É a inflação, manés

dezembro 29, 2015

Que foi a economia que piorou nosso humor e nosso acesso a bens e serviços em 2015, todo mundo sabe. Que será ela quem fará o mesmo em 2016 e 2017, também é quase consenso.

Mas há ainda quem discorde sobre como ela faz isso. Para o governo, o problema é o baixo crescimento. Para os desempregados, é o desemprego. Para os assalariados, é a inflação. Para quem tem dinheiro aplicado, é a tendência de crescimento acelerado da dívida do governo. Para quem usa os serviços públicos (quem não usa?) é o colapso desses serviços (por sucateamento, não pagamento de salários, calote em fornecedores etc.). Para quem sabe que o mundo não é previsível, são as catástrofes inesperadas (já que o governo nem pensa em prevenção, planos de contingencia e similares).

Não é (só) porque sou assalariado, mas o problema mais destrutivo, o que fará mais estrago de longo prazo nessa lista (fora alguma hecatombe imprevista) é a inflação.

Se não tivéssemos inflação, o governo poderia baixar os juros, poderia deixar suas despesas no nível em que estão e isso reanimaria a economia. Isso diminuiria o desemprego, estancaria a queda na arrecadação e facilitaria o trabalho de conter o crescimento da dívida pública. Nesse cenário, os governos estaduais conseguiriam pagar os salários dos seus funcionários e os serviços públicos não se deteriorariam tão rápido.

Mas a inflação de 2015 vai ser de mais de 10% e a de 2016 vai estourar o teto da meta do Banco Central. Além da dor imediata causada pela corrosão do poder de compra dos assalariados, a inflação tem mais dois efeitos:

  • Primeiro, ela mostra que o problema da economia não é falta de demanda (que economia com falta de demanda tem inflação de 10% ao ano?). Enquanto os entraves do lado da oferta da economia e das finanças públicas não forem solucionados, a crise não vai passar.
  • O segundo problema é que, para conviver com a inflação – sem que ela dispare de vez – será preciso manter o freio de mão puxado, com juros altos e restrição de despesas do governo.

Mais do que isso: a solução de alguns desses problemas é contracionista, quer dizer: o ajuste dos gastos públicos, necessário para tirar parte do fardo do controle da inflação dos ombros (já muito tortos) do BC freia a economia. Por isso, dá para ter certeza que a contração da economia vai durar: para conviver com a inflação é preciso pisar no freio e para resolver o problema, também.

Sem encarar a agenda de baixa produtividade, entraves burocráticos e desequilíbrio orçamentário, sem entender por que é tão difícil produzir qualquer coisa no Brasil, o governo não vai superar a crise. E, sem retirar a espada da dívida pública crescente – hoje pendurada sobre sua cabeça -, o governo seguirá rumo a inflação desenfreada.

Isso acontecerá porque, se a dívida crescer demais como percentual do PIB, o governo não conseguirá mais se financiar a taxas viáveis e, em poucos anos anos, será forçado a apelar para a impressora para dar conta da folha de pagamentos. É um cenário possível, mas não provável. A proximidade dele deve ser suficiente para apavorar os gestores e faze-los se mexer.

O que os trava hoje é o mal uso do argumento de Paul Krugman contra o ajuste Alemão na Grécia. Krugman repete sempre que o ajuste fiscal imposto à Grécia não faz sentido porque contrai a economia e isso diminui a arrecadação. Com menos arrecadação, o desequilíbrio fiscal aumenta e é preciso cortar mais despesas (o que contrai e a economia e realimenta o ciclo).

A Grécia não tem moeda própria, não pode fazer política monetária ou desvalorizar (como já desvalorizamos aqui). Além disso, tem um economia bem mais restrita que a nossa – menos diversificada e com menos produtos para vender para o resto do mundo.

Mas, mesmo assim, o argumento faria sentido se o governo brasileiro tivesse um nível impressionante de credibilidade. O governo poderia sinalizar um ajuste fiscal de longo prazo – com reforma da previdência, reforma tributária, redução da burocracia, corte de nomeações políticas para áreas com grandes orçamentos etc..  Isso indicaria o fim da trajetória explosiva da dívida pública e daria um pouco mais de espaço para o governo gastar nos anos de queda na arrecadação.

Mas não é isso que vai acontecer. O governo já descumpriu tantas vezes suas promessas de fazer reformas, cortar cargos comissionados e arrumar a casa (descumpriram até a promessa simbólica de cortar o salário da presidente da República) que ninguém mais acredita na promessa de ajuste de longo prazo.

Empresários, investidores e afins só acreditarão vendo. Vão esperar pelo corte de gastos (contracionista) antes de se arriscarem a – eles mesmos – tirarem dinheiro do bolso.

E enquanto o governo não ajustar seus gastos e não propuser de forma concreta (não só com discursos vagos) reformas para o lado da oferta da economia, a crise vai se aprofundar, o desemprego vai aumentar e a saída, para muita gente, voltará a ser o aeroporto.

A inflação mostra que o problema do Brasil não é de demanda, como Dilma e seus seguidores preferiram acreditar nos últimos anos. O problema é de gestão: de políticas públicas mal formuladas e mal executadas.

Nesse campo, não há notícia de soluções concretas na agenda do governo.

Não parece haver luz no fim do túnel.

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Ruína grega do Parthenon exposta no Museu Britânico.

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