A arte esquecida de se equilibrar no alto do muro

dezembro 30, 2015

Nos últimos 13 anos a história se repetiu, quase sempre como farsa: a inapetência administrativa do governo só foi superada pela incapacidade da oposição de apresentar um discurso decente.

Hoje, não há nenhum nome de PSDB, PPS ou afins em que o eleitor médio se sinta entusiasmado para votar. Os votos da oposição são votos contra o governo – e não votos a favor de Aécio, Serra ou Roberto Freire.

A maior parte dos deputados de oposição é de pessoas pouco conhecidas, eleitas “na aba” dos votos do partido ou de algum deputado bem votado.

E até os deputados bem votados são uma desgraça para a oposição. Jair Bolsonaro, do Partido Progressista do Rio de Janeiro, por exemplo, é tudo que a oposição não deveria ter.

Em disputas polarizadas, como as do cenário político atual, vence quem estiver mais perto do centro. Esse quase axioma eleitoral é o que orienta candidatos a cargos majoritários a não apresentar programas de governo e não tomar posição sobre temas polêmicos em suas campanhas.

Os radicais – pró-governo ou contra – já são voto garantido de cada um dos lados. São os centristas/indecisos que definem as disputas. E políticos como Bolsonaro – com seu discurso militarista/machista/anti-homossexuais/ultraconservador – espantam mais eleitores do que atraem.

Ele vai sempre se eleger como representante dos ultraconservadores (que merecem ser representados), mas como nome de destaque da oposição, seu papel é destrutivo, é o de empurrar votos de volta para o governo.

Essa é a lógica que sempre fez o PSDB ter tanto amor ao muro, à indefinição, ao esperar para ver.

É também a lógica que fez o PT gastar horas de propaganda eleitoral para vender a ecologista Marina Silva como uma “representante dos banqueiros” (ideia tosca mas repetida incansavelmente, até isolar Marina longe do centro no espectro político).

Mas tudo isso é para dizer que, nos últimos meses, a oposição se superou em sua capacidade de fazer campanha contra si mesma. Na hora em que o governo estava mais frágil e a oposição devia ir para perto do centro para ocupar espaço, ela se isolou à direita.

O senador Aloysio Nunes (candidato a vice de Aécio) emendou a proposta de lei anti terrorismo para torna-la mais repressiva. Seu colega de PSDB, o governador Geraldo Alckmin, mandou a polícia bater em estudantes secundaristas que protestavam contra o fechamento de suas escolas. Enquanto ele fazia isso, seus colegas de partido apareciam na TV perguntando quando o povo irá às ruas pelo impeachment da presidente.

Bom, se depender do PSDB, nunca.

Quanto mais a oposição mostrar seu rosto conservador, seu lado elite paulistana, menos chance o impeachment vai ter.

Eu sei: o governo tem deixado claro que sempre se pode contar com sua capacidade de enfiar os pés pelas mãos e fabricar crises. Mas isso não muda o fato de que a oposição, nos últimos meses, passou de muda a auto-depreciativa.

Vejam a diferença: o governo trocou um ministro da Fazenda ortodoxo por um heterodoxo – que assumiu jurando que será ortodoxo. Ninguém acreditou. Se fosse para ser ortodoxo, era melhor manter o ministro antigo. Quer dizer: sozinho, mais uma vez, o governo cria a crise e enfia os pés pelas mãos. Mas, como concessão mínima ao centrismo e à marquetagem, o ministro heterodoxo assume o cargo jurando fidelidade à ortodoxia econômica.

É pouco? Sim. É só discurso? É. Mas nem isso a oposição sabe fazer.

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Pedras e espinhos. É tudo que a oposição tem para oferecer?

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