Até o dia 8 de agosto, vai estar de graça, no site da amazon, o livro que inscrevi no Prêmio Kindle de Literatura.

O site não permite que os livros sejam anunciados de graça por mais de cinco dias (de 4/8 a 8/8). Depois disso, então, o livro passará a custar R$ 1,99.

O livro conta a história de três estudantes de economia – do dia do trote na faculdade até os empregos no mercado.

A personagem mais curiosa é Patrícia, que, vendo os projetos assustadores da consultoria onde trabalha e as coincidências estranhas que acontecem à sua volta, se convence de que seu chefe é o diabo em pessoa.

Tentei implicar democraticamente com todas as escolas de pensamento econômico. Mas a parte mais divertida do texto é a do chefe diabólico que, pragmático, não parece seguir escola nenhuma.

O livro pode ser baixado para kindle, ipad e afins (e também lido na tela do computador) a partir da página neste link.

Feito em casa.

Uma das boas partes da longa entrevista do ex-presidente Ernesto Geisel ao Centro de Documentação da FGV é a descrição do processo que o levou à presidência da República. Em um caso atípico de ditadura com alternância no poder, é curioso ver os critérios dos generais para escolher seu futuro chefe.

O lobby para indicar Geisel foi feito por seu irmão, o então ministro do Exército Orlando Geisel. Mas o lobby sozinho não garantiria a presidência. Para ter o apoio das Forças Armadas, era importante que Geisel não demonstrasse apego demais ao poder. Gente com muito gosto pelo poder não deve ter poder demais. Militares – que passam a vida sob uma hierarquia rigorosa – entendem isso perfeitamente. Era importante então que Geisel não se mostrasse ansioso nem manobrasse ostensivamente para ocupar a presidência. Isso -curiosamente – diminuiria o apoio a ele entre os generais.

O governo Dilma sempre lembra um pouco o do general-presidente, seja pelo intervencionismo excessivo, seja pela má política econômica. Mas lembrei da história acima por conta de uma notícia que ajuda a ver a diferença entre os dilmistas e o velho general-presidente. Para os dilmistas, ostentar poder é motivo de orgulho.

Foi assim que hoje, involuntariamente, o ex-ministro da Fazenda e “amigo da rainha” Guido Mantega me convenceu a apoiar o impeachment de Dilma.

Como ele fez isso? Mantega obrigou dois empresários paulistas a se retratarem, a redigirem pedidos formais de desculpas por terem o ofendido em público. Para não gastar fortunas com processos na Justiça, os empresários enviaram o pedido – exigido judicialmente pelo ex-ministro.

O processo contra os dois, por calúnia, injúria e difamação, foi movido porque, há alguns meses, eles xingaram – em um restaurante de luxo em São Paulo – o ex-ministro de ladrão, palhaço e sem vergonha.

A demonstração de força da exigência judicial de desculpas combina com os gritos com que a ex-chefe de Mantega é conhecida por tratar quem trabalha com ela.

Gente que gosta demais de poder não deveria ter muito.

Mas isso é uma racionalização. Na verdade, Mantega me convenceu a defender o impeachment porque acho intolerável que – depois do estrago que fez na economia do país – ele ainda tenha qualquer tipo de poder, principalmente o de “amigo do rei” – que é, possivelmente, o segundo posto na hierarquia federal brasileira desde os tempos do império.

Se não podemos xingar Mantega em público, podemos, pelo menos, promover o impeachment de sua chefe?

A mistura de gestão temerária e arrogância que os dois personificam me faz querer ver o governo cair, mesmo que seja para outro grupo de políticos mal intencionados e sedentos por poder assumir no lugar.

O fim está longe? Quanto tempo falta para a crise passar?

O fim está longe? Quanto tempo falta para a crise passar?

A história parece divertida demais para ser verdadeira, mas, como até o Guardian publicou… Por meio de um amigo, o criador da tirinha Pearls Before Swine, Stephan Pastis, resolveu entrar em contato com Bill Watterson, recluso criador de Calvin e Haroldo. Mandou um email. O sujeito respondeu. Não só respondeu, como propôs uma brincadeira: ele desenharia algumas das tirinhas de Pastis – que saem em cerca de 650 jornais do mundo. Anonimamente. Mais alguns emails depois, nasceram as três tirinhas, estreladas pelo próprio Pastis, uma menina chamada Lib, crocodilos, robôs marcianos e mulheres de biquíni.

O relato do próprio Pastis aqui.

As três tirinhas de Pearls Before Swines com a participação especial de Watterson.

As três tirinhas de Pearls Before Swines com a participação especial de Watterson.

 

Dr. Jekyll and Mr. Hyde

abril 5, 2014

Considere a notícia fictícia abaixo:

“Justiça do RS manda prender médica depois de morte de grávida e bebê

Numa medida extrema e possivelmente inédita no país, a Justiça do Rio Grande do Sul determinou a prisão preventiva de uma médica que permitiu que uma mulher grávida de 42 semanas deixasse o hospital, em vez de submetê-la a uma cesariana, apesar de mãe e bebê correrem risco de morte.

