O Globo x Temer

agosto 28, 2016

Na matéria de capa da edição de hoje de O Globo, uma fonte (identificada apenas como “auxiliar de Temer”) diz que, aprovado o impeachment de Dilma, o governo apresentará uma pauta que inclui “PPPs (parcerias público privadas) para esgotos, penitenciárias, hospitais e creches, comprando vagas para as crianças.”

Um turista desavisado que lesse a matéria poderia achar que o jornal é dirigido por petistas e que eles apostam em uma última tentativa de manter Dima no poder – assustando os senadores para que votem contra Temer no julgamento do impeachment esta semana.

Além do timing horrível para esse tipo de manchete (que não traz novos apoios e afasta parte dos que se tem), o conteúdo do texto assusta. Concessões de serviços públicos para empresas de saúde estão tendo que ser revistas no Rio de Janeiro. Aqui, o Ministério Público investiga se os contratos com hospitais e UPAs administrados por empresas privadas foram feitos a preços razoáveis. O próprio governo estadual admite que terá que rever alguns desses contratos pois, pelo preço com que foram feitos, é difícil mantê-los.

A crítica às UPAs não é à qualidade dos serviços: é ao custo com que é oferecido. E, justo na hora em que se fala em cortar custos, alguém (não ficou claro quem) aparece com a bandeira da privatização da saúde.

Países liberais como a Inglaterra têm sistemas de saúde basicamente públicos. Há motivos para isso. Nos anos 60, o Nobel de economia Kenneth Arrow já escrevia artigos sobre como a saúde é uma área diferente onde as leis da oferta e da procura não funcionam do mesmo modo como em um mercado de sabão em pó, por exemplo.

Na saúde privada, quem escolhe o produto ou tratamento (médico) não é quem o consome (paciente) e também não é quem o paga (plano de saúde). Isso cria incentivos distorcidos na hora de escolher que remédio comprar ou que tratamento receber. Ninguém mais compara custos e benefícios porque os custos são do plano, ou do paciente (considerando também o sofrimento como custo) e o médico pode receber pressão do hospital onde trabalha para pedir mais exames ou mais avaliações. Enfim, há décadas se sabe que a expressão “oferta e demanda” não resolve os problemas na área de saúde.

No caso das creches é pior ainda. O que a frase na matéria dá a entender é que o governo quer ressuscitar uma velha ideia de Milton Friedman. Para Friedman, o governo poderia privatizar as escolas e oferecer vouchers para os pais com um valor fixo que eles usariam para pagar ou complementar o pagamento de mensalidades. Quem tivesse mais dinheiro, obviamente, usaria o voucher só como complemento.

A ideia é tão ruim que nem os EUA, terra de Friedman, a adotaram. O maior problema (de novo) é que ela deixa de lado os custos. A proposta de Friedman parte do preconceito de que a escola pública é ruim e propõe troca-la por escolas privadas (sem perguntar quanto custaria isso ou se seria realmente eficiente). Mais uma vez: nos EUA, onde a ideia surgiu, o ensino básico é praticamente todo público.

Sobre presídios privados, os EUA os implantaram – e estão revendo o programa para reduzir aos poucos sua participação no total de presídios. Não foi a solução que eles esperavam (como a própria matéria d‘O Globo deixa claro).

Por último, a fonte oculta d’O Globo usou uma expressão que sempre me dá calafrios: Parceria Público-Privada. Um ex-presidente do Banco Central da Índia, o ultra-ortodoxo professor Raghuram Rajan, escreveu um livro em que  aponta como esse tipo de coisa serve só para transferir dinheiro público para o setor privado. Pelo que me lembro do livro, ele deixa claro que a produção pode ser feita no setor público ou em empresas privadas. Modelos híbridos dão problema, fragilizam o sistema e ajudam a montar grandes crises como a de 2008, que ele analisa no livro.

Espero que a matéria de capa tenha sido só mais um balão de ensaio de lobistas tentando plantar seus projetos no meio da agenda do governo. Como projeto político, essas ideias não têm apoio de muita gente. E como agenda econômica, elas são simplesmente inviáveis (não há mais o que transferir para concessionários amigos: o dinheiro acabou).

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Um pequeno bode na sala?

 

 

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O mundo não para durante a Copa. Políticos continuam desviando verba, acidentes de trem continuam matando gente na Índia e a inflação continua subindo. Mas boa parte disso é posta de lado (ou espremida em um bloquinho do telejornal) para dar lugar a longas matérias sobre o quarto do hotel onde ficará o time X, ou a cidade sede que receberá a seleção Y.

Se, na economia, os tempos atuais lembram os do general Geisel, no noticiário, começam a ficar parecidos com os de Médici.

Pode ser amostra pequena, mas minha impressão – andando pelas ruas e conversando com amigos – é que as pessoas estão muito menos dispostas a ver detalhes sobre os detalhes da Copa, estão muito menos animadas a decorar avenidas e vielas do que a TV dá a entender.

Perto de casa, o único canto com bandeiras e bandeirinhas nos postes foi decorado pelos camelôs – que vendem bandeiras e bandeirinhas bem embaixo da decoração.

Minha impressão é de que a imprensa não está indo atrás “do gosto do público”, como seria razoável que fizesse. Ela está empurrando um produto – e deixando de lado o serviço de informar, tão precioso em épocas pré-eleitorais.

Arthur Rimbaud e Paul Verlaine (canto esquerdo) discutem a atuação do time da França.

Paul Verlaine e Arthur Rimbaud  (canto esquerdo) discutem a atuação do time da França.

 

Paul Verlaine

Há anos o PT tenta emplacar uma lei que passe o controle editorial das emissoras de TV e jornais para uma junta de “representantes da sociedade”. Mas isso não emplaca no Brasil.  O governo então tomou um atalho. Em vez de tomar o controle com projetos de lei, o comprou.

As manchetes panos quentes do tipo “Dilma abre diálogo com a sociedade” dos jornais de hoje são um verdadeiro deboche. O secretário de segurança do Rio de Janeiro no Jornal Nacional dizendo que pode chamar o Exército para conter os protestos – sem nenhum contraponto de alguém que lembre que as manifestações são pacíficas e são contra o chefe dele (Sergio Cabral) – é uma ofensa.

Quanto custou o apoio? Foi pago com direitos de transmissão olímpicos ou com dinheiro mesmo?

Mas isso não é novidade. As Organizações Globo sempre apoiaram o governo (qualquer governo), sempre tiveram a imagem de empresa rica e vendida a quem pagasse mais.

“Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”, dizia o velho Millor.

Pois então estamos sem imprensa. O Dia, Folha de SP, Extra e outros vieram todos com manchetes panos quentes pró-governo.  O Jornal Nacional, da Globo, eu não assisto mais.

Antes, tínhamos mais jornais. O velho JB faz falta. Agora temos a internet, que vamos ver se consegue se contrapor à audiência da TV aberta…

O efeito dessa política é nos empurrar para um dos dois extremos. Ou a campanha publicitária em massa vai funcionar – e todos voltarão para suas casas esperando pelas promessas de Dilma, ou as pessoas vão se irritar mais ainda com a cobertura da imprensa – que mostra um mundo diferente do que vêem nas ruas todos os dias.

Minha aposta é na segunda alternativa.

Rio de Janeiro, 17 de junho de 2013.

Rio de Janeiro, 17 de junho de 2013.