Economistas tendenciosos com um chefe diabólico

Até o dia 8 de agosto, vai estar de graça, no site da amazon, o livro que inscrevi no Prêmio Kindle de Literatura.

O site não permite que os livros sejam anunciados de graça por mais de cinco dias (de 4/8 a 8/8). Depois disso, então, o livro passará a custar R$ 1,99.

O livro conta a história de três estudantes de economia – do dia do trote na faculdade até os empregos no mercado.

A personagem mais curiosa é Patrícia, que, vendo os projetos assustadores da consultoria onde trabalha e as coincidências estranhas que acontecem à sua volta, se convence de que seu chefe é o diabo em pessoa.

Tentei implicar democraticamente com todas as escolas de pensamento econômico. Mas a parte mais divertida do texto é a do chefe diabólico que, pragmático, não parece seguir escola nenhuma.

O livro pode ser baixado para kindle, ipad e afins (e também lido na tela do computador) a partir da página neste link.

Feito em casa.

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Como Mantega me convenceu a apoiar o impeachment

Uma das boas partes da longa entrevista do ex-presidente Ernesto Geisel ao Centro de Documentação da FGV é a descrição do processo que o levou à presidência da República. Em um caso atípico de ditadura com alternância no poder, é curioso ver os critérios dos generais para escolher seu futuro chefe.

O lobby para indicar Geisel foi feito por seu irmão, o então ministro do Exército Orlando Geisel. Mas o lobby sozinho não garantiria a presidência. Para ter o apoio das Forças Armadas, era importante que Geisel não demonstrasse apego demais ao poder. Gente com muito gosto pelo poder não deve ter poder demais. Militares – que passam a vida sob uma hierarquia rigorosa – entendem isso perfeitamente. Era importante então que Geisel não se mostrasse ansioso nem manobrasse ostensivamente para ocupar a presidência. Isso -curiosamente – diminuiria o apoio a ele entre os generais.

O governo Dilma sempre lembra um pouco o do general-presidente, seja pelo intervencionismo excessivo, seja pela má política econômica. Mas lembrei da história acima por conta de uma notícia que ajuda a ver a diferença entre os dilmistas e o velho general-presidente. Para os dilmistas, ostentar poder é motivo de orgulho.

Foi assim que hoje, involuntariamente, o ex-ministro da Fazenda e “amigo da rainha” Guido Mantega me convenceu a apoiar o impeachment de Dilma.

Como ele fez isso? Mantega obrigou dois empresários paulistas a se retratarem, a redigirem pedidos formais de desculpas por terem o ofendido em público. Para não gastar fortunas com processos na Justiça, os empresários enviaram o pedido – exigido judicialmente pelo ex-ministro.

O processo contra os dois, por calúnia, injúria e difamação, foi movido porque, há alguns meses, eles xingaram – em um restaurante de luxo em São Paulo – o ex-ministro de ladrão, palhaço e sem vergonha.

A demonstração de força da exigência judicial de desculpas combina com os gritos com que a ex-chefe de Mantega é conhecida por tratar quem trabalha com ela.

Gente que gosta demais de poder não deveria ter muito.

Mas isso é uma racionalização. Na verdade, Mantega me convenceu a defender o impeachment porque acho intolerável que – depois do estrago que fez na economia do país – ele ainda tenha qualquer tipo de poder, principalmente o de “amigo do rei” – que é, possivelmente, o segundo posto na hierarquia federal brasileira desde os tempos do império.

Se não podemos xingar Mantega em público, podemos, pelo menos, promover o impeachment de sua chefe?

A mistura de gestão temerária e arrogância que os dois personificam me faz querer ver o governo cair, mesmo que seja para outro grupo de políticos mal intencionados e sedentos por poder assumir no lugar.

O fim está longe? Quanto tempo falta para a crise passar?

O fim está longe? Quanto tempo falta para a crise passar?

Vinte anos com (o autor do) Calvin

A história parece divertida demais para ser verdadeira, mas, como até o Guardian publicou… Por meio de um amigo, o criador da tirinha Pearls Before Swine, Stephan Pastis, resolveu entrar em contato com Bill Watterson, recluso criador de Calvin e Haroldo. Mandou um email. O sujeito respondeu. Não só respondeu, como propôs uma brincadeira: ele desenharia algumas das tirinhas de Pastis – que saem em cerca de 650 jornais do mundo. Anonimamente. Mais alguns emails depois, nasceram as três tirinhas, estreladas pelo próprio Pastis, uma menina chamada Lib, crocodilos, robôs marcianos e mulheres de biquíni.

O relato do próprio Pastis aqui.

As três tirinhas de Pearls Before Swines com a participação especial de Watterson.

As três tirinhas de Pearls Before Swines com a participação especial de Watterson.

 

Dr. Jekyll and Mr. Hyde

Considere a notícia fictícia abaixo:

“Justiça do RS manda prender médica depois de morte de grávida e bebê

Numa medida extrema e possivelmente inédita no país, a Justiça do Rio Grande do Sul determinou a prisão preventiva de uma médica que permitiu que uma mulher grávida de 42 semanas deixasse o hospital, em vez de submetê-la a uma cesariana, apesar de mãe e bebê correrem risco de morte.