O caso aconteceu anteontem em Torres (193 km de Porto Alegre). Após deixar o hospital Nossa Senhora dos Navegantes, contrariando orientação médica, Fulana, 29, entrou em trabalho de parto em casa. A mãe, com rompimento do útero, e o bebê, que estava enrolado no cordão umbilical, não sobreviveram.

A polêmica começou quando a gestante procurou o hospital com dores lombares e no ventre. A médica Beltrana examinou a mulher e determinou que ela fosse submetida a uma cesariana, alegando que o bebê estava sentado – o que poderia, segundo a médica, asfixiá-lo durante um parto normal.

Além disso, a médica também argumentou que Fulana já havia feito duas cesarianas anteriormente e que, por essa razão, seu útero poderia se romper no procedimento.

No entanto, como a mãe estava decidida a fazer o parto normal, a médica permitiu que ela deixasse o hospital. Apesar do risco à vida da gestante e do bebê, exigiu apenas a assinatura de um termo de responsabilidade para liberar a paciente.

Após a morte de mãe e bebê, a família de Fulana decidiu procurar a Polícia Civil e o Ministério Público, que acionaram a Justiça. A juíza Sicrana aceitou os argumentos da família e determinou a prisão preventiva da médica, pela prática de homicídio, por entender que ela podia e devia ter agido para evitar as mortes.”

É preciso ter muita fé no ser humano (e na imprensa) para acreditar que, depois de ler uma notícia desse tipo, alguém sairia em defesa da médica.

Mas é o que se depreende da reação quase geral à matéria publicada pela Folha de S. Paulo no último dia 2: “Justiça do RS manda grávida fazer cesariana contra sua vontade”.

De movimentos que denunciam a violência obstétrica a palpiteiros em geral, iniciou-se imediatamente um processo de demonização da médica que recorreu à Justiça para obrigar a gestante a fazer uma cesariana, sob alegação de risco de morte para a mãe e o bebê.

Qualquer pessoa minimamente informada sabe que boa parte dos médicos induz, às vezes com requintes de frieza e irresponsabilidade, à cesariana e que a violência obstétrica é um problema concreto. Porém, a matéria inicial da Folha e as subsequentes, de vários veículos, não trazem nenhum elemento objetivo que permita concluir ter sido esse o caso no RS.

Apesar disso, resolveu-se usar o episódio como bandeira da causa (nobilíssima e merecedora de algo mais que o permanente silêncio dos conselhos de medicina), chegando-se ao ponto de o colunista Hélio Schwartsman, da própria Folha, vaticinar: “O caso da grávida obrigada a fazer uma cesariana contra a sua vontade atesta o fracasso da medicina e da Justiça brasileiras.”

A conclusão do colunista parte de uma premissa falsa: “A decisão final, porém, compete exclusivamente ao paciente ou seu responsável legal.”

Não, não é verdade, em nenhum caso, muito menos quando se envolve um bebê.

As gestantes merecem um tratamento mais sensível e respeito à sua autonomia, sempre, mas, até que se prove que a médica mentiu ao afirmar que havia risco de morte, é necessário ser mais contido na crítica.

Ou, pelo menos, achar que a médica da notícia fictícia lá do início sofreu uma grande injustiça.

O governo diz ter dificuldade para entender a insatisfação popular que leva milhares de pessoas as ruas até hoje. Mas a explicação é simples e está nos livros de economia lidos por estudantes do segundo período em todo o país. O problema é uma mistura de seleção adversa e restrição orçamentária.

A restrição orçamentária é uma velha conhecida de todos. O dinheiro nunca dá para tudo: é preciso escolher o que fazer e o que deixar de lado.

Já a seleção adversa tem a ver com os incentivos criados para selecionar. O exemplo clássico é o da venda de carros usados. A falta de informação sobre a qualidade do carro leva o comprador a querer pagar pouco por ele. O baixo preço oferecido pelos compradores leva apenas os donos de carros com problemas a querer vendê-los.

Com as despesas públicas é parecido. A falta de punição aos casos de corrupção leva os políticos a empurrar propostas de obras e compras inúteis (e superfaturadas) para o orçamento. O excesso de propostas leva o governo a ter que escolher. Entre despesas boas – mas sem propina – e obras inúteis (mas que rendem apoio político) ele escolhe as inúteis suerfaturadas.

A população fica insatisfeita com o que recebe, mas não falta recurso de empreiteiras amigas para a campanha eleitoral.

Repressão a protesto contra o governador Sergio Cabral, Rio de Janeiro, 27/08/2013.

Repressão a protesto contra o governador Sergio Cabral, Rio de Janeiro, 27/08/2013.

Procura-se uma criada

novembro 10, 2012

A complexa comparação da contratação de uma empregada doméstica à compra de um carro esportivo (Camaro) já ganhou a internet. A autora da façanha, a presidente do Sindicato dos Empregadores Domésticos do Estado de São Paulo (Sedesp), Margareth Carbinato, é conhecida pela defesa enfática dessa classe oprimida – os patrões -, mas nunca tinha se saído com argumento tão tocante, como o reproduzido pela Folha de S. Paulo:

“O que adianta ter um Camaro amarelo e não ter condições de mantê-lo. Não adianta conceder direitos trabalhistas se não houver empregador que sustente essa situação”, explica.

