena as expectativas dos consultores para o crescimento da economia.

Resumindo: sem bons modelos para projetar crescimento, a maior parte dos bancos e consultorias foi atrás da projeção do BC – que também não era muito boa.

O assustador é pensar que – se os analistas erram, por muito, a projeção para o trimestre passado – a qualidade de suas estimativas para o futuro mais distante não pode ser das maiores.

Ok. Ninguém conhece o futuro. Mas confiar demais em quem diz que conhece pode ser trágico às vezes.

O efeito do erro pode ser especialmente grande se ele for em algo que atinge imediatamente a vida das pessoas, como os preços.

As projeções de bancos e consultorias para a inflação no ano que vem estão em torno de 5,5%. Mas o investimento está baixo, o consumo está crescendo mais do que a geração de renda há vários trimestres – e é impossível barganhar na hora de pagar coisas como mensalidade de escola e plano de saúde.

Se modelos econométricos são ruins (principalmente em época de mudança de política cambial e monetária), o que resta, para tentar ter uma vaga idéia de como será o futuro, é olhar para os grandes agregados e lembrar dos pricípios gerais de economia.

Hoje, eles indicam que há poucos incentivos para produzir (daí a queda do investimento nos últimos meses) e há um nível de renda alto, comparado ao histórico do país. Há mais crédito ao consumidor que em qualquer outra época (ele está cresceno mais de vagar, mas não parou de crescer). Resumindo, os ingredientes para o aumento da inflação estão aí. Vale a pena se preparar.

Se preparar para o pior cenário (que nesse caso é bastante provável) é melhor do que ficar tentando fazer uma projeção precisa e apostar nela. Afinal, não dá para fazer uma projeção precisa.

Dragão asteca da inflação: "Esperando sorridente".

Dragão asteca da inflação: “Esperando sorridente”.

Estagflação

setembro 28, 2012

Comparações com Geisel, construção de hidrelétricas, empréstimos do BNDES com juros  abaixo da inflação, protecionismo, mudança de regras no meio do jogo. Não há dúvida: o governo Dilma tem algo de saudosista, de anos70.

Agora, por exemplo, estão ressuscitando uma expressão que eu esperava nunca mais ouvir: estagflação.

Ontem, em seu relatório, o Banco Central admitiu mais uma vez: a inflação vai subir mais e a economia vai crescer menos do que ele esperava/previa/anunciava.

A “tendência” tem sido essa: revisão das previsões, sempre para pior, tanto na inflação quanto no crescimento.

Se continuar assim, será a velha e conhecida estagflação.

Mas governo, bancos e e afins garantem: 2013 vai ser diferente (no crescimento porque a inflação ficará acima da meta de novo).

Só que a previsão de crescimento para 2013 é menor que a feita um ano atrás – pelos mesmos analistas – para 2012. O governo anunciava uma previsão de 4,5% para o crescimento da economia em 2012.

A crise internacional não tem perspectiva de melhora (pelo contrário), a China está desacelerando e a política econômica daqui tem cada vez mais jeito de improviso.

Resultado: a estagflação virou, mais uma vez, um cenário possível (talvez até, provável).

Mais precisamente, US$ 374,2 bilhões. É isso que o governo do Brasil tem em reservas no exterior. Se você estava curioso para saber porque o dólar chegou esta semana a R$ 1,92, é por isso, porque o Banco Central do Brasil comprou mais US$ 7,2 bilhões em abril (até o dia 27), batendo mais uma vez o recorde de reservas.

O regime cambial do país é de câmbio flutuante – pelo menos em tese – e o BC sempre negou que acumulasse reservas para manipular a taxa de câmbio. Agora não precisa mais negar: ninguém ia levar a declaração a sério. No jornal de hoje, o ministro da Fazenda comemora a cotação do dólar: diz que “o empresário já começa a esboçar um sorriso” com a nova cotação.

O consumidor, o assalariado que não tem aumento quando os importados sobem de preço, esse está longe de comemorar.

O custo de manter reservas de mais de US$ 300 bilhões é igual à o valor das reservas vezes a diferença entre o que o governo ganha por aplica-las no exterior e o que paga aqui para pegar emprestado o dinheiro com que compra os dólares. É um custo alto. O BC devia dizer claramente o que está fazendo – afinal, faz com dinheiro público.

A impressão é de que o governo aposta com força em uma grande freada da economia no futuro. Se não, não tomaria tantas decisões inflacionárias como reduzir a Selic para menos de 9% (que é o que a mudança na caderneta de poupança sinaliza), jogar fora o câmbio como mecanismo de controle da inflação e ainda pressionar os bancos privados para reduzir os juros a seus clientes.

A freada econômica no futuro não é uma hipótese para se despezar. Até o ano passado, muita gente confiava demais em um crescimento constante, “garantido”, para o Brasil nos próximos anos. Estamos começando a ver que essa coisa de crescimento econômico garantido não existe. E a mudança nas expectativas – o botar o pé no chão sobre o que vai ser nossa renda no futuro – já é suficiente para fazer muita gente economizar, já é suficiente para reduzir o consumo das famílias.

É para cortar esse movimento de botar o pé no chão que o governo está expandindo crédito ao consumidor.

Mas, mais do que se opor ao realismo dos consumidores, o governo está fazendo uma aposta. Ninguém conhece o futuro. Há cenários mais e menos próváveis, mas é só isso. E cada escolha de cenário vem com um custo – caso a previsão esteja errada.

Se a previsão do governo estiver errada, o custo vai ser a aceleração da inflação. Para quem é assalariado e não consegue aumentar o preço do que vende (seu trabalho), a melhor defesa é economizar, desde já. O crédito está mais barato? há estímulo para comprar?  Tampe os ouvidos, não olhe para os anúncios e siga em frente. Amanhã, se tudo der errado, a inflação terá engolido seu salário e você vai precisar de cada centavo poupado.