O caso aconteceu anteontem em Torres (193 km de Porto Alegre). Após deixar o hospital Nossa Senhora dos Navegantes, contrariando orientação médica, Fulana, 29, entrou em trabalho de parto em casa. A mãe, com rompimento do útero, e o bebê, que estava enrolado no cordão umbilical, não sobreviveram.

A polêmica começou quando a gestante procurou o hospital com dores lombares e no ventre. A médica Beltrana examinou a mulher e determinou que ela fosse submetida a uma cesariana, alegando que o bebê estava sentado – o que poderia, segundo a médica, asfixiá-lo durante um parto normal.

Além disso, a médica também argumentou que Fulana já havia feito duas cesarianas anteriormente e que, por essa razão, seu útero poderia se romper no procedimento.

No entanto, como a mãe estava decidida a fazer o parto normal, a médica permitiu que ela deixasse o hospital. Apesar do risco à vida da gestante e do bebê, exigiu apenas a assinatura de um termo de responsabilidade para liberar a paciente.

Após a morte de mãe e bebê, a família de Fulana decidiu procurar a Polícia Civil e o Ministério Público, que acionaram a Justiça. A juíza Sicrana aceitou os argumentos da família e determinou a prisão preventiva da médica, pela prática de homicídio, por entender que ela podia e devia ter agido para evitar as mortes.”

É preciso ter muita fé no ser humano (e na imprensa) para acreditar que, depois de ler uma notícia desse tipo, alguém sairia em defesa da médica.

Mas é o que se depreende da reação quase geral à matéria publicada pela Folha de S. Paulo no último dia 2: “Justiça do RS manda grávida fazer cesariana contra sua vontade”.

De movimentos que denunciam a violência obstétrica a palpiteiros em geral, iniciou-se imediatamente um processo de demonização da médica que recorreu à Justiça para obrigar a gestante a fazer uma cesariana, sob alegação de risco de morte para a mãe e o bebê.

Qualquer pessoa minimamente informada sabe que boa parte dos médicos induz, às vezes com requintes de frieza e irresponsabilidade, à cesariana e que a violência obstétrica é um problema concreto. Porém, a matéria inicial da Folha e as subsequentes, de vários veículos, não trazem nenhum elemento objetivo que permita concluir ter sido esse o caso no RS.

Apesar disso, resolveu-se usar o episódio como bandeira da causa (nobilíssima e merecedora de algo mais que o permanente silêncio dos conselhos de medicina), chegando-se ao ponto de o colunista Hélio Schwartsman, da própria Folha, vaticinar: “O caso da grávida obrigada a fazer uma cesariana contra a sua vontade atesta o fracasso da medicina e da Justiça brasileiras.”

A conclusão do colunista parte de uma premissa falsa: “A decisão final, porém, compete exclusivamente ao paciente ou seu responsável legal.”

Não, não é verdade, em nenhum caso, muito menos quando se envolve um bebê.

As gestantes merecem um tratamento mais sensível e respeito à sua autonomia, sempre, mas, até que se prove que a médica mentiu ao afirmar que havia risco de morte, é necessário ser mais contido na crítica.

Ou, pelo menos, achar que a médica da notícia fictícia lá do início sofreu uma grande injustiça.

A seleção adversa do gasto público

O governo diz ter dificuldade para entender a insatisfação popular que leva milhares de pessoas as ruas até hoje. Mas a explicação é simples e está nos livros de economia lidos por estudantes do segundo período em todo o país. O problema é uma mistura de seleção adversa e restrição orçamentária.

A restrição orçamentária é uma velha conhecida de todos. O dinheiro nunca dá para tudo: é preciso escolher o que fazer e o que deixar de lado.

Já a seleção adversa tem a ver com os incentivos criados para selecionar. O exemplo clássico é o da venda de carros usados. A falta de informação sobre a qualidade do carro leva o comprador a querer pagar pouco por ele. O baixo preço oferecido pelos compradores leva apenas os donos de carros com problemas a querer vendê-los.

Com as despesas públicas é parecido. A falta de punição aos casos de corrupção leva os políticos a empurrar propostas de obras e compras inúteis (e superfaturadas) para o orçamento. O excesso de propostas leva o governo a ter que escolher. Entre despesas boas – mas sem propina – e obras inúteis (mas que rendem apoio político) ele escolhe as inúteis suerfaturadas.

A população fica insatisfeita com o que recebe, mas não falta recurso de empreiteiras amigas para a campanha eleitoral.

Repressão a protesto contra o governador Sergio Cabral, Rio de Janeiro, 27/08/2013.

Repressão a protesto contra o governador Sergio Cabral, Rio de Janeiro, 27/08/2013.

