A lei de Contra-Say

junho 19, 2016

Um dos argumentos teóricos favoritos dos autores da política econômica do governo Dilma pode ser chamado, sem muita controvérsia, de Lei de Contra-Say.

A Lei de Say original, proposta pelo economista francês Jean Baptise Say no século XIX, dizia, resumidamente, que a oferta cria sua própria demanda. Quer dizer: ao produzir, as pessoas geravam a renda que seria usada para comprar o que foi produzido.

A Grande Depressão, nos anos 30, enterrou a Lei de Say. Havia produção mas, com a demanda fraca, ela encalhava em pilhas de estoques.

A produção não gera necessariamente demanda pelo que foi produzido. Isso é mais ou menos consenso entre os economistas hoje. Em períodos conturbados, pessoas e empresas podem preferir guardar uma parte maior de sua renda – em vez de consumi-la ou de investir em produção. Em situações de crise de demanda (como nos anos 30), vale a pena que o governo incentive a demanda. Até aqui, tudo bem.

Mas os teóricos do governo Dilma deram um passo além: para eles, a demanda gerava sua própria oferta – em uma versão invertida da Lei de Say. Bastaria estimular a demanda e surgiria produção para atendê-la.

Em depressões econômicas, com fábricas fechadas e desemprego em massa, o estímulo à demanda pode sim levar a uma retomada na oferta (pois o conhecimento específico, a estrutura física e os trabalhadores já estão lá prontos para voltar a produzir). Em períodos normais, estímulos fortes à demanda levam apenas a aumentos de preços – como se pode ler em qualquer manual de macroeconomia.

Negando o manual, os teóricos do governo transformaram a população do país em cobaia involuntária de uma experiência fadada ao  fracasso. É claro que a inflação subiu. É claro que empresas e donos de ativos, vendo aquela política temerária ser implantada, não só não investiram como tentaram colher ganhos de curto prazo subindo preços.

Tudo isso era previsível. A única coisa surpreendente é que um governo com ambições  políticas de longo prazo tenha comprado o discurso de lobistas com um horizonte de tempo curto. O surpreendente é que o governo tenha acreditado na cascata acadêmica da Lei de Contra-Say.

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Contra-Say: A solução é construir pirâmides, esfinges e obras olímpicas.

Na votação do impeachment na Câmara, os deputados de partidos aliados (PC do B e PSOL) deram um show à parte com seus discursos inflamados “contra o golpe”. Era estranho vê-los se expor desse jeito em nome de uma causa perdida (e incrivelmente impopular).

Não custa lembrar: Dilma já tinha índices de rejeição que deixariam até Collor constrangido.

Então por quê? Por que o desgaste para a própria imagem? Por que o PSOL, que tentou por alguns anos se apresentar como “oposição de esquerda”, defendeu Dilma com mais estardalhaço que o partido dela?

Esta semana, vimos um bloco bastante compacto de atores e cantores fazer a mesma coisa: se expor ao vexame de defender a rainha de copas, a destruidora da economia, em nome de… em nome de que mesmo?

Não parece haver chance de Dilma voltar ao poder. Mas os petistas ainda podem ter um ou outro voto na eleição para vereador. Então é realmente estranho o jeito como o partido parece arregimentar seus anexos para pular no abismo da rejeição pública.

Não entendo o que alguém ganha transformando Caetano Veloso em um lobista da burocracia de um Ministério da Cultura ressuscitado. Não entendo por que, um Jean Wyllys, que tinha uma boa plataforma política e um bom eleitorado, se expõe a perder o apoio de todas as pessoas que votaram nele e que têm alguma noção de economia.

Os antigos governistas parecem perdidos, ou desesperados.

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Aristocracia decadente?

 

É difícil ser conservador em um país ineficiente, com desigualdades respeitáveis e com barreiras antigas para estudar e produzir. É difícil ser conservador quando se acha que as coisas não estão bem. Ainda assim, sempre houve conservadores: latifundiários, integrantes da Fiesp, herdeiros, sempre houve alguém satisfeito e disposto a lutar pela manutenção do satatus quo.

O curioso da crise atual é que, com inflação alta, depressão econômica, desemprego crescente e total falta de perspectiva para a economia, é ainda mais difícil ser conservador, é ainda mais difícil defender a manutenção do status quo. Mas, no meio do caos, surgem novos conservadores.

Eles defendem a manutenção do governo que criou a política econômica atual, defendem o uso da ultra-fisiologia para manter a presidente no cargo (embora haja prova de crimes em suas gestões). Em suma, eles defendem, com veemência, o status quo.

Alguns fazem isso pelo mesmo motivo que os velhos herdeiros faziam: porque se beneficiam diretamente dessa gestão. Alguns recebem financiamentos chancelados pelo Ministério da Cultura, outros têm empresas contratadas por este governo – e ainda têm contas a receber.

Os mais curiosos são os que só seguem a manada, os que repetem que defendem a legalidade (não dizem que defendem a presidente). Mas o que eles querem é conservar o governo, independentemente de legalidade ou de decadência econômica. Eles lutam para manter uma situação que implica em crise e decadência para milhões de pessoas. E fazem isso porque seguem a publicidade oficial transmitida até via Facebook.

PT e cia não têm um projeto econômico para implantar. Não dá nem para dizer que “enfiam as mãos na lama” por uma boa causa, como tentou argumentar um ator conhecido ainda nos tempos de Lula I. Eles querem apenas manter “tudo isso que está aí” (como diria um Ciro Gomes de outros tempos).