O alerta da patroa se deve à tramitação, na Câmara dos Deputados, da PEC 478/2010, que estende aos empregados domésticos todos os direitos assegurados aos demais trabalhadores urbanos e rurais. Hoje, como se sabe, empregado doméstico não tem direito a jornada de trabalho máxima (44 horas semanais), hora extra, adicional noturno e FGTS obrigatório.

Segundo a advogada, a aprovação da PEC elevará radicalmente o custo de se manter uma empregada doméstica, o que resultará em desemprego e informalidade. Isso porque, tal qual o Camaro, a empregada poderá até ser “adquirida”, mas poucos patrões terão os meios para mantê-la.

Causídica que é, Margareth se debruçou sobre a Constituição e a CLT para calcular o tamanho do estrago provocado pela eventual promulgação da emenda constitucional, concluindo que manter uma empregada doméstica custará no mínimo R$ 3.430 por mês, incluídos os encargos. [Veja o cálculo completo em carta aberta, datada de julho, no site do Sedesp.]

Data maxima venia, a conta da advogada é equivocada, pois pressupõe, por exemplo, que todas as horas a mais passadas no local de trabalho serão consideradas horas extras – o que, se aprovada a proposta, será objeto de regulamentação específica.

O mais interessante, porém, é o dado inicial dos cálculos. Com base no atual salário mínimo (R$ 622), a presidente do Sedesp chegou a uma remuneração por hora, numa jornada de 44 horas semanais, de R$ 2,84. Sim, dois reais e oitenta e quatro centavos.

A hora técnica de trabalho de um advogado, por sua vez, não sai por menos de R$ 219,30, segundo tabela da OAB-SP.

Complexidade, responsabilidade e escolaridade à parte, é razoável que na sétima maior economia do mundo ainda se considere normal que uma categoria profissional ganhe 77 vezes mais que a outra, talvez sob o pretexto de cada país ter sua própria realidade?

É mesmo necessário estudar direito constitucional e trabalhista para perceber que há algo de errado em considerar um direito adquirido poder dispor de uma empregada doméstica por pouco mais do que um saco de balas por hora?

Até o início do século 20 ainda se viam em jornais brasileiros anúncios do seguinte tipo:

“Precisa-se de uma criada de cor preta, que cozinhe e lave, na rua tal”

Por outro lado, até 2010, não havia Camaros à venda no Brasil.

Hoje o país tem 7 milhões de empregados domésticos e 3 mil Camaros em circulação.

Como se vê, muita coisa mudou. Algumas, muito; outras, nem tanto.

Esqueça o entediante reducionismo da briga entre petralhas e PIG. Os resultados das eleições deste domingo mostram um movimento muito mais interessante – e que, a despeito disso ou justamente por isso, não deve passar de nota de rodapé na cobertura da grande imprensa:

Em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, quase um terço do eleitorado não escolheu nenhum candidato para prefeito.

Em São Paulo, dos 8.619.170 eleitores aptos a votar, 18,47% não compareceram. Dos que apareceram, 5,43% escolheram o candidato “branco” e 7,35% anularam o voto. Considerado o eleitorado total, 28,89% não marcaram nenhum candidato a prefeito. Em 2008, tinham sido 22,3%.

No Rio de Janeiro, dos 4.719.607 eleitores aptos, 20,45% não apareceram. Votos em branco foram 5,03% e nulos 8,48%. Percentual que não sufragou ninguém: 31,2% (contra 28,36% em 2008).

Em Belo Horizonte, dos 1.860.172 eleitores, 18,88% faltaram. Votos em branco foram 5,79% e nulos 9,15%. O percentual dos que não optaram por qualquer dos candidatos a prefeito foi de 31% (contra 28,9% em 2008).

É certo que, entre as abstenções, há pessoas que não atualizaram o domicílio eleitoral, que estavam viajando, ou que por qualquer outra razão acabaram impedidas de votar. Da mesma forma, parte dos votos brancos e nulos pode ser atribuída a mero erro, e não a protesto ou indiferença.

São, ainda assim, números impressionantes, principalmente considerado o crescimento em relação às eleições municipais anteriores. Nestes quatro anos, o Brasil continuou crescendo, entrou em vigor a Lei da Ficha Limpa, o STF finalmente pôs em julgamento o mensalão. E como o eleitorado reagiu nas eleições que são as mais próximas do seu dia a dia?

Não escolhendo.

Essa é a manchete. Ou pelo menos deveria ser.

Propaganda de faculdade

janeiro 4, 2011

Da série A educação no Brasil.

Propaganda da Fadisp publicada hoje, na página B3 do caderno de economia do Estado de S. Paulo.

Marcela, 27 anos - seis de casada - e Temer, 70. Diferente do que a propaganda insinua, a "vice-primeira-dama" já conhecia o marido quando fez a faculdade.

E tem faculdade que se orgulha de prêmio de ciências, número de publicações acadêmicas, titulação de professores…

Esbarrei hoje em uma grande comemoração da UNE. Só não tropecei – literalmente – na comemoração porque um segurança contratado me desviou do caminho. “Tem que ir por fora”, ele disse, apontando para o outro lado da rua.

