A arrogância e a ignorância têm um papel central na história das depressões econômicas. Quem mostra isso de um jeito muto claro é o economista Liaquat Ahamed, em seu livro Lords of finance – the bankers who broke the world.

No livro, Ahamed traça o perfil e acompanha as decisões dos presidentes dos bancos centrais de Estados Unidos, França, Inglaterra e Alemanha de 1914 a 1944. Como aula de história do pensamento econômico, o livro é impressionante. O que ele deixa claro é que os presidentes dos maiores Bancos Centrais do mundo não tinham a mais vaga ideia do que estava acontecendo na economia e tomaram decisões capazes de transformar uma crise econômica na Grande Depressão.

Os economistas aprendem isso nas aulas de história, mas o livro – por ter uma pesquisa detalhada e ser muito bem escrito – ressuscita personagens como o pomposo Montagu Norman, presidente do Banco da Inglaterra na época. O ápice da arrogância misturada com desconhecimento ficou registrado na frase do Secretário do Tesouro dos EUA, Andrew Mellon. Mellon recomendou deixar os bancos e empresas quebrarem como solução para a crise:  “liquidate labor, liquidate stocks, liquidate farmers, liquidate real estate… it will purge the rottenness out of the system”. Mas o livro de Ahmad deixa claro que Mellon não estava sozinho: a falta de humildade para lidar com a crise era muito disseminada entre os governos e bancos centrais na época.

Naquele tempo, os economistas se consolavam dizendo que, no longo prazo, os preços de insumos e salários se ajustariam (cairiam) e isso estimularia a produção. No longo prazo, a economia voltaria a funcionar.

O economista inglês John Maynard Keynes – talvez o primeiro a entender o que aconteceu nos anos 30 – respondeu a isso com sua frase famosa: “No longo prazo, estaremos todos mortos”.

O problema é que a frase – no Brasil pelo menos – foi apropriada por lobistas, que a usam para defender políticas que produzem pequenos ganhos de curto prazo e tragédias em prazos um pouco maiores.

A inflação alta de hoje tem a ver com essa política de esquecer o longo prazo para não ter juros altos no curto. A crise fiscal tem a ver com a politica de gastar mais no curto prazo e torcer para ter aumento de arrecadação no longo. O baixo crescimento da economia tem a ver com a política de não fazer reformas estruturais no curto prazo – e torcer para a casa não cair no longo.

O longo prazo, segundo os manuais de macroeconomia, é quando todos os fatores de produção se ajustam. Em bom português: o prazo longo é aquele em que dá para construir fábricas, estradas e hidroelétricas, dá para a oferta se ajustar às mudanças na economia. No curto prazo, só a demanda muda.

Devia ser óbvio que não dá para administrar a economia olhando só para o curto prazo, só para a demanda.

Mesmo políticos que vivem em função do calendário eleitoral costumavam pensar nisso (e fazer ajustes no primeiro ano de governo, para tentar chegar melhor ao último).

Mas a arrogância das escolas econômicas ultra-curtoprazistas aqui do Brasil parece levar seus representantes a manter a cabeça no curto prazo até em início de governo.

O resultado será depressão econômica e – por que não? – depressão psicológica também.

Os autores da política, isolados em seus gabinetes, não sentirão os efeitos da crise. Muita gente não sente. Os bares do Leblon têm fila nos sábados a noite. A crise é desigual. Quem tem boas aplicações em títulos públicos não muda seu padrão de vida. Quem tem emprego, vê a renda real cair (por causa da inflação alta). E quem perde o emprego sofre com a falta de renda e de perspectiva.

A crise vai durar porque, para o governo atual, o longo prazo não existe.

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Para ler durante a crise.

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O laboratório de Dilma

fevereiro 19, 2013

As experiências heterodoxas da presidente Dilma com a economia estão começando a ter resultado.

Infelizmente, não são os resultados que ela esperava.

A hipótese de que repetir as políticas do general Geisel poderia dar certo desta vez está, então, testada e refutada.

O problema é que Dilma ainda não se convenceu dos resultados da experiência e incumbiu seu elfo de estimação de aumentar a dose de desencontro cambial e subsídio via BNDES (dois dos principais ingredientes da fórmula).

Para ter certeza de que uma coisa não funciona mesmo, é normal testar muitas vezes – para ver se o que deu errado não foi alguma “coisa externa” à formula.

Pena que o custo de tentar mais uma vez seja destroçar a economia nacional.

É uma experiência cara a da Dra. Dilma.

Ela poderia ter evitado a repetição extra se adotasse uma visão mais ampla da experiência que está fazendo.

Henri Poicaré, um dos maiores nomes da ciência do século passado, costumava dizer que, muitas vezes, a ciência progride por conseguir chamar pelo mesmo nome coisas diferentes.

O exemplo de caricatura é o de petróleo, eletricidade, luz do sol, biomassa e vento, que podem ser mais bem compreendidos quando chamados – todos eles – de energia.

Bom, o que Dilma está fazendo agora não é só política heterodoxa ou câmbio controlado ou intervencionismo. O que ela está fazendo é algo que quase todos os governos da história do País fizeram – e que sempre deu errado. O que ela está fazendo se chama empurrar com a barriga.

Em vez de fazer um ajuste agora para conter a inflação e ter uma economia estável no futuro, Dilma prefere adiar, esperar para ver, só para não sofrer com os efeitos de curto prazo de uma alta de juros ou de uma valorização do câmbio. O que Dilma está fazendo se chama preferência pelo curto prazo.

O efeito desse tipo de política – testado dezenas de vezes – é inflação alta no longo prazo.

Teatro de Lego - experiência com baixo custo - e resultados melhores que os da política econômica.

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