Contra eles, que venham todos os insatisfeitos, os que não aguentam mais a má gestão da economia, os que se revoltam com o atraso dos salários, os que se assustam com a má alocação de verbas, os que torcem o nariz para a soberba presidencial.

Contra eles, que venha a maioria.

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Pato egípcio que faraós conservadores obrigavam a população a pagar.

 

É a inflação, manés

dezembro 29, 2015

Que foi a economia que piorou nosso humor e nosso acesso a bens e serviços em 2015, todo mundo sabe. Que será ela quem fará o mesmo em 2016 e 2017, também é quase consenso.

Mas há ainda quem discorde sobre como ela faz isso. Para o governo, o problema é o baixo crescimento. Para os desempregados, é o desemprego. Para os assalariados, é a inflação. Para quem tem dinheiro aplicado, é a tendência de crescimento acelerado da dívida do governo. Para quem usa os serviços públicos (quem não usa?) é o colapso desses serviços (por sucateamento, não pagamento de salários, calote em fornecedores etc.). Para quem sabe que o mundo não é previsível, são as catástrofes inesperadas (já que o governo nem pensa em prevenção, planos de contingencia e similares).

Não é (só) porque sou assalariado, mas o problema mais destrutivo, o que fará mais estrago de longo prazo nessa lista (fora alguma hecatombe imprevista) é a inflação.

Se não tivéssemos inflação, o governo poderia baixar os juros, poderia deixar suas despesas no nível em que estão e isso reanimaria a economia. Isso diminuiria o desemprego, estancaria a queda na arrecadação e facilitaria o trabalho de conter o crescimento da dívida pública. Nesse cenário, os governos estaduais conseguiriam pagar os salários dos seus funcionários e os serviços públicos não se deteriorariam tão rápido.

Mas a inflação de 2015 vai ser de mais de 10% e a de 2016 vai estourar o teto da meta do Banco Central. Além da dor imediata causada pela corrosão do poder de compra dos assalariados, a inflação tem mais dois efeitos:

  • Primeiro, ela mostra que o problema da economia não é falta de demanda (que economia com falta de demanda tem inflação de 10% ao ano?). Enquanto os entraves do lado da oferta da economia e das finanças públicas não forem solucionados, a crise não vai passar.
  • O segundo problema é que, para conviver com a inflação – sem que ela dispare de vez – será preciso manter o freio de mão puxado, com juros altos e restrição de despesas do governo.

Mais do que isso: a solução de alguns desses problemas é contracionista, quer dizer: o ajuste dos gastos públicos, necessário para tirar parte do fardo do controle da inflação dos ombros (já muito tortos) do BC freia a economia. Por isso, dá para ter certeza que a contração da economia vai durar: para conviver com a inflação é preciso pisar no freio e para resolver o problema, também.

Sem encarar a agenda de baixa produtividade, entraves burocráticos e desequilíbrio orçamentário, sem entender por que é tão difícil produzir qualquer coisa no Brasil, o governo não vai superar a crise. E, sem retirar a espada da dívida pública crescente – hoje pendurada sobre sua cabeça -, o governo seguirá rumo a inflação desenfreada.

Isso acontecerá porque, se a dívida crescer demais como percentual do PIB, o governo não conseguirá mais se financiar a taxas viáveis e, em poucos anos anos, será forçado a apelar para a impressora para dar conta da folha de pagamentos. É um cenário possível, mas não provável. A proximidade dele deve ser suficiente para apavorar os gestores e faze-los se mexer.

O que os trava hoje é o mal uso do argumento de Paul Krugman contra o ajuste Alemão na Grécia. Krugman repete sempre que o ajuste fiscal imposto à Grécia não faz sentido porque contrai a economia e isso diminui a arrecadação. Com menos arrecadação, o desequilíbrio fiscal aumenta e é preciso cortar mais despesas (o que contrai e a economia e realimenta o ciclo).

A Grécia não tem moeda própria, não pode fazer política monetária ou desvalorizar (como já desvalorizamos aqui). Além disso, tem um economia bem mais restrita que a nossa – menos diversificada e com menos produtos para vender para o resto do mundo.

Mas, mesmo assim, o argumento faria sentido se o governo brasileiro tivesse um nível impressionante de credibilidade. O governo poderia sinalizar um ajuste fiscal de longo prazo – com reforma da previdência, reforma tributária, redução da burocracia, corte de nomeações políticas para áreas com grandes orçamentos etc..  Isso indicaria o fim da trajetória explosiva da dívida pública e daria um pouco mais de espaço para o governo gastar nos anos de queda na arrecadação.

Mas não é isso que vai acontecer. O governo já descumpriu tantas vezes suas promessas de fazer reformas, cortar cargos comissionados e arrumar a casa (descumpriram até a promessa simbólica de cortar o salário da presidente da República) que ninguém mais acredita na promessa de ajuste de longo prazo.

Empresários, investidores e afins só acreditarão vendo. Vão esperar pelo corte de gastos (contracionista) antes de se arriscarem a – eles mesmos – tirarem dinheiro do bolso.

E enquanto o governo não ajustar seus gastos e não propuser de forma concreta (não só com discursos vagos) reformas para o lado da oferta da economia, a crise vai se aprofundar, o desemprego vai aumentar e a saída, para muita gente, voltará a ser o aeroporto.

A inflação mostra que o problema do Brasil não é de demanda, como Dilma e seus seguidores preferiram acreditar nos últimos anos. O problema é de gestão: de políticas públicas mal formuladas e mal executadas.

Nesse campo, não há notícia de soluções concretas na agenda do governo.