Eu estava na Praia do Flamengo, em frente à futura sede da UNE. Depois de desviar de dois carros com parabólicas e ver o outdoor, os balões coloridos e toda a parafernalha montada para a comemoração, comecei a pensar no que significam os mais de R$ 30 milhões transferidos pelo governo federal à União Nacional dos Estudantes (com promessa de mais no ano que vem).

A UNE é uma dessas associações de classe criadas na Era Vargas. Hoje, ela serve principalmente para emitir carteirinhas de estudante e para abrigar a UJS a União da Juventude Socialista.

Há décadas, a UJS – braço infanto-juvenil do PC do B – é quem manda na UNE. Como o PC do B é aliado do PT, a UNE simplesmente ficou quieta durante o governo Lula. Recebeu verbas e não fez barulho, nem uma passeatinha. Eles não falam sobre o PISA ou sobre os outros indicadores de qualidade da educação no país. Isso é bobagem. O que a UNE tem a ver com educação?

Tudo isso é só para dizer que não vejo nenhum motivo para construir um prédio para a UNE. Deviam vender o terreno e usar o dinheiro para contratar professor, comprar remédio para hospital público, contratar policial para UPP, qualquer coisa que atenda as necessidades mal atendidas da população. Mas – em vez de vender o terreno – vão enterrar mais dinheiro público nele.

A UNE não é governo, não é administração pública. Isso quer dizer que as obras serão contratadas sem os critérios que a administração pública tem que seguir. Mas, mesmo que o prédio fique pronto, mesmo que fique pronto sem nenhum escândalo contábil, mesmo que seja melhor administrado que a antiga sede da UNE (caindo aos pedaços na Rua do Catete), para que isso vai servir?  Vai servir para que eles tenham mais infraestrutura para organizar suas campanhas contra tudo que eu considero boa política pública (contra privatizar estatal, contra cortar gasto público…).

Quer dizer, é dinheiro público entregue a um grupo que faz campanha política. Não há nenhuma lei contra isso? Isso passou pelo Congresso? Ainda dá para vetar (ou adiar eternamente) o depósito do dinheiro?  Por que só saiu na TV depois que o dinheiro foi liberado? Não era agora que o governo ia apertar o cinto para poder baixar os juros? Se for desse jeito, vão ter que soltar verba para o gasto corrente, porque dar dinheiro para a UNE e vetar contratação de professor é muito descaramento (adeus ajuste fiscal).

Breve, no Flamengo, a maior central de emissão de carteirinhas de estudante do país (e talvez do mundo!).

Como se sabe, principalmente pela fama youtúbica, com a renúncia de Joaquim Roriz à candidatura ao Governo do Distrito Federal, assumiu a vaga sua esposa, Weslian Roriz. O anúncio ocorreu em 24 de setembro e, por isso, no primeiro turno das eleições, disputado em 3 de outubro, Weslian concorreu numa condição esdrúxula: as urnas ainda exibiam nome e foto de seu marido. A candidata, portanto, tornou-se uma espécie de ficção eleitoral; recebia em teoria votos que na prática destinavam-se a Joaquim Roriz.

Com Weslian qualificada a disputar o segundo turno, no relativamente distante 31 de outubro, criou-se a expectativa de que os dados das urnas pudessem ser corrigidos. Argumentou-se, com contundente simplicidade, que o eleitor deve saber exatamente em quem vota.

No entanto, consultado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-DF), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) manifestou-se pela impossibilidade da troca dos dados. Os ministros concluíram que havia impedimentos técnicos e legais ao procedimento, causados principalmente pela necessidade de rompimento dos lacres das cerca de 5 mil urnas usadas nas eleições.

O corregedor-eleitoral, Aldir Passarinho Junior, ressaltou que “tal operação possui alta probabilidade de falhas e comprometimento da segurança dos dados essenciais às eleições, inclusive, dos resultados da totalização dos votos do primeiro turno em razão da necessária reinicialização dos sistemas eleitorais e da reinserção de novos dados nas urnas eletrônicas”. Ele descartou, também por impossibilidade técnica, a substituição das urnas do primeiro turno por urnas novas.

O ministro Marco Aurélio admitiu que a modificação seria desejável, mas afirmou que “implicaria o prejuízo de uma possível auditoria na própria urna eletrônica”.

O que as duas justificativas para a inação têm em comum? A preocupação com a “probabilidade” de falhas e a “possibilidade” de prejuízos. Nada se falou, porém, sobre uma conseqüência concreta e certa da manutenção dos dados de Joaquim como representativos da candidatura de Weslian: muitos eleitores votarão num achando que estarão votando também no outro.

A decisão do TSE pelo comodismo inaugura a era das candidaturas bicéfalas, dos votos duplos, da transrepresentação. Um lembrete constrangedor de que vivemos numa democracia frágil, em que o voto do cidadão é tratado como uma mera questão de conveniência técnica.

O Globo e o Estado de S. Paulo publicaram hoje matérias de capa em seus cadernos de economia sobre o empréstimo de R$ 180 bilhões do Tesouro Nacional ao BNDES.

