É  desalentador ver Geraldo Alckmin reeleito no primeiro turno em São Paulo, ver Renan Calheiros Filho eleito em Alagoas (manutenção de clã no poder também é uma espécie de reeleição) e ver Fernando Collor reeleito senador.

Mas ainda há tempo para lembrar da época de revolta (ano passado), para parar de reeleger os políticos que mandaram a tropa de choque espancar manifestantes. No Rio de Janeiro, você ainda pode não reeleger o governador Pezão (que mandou a tropa atrás dos professores em greve) e  pode não reeleger Dilma (que só teve 23% dos votos de Brasília, de quem vê de perto o que ela faz).

Eu sei: Crivella e Aécio Neves não são exatamente candidatos ideais – e não são dignos do voto do mais moderado adepto de passeatas.

São dois conservadores. Mas Dilma e Pezão também são. E conservar conservadores é simplesmente além do limite. Não posso premiar a presidente que mandou o Exército e a Força Nacional de Segurança para espancar manifestantes na Copa. Não posso premiar o governador que quer empurrar um teleférico para a Rocinha (em vez do saneamento básico que todos concordam que é o necessário).

Troco dois conservadores por outros dois – que, pelo menos, vão demorar um pouco para montar novos esquemas, para poder nomear amigos para o Tribunal de Contas e para se sentir a vontade para atropelar garantias individuais básicas. Troco porque ficar muito tempo na cadeira corrompe, poque é preciso trocar os governantes de tempos em tempos.

Nunca achei que seria capaz de votar num bispo da Igreja Universal para governador, ou em um latifundiário que persegue os repórteres que ousam escrever sobre sua vida privada. Mas – fazer o quê? – votar em alguém cujo slogan é “para continuar a mudança” é simplesmente hipocrisia demais para mim.

Ânimo eleitoral: trocar é o menos pior.

Ânimo eleitoral: trocar é o menos pior.

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Manifestante tem que ir em cana por 30 anos!

A ideia de intimidar manifestantes com a ameaça de penas de prisão bizarras não é nova. Está em um projeto de lei em tramitação no Senado que só não deve ser votado este ano por causa das eleições. O senador, pastor e candidato ao governo do Rio Marcelo Crivella é um dos autores do projeto, que tem o número 728/2011.

O resumo do projeto é o seguinte:

“Define crimes e infrações administrativas com vistas a incrementar a segurança da Copa das Confederações FIFA de 2013 e da Copa do Mundo de Futebol de 2014, além de prever o incidente de celeridade processual e medidas cautelares específicas, bem como disciplinar o direito de greve no período que antecede e durante a realização dos eventos, entre outras providências.”

O texto tem trechos como ” § 5º O crime de terrorismo previsto no caput e nos §§ 1º e 3º deste artigo é inafiançável e insuscetível de graça ou anistia”, que dão ideia de como pensa seu autor.

Considerado inconstitucional por muitos analistas, por ir contra, por exemplo, o direito de reunião em locais públicos, o texto poderia dar margem a abusos de interpretação, como o de considerar fechar uma rua privação de liberdade, ou dar um rolé no shopping infundir pânico generalizado (com penas altas para as duas coisas).

Se no Rio de Janeiro mais de meio milhão de pessoas foram às ruas ano passado para se manifestar às vésperas da Copa das Confederações (e outras tantas as apoiaram mas não foram pessoalmente) pode-se imaginar que as chances do autor de um projeto como esse ser eleito governador são poucas.

Os adversários só têm que mostrar o projeto na TV – se não forem colegas de partido dos senadores Ana Amélia (PP/RS) e Walter Pinheiro (PT/BA), coautores do texto. Ah, o vice-governador Pezão, que provavelmente gosta do projeto, também não deve critica-lo.

O papel de crítico – se Crivella começar a ter intenções de voto muito grandes – vai sobrar para Miro Teixeira, Bernardinho, ou para o histriônico Anthony Garotinho.

Crivella: vale tudo para defender a FIFA.

Crivella: vale tudo para defender a FIFA.