Não parece haver luz no fim do túnel.

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Ruína grega do Parthenon exposta no Museu Britânico.

Rumo à renda zero

setembro 5, 2015

Alguns economistas têm lembrado da ideia de regressão à média para projetar que o país pode voltar a crescer em 2017. A ideia é simples: depois de piorar muito, a economia pode ter mais espaço para melhorar do que para continuar piorando.

Teríamos crescimento em 2017 por ter como comparação um 2016 já muito ruim.

Mas, além de simplificar demais, isso é deixar de lado o problema que nos levou à crise atual.

O governo Dilma tem um histórico de contrariar princípios básicos de economia em nome de pequenos ganhos de curto prazo. Ele fez isso rotineiramente nos últimos quatro anos e é perfeitamente capaz de continuar fazendo (principalmente em datas próximas a eleições).

É pouco provável que 2016 seja o fundo do poço. Com incentivos ruins no longo prazo, o fundo do poço não existe. Para cair do Império romano para a Idade média, basta insistir nos erros certos por um período de tempo suficientemente longo.

Em 1776, Adam Smith descreveu como – dado um determinado conjunto de regras – podíamos contar com o egoísmo do próximo para aumentar a renda da nação.

O problema (um dos problemas) é que estão jogando fora esse conjunto de regras.

Os incentivos hoje são para ser amigo do rei, para pedir juros com taxas especiais no Banco do Brasil, não para produzir.

Produzir, na prática, é muito arriscado. Sabemos que as trajetórias da dívida pública e do sistema político não são sustentáveis e que – de uma hora para outra – pode haver algum tipo de mudança nas regras do jogo.

É melhor esperar para ver.

Os incentivos estão distorcidos e o governo não parece muito disposto a lidar com isso – prefere continuar negociando benesses no varejo. Seu histórico indica que pode nem ser capaz de entender o que está acontecendo.

A crise promete ser longa.

Ruínas à frente.

Ruínas à frente.

Um longo fim de festa

abril 9, 2015

Depois de 12 anos no poder, o PT hesitou e perdeu a chance de sair preservando minimamente sua imagem. “Fizeram o diabo”, como disse a presidente, e se mantiveram nos palácios.

O “se mantiveram” é relativo. Muitas pessoas – assustadas com o vale tudo – foram embora. E muitas outras – contentes com o vale tudo – disputam o que sobrou.

Mas não sobrou tanto. A vitória eleitoral foi um pouco vitória de Pirro. A economia está estagnada e o governo não tem caixa para atender ao mesmo tempo à população e aos seus financiadores de campanha (vai arcar com o ônus de não atender à população).

Por isso, a popularidade de Dilma cai e as perspectivas sobre o futuro da população pioram.

No lugar de técnicos dispostos a produzir, o governo nomeia ministros políticos ansiosos por dividir o butim eleitoral. Nenhuma boa política pode sair disso. Hoje mesmo nomearam o novo ministro PMDBista do Turismo, Henrique Alves.

O que veremos nos próximos meses será uma espécie de fim de festa, com o PMDB catando os últimos doces da bandeja e a maquina administrativa funcionando como um garçom bêbado que está há 12 anos servindo doces sem dormir.

Não à toa, as expectativas para os próximos meses – medidas por pesquisas da FGV com empresários e consumidores – estão paradas em um nível baixo.

Arrumar as finanças do governo enquanto se loteia o resto da máquina administrativa é uma forma curiosa de esticar a festa. Mas a maior parte das pessoas sabe que a festa não é para elas.

Coisas para ler enquanto a festa não acaba.

Coisas para ler enquanto a festa não acaba.

Hipocrisia, por favor

outubro 28, 2014

Há mais de um, ano a revista inglesa The Economist disse que, se Dilma Rousseff não demitisse seu ministro da Fazenda, não seria reeleita.

Custou muito dedo no olho e todo tipo de golpe baixo, mas Dilma conseguiu desmentir a profecia.

A economia chegou ao fim de 2014 em um estado lastimável. O déficit público está muito maior que o previsto (mesmo sem descontar a maquiagem de Arno Augustin, secretário do Tesouro), a inflação estourou o teto da meta (apesar dos controles artificiais, como o do preço da energia) e o crescimento da economia é negativo (já há dois trimestres).

A dúvida é: para estabilizar a economia, o governo terá o mesmo desprendimento que teve para fazer campanha eleitoral?

Durante a campanha, Dilma insistiu em que a economia estava bem: a inflação estava sob controle e não era preciso fazer grandes mudanças. Repetir isso hoje equivale a expulsar investidores e recomendar às empresas que fechem suas portas – pois a economia vai seguir ladeira abaixo.

Graças à falta de limites do marqueteiro João Santana, o vaticínio da Economist não se cumpriu. Mas ele pode ser renovado: se não mudar rapidamente a política econômica, Dilma não fará seu sucessor em 2018 – nem que seja Lula, nem que contrate dois João Santana.

A economia está degenerando cada vez mais rápido.

Resta saber se Dilma terá – para ajustar a economia – a mesma falta de pudor que teve na campanha. Se terá cara dura para dar independência ao Banco Central – depois de ir pessoalmente à TV dizer que isso seria “criar um quarto poder na República” -, se terá a hipocrisia necessária para chamar um sósia de Armínio Fraga para o Ministério da Fazenda, se fará o ajuste fiscal que nunca, nos quatro anos de seu governo, chegou perto de fazer.

Seus eleitores a perdoarão. Perdoaram imediatamente as barbaridades da campanha. Seus eleitores são seus. Mas, se a economia afundar, alguns deixarão de ser.