Procura-se uma criada

A complexa comparação da contratação de uma empregada doméstica à compra de um carro esportivo (Camaro) já ganhou a internet. A autora da façanha, a presidente do Sindicato dos Empregadores Domésticos do Estado de São Paulo (Sedesp), Margareth Carbinato, é conhecida pela defesa enfática dessa classe oprimida – os patrões -, mas nunca tinha se saído com argumento tão tocante, como o reproduzido pela Folha de S. Paulo:

“O que adianta ter um Camaro amarelo e não ter condições de mantê-lo. Não adianta conceder direitos trabalhistas se não houver empregador que sustente essa situação”, explica.

O alerta da patroa se deve à tramitação, na Câmara dos Deputados, da PEC 478/2010, que estende aos empregados domésticos todos os direitos assegurados aos demais trabalhadores urbanos e rurais. Hoje, como se sabe, empregado doméstico não tem direito a jornada de trabalho máxima (44 horas semanais), hora extra, adicional noturno e FGTS obrigatório.

Segundo a advogada, a aprovação da PEC elevará radicalmente o custo de se manter uma empregada doméstica, o que resultará em desemprego e informalidade. Isso porque, tal qual o Camaro, a empregada poderá até ser “adquirida”, mas poucos patrões terão os meios para mantê-la.

Causídica que é, Margareth se debruçou sobre a Constituição e a CLT para calcular o tamanho do estrago provocado pela eventual promulgação da emenda constitucional, concluindo que manter uma empregada doméstica custará no mínimo R$ 3.430 por mês, incluídos os encargos. [Veja o cálculo completo em carta aberta, datada de julho, no site do Sedesp.]

Data maxima venia, a conta da advogada é equivocada, pois pressupõe, por exemplo, que todas as horas a mais passadas no local de trabalho serão consideradas horas extras – o que, se aprovada a proposta, será objeto de regulamentação específica.

O mais interessante, porém, é o dado inicial dos cálculos. Com base no atual salário mínimo (R$ 622), a presidente do Sedesp chegou a uma remuneração por hora, numa jornada de 44 horas semanais, de R$ 2,84. Sim, dois reais e oitenta e quatro centavos.

A hora técnica de trabalho de um advogado, por sua vez, não sai por menos de R$ 219,30, segundo tabela da OAB-SP.

Complexidade, responsabilidade e escolaridade à parte, é razoável que na sétima maior economia do mundo ainda se considere normal que uma categoria profissional ganhe 77 vezes mais que a outra, talvez sob o pretexto de cada país ter sua própria realidade?

É mesmo necessário estudar direito constitucional e trabalhista para perceber que há algo de errado em considerar um direito adquirido poder dispor de uma empregada doméstica por pouco mais do que um saco de balas por hora?

Até o início do século 20 ainda se viam em jornais brasileiros anúncios do seguinte tipo:

“Precisa-se de uma criada de cor preta, que cozinhe e lave, na rua tal”

Por outro lado, até 2010, não havia Camaros à venda no Brasil.

Hoje o país tem 7 milhões de empregados domésticos e 3 mil Camaros em circulação.

Como se vê, muita coisa mudou. Algumas, muito; outras, nem tanto.

Um terço não vota em ninguém

Esqueça o entediante reducionismo da briga entre petralhas e PIG. Os resultados das eleições deste domingo mostram um movimento muito mais interessante – e que, a despeito disso ou justamente por isso, não deve passar de nota de rodapé na cobertura da grande imprensa:

Em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, quase um terço do eleitorado não escolheu nenhum candidato para prefeito.

Em São Paulo, dos 8.619.170 eleitores aptos a votar, 18,47% não compareceram. Dos que apareceram, 5,43% escolheram o candidato “branco” e 7,35% anularam o voto. Considerado o eleitorado total, 28,89% não marcaram nenhum candidato a prefeito. Em 2008, tinham sido 22,3%.

No Rio de Janeiro, dos 4.719.607 eleitores aptos, 20,45% não apareceram. Votos em branco foram 5,03% e nulos 8,48%. Percentual que não sufragou ninguém: 31,2% (contra 28,36% em 2008).

Em Belo Horizonte, dos 1.860.172 eleitores, 18,88% faltaram. Votos em branco foram 5,79% e nulos 9,15%. O percentual dos que não optaram por qualquer dos candidatos a prefeito foi de 31% (contra 28,9% em 2008).

É certo que, entre as abstenções, há pessoas que não atualizaram o domicílio eleitoral, que estavam viajando, ou que por qualquer outra razão acabaram impedidas de votar. Da mesma forma, parte dos votos brancos e nulos pode ser atribuída a mero erro, e não a protesto ou indiferença.

São, ainda assim, números impressionantes, principalmente considerado o crescimento em relação às eleições municipais anteriores. Nestes quatro anos, o Brasil continuou crescendo, entrou em vigor a Lei da Ficha Limpa, o STF finalmente pôs em julgamento o mensalão. E como o eleitorado reagiu nas eleições que são as mais próximas do seu dia a dia?

Não escolhendo.

Essa é a manchete. Ou pelo menos deveria ser.