No longo prazo, alguns de nós vão sofrer muito

janeiro 23, 2016

A arrogância e a ignorância têm um papel central na história das depressões econômicas. Quem mostra isso de um jeito muto claro é o economista Liaquat Ahamed, em seu livro Lords of finance – the bankers who broke the world.

No livro, Ahamed traça o perfil e acompanha as decisões dos presidentes dos bancos centrais de Estados Unidos, França, Inglaterra e Alemanha de 1914 a 1944. Como aula de história do pensamento econômico, o livro é impressionante. O que ele deixa claro é que os presidentes dos maiores Bancos Centrais do mundo não tinham a mais vaga ideia do que estava acontecendo na economia e tomaram decisões capazes de transformar uma crise econômica na Grande Depressão.

Os economistas aprendem isso nas aulas de história, mas o livro – por ter uma pesquisa detalhada e ser muito bem escrito – ressuscita personagens como o pomposo Montagu Norman, presidente do Banco da Inglaterra na época. O ápice da arrogância misturada com desconhecimento ficou registrado na frase do Secretário do Tesouro dos EUA, Andrew Mellon. Mellon recomendou deixar os bancos e empresas quebrarem como solução para a crise:  “liquidate labor, liquidate stocks, liquidate farmers, liquidate real estate… it will purge the rottenness out of the system”. Mas o livro de Ahmad deixa claro que Mellon não estava sozinho: a falta de humildade para lidar com a crise era muito disseminada entre os governos e bancos centrais na época.

Naquele tempo, os economistas se consolavam dizendo que, no longo prazo, os preços de insumos e salários se ajustariam (cairiam) e isso estimularia a produção. No longo prazo, a economia voltaria a funcionar.

O economista inglês John Maynard Keynes – talvez o primeiro a entender o que aconteceu nos anos 30 – respondeu a isso com sua frase famosa: “No longo prazo, estaremos todos mortos”.

O problema é que a frase – no Brasil pelo menos – foi apropriada por lobistas, que a usam para defender políticas que produzem pequenos ganhos de curto prazo e tragédias em prazos um pouco maiores.

A inflação alta de hoje tem a ver com essa política de esquecer o longo prazo para não ter juros altos no curto. A crise fiscal tem a ver com a politica de gastar mais no curto prazo e torcer para ter aumento de arrecadação no longo. O baixo crescimento da economia tem a ver com a política de não fazer reformas estruturais no curto prazo – e torcer para a casa não cair no longo.

O longo prazo, segundo os manuais de macroeconomia, é quando todos os fatores de produção se ajustam. Em bom português: o prazo longo é aquele em que dá para construir fábricas, estradas e hidroelétricas, dá para a oferta se ajustar às mudanças na economia. No curto prazo, só a demanda muda.

Devia ser óbvio que não dá para administrar a economia olhando só para o curto prazo, só para a demanda.

Mesmo políticos que vivem em função do calendário eleitoral costumavam pensar nisso (e fazer ajustes no primeiro ano de governo, para tentar chegar melhor ao último).

Mas a arrogância das escolas econômicas ultra-curtoprazistas aqui do Brasil parece levar seus representantes a manter a cabeça no curto prazo até em início de governo.

O resultado será depressão econômica e – por que não? – depressão psicológica também.

Os autores da política, isolados em seus gabinetes, não sentirão os efeitos da crise. Muita gente não sente. Os bares do Leblon têm fila nos sábados a noite. A crise é desigual. Quem tem boas aplicações em títulos públicos não muda seu padrão de vida. Quem tem emprego, vê a renda real cair (por causa da inflação alta). E quem perde o emprego sofre com a falta de renda e de perspectiva.

A crise vai durar porque, para o governo atual, o longo prazo não existe.

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Para ler durante a crise.

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