O Estadão fez duas matérias: uma mostrando como do dinheiro foi usado (para comprar empresas no exterior, aumentar o capital de giro de grandes empresas e comprar ações) e outra mostrando como a maior parte das empresas comuns tem dificuldade em ter acesso a crédito no Brasil.

Além das abobrinhas e das citações dos lobistas de sempre, a segunda matéria tem outro problema, esquece de que crédito tem a ver com poupança.

O crédito não sai do nada. Se alguém pegou emprestado, alguém emprestou. Nesse caso, o que aconteceu foi que o Governo federal captou R$ 180 bi de poupança de famílias, empresas e estrangeiros e repassou esse dinheiro ao BNDES.

Com R$ 180 bi a menos no mercado, não é difícil de imaginar que o crédito tenha ficado escasso. Crédito hoje, só para as grandes empresas que têm acesso ao BNDES. Para as pequenas – e para as não tão bem relacionadas – fica o que sobrar no mercado depois que o governo captar seus recursos (pagando, hoje, 10,75% ao ano).

Mas esquecer esse detalhe na matéria é um detalhe – e é um detalhe mesmo – comparado ao que fez O Globo. A matéria de capa da economia do Globo deste domingo mostra uma foto de Luciano Coutinho – atual presidente do banco – e Marcos Vianna – presidente do BNDES entre 1970 e 1979 – e lista declarações dos dois defendendo a política de subsídios da época de Vianna, que Coutinho parece querer ressuscitar.

Por que isso é tão horrível? Porque não foi feito por distração ou ingenuidade. George Vidor, que assina a matéria no Globo, não é um novato em matérias de economia. Ele listou os argumentos de Coutinho e Vianna sem lembrar de seus contrapontos – devidamente organizados em um dos textos mais conhecidos do país sobre sua História Econômica. O texto, do professor Dionísio Dias Carneiro, da PUC – Rio, mostra os efeitos desse tipo de política, descreve o que aconteceu nos anos 70.

Dionísio, que morreu esta semana, já está fazendo falta.

Para fechar, o box abaixo da matéria do Globo tem a seguinte chamada: “Estrutura do BNDES interessou ao governo Obama”. O box, com bastante espaço, fala sobre como, durante uma viagem de Coutinho a Washington, um assessor do governo de lá fez uma pergunta sobre como o BNDES lidava com a inadimplência.

Livro com o artigo de Dionísio sobre os anos 70.

Land of the Free

junho 18, 2010

Não sou muito chegado a casos individuais para ilustrar teses gerais, mas uma leitura casual, hoje, reforçou minha desconfiança periódica de que o ser humano é um projeto de futuro pouco promissor. O texto é do Slate, e a tradução do primeiro parágrafo a seguir, feita a toque de caixa, é de minha própria larva.

Esta semana, a Suprema Corte rejeitou, sem maiores explicações, um recurso ajuizado por Maher Arar, um homem de dupla-cidadania canadense e síria detido durante uma conexão no aeroporto JFK em 2002. Depois de enviado à Síria, Arar passou dez meses sob tortura. A violência contra ele teria incluído espancamentos com cabos elétricos e enclausuramento numa cela de tamanho equivalente ao de uma cova. Quando perceberam que haviam capturado o sujeito errado – o sujeito completamente errado -, Arar foi solto, sem sofrer acusações formais. Em seguida, ele foi isentado de qualquer ligação com terrorismo pelo governo canadense, que instituiu uma comissão para investigar o incidente. A comissão publicou um relatório de mais de mil páginas reconhecendo a responsabilidade de seus órgãos de inteligência no episódio. O governo pediu desculpas e determinou o pagamento de US$ 9,8 milhões a Arar. Enquanto isso, o governo americano – como diz o advogado e blogueiro Glen Greenwald – nunca se desculpou, nunca reconheceu qualquer ilegalidade, nem responsabilizou qualquer pessoa. E, sob a liderança de Obama, redobrou seus esforços para impedir Arar de ter um único dia de audiência numa corte judicial.

Seis das maiores editoras brasileiras (Record, Sexante, Planeta, Objetiva, Rocco e Intrínseca)  estão lançando uma empresa de distribuição de  livros digitais. A notícia parece boa. Mas não é. O mercado brasileiro de livros é um caso clássico de formação de cartel – e sua versão digital vai ser pior ainda.

O primeiro sinal disso está na matéria de hoje do Estadão sobre a nova distribuidora: “(…) os sócios da DLD estimam uma redução de até 30% no valor do e-book em comparação com a edição de papel.” Mas espera aí, o custo de produzir um livro é principalmente o que os economistas chamam de “custo variável”. Quer dizer, a maior parte do custo de um livro está em imprimir, transportar e vender uma cópia a mais, é o papel, a tinta, o caminhão que leva o livro, o salário do vendedor da loja. Descontando os direitos autorais, o custo de produzir a matriz do livro (igualzinha à versão digital), o “custo fixo” do livro, se diluí na medida em que as cópias são vendidas. Quanto maior a tiragem, menor a participação do custo fixo no custo total do livro. Para um best seller, o custo  de produzir a matriz (que as editoras querem vender por 70% do preço de um livro impresso), dividido pelo número de cópias, é próximo de zero.

