O protesto dos professores

outubro 16, 2013

Cheguei tarde à passeata dos professores – e cheguei pelo lado da Av. Presidente Vargas. Tive que desviar do “bloco da polícia” que fechava a passeata. Era uma quantidade realmente grande de policiais – fechando (no sentido estrito) a manifestação.

Mas a passeata foi excelente. Se tivesse um pouco mais de traquejo com a parafernalha do blog postaria os vídeos de manifestantes cantando “A educação parô-ôu!”, com as vozes de dezenas de milhares de pessoas na Av. Rio Branco, às 19h de hoje.

Preocupava um pouco a presença ostensiva da Tropa de Choque. Eles ficavam a cada dois quarteirões, em grupos de 20 ou 30, com escudos e cacetetes, encostados a prédios da avenida. Sem nomes nas fardas, tinham as tais identificações alfanuméricas.

Vi o momento em que um grupo de mais de 20 policiais resolveu prender um manifestante (pacífico) no meio da multidão. Eles foram, os 20 ou 30, para cima do sujeito. Não sei se ele estava usando máscara ou qual foi a justificativa. Mas, em pouco tempo, havia uma roda de câmeras e filmadoras em torno da cena e a multidão gritava “au au au, cachorrinhos do Cabral!”.

passeata 15_10

Os policiais se retiraram. Passaram ao meu lado na calçada e – pelo que pude ver – dessa vez não levaram ninguém. É difícil enfrentar uma multidão de professores.

Mas ser chamados de poodles do governador não foi o bastante para lhes ensinar a lição do dia.

Eu já estava longe quando a confusão do fim do protesto começou. Desenvolvi um sentido especial para pressentir o fechamento das portas da estação do Metrô e corri para lá a tempo de entrar.

O que posso dizer com segurança é que – pela quantidade de policiais no trajeto e no bloco de fechamento da passeata – houve certamente um momento, na hora da dispersão, em que eles se tornaram maioria.

Fico assustado vendo os narradores da TV dizerem em tom acusatório: “Vocês estão vendo um manifestante usar um tapume como escudo!”. Sim: como escudo, para se defender de alguma coisa. Fico assustado vendo a quantidade de bombas de gás voando e o locutor da Globo, o tal Bonner, dizer: “foi um grupo de mascarados…”

Alguém disse a ele para parar de dizer “vândalos”. Já é um progresso. Mas falta cobrir melhor como as passeatas são “dispersadas”: em que momento a polícia decide “dispersar” os manifestantes e a partir de que horas o Metrô fechado se junta à falta de ônibus (as ruas estão fechadas) e a polícia age como manda o governador.

passeata 15_10b

PS. Vi há alguns dias um documentário sobre o fim do comunismo no Leste Europeu. Os documentaristas recuperaram um trecho do jornal da noite da Alemanha Oriental de dias antes da queda do muro. Antes do muro cair, os alemães orientais já fugiam de carro, passando por outros países para chegar à Alemanha Ocidental. O locutor do jornal – com a cara mais dura do mundo – dizia que aqueles fugitivos estavam sendo “expulsos” do país.

Lembrei disso vendo o Bonner não dizer “vândalos” no Jornal Nacional. Não é ele quem decide como as passeatas serão mostradas no jornal da noite. Ele é um rosto, como o do apresentador alemão, alguém que está lá para repetir uma determinada versão.

Me senti, de novo, em um regime totalitário. Mas gostei de pensar que o status de celebridade de algumas figuras, de alguns apresentadores e “jornalistas”, se perdeu de vez.

Agora dá para ver melhor o que eles são.

PS2. Os jornais de hoje (16/10) mostram as decisões do comando da PM e do governador no fim da noite de ontem. Foram presas 190 pessoas. Os acampados – que estavam há semanas nas escadarias da Assembléia Legislativa – foram levados em ônibus para oito delegacias espalhadas pelas cidade, da Taquara à Ilha do Governador.

Por estar acampados perto do palácio, 43 pessoas foram acusadas de formação de quadrilha com agravante de aliciamento de menores.

PM

Policiais militares deram tiros para o alto  com munição real. Pelo menos um manifestante foi hospitalizado com um tiro – que o atingiu nos braços.

Segundo a Folha de S. Paulo, agora, cerca de 24h depois dos protestos, 64 manifestantes continuam presos. 

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