O lobby do ensino privado

dezembro 14, 2015

A crise na economia brasileira tem muito a ver com lobby político. Na primeira gestão Rousseff, o governo atendeu ao lobby da indústria para baixar o preço da energia, ao lobby das montadoras de automóvel para reduzir impostos, a lobbies fragmentados para dar empréstimos – via BNDES – com juros abaixo da inflação, enfim, o governo cedeu aos lobistas.

Os lobbies dos últimos anos tinham alguma sofisticação. Não diziam só “quero dinheiro barato do BNDES”. Para justificar as dezenas de bilhões de reais que o governo gasta por emprestar a taxas negativas, eles recorriam a teorias heterodoxas criadas justamente para fazer lobby pró-empresas.

Agora que a conta dos favorecimentos e da má política chegou, os heterodoxos de Campinas e da UFRJ começam a perder espaço e – naturalmente – outros grupos vêm ocupar o vazio.

O assustador é que são outros grupos de lobistas – com outras teorias não comprovadas que só servem para favorecer empresas.

Hoje, o professor Ricardo Paes de Barros – da faculdade privada Insper – aparece na Folha de São Paulo atacando o gasto público com universidades públicas. Há algumas semanas, em entrevista ao Valor, ele já tinha atacado as universidades públicas – e defendido o repasse de dinheiro a universidades privadas via Fies.

Sim, é um funcionário de universidade privada pedindo dinheiro público e atacado a concorrência das universidades públicas gratuitas – sem ao menos uma nota de rodapé sobre conflito de interesse.

As faculdades públicas no Brasil são mais voltadas para pesquisa e têm um acesso mais baseado em mérito que as particulares. A maior parte das particulares pertence a grandes grupos de capital aberto, como o grupo Kroton e a Estácio.

O efeito da política pública de Paes de Barros é afastar bons alunos da pesquisa – feita em faculdades públicas – e aumentar o ganho por ação da Kroton.

Ontem, na Globonews, a economista Zeina Latif defendeu abertamente a privatização de universidades públicas.

Com tantos problemas sérios para resolver, esses analistas vão atacar agora o pouco ensino público que o país tem?

Paes de Barros chega a defender, no fim da entrevista, a privatização do ensino básico (com “charter schools”, uma proposta de Milton Friedman que nem nos EUA virou política pública).

Em seu pior momento na entrevista, ele diz: “No futuro, vão achar que éramos completamente malucos em ter escolas estatais. Não há o menor sentido em educação ser estatal.”

Pedra na cabeça

PS: Semana passada, Armínio Fraga deu uma entrevista a Miriam Leitão defendendo o fim de todas as vinculações entre receita a despesa no Orçamento da União: “um