Mas as editoras estão apostando em que vai ter quem pague.

E alguém vai pagar. Pagará porque vai ter um desconto de 30% para não ficar com a cópia impressa (e não tem como comprar o livro de que precisa em outro lugar).

As editoras apostam nisso porque já estão acostumadas a outras aberrações bem sucedidas. A maior delas é a tabela de preços dos livros. Todo mundo sabe que livro brasileiro tem o mesmo preço em qualquer livraria. O preço vem tabelado das editoras, com uma boa margem para o livreiro. Nenhuma livraria fura o cartel e tenta vender mais barato. Azar do consumidor. Como cada editora tem o monopólio de produção dos livros que publica, azar do consumidor duas vezes.

O cartel online vai ser ainda mais forte. As livrarias virtuais que quiserem vender livros digitais das editoras ali do primeiro parágrafo vão entregar ao comprador um link para baixar o livro direto do site da nova distribuidora digital. Na prática, as editoras vão controlar o envio de cada cópia.

Eu, que estava pensando em comprar um leitor digital, vou deixar para mais tarde (bem mais tarde). O desconto de 30% não justifica a despesa. Além do mais, leio andando enquanto vou para o trabalho. Com um leitor desses, correria o risco de ver um ladrão levar o aparelho e – com ele – toda a caríssima biblioteca digital que tivesse acumulado.

Antiquado ou não, continuo comprando meus livros na Amazon. Mesmo com frete, eles são mais baratos que os brasileiros. E, depois de alguns anos fazendo isso, ler em inglês já é confortavel o bastante para eu chamar de lazer.

Às editoras brasileiras, com suas versões traduzidas mais caras que as originais, um abraço.

Para as edições antigas, enquanto a biblioteca Google não vem...

Bomba! Bomba! A ANJ e a Abert entraram com representações no Ministério Público contra a Empresa Jornalística Econômico (do jornal Brasil Econômico e agora dos impressos do grupo O Dia) e a Terra Networks (do portal Terra) por violação da Constituição Federal. Defendem, por simples dever cívico, a obediência ao mandamento constitucional de que não mais que 30% do capital de empresas jornalísticas e de radiodifusão podem pertencer a estrangeiros. Até gente como o respeitado constitucionalista Luís Roberto Barroso, em entrevista a jornais, revistas e noticiários de TV das Organizações Globo, saiu em defesa da identidade e dos interesses nacionais. Afinal, é bem provável que os Marinho, Civita, Saad, Frias, Abravanel, Mesquita e outros Silvas se desfaçam, talvez logo amanhã pela manhã, de seus negócios pouco produtivos em termos de faturamento e poder, em favor de grandes grupos imperialistas.

Curioso mesmo é lembrar que a mesma ANJ e a mesma Abert boicotaram a Conferência Nacional de Comunicação, em protesto contra a proposta de criação de um Conselho Nacional de Comunicação e de um Conselho Federal de Jornalismo, instâncias de controle social (exercido pela sociedade) dos meios de comunicação e da imprensa. É ver, também, o silêncio ensurdecedor das duas entidades diante de casos pitorescos ocorridos no seio de grandes grupos de comunicação. E recordar que nunca se insurgiram, afora a escandalosa e preocupante questão dos estrangeiros, contra a legalidade da propriedade de vários desses grupos.

Na intenção de colaborar para a atuação sempre em prol da sociedade e da ordem constitucional por parte da ANJ e da Abert, relembremos, então, outros interessantes artigos da Carta Magna. Como no supracitado caso da propriedade estrangeira, esperamos, ansiosos, sua diligente ação.

Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição. (Art. 1º, parágrafo único)

Os Deputados e Senadores não poderão: firmar ou manter contrato com pessoa jurídica de direito público, autarquia, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviço público, salvo quando o contrato obedecer a cláusulas uniformes. (Art. 54, I, a)

Os Deputados e Senadores não poderão: ser proprietários, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contrato com pessoa jurídica de direito público, ou nela exercer função remunerada. (Art. 54, II, a)

A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição. (Art. 220)

Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio. (Art. 220, § 5º)

A Grécia faliu

maio 9, 2010

Pedaço de estátua grega que já viu crises piores - mas não passou bem por elas

A melhor explicação que li até agora para o aumento da instabilidade econômica nos últimos dias está em uma entrevista de Barry Eichengreen – economista da Universidade da Califórnia – publicada hoje no Estadão. Segundo ele, o pacote de ajuda da União Européia e do FMI à Grécia tem um erro crasso: não reconhece que a Grécia está falida, que vai dar calote na dívida.

Mesmo com empréstimos a juros mais baixos, corte de salários, aumento de impostos etc etc, a dívida pública da Grécia – sem calote – continuaria crescendo nos próximos quatro anos – até chegar a 150% do PIB. Este ano, o país deve ter que gastar cerca de 10% do PIB com juros da dívida (enquanto a população aperta o cinto). Muitos países já deram calote em condições menos assustadoras.