Vamos ver se – pelo menos para se manter no poder – Dilma será capaz de trocar os preconceitos ideológicos de sua política econômica por hipocrisia pragmática à moda de Luis Inácio.

Sarcófago da política industrial. A pirâmide, contratada com financiamento do BNDES, não ficou pronta.

Sarcófago da política industrial. A pirâmide, contratada com financiamento do BNDES, não ficou pronta.

É  desalentador ver Geraldo Alckmin reeleito no primeiro turno em São Paulo, ver Renan Calheiros Filho eleito em Alagoas (manutenção de clã no poder também é uma espécie de reeleição) e ver Fernando Collor reeleito senador.

Mas ainda há tempo para lembrar da época de revolta (ano passado), para parar de reeleger os políticos que mandaram a tropa de choque espancar manifestantes. No Rio de Janeiro, você ainda pode não reeleger o governador Pezão (que mandou a tropa atrás dos professores em greve) e  pode não reeleger Dilma (que só teve 23% dos votos de Brasília, de quem vê de perto o que ela faz).

Eu sei: Crivella e Aécio Neves não são exatamente candidatos ideais – e não são dignos do voto do mais moderado adepto de passeatas.

São dois conservadores. Mas Dilma e Pezão também são. E conservar conservadores é simplesmente além do limite. Não posso premiar a presidente que mandou o Exército e a Força Nacional de Segurança para espancar manifestantes na Copa. Não posso premiar o governador que quer empurrar um teleférico para a Rocinha (em vez do saneamento básico que todos concordam que é o necessário).

Troco dois conservadores por outros dois – que, pelo menos, vão demorar um pouco para montar novos esquemas, para poder nomear amigos para o Tribunal de Contas e para se sentir a vontade para atropelar garantias individuais básicas. Troco porque ficar muito tempo na cadeira corrompe, poque é preciso trocar os governantes de tempos em tempos.

Nunca achei que seria capaz de votar num bispo da Igreja Universal para governador, ou em um latifundiário que persegue os repórteres que ousam escrever sobre sua vida privada. Mas – fazer o quê? – votar em alguém cujo slogan é “para continuar a mudança” é simplesmente hipocrisia demais para mim.

Ânimo eleitoral: trocar é o menos pior.

Ânimo eleitoral: trocar é o menos pior.

Se Dilma Roussef for reeleita, o BNDES vai continuar emprestando a taxas subsidiadas para as maiores empresas do país. Essa é uma das principais conclusões que se pode tirar da entrevista da presidente ao Bom Dia Brasil, esta semana.

A defesa enfática (e voluntária: a pergunta era sobre Banco Central) que Dilma fez dos empréstimos subsidiados deixa pouca margem a dúvidas. A presidente parece realmente acreditar que, sem subsídios a empresas como o abatedouro Friboi e o Grupo X (do ex-bilionário Eike Batista), não haverá investimento no Brasil.

Durante o governo Dilma, o Tesouro Nacional captou, a cada ano, dezenas de bilhões de reais para repassar ao BNDES. O Tesouro paga, quando capta o dinheiro no mercado, a taxa Selic, hoje em 11%. Quando repassa o dinheiro ao BNDES, o Tesouro recebe a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), hoje em 5%. A diferença entre as taxas, multiplicada pelos mais de R$ 400 bilhões já repassados, é o valor do subsídio a cada ano.

Mas o subsídio bilionário aos investimentos de grandes empresas não impediu que a taxa de investimento do país caísse. Como é possível?

As empresas subsidiadas, aparentemente, estão apenas deixando de investir seu capital próprio, deixando captar via emissão de ações no mercado e de pedir empréstimos no exterior para usar o crédito barato e sem risco de câmbio do BNDES. Dilma, na prática, está apenas transferindo dinheiro do Tesouro para essas empresas fazerem o que já iam fazer de um jeito ou de outro.

Mas por que ela defende isso assim, abertamente?

Esse é ponto. Ela parece achar que isso faz sentido.

Essa forma de pensar – a defesa de créditos e subsídios para grandes empresas – não foi inventada ontem: ela tem uma história longa, que começa nos anos 80, quando um grupo de economistas começou a produzir teorias para justificar as políticas do governo Geisel.

As teorias foram muito bem recebidas por empresários dispostos a receber mais crédito subsidiado. Elas são ensinadas até hoje, principalmente por acadêmicos ligados à escola de economia da Universidade de Campinas (Unicamp).

O livro mais famoso sobre o tema, A economia brasileira em marcha forçada, rendeu a um de seus autores a posição de diretor do BNDES durante o governo Dilma.

O curioso sobre o livro é que é uma espécie de análise de conjuntura feita em 1985. Seu argumento é algo como: “O governo Geisel fez o contrário do que os manuais de macroeconomia recomendavam e, no entanto, a economia está crescendo bastante. Isso é o resultado dos investimentos subsidiados de Geisel, que agora rendem frutos.”

Mas, a partir de 1986, ano seguinte à publicação do livro, o Brasil começou o que acabou conhecido como a década perdida.

Se admitiam que o país tinha contrariado os manuais de macro, os autores do livro deixavam de lado os custos da política de Geisel (inflação, dívida externa, deixar de direcionar recursos para educação para gastar com subsídio a empresas).

Analisando só os benefícios, tudo parece bom.

Dilma repete a análise: deixa de lado o enorme custo (são dezenas de bilhões de reais por ano em subsídio, dinheiro que podia ir para saúde ou educação) e enxerga um benefício que não está lá.

