Estudar o fim do mundo

novembro 25, 2016

Passo pelos repórteres acampados no caminho de casa e descubro que sou vizinho do ex-governador Anthony Garotinho (solto esta semana após pagamento de fiança).

Em casa, descubro que a água foi cortada por conta da lenta manutenção da Cedae.

A renda da família está menor graças ao governador Pezão – que parcelou em sete vezes o salário do funcionalismo estadual.

Diante da derrocada (que todos já esperávamos para o pós-Olimpíadas), começo a pensar em largar tudo e ir estudar.

Mas um ex-professor, que encontrei no aeroporto outro dia, traçou um cenário ruim aí também:

“Os centros de excelência”, ele disse, “estão preocupados em publicar artigos em revistas no exterior”. Diante da minha expressão de dúvida, ele continuou: “Os incentivos são para isso, para produzir coisas acadêmicas, teóricas, que sejam aceitas por revistas de fora. Essas coisas práticas que você quer estudar, dificilmente alguém nos principais cursos de economia aceitaria te orientar nisso. Não é algo que renda uma publicação na American Economic Review“.

Quer dizer: o mundo está acabando e até para estudar o fim do mundo é preciso bater de frente com algum incentivo distorcido…

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Vaca cuja tese sobre a queda do muro de Berlim foi recusada na FGV.

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O lobista antigo era formado em direito. Em um lugar muito burocrático, conhecer o emaranhado legislativo era importante.

Que lei mudar, com que funcionário falar, isso era o conhecimento básico do velho lobista brasiliense.

Mas as decisões do governo federal começaram a ficar muito visíveis e foi preciso inventar justificativas para as politiquinhas setoriais que os lobista propõem.

O perfil do lobista, então, teve que mudar.

Hoje, boa parte deles é formada em economia e não se incomoda em – com a maior cara de pau – citar os autores clássicos das formas mais estranhas para justificar “tecnicamente” suas propostas.

Muitos lobistas passaram também a ser nomeados para cargos executivos da administração federal. Alguns até foram nomeados ministros. Mas a maior parte está em diretorias de ministérios.

Para esses casos, valia a pena ter algum conhecimento prático sobre a área para onde foram indicados. Apareceram então os lobistas de origem acadêmica: ex-professores de economia, doutores – com doutorado ou formados em medicina – etc..

O curioso é que são pessoas com um bom nível de estudo.

Em uma terra onde menos de 15% da população tem curso superior, pode-se imaginar que não passariam fome se fizessem outra coisa que não vender peixe ruim com entusiasmo.

Fazem pelo salário mais alto? É só dinheiro? Ou há algo de sadismo em pregar o favorecimento a grandes empresas com dinheiro público?

Vi, semana passada, palestras de dois lobistas da área de saúde (os dois com doutorado em economia na unicamp). Eles me convenceram de que os lobistas não fazem o que fazem por maldade. É por burrice mesmo.

Canudo de doutor não é garantia de eficiência. A articulação com que apresentavam suas propostas faria os dois serem reprovados em seleções para vendedor de loja.

Como então foram dar aula para doutorado?

Uma das ouvintes das palestras me disse que um deles já foi um bom acadêmico, que publicou coisas razoáveis no fim dos anos 80.

Mas, nas últimas décadas, seu cérebro deve ter atrofiado e – percebendo isso – ele passou a fazer lobby (o que é mais fácil que fazer pesquisa a sério).

Isso me tranquiliza.

Se for isso mesmo, os doutores lobistas serão, na média, tão eficientes quanto os sujeitos desconexos que ouvi semana passada.

Claro, a média não é tudo e há alguns lobistas eficientes.

É preciso restringir seu poder antes que algum deles vire ministro da fazenda e comece a aprovar isenções de IPI para montadoras e fábricas de massas! Antes que mude a política econômica para beneficiar a indústria (em detrimento dos consumidores)!

Temos que fazer lobby contra o lobby! (o que soa mal, não sei por quê).

Futuro lobista passeia pelos corredores da primeira faculdade de economia do mundo, a de Cambridge, na Inglaterra.