O pacote de ajuda podia ter admitido que os credores da dívida também iam ficar com uma parte da conta, podia ter proposto uma maneira organizada de fazer isso. Deixaram passar a chance. Por isso, a crise piorou.

Segundo Eichengreen, a disposição dos alemães para empurrar o pacote de ajuda para depois das eleições de seu país ajudou a complicar as coisas, mostrou uma reação lenta dos responsáveis pela administração do euro, o que contribui para derrubar o valor da moeda. Isso não tem nada a ver com delírios sobre a Grécia abandonar o euro, tem a ver com como a solução para a crise grega não pode depender do calendário eleitoral alemão.

A entrevista completa está no link abaixo.

Eichengreen sobre a Grécia

Centro de Madri num domingo (11 de abril de 2010).

Taxa de desemprego de 20,05% (no Brasil é 7,6%), déficit público alto e governo anunciando cortes de despesas: a crise espanhola – com queda de 3,6% no PIB ano passado – não impede que ruas e restaurantes de Madri fiquem cheios e a população saia sorridente pelo centro para aproveitar os dias de sol.

É uma crise de primeiro mundo.

Há desempregados pedindo dinheiro na rua. Mas eles são bem mais difíceis de encontrar do que, por exemplo, os do centro do Rio de Janeiro. O seguro desemprego alto de lá ajuda a explicar isso. Mas a renda média alta também explica uma parte da história. A economia encolheu 3,6% ano passado, mas a renda per capita continua bem maior que a nossa – e isso faz diferença.

Os países ricos tiveram uma grande perda de riqueza com a crise internacional. Mas isso tem a ver com, por exemplo, o valor dos imóveis de espanhóis, americanos, irlandeses etc. De uma hora para outra, eles viram que esses imóveis não valiam tanto quanto seus preços indicavam. Isso fez as vendas de imóveis novos caírem – e as construtoras demitirem.  Se sentindo mais pobres e – em muitos casos – perdendo o emprego, as pessoas passaram a comprar menos. Nesse cenário a demanda tende a cair, a produção acompanha e a crise se espalha.

Mas, depois de ver Madri colorida e cheia de gente, passei a ter dúvidas sobre o tamanho dessa queda de demanda. O governo está segurando a queda com gasto público – por isso o déficit público disparou. Mas – a olho nú – a economia não parece fraca. Pelo menos não em Madri.

Boa parte das pessoas que trabalhava com construção vai ter que arrumar emprego em outro setor. Vai haver um ajuste estrutural na economia. E isso vai ser lento. Com um seguro desemprego alto, deve ser realmente lento. Mas a economia continua produzindo. A previsão do Eurostat é de uma queda de 0,8% no PIB espanhol este ano – o que ainda os deixará com uma geração de renda per capita muito acima dos padrões daqui.

Sim, há dúvidas sobre a capacidade do governo de manter o déficit público alto por tempo o bastante para que o setor privado se recupere.

Outra coisa que qualquer turista vê na Espanha são os preços altos, bem maiores que os brasileiros. Isso atrapalha a recuperação da economia. Reduzir preços (deflação) não é uma coisa muito fácil – em nenhum lugar do mundo. Aqui, a alternativa seria desvalorizar a moeda. Lá a moeda é o euro, que, de qualquer forma, parece já estar começando a perder valor.

Critério de segurança

abril 7, 2010

No início de 2008, teve alguma repercussão a divulgação, pela Folha de S. Paulo, de gastos de R$ 55 mil, num período de dez meses, feitos com cartão corporativo por um dos seguranças de Lurian Lula da Silva, filha do presidente da República. Destino do dinheiro: lojas de autopeças e de material de construção, supermercados, livrarias, posto de combustível.

A “revelação”, à época, em meio ao pseudoescândalo dos cartões corporativos, mostrou-se de baixíssimo nível, pois insinuava, nas entrelinhas da preocupação com o correto uso dos recursos públicos, uma desnecessidade da trupe de dez agentes encarregada da segurança de Lurian e dos netos de Lula. Esvaziado o balão de ensaio, porém, prevaleceu a obviedade de que, eventuais gastos abusivos à parte, é justificável proteger a família do presidente – no Brasil, Nauru ou Seychelles.

Tudo isso para dizer que, na noite da sexta-feira passada, o apartamento de Lurian em Florianópolis foi invadido por supostos ladrões, e a turma do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) não viu nem ouviu nada. Detalhe: a filha do presidente estava em casa.

Desta vez, contudo, a grande imprensa não achou muita graça. A Folha e o Globo, por exemplo, relegaram o tema a cantos modestos de suas editorias nacionais. Aparentemente, um serviço de segurança presidencial que não consegue evitar uma simples invasão de residência não atende os critérios de relevância jornalística que orientam a cobertura dos jornalões.

Agora, se o ladrão tiver usado cartão corporativo…

PSDBistas na Rio Branco: "Não adianta chorar! Quem mandou confiar no Lula"

Não sei se existe mesmo uma “juventude do PSDB”, mas o três sujeitos segurando a faixa aí em cima eram alguns dos poucos gatos pingados que passavam pela Rio Branco às 15h30, quando eu tentava voltar para casa.