Por que cometer um erro de política desse tamanho (sem correção à vista)?

Porque ela realmente acredita no que está fazendo. Só pode ser.

Os defensores do subsídio às grandes empresas se apresentam nos debates acadêmicos como keynesianos, como seguidores das idéias do economista inglês John Maynard Keynes.

Keynes, provavelmente, torceria o nariz para o que o governo faz hoje (via BNDES), mas ficaria feliz por ver outra de suas teorias passar no teste do pudim. Segundo Keynes:

“As ideias dos economistas e filósofos [politcal philosophers], estejam elas certas ou erradas, são mais poderosas do que comumente se percebe. De fato, o mundo é governado por pouca coisa além delas. Homens práticos, que se acreditam isentos de qualquer influência intelectual, costumam ser escravos de algum economista morto.”

Cambridge, onde o Keynesianismo foi inventado. Nada a ver com o BNDES.

Cambridge, onde o keynesianismo foi inventado. Nada a ver com o BNDES.

Todo mundo erra, mas a maneira de reagir aos erros – principalmente em época de eleição – varia muito de uma pessoa para outra. A presidente da República reagiu com o fígado ao erro do IBGE na ponderação das regiões metropolitanas da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). E vai pagar um preço eleitoral por sua reação (e não pelo erro do instituto).

A maior parte das pessoas, quando soube do erro, ficou receosa, pensando que pudesse ser sinal de uma intervenção do governo no instituto de estatística. Mas, como erro honesto, ele piorava alguns indicadores e melhorava outros – o que indica que foi erro mesmo e sua correção não foi uma intervenção política no IBGE.

A presidente da República, no entanto, leu o erro como ataque a sua campanha pela reeleição e ordenou medidas contraditórias para atacar o instituto. De saída, mandou cinco ministros apresentarem – no sábado – a análise dos novos dados (que não diferem muito dos antigos). Ao mesmo tempo, mandou formar uma comissão externa para “avaliar a consistência da PNAD”. A PNAD, agora corrigida, é tão consistente quanto suas edições anteriores. Se pesasse qualquer dúvida sobre isso, não haveria sentido em convocar cinco ministros para interpretar seus resultados para a imprensa.

Mas o erro mais grosseiro de Dilma é mandar formar outra comissão externa para apurar responsabilidades e punir técnicos no IBGE.

Dilma, nesse momento, lembra o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, durante a greve dos garis, no último Carnaval. A postura “demito, prendo e arrebento” de Paes lhe angariou a revolta da população – sempre simpática aos garis, que prestam um dos serviços públicos mais bem avaliados (em termos de eficiência) pela população.

A imagem do IBGE também é das melhores e Dilma só perderá por ataca-lo. A comissão externa – além de ter ares de intimidação, intervenção e afins – pode, no máximo, (se for honesta)  repetir o que o instituto já disse: que foram usados os pesos de todas as regiões metropolitanas (em cada Estado) no lugar dos das regiões metropolitanas das capitais.

Em entrevista coletiva, Dilma chegou a dizer que o erro da PNAD era fácil de detectar. Fácil agora que está detectado.

Além de reagir com o fígado, a presidente está assumindo pessoalmente a decisão de caçar bruxas no instituto de estatística. Que perca muitos votos por isso.

Pronunciamento da presidente da República no Dia do Trabalho do Ano da Eleição, em versão sincera:

“Investidores e investidoras, empresários e empresárias: é hora de sair, é hora de ir embora. Venho aqui hoje dizer que eu, meu partido e minha máquina administrativa faremos tudo o que for preciso, faremos o diabo para ganhar a próxima eleição. Por isso, hoje, assinei um aumento de 10% para o Bolsa Família.

“Vim fazer também declarações genéricas sobre manter a economia estável, mas vou jogar no lixo o orçamento do governo, vou estimular a demanda e deixar a inflação subir. No longo prazo, isso será muito destrutivo. Mas, nos próximos meses, isso pode causar uma pequena sensação de bem estar (logo engolida pela inflação). Quer dizer: por um punhado de votos, vou jogar no ralo qualquer coisa que se assemelhe a uma política econômica consistente.

“Vou criar cortinas de fumaça para desviar o noticiário: falarei muito em reforma política e xingarei a oposição sempre que ela tentar mostrar como destruo instituições para me manter no poder.

“Repetirei declarações toscas do ministro da Fazenda – como a de que a inflação é pontual (são uns legumes que subiram de preço por causa de seca) – quando qualquer um que veja os dados produto a produto pode ver que ela é generalizada, que quase tudo está subindo de preço.

“Vou continuar sucateando a Petrobrás, forçando-a a vender combustível mais barato do que compra e, ao mesmo tempo, farei pose de defensora das estatais.

“Investidores e investidoras: vendam suas ações, vendam seus títulos. Com a crise que vou provocar, eles vão cair de preço já na próxima sexta-feira.

“Empresários e empresárias, fechem suas empresas: estamos em tempos difíceis e o orçamento do governo mal vai cobrir as obras que já contratamos com a Odebrecht e as isenções que meu ministro quer dar de novo para montadoras de carros.

“É hora de ir embora. Comprem dólares porque, por mais dezenas de bilhões em contratos de câmbio que o Banco Central venda todo mês, alguma hora eles não vão aguentar e o câmbio vai flutuar de novo. Comprem dólares enquanto seus reais ainda valem alguma coisa.

“Bom, era isso. Bom Dia do Trabalho, votem em mim, não me processem por fazer propaganda eleitoral antecipada (ou por usar a máquina administrativa). E comemorem as merrequinhas que eu – com minha poderosa caneta – autorizei hoje para vocês.

