Os editores estão na primavera literária

Ausência de evidência é diferente de evidência de ausência. Pensei que o país não tinha editoras, mas não é isso: eu é que não estava conseguindo encontrá-las. Hoje encontrei. Elas, de um jeito muito solícito, se reuniram em uma feira literária, nos jardins do Palácio do Catete. Ainda vão estar lá amanhã (06/10).

O melhor da feira é conversar com os editores – que estão nas banquinhas de suas pequenas empresas vendendo livros. Basta chegar perto, pegar um livro e, em segundos, o sujeito atrás da banca começará a contar o enredo e a falar, com entusiasmo, sobre os outros livros do autor.

Me recomendaram bons livros de que eu nunca tinha ouvido falar: de quadrinhos de luxo (graphic novels) a terror carioca. Sim, terror carioca! Porque não tinham pensado nisso? Bom, na verdade tinham:

“O subúrbio do Rio de Janeiro tem muitas histórias. Escolhi contar as assustadoras”, escreveu Hedjan C.S., autor de Gótico suburbano, na dedicatória do livro que comprei com ele no estande da Luva Editora. O editor do Livro, Vitor Uchôa, ao lado de Hedjan no estande, me disse: “edito histórias daqui, de autores brasileiros, sobre temas daqui”.

Fiquei feliz de ouvir. O que as grandes editoras não fazem, as pequenas correm atrás e fazem. Com menos recurso, menos divulgação e menos estrutura, elas se arriscam mais e lançam os autores locais, que contam histórias que eu quero ler.

Não quero reler Baudelaire nem ler o último Stephen King. Mas esses dois estão hoje na página de abertura do site da Cia. as Letras. Que fiquem lá. Minha pilha de livros agora tem histórias de Jupati Books, Editora Valentina, Andrea Jacobson Estúdio e Luva Editora.

Estava sentindo falta de livros originais para me fazer voltar a ler com gosto. Nem sei como agradecer às pequenas editoras (mas prometo comprar mais livros). Obrigado.

Primavera dos livros

Primavera literária

As editoras brasileiras não estão em crise, elas acabaram

A crise dos livros no Brasil vem de bem antes de as redes Saraiva e Cultura pedirem recuperação judicial. As vendas de livros já vinham caindo desde 2014. Os dados do IBGE sobre preços de livros (IPCA) e volume de vendas (Contas Nacionais) mostram que o volume caiu apesar de os preços terem subido bem menos que a média do itens do IPCA desde o início da crise. Mas a crise pode não ser só de demanda.

O papel das livrarias é vender livros, o das editoras, criar livros para serem vendidos. E, há alguns anos, elas pararam de fazer isso. Sem livros novos para vender, as livrarias mostram em suas vitrines apenas velhos autores reeditados e traduções: nada que venda muito. Quando pensamos em autores brasileiros, vêm à cabeça nomes como Paulo Coelho, Rubem Fonseca, Jorge Amado, Fernando Sabino, autores do século passado.

Mesmo a safra mais nova de autores – como José Roberto Torero, Daniel Galera, Daniel Pellizzari ou Patrícia Melo – foi lançada no século passado. Não há autores novos. Quanto um Jorge Amado representava das vendas quando era um autor novo? E um Fernando Sabino? Mas não há novos Sabinos.

E não há novos autores porque as editoras não querem lança-los. Não dá muito trabalho ir aos sites da Sextante,  ou da 34 Letras e ver que, explicita e declaradamente, elas não recebem originais. A Sextante recomenda que novos autores contratem um agente literário e diz que isso “é bom para o mercado”. A 34 Letras diz, em negrito, que: “A partir de 2017 não avaliaremos originais encaminhados sem solicitação prévia da editora”.

Editoras tradicionais como a Nova Fronteira/Ediouro não têm referências a envio de originais em seus sites. Fui à sede do grupo, no centro do Rio, onde a atendente me disse: “no momento não estamos recebendo originais”. “E no momento deve durar até quando?”, perguntei.