Com a avenida fechada por conta da passeata do governo estadual, muitas empresas e órgãos públicos terminaram mais cedo o expediente para que seus funcionários conseguissem encontrar ônibus ou algum outro tipo de transporte que os levasse para casa. Fui à Rio Branco achando que ainda chegaria a tempo para pegar um 121, mas o que encontrei foi chuva, esses sujeitos aí em cima e a maior quantidade de policiais que já vi em um lugar só.

Pelo jeito, com medo da falta de quorum, Sergio Cabral mandou uma boa parte da polícia do estado acompanhar sua passeata. Andei até a Cinelâdia, onde estava armado o palco para os pronunciamentos de governador, prefeito e aliados. Lá havia mais policiais do que civis.

Segui para o metrô certo de que a chuva ia esvaziar a passeata do governo. Pelo que estou vendo agora nos sites de jornal, ônibus vindos de São João de Meriti e Campos – com Rosinha Garotinho e companhia – garantiram o quorum de Sergio Cabral.

Grosseria contábil

janeiro 31, 2010

Hoje a Petrobras começou o dia completamente desproporcional – pelo menos na capa do Estado de S. Paulo. Segundo a chamada de capa, a empresa “já movimenta 10% do PIB”.

Quem está acostumado a ler os números da economia estranha. Afinal, em 2007 (último ano com dados desagregados disponíveis), o valor adicionado por todo o setor de extração de petróleo e gás representava 1,7% do total da economia. O refino representava 0,6%. A produção de químicos, resinas e defensivos agrícolas, chegava  0,8%. Somando tudo, temos 3,0% do valor adicionado total. E esses números são para toda a indústria nessas atividades, não só para a Petrobrás.

A chamada de capa tenta se safar com uma conta que ninguém faz, diz que “o valor adicionado pela estatal e seus investimentos já representam 10% do PIB”.

Não se pode somar valor adicionado e investimento. Isso cria um problema que os contadores nacionais chamam, muito candidamente, de duplacontagem. Mas, ainda que se pudesse, para chegar aos tais 10% do PIB, a Petrobras, sozinha, teria que ser responsável por metade do investimento do país. No terceiro trimestre de 2009, a taxa de investimento do país (investimento sobre PIB) foi de 17,7%.  Um ano antes – antes da crise internacional – ela era de 20,1%.

Mas o dado mais bizarro na matéria do Estadão está no corpo do texto, no caderno de economia: “As megarreservas do pré-sal e investimentos que superam US$ 170 bilhões até 2014 devem ampliar a participação da Petrobrás no PIB para 20%, estimam analistas.”

São cinco erros em uma frase: 1) os investimentos previstos para 5 anos (2010 – 2014) não podem ser comparados ao PIB de um único ano;  2) quando fala de reservas, a repórter está falando em patrimônio, não em geração de renda. É como querer comparar o estoque de carros já produzidos com a produção da indústria automobilística num ano, PIB é geração de renda, não patrimônio acumulado. Para comparar com as reservas de petróleo, ela teria que usar o patrimônio total do país. 3) “estimam analistas” é um recurso tosco usado para tirar o corpo fora sem responsabilizar ninguém pela informação: se alguém teve a cara de pau de dizer isso, diga quem foi, ou então não reproduza a besteira do sujeito. 4) Toda a indústria do país (TODA) respondeu, em 2008, por 27,3% do valor adicionado da economia (o Brasil é, hoje, uma economia movida a serviços – 66,7% do valor adicionado em 2008). A Petrobras sozinha não vai chegar a 20% do PIB nem que descubram uma nova Arábia Saudita embaixo de sua sede, na Av. Chile. 5) Por fim, o erro de conta: mesmo que se pudesse dividir patrimônio por renda e comparar cinco anos de investimento com o PIB de um ano, os US$ 170 bi somados ao valor adicionado pela Petrobras continuariam longe de 20% do PIB (que hoje é de mais de R$ 3 trilhões ao ano). Em outro trecho da matéria, a repórter cita uma capitalização de “dezenas de bilhões de reais” do governo, que quer incluir na conta. Não adianta: para chegar a 20% do PIB teriam que ser centenas de bilhões.

INDEC pra quê?

janeiro 16, 2010

Cansada de humilhar os técnicos do instituto de estatística argentino de formas tradicionais, a presidente Cristina Kirshner chutou o pau da barraca esta quinta-feira. Além de forçar os técnicos da manipularem os dados de inflação e crescimento, ela ainda tripudiou, anunciando os números do PIB antes da divulgação oficial do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (INDEC).

Segundo a presidente, a economia argentina cresceu 0,9% em 2009. Consultores independentes estimam que o PIB de lá tenha, na verdade, caído 4,5%.

Cristina Kirshner ainda não percebeu que ninguém mais acredita nos números do INDEC? Não se deu conta de que – se é para pôr qualquer número na taxa de crescimento – podia economizar uns pesos e fechar logo o instituto? Para o mesmo resultado, teria um gasto menor.

Sarcófago tão antigo quanto as idéias administrativas - e a estética - de Cristina Kirshner.