“Lembrem-se: EU dei 10% de aumento e vocês me devem a reeleição.

“Viva o Brasil. Viva e reeleição.”

Economia brasileira.

Economia brasileira.

 

Uma democracia é um regime em que é possível mudar o grupo no poder sem revoluções ou golpes de estado. Países em que o mesmo partido fica décadas no poder não devem ser chamados de democracia.

Quando não há alternância, isso não quer dizer que o governo é bom, quer dizer que o sistema degenerou. Quando não há alternância, é porque os gastos do governo com propaganda cresceram, porque os acordos com caciques locais foram reforçados com dinheiro público, porque as nomeações políticas foram ampliadas e toda (ou boa parte da) máquina pública trabalha para manter o governante no poder.

Nesses casos, a quantidade de políticos em funções técnicas aumenta – e esse é um dos piores efeitos do vale-tudo-para-ficar-no-palácio. Em geral, quanto maior a distância até o político mais próximo, melhor um órgão público funciona. Ou, visto pelo outro lado: quanto maior a ingerência política sobre um órgão técnico, pior a alocação de recursos, pior a qualidade das decisões e maior a revolta e o desânimo dos seus funcionários.

O uso da administração pública pelo governo (pelo grupo que está no poder) para ficar no poder piora a qualidade dos serviços públicos. E isso não tem cor partidária. As pessoas estão tão cansadas de Geraldo Alckmin quanto de Dilma Rousseff. Os dois deviam ser mandados para casa na próxima eleição.

Dilma é um caso clássico de político se impondo aos técnicos (aos gritos). O setor de energia – que ela comanda, em um cargo ou outro, há mais de 11 anos – é um dos que mais sofreu intervenções políticas na era PT. O resultado? Queda na produção de petróleo, importação de combustível acima do preço de venda da Petrobrás e mudança de regras no setor elétrico (e no de petróleo), com risco crescente de falta de energia.

Alckmin, que começou como herdeiro auto-declarado de Mário Covas, hoje lembra mais um Fleury FIlho (que defendia a atuação da polícia no massacre do Carandiru). Ver Alckmin na TV é esperar por um convicto “eu prendo e arrebento” à João Batista – e isso não tem como ser bom.

Ficar tempo demais no poder é ruim para o próprio governante. O poder corrompe das formas mais estranhas.

Sem alternância no poder não há democracia. Que venha logo a alternância, então.

Versailles, o palácio favorito de Sérgio Cabral.

Versailles, o palácio favorito de Sérgio Cabral.

Ministros sorriem para as câmaras e dão declarações para a imprensa: são políticos querendo se promover. No dia-a-dia dos ministérios, quem manda são os secretários executivos. Por isso é um pouco assustador que, de uma hora para outra, quatro deles peçam para sair. E não são secretários de segunda linha: pediram para sair os secretários da Casa Civil, da Fazenda, da Indústria e Comércio e das Comunicações.

Dois disseram que querem fazer doutorado. Um – que já tem doutorado – volta para a UFRJ e outro, Dilma disse que vai alocar em algum outro canto do governo (mas no Ministério da Industria e Comércio, responsável, entre outros órgãos, pelo BNDES, ele não quer mais ficar).

Quando li a notícia lembrei de W.B. Yeats, poeta nacional da Irlanda. Em um verso sobre o fim do mundo, Yeats lançou uma de suas frases mais famosas: The best lack all conviction, while the worst / Are full of passionate intensity.

Numa tradução groseira: Os melhores não tem nenhuma convicção enquanto os piores são cheios de intensidade passional.

Ok, é um pouco dramático mas, depois que a presidente declarou que “pela reeleição a gente faz o diabo”, muita coisa estranha começou a acontecer no governo. E quem está perto – mas discorda -, no máximo, pede as contas.

O ideal, inclusive, é pedir o boné com descrição. Afinal, ninguém quer brigar com um governo que está pronto para “fazer o diabo”.

O contraste de Yeats está aí. Os defensores da reeleição-a-qualquer-preço pedem cadeia de rádio de TV para dizer – com toda a convicção – as maiores abobrinhas. Os executivos mais responsáveis – que vêem que a coisa não está bem – discretamente pedem o boné.

Não parece um cenário promissor.

Detalhe da Porta do Inferno, de A. Rodin.

Detalhe da Porta do Inferno, de A. Rodin.

O mal aos pouquinhos

fevereiro 6, 2013

A frase mais famosa de Maquiavel é aquela sobre o bem e o mal. O bem, segundo ele, deve ser feito aos poucos, o mal, de uma vez.

Fazer o mal aos poucos é pedir para ser odiado pelo público. É o pior dos mundos para um político.

É por isso, provavelmente, que a inflação é um veneno tão eficiente contra a popularidade do governo. Ela é o caso extremo de mal aos pouquinhos.

Todos os dias, o pobre consumidor vê algum preço subir: pode ser o cafezinho, pode ser o aluguel, pode ser o plano de saúde, pode ser a gasolina. Todo dia ele é lembrado de que está ficando mais pobre.

E a culpa, não há dúvida: é do governo.

E nesse caso é mesmo. É o fim da política econômica que está trazendo a inflação de volta. A inflação era controlada por uma política de metas (juros), câmbio flutuante e déficit sob controle nas contas públicas (também conhecido como superávit primário). O governo abandonou as três coisas. Não deveria ficar surpreso com a alta dos preços.

Também não deve ficar surpreso com o horror dos eleitores, que virá, cedo ou tarde.