As editoras Globo, L&PM, Rocco e Arqueiro também não têm referências a envio de originais em seus sites – e não responderam aos e-mails sobre como envia-los. Intrinseca, Planeta e Boi Tempo têm mensagens sobre não receber originais. A Tinta da China “não se compromete a responder a quem envie originais não solicitados”.

A Editora Record (dona dos selos Bertrand Brasil,  José OlympioPaz e Terra, Civilização Brasileira, Verus e Difel) recebe originais, mas também não se compromete a dar qualquer tipo de resposta. Originais que não interessem à editora serão descartados, sem ao menos uma carta de recusa. Não há prazo para avaliar o original:  “não é possível estipular prazo para avaliação e a editora não emite parecer do material recebido”. É alguma coisa como “manda aí, mas não é para esperar nada”. Ainda é melhor que a Penguin-Random House-Cia das Letras. Depois de comprar concorrentes como Objetiva, Alfaguara e Suma (que, vendidos, não recebem mais originais) a Cia das Letras adotou como política ofender os possíveis novos autores. Os originais são aceitos apenas em dois meses por ano e “originais enviados fora do período estabelecido não serão avaliados”. Mais do que isso: “os autores que submeterem suas obras dessa maneira receberão uma resposta por e-mail num prazo mínimo de seis meses. As obras recusadas não serão comentadas, e o material será destruído”.

O negrito é deles e os seis meses são o prazo mínimo, não o máximo.

Tudo isso, segundo eles, porque a Penguin-Random House-Cia das Letras “dispõe de uma pequena equipe para avaliar os originais recebidos”. Tá bom: não lança livro, não vende. Quer dizer, vende traduções e autores antigos. Achei curioso quando, no fim do ano passado, um dos sócios da editora divulgou uma carta conclamando as pessoas a comprarem livros para salvar livrarias e editoras da crise. Prezado: não é assim que se resolve o problema.

Podem dizer que as editoras encolheram por causa da queda na demanda por livros ou que a demanda caiu porque as editoras têm menos lançamentos que tenham a ver com o que acontece hoje no país. Uma coisa não exclui a outra. Na prática, elas se reforçam. Pode ser que as pessoas estejam lendo menos livros (e mais blogs e twitter raivoso e facebook), pode ser que as gerações mais novas sejam mais impacientes, muitas coisas podem ser. Mas, de um jeito ou de outro, não lançar novos autores nacionais é ruim para as vendas.

A saída, para os novos autores, tem sido a publicação independente, que aumentou com o uso de ferramentas como o kindle direct publishing, da Amazon. Mas isso é curioso porque acaba sendo uma especie de uberização dos escritores. Os custos de revisão, editoração e até de fazer a foto da capa passam para o autor e a venda do livro é feita através de um grande site, a Amazon, que ganha uma comissão por isso.

Se fosse só isso, tudo bem. Mas o site não dá para os livros a visibilidade que uma editora daria: não os põe na vitrine da livraria por onde as pessoas passam no caminho para o trabalho. E a divulgação – mesmo que o o autor tente faze-la – não será igual à de uma editora (que tem departamento de marketing e assessoria de imprensa).

Um press release enviado por um autor independente para um caderno de cultura de jornal não vai lhe render sequer uma notinha na coluna mais obscura do caderno. O jornal continuará fazendo matérias sobre a última tradução lançada por uma grande editora ou reciclando o milésimo texto sobre Machado de Assis ou Clarice Lispector (que nem eu vou ler).

O horizonte é ruim para o surgimento de livros originais e de novos autores no país. Para lançar o meu, segundo a Sextante, eu deveria contratar um agente literário. Não tenho experiência nisso: não conheço agentes nem editores. É como contratar um advogado para ganhar uma causa? Publica quem tiver o melhor agente? Não há um processo imparcial e aberto para análise de originais? As grandes editoras não têm recursos para lançar autores? Então, desculpe, elas não são grandes editoras, são casas de replicação, tradutoras de luxo, empresas avessas demais a qualquer tipo de risco (tipo os fundos de renda fixa).

O Brasil não tem uma crise no mercado editorial: não tem nem mercado editoral. Tempos estranhos…

potter

O que resta é reler Harry Potter…