Ministros nomeados por qualquer motivo que não adotar boas políticas para suas áreas tomarão decisões destrutivas. A boa política (para educação, saúde ou mesmo para a pesca) não surge como um subproduto involuntário a partir da busca esbaforida por outros objetivos.

O problema é que o governo federal já admite que seus ministros não foram nomeados por conta do que pensam ou da política que propõem para cada pasta: foram nomeados para conseguir votos no Congresso. Não se deve então esperar que administrem suas pastas pensando no acesso da população a boas escolas e hospitais. Eles administrarão para dar aos congressistas alguma espécie de contrapartida por seu apoio ao governo.

Às vezes, a perspectiva de ter uma gestão curta em um ministério com muitos recursos pode induzir o ocupante do cargo a pedir contrapartidas muito altas de fornecedores (entregues diretamente aos congressistas), como indica esta nota d’O Globo sobre o ministro da Saúde Ricardo Barros.

Desse jeito, o governo Temer vai ter base parlamentar. Só não terá gestão executiva (e poderá ser ainda mais corrupto que o anterior).

Preferia que o Executivo se preocupasse em gerir a máquina administrativa em vez de apenas conseguir “apoios” do Legislativo. Depois de aprovar a reforma da Previdência (que tem mesmo que ser aprovada), espero que revejam algumas dessas concessões de ministérios (e que o estrago feito até lá não seja grande demais…).

Mas estou sendo otimista – e o que se viu até agora não devia inspirar otimismo.

Concessões “porteira fechada” desse tipo podem ser muito destrutivas. Um ministério não é um capitania imperial para ser concedido a quem quer que seja.

Em troca dos votos do PP, de Ricardo Barros, vão destruir o sistema público de saúde? Vão aumentar o custo dos seus insumos e, assim, diminuir sua capacidade de atender pacientes? Dilma fez isso (e defendia na TV o superfaturado Farmácia Popular) mas, pela grita dos fornecedores, Barros parece estar indo com muita sede ao pote…

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Primo do Pato amarelo: já instalado na Esplanada dos Ministérios.

Com um cocar branco, cantando de graça entre os pilotis do Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, Caetano Veloso se transformou em uma versão musical de Leonardo Picciani – ex-líder do PMDB na Câmara dos deputados e hoje ministro dos Esportes.

Caetano fez com Michel Temer, o mesmo que Picciani fez com Dilma Rousseff: exigiu dele  um ministério. Não era para ele pessoalmente: era para o grupinho de que faz parte.

Ser o PMDB do PMDB é uma coisa estranha. Mas se, em algum momento, Caetano perceber que se transformou nisso, vai, provavelmente fazer uma piada e fingir que não notou. Afinal, ele é hoje uma pessoa que exige espaço na burocracia oficial: ele é o PMDB do PMDB (e é melhor não admitir uma coisa dessas).

Temer, como bom articulador político, cedeu e recriou o Ministério da Cultura: um custo baixo para tirar o discurso da oposição musical.

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PMDB, Honoré Daumier.

A crise da economia brasileira não tem a ver só com queda de arrecadação, tem a ver também com despesas crescentes. O governo Dilma falhou por não reconhecer isso. E, sem reconhecer o problema, não há como trata-lo.

A dúvida agora é se o governo Temer (cada vez mais provável) vai tentar resolver problemas como o do defict da previdência. Se não resolver, sofrerá, até 2018, o mesmo desgaste enfrentado pelo governo Dilma.

A situação das contas públicas chegou a um ponto em que não é possível postergar ajustes – embora Dilma ainda tente posterga-los. Até 2008, ainda havia algum controle sobre a relação entre a dívida pública e o PIB. Mas, depois da crise de 2008/2009, o governo abandonou a contenção de gastos em nome de políticas de incentivo à demanda. Hoje, o Estado gasta crescentemente mais do que arrecada (e se endivida a taxas altas). Será preciso ajustar novamente a despesa à receita.

Parte do ajuste será via inflação (não corrigindo os salários dos funcionários públicos, por exemplo), parte terá que ser contenção do crescimento de itens como a previdência social.

O curioso é que, embora arrecade cerca de 34% do PIB em impostos (e gaste mais de 40%) o governo consome menos de 20% do PIB com a prestação de serviços públicos. O resto são transferências, são itens como juros, previdência e programas sociais (que crescem automaticamente, puxados pela dívida pública e pela demografia).

Algum ajuste virá, nem que seja um involuntário, com calotes e alta da inflação. Será melhor se o governo conseguir entregar um ajuste organizado, um ajuste intencional e bem planejado.

Nas últimas décadas tivemos ajustes de diferentes tipos: tivemos o Plano Real (que adotou a máxima do equilíbrio fiscal para conter a inflação), tivemos os ajustes dos anos 80 (que, sem a parte fiscal, foram paliativos e ineficientes) e tivemos o Plano Collor (um confisco temporário que deixou sequelas até hoje em muitos antigos poupadores).

Se servir como estímulo para os formuladores da política econômica de Temer, vale a pena lembrar que o efeito político desses ajustes foi o seguinte: o Plano Real elegeu um presidente, os ajustes do governo Sarney tiraram do PMDB a chance de se firmar como amplamente majoritário após o fim da ditadura. O Plano Collor levou ao impeachment de seu autor.

Assutador

Crise econômica. México, museu de antropologia.