O nível baixo de desemprego tem segurado a popularidade de Dilma & cia. Mas, para ficar nos chavões: ganhar, para depois perder, é pior que não ganhar. A renda cresceu – para agora ser engolida pela inflação. E engolida aos pouquinhos, do jeito mais doloroso.

Vítimas do mal feito aos poucos. Santiago, Chile, Museu de Belas Artes.

Vítimas do mal feito aos poucos. Santiago, Chile, Museu de Belas Artes.

A ilha da Dra. Dilma

janeiro 23, 2013

É consenso entre os economistas (lobistas excluídos) que a crise dos anos 80 foi efeito das políticas temerárias do governo Geisel. Geisel deixou a inflação acelerar e não quis o ônus de fazer um ajuste que desacelerasse muito o crescimento. A ordem foi aumentar os empréstimos subsidiados do BNDES e criar novas estatais.

Dilma sempre copiou o governo Geisel. Mas a ânsia de imitar o erro chegou hoje ao grotesco. Acabei de ver na TV, em rede nacional, a presidente citar uma das mais malfadadas frases do general presidente. Segundo Dilma: “O Brasil avança sem retrocesso em um mundo cheio de dificuldades”.

Quem é um pouco mais velho (ou gosta de história recente) lembra do ditador dizendo na TV que “O Brasil é uma ilha de prosperidade num mar de turbulência”.

Ela está debochando do público? Está fazendo piada com as comparações entre ela mesma e o general dos anos 70? Ou foi do marqueteiro (redator do discurso) a piada sem graça?

Porque a política econômica é a mesma – e Dilma  jura que não vai mudar, diz que vai manter a política e o ministro da Fazenda.

O problema é que os efeitos das políticas temerárias não são imediatos. A inflação não dispara em um dia: ela vai se acumulando e crescendo até que – em algum momento – as pessoas se dão conta de que fugiu do controle.

Em seu discurso, Dilma chamou todos os opositores de pessimistas e prometeu o melhor dos mundo possíveis – embora esteja correndo na direção oposta. A impressão que dá é que realmente está isolada em uma ilha de prosperidade, no meio de Brasília. Perto dela,  assessores que ganham mais de R$ 30 mil por mês lhe dizem que está tudo sob controle. E ela acredita ou, pelo menos, se nega a demitir o pior deles – por mais previsões que erre.

Tudo tranquilo, no melhor dos mundos possíveis aqui em volta.

Tudo tranquilo, no melhor dos mundos possíveis aqui em volta.

Em seu emocionante Conto de natal o blog BeyondBrics sugere que Dilma, nossa rena presidente, seja mandada de volta para os anos 70.

O blog foi muito atento. É para lá mesmo que ela parece estar indo (e nos levando junto).

As taxas de juros negativas do BNDES, o aumento das barreiras alfandegárias, o favorecimento a grupos de industriais, a aceleração da inflação, a pouca atenção à educação básica (responsável pela produtividade do trabalho) são marcas do Governo Geisel.

O resultado dessas coisas – os economistas não cansam de lembrar – foi a década perdida, entre os anos 80 e 90.

As discussões sobre o trem bala de Dilma me lembram sempre do trecho abaixo, do livro A ditadura encurralada, de Elio Gaspari. O trecho é sobre a Açominas, uma das muitas estatais que o governo Geisel criou porque não havia mais ninguém interessado em criar – a não ser alguns fornecedores, construtoras e teóricos da “substituição de importações”:

“Deveria ter custado 1,8 bilhão de dólares e entrado em funcionamento em 1980. Custou 7 bilhões e operou em 1986. Sete anos depois, falida, a siderúrgica foi privatizada por 598,5 milhões de dólares” (Gaspari, 2004, p.49).

Em vez de contratar e treinar professores, o governo quis produzir aço. O resultado do dinheiro mal usado é, ao mesmo tempo, investimento sem retorno e má formação profissional. Essas duas coisas juntas são parte da explicação para a década perdida: são queda de produtividade. Nossa produção por pessoa e por cruzeiro investido, passou a ser menor.

O gráfico abaixo é uma estimativa da produtividade da economia do país entre 1950 e 2000. Não precisa explicar muito, o gráfico fala por si.

A produtividade total dos fatores é, resumidamente, a geração de renda ajustada para os aumentos no estoque de capital e de mão de obra.

PTF

Fonte: Gomes, Pessoa e Veloso – 2003.

PS.: Não entendo bem por que os jornalistas daqui não conseguem produzir coisas como o conto de natal do blog do Financial Times. Às vezes tenho a impressão que isso é um dos efeitos do gasto reduzido em educação básica – que o Brasil, tradicionalmente, insiste em manter.

Decadência sincera

dezembro 16, 2012

Governos populistas, cedo ou tarde, começam a entregar resultados ruins. Faz parte do processo. Se não fossem ruins no longo prazo, não haveria porque criticar as fanfarras e políticas imediatistas que adotam.

Mas um dos sinais mais assustadores de crise à frente é a sinceridade populista. É quando o governante começa a acreditar na própria propaganda.

Isso não é difícil, nem pouco comum. Os governantes vivem em um mundo à parte, embora, em muitos casos, andem pelos mesmos lugares que a gente.

Vou dar um exemplo. Nos anos 90, época em que a Telerj ainda era a única empresa com serviços de telefonia celular, o então presidente Fernando Henrique agendou uma visita à fazenda do então dono da Petróleo Ipiranga, em Itaipava.

