O desfile de beleza do PC

setembro 13, 2013

A curta temporada no Chile me deu – por alguns minutos – a impressão de que os protestos de lá são parecidos com os daqui. Mas é muita arrogância tentar entender um país em dois dias. E talvez mais arrogância ainda querer entendê-lo com dois dias e uma matéria longa da Revista Piauí. Mas é exatamente isso que vou fazer.

Aqui no Brasil, os protestos não têm líder. Os assessores de Sérgio Cabral ficam perdidos procurando um representante dos manifestantes para tentar corromper. No Chile, há lideranças claras. Uma delas, destacada com foto de uma página e um quarto na Revista Piauí deste mês, é Camila Vallejo, a futura-deputada mais bonita da História do Chile.

Formada em Geografia há poucas semanas, a líder estudantil de 25 anos ganhou fama internacional com os protestos por educação superior gratuita no Chile – que começaram em 2011. Ela é bonita, articulada e filiada ao Partido Comunista.

Aí a semelhança com o Brasil aumenta. Não com os protestos brasileiros, mas com o Brasil. Os nomes mais conhecidos do PC do B, hoje, são duas beldades: Manuela D’Ávila, deputada federal pelo Rio Grande do Sul, e Vanessa Grazziotin, senadora pelo Amazonas.

Os PCs latino-americanos, pelo jeito, apostaram na beleza e – pelo menos nesse ponto – acertaram.

O curioso é que, enquanto os protestos brasileiros usam estruturas em rede, vídeo em tempo real e novas mídias, os chilenos se apoiam em uma instituição bizarramente obsoleta: o Partido Comunista.

Eles poderiam defender o ensino superior gratuito a partir de um discurso liberal. Os liberais colecionam argumentos pró ensino gratuito, da externalidade positiva da educação à redução de barreiras à entrada em mercados com monopólio de conhecimento (como a medicina). Nos anos 60, Kenneth Arrow, nobel de economia em 1972, já reclamava do custo alto dos serviços de saúde por conta da dificuldade dos estudantes para bancar uma faculdade de medicina. Sem os comunistas no pacote, os protestos teriam mais chance de aceitação pelo público chileno.

O combate à repressão policial fica muito melhor no discurso de um liberal (alguém que defende a liberdade de comércio, opinião e manifestação) do que na de alguém cujo partido têm nas costas décadas de repressão na Europa, China e Coréia do Norte. Quer dizer: quem dá tapinhas nas costas de Raul Castro têm mais dificuldade para reclamar de repressão.

E a repressão no Chile é violenta até hoje. Os conservadores de lá merecem ser tirados do poder e jogados no lixo da Historia. Mas não deveriam ser comunistas quase adolescentes os responsáveis por fazer isso. 

Onde estão os liberais de verdade de lá (os que querem progresso e não manutenção do status quo)?

Porque, no fim, fica a impressão de que Camila e seus amigos se destacam por falta de alguém melhor para fazer oposição ao governo, alguém para dizer que ensino é prioridade de qualquer país que queira progresso tecnológico e produtividade alta.

Deixar para a extrema esquerda a bandeira da defesa do ensino superior público é um erro que vai custar caro aos chilenos.

Aqui na terra dos papagaios (pelo menos no discurso), a defesa do ensino gratuito é uma unanimidade. Ai do político que falar contra.

Lá, o governo vai ter que aumentar a receita e bancar o que a população pede: mais ensino público. É isso ou se desgastar e dar espaço, pouco a pouco, a um PC que o velho Nelson chamaria de bonitinho, mas…

Manuela D'Ávila, o nome mais conhecido do PC do B.

Manuela D’Ávila, o nome mais conhecido do PC do B, nos dias de hoje.

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