A Telerj, que não planejava instalar antenas de celular na área por pelo menos três anos, mudou sua agenda e instalou uma antena provisória, feita com andaimes – e depois a substituiu por uma permanente.

Não me lembro mais por quê, mas a visita de FHC foi cancelada. Ficou só a antena de celular.

Na época, não pude deixar de pensar que, no país do presidente, havia celular em toda parte, no meu não. Certamente ele via as coisas com mais otimismo do que eu.

Ok. Agora voltando aos insinceros e aos populistas: José Dirceu, o líder condenado da quadrilha do mensalão, escreve um blog. Muitos de seus comentários são reproduzidos no Blog de Ricardo Noblat, colunista do Globo. Já li alguns. A falta de sinceridade é tão explícita que dá para ter certeza de que – embora escreva para um público de fiéis fanáticos ideológicos – ele não acredita em uma palavra do que escreve.

Tudo bem, a coisa é tão explícita que beira o curioso. Na prática, Dirceu me assusta menos do que sua sucessora na Casa Civil, Dilma Roussef. Dilma, diferente dele, parece acreditar no que diz sobre a política econômica.

Com a inflação acelerando e a renda per capta estagnada (se o país crescer 1%, como os analistas projetam para este ano, a renda per capta vai ficar igual à de 2011), ela aparece na televisão para elogiar a gestão Mantega e dizer que temos reservas de dólares no exterior (US$378 bilhões, que custam caro para manter), que temos uma relação dívida/PIB baixa e que confia na previsão de seu ministro de que o crescimento da economia vai se acelerar no próximo trimestre.

Só faltou dizer que este é o melhor dos mundos possíveis.

Ela pode até dizer isso para a patuléia (como diz outro colunista do Globo), tudo bem. O que me assustou foi o tom sincero (irritado mas, ao mesmo tempo, sincero) da declaração. A impressão que fica é que ela realmente não sabe o que está fazendo, que está cercada de ministros e assessores, que eles dizem que está tudo bem – e ela acredita neles.

Em Paris: Pensador e sombras no Portal do Inferno.

Em Paris: Pensador e sombras no Portal do Inferno.

Sem mérito

dezembro 7, 2012

Acabo de ver na TV a presidente Dilma Roussef dizer que não vai levar em conta a “sugestão” da revista The Economist para que demita seu mal-sucedido ministro da Fazenda.

O tom irritado da presidente não é uma surpresa:  é sempre assim que ela fala com a imprensa. O curioso é a linha de argumentação: “não vou levar em conta o que diz uma revista ESTRANGEIRA [enfase dela] para tomar essa decisão”.

Por um segundo, meu lado otimista imaginou que Dilma fosse demitir o ministro sem levar em conta a reportagem: demitir porque ele está afundando a economia, independentemente do que a Economist diga. Mas logo Dilma disparou: “A economia está crescendo e vai crescer mais ainda no próximo trimestre”.

Vai? Como é que ela sabe? Ela confia na projeção de seu ministro da Fazenda (crescimento de 0,8% para o quarto trimestre)? Mas o trimestre ainda nem acabou. Os dados do segundo mês do trimestre ainda não estão disponíveis… E o ministro tem um histórico terrível no campo das previsões.

Se valem os argumentos da Economist, os investidores vão continuar parados, esperando pelos próximos surtos de mudança de regras do ministro. Para tentar se manter no cargo, ele cometeu uma série de distribuições de dinheiro público esta semana (anunciou mais R$ 100 bilhões para empresas amigas, via BNDES, ontem), mudou de novo a regra do Imposto sobre Operações Financeiras e mudou a tributação das construtoras. O imposto das construtoras agora é em cascata. Antes ele era sobre a folha de pagamento, agora é sobre o faturamento: em cascata.

Dá medo que a presidente queira manter o ministro no cargo só de picuinha, só para dizer que nenhuma revista inglesa derruba seu ministro. Da medo a ideia de que ela possa nos condenar à estagflação para defender o emprego (muito bem remunerado) de um economista incompetente.

A economia está crescendo menos que o previsto e a inflação está subindo mais do que o previsto (em novembro, o IPCA foi de 0,6%). Mais do que isso: os indicadores não são só piores do que o previsto: eles são ruins mesmo.

A inflação não é só alta: nos últimos meses ela foi cada vez mais alta. E o governo reage cortando juros e desvalorizando a moeda (o que aumenta a inflação). O crescimento é baixo (e o governo reage mudando as regras, o que desestimula o investimento e desacelera ainda mais a economia).

A estagflação vem aí – e vai complicar muito o trabalho da Fazenda. Coitado do sucessor do ministro. Porque ele vai cair. A única dúvida é quando: quanto tempo Dilma vai levar para se convencer de que Mantega era um ministro tampão para tempos estáveis. Quando ela vai se convencer de que precisa de um técnico (e não de um lobista) no ministério para tentar mudar o rumo da economia (que aponta para deterioração no futuro próximo)?

Apertem os cintos senhores, porque, como disse a Economist, com a incerteza criada por Mantega e suas mudanças de regras, a economia vai sacudir ainda mais se ele não deixar o cargo.

Sorriso amarelo...

Mantega: sorriso amarelo…

P.S.: O velho Roberto Campos – que viu de perto várias políticas econômicas delirantes – tinha uma frase de efeito para dar esperança nos casos em que o bom senso custa a prevalecer: “Se o país não puder ser salvo pelo silogismo”, dizia, “talvez seja salvo pela piada”.

Pode ser um pouco wishful thinking, mas acho que vamos ter um novo ministro na Fazenda porque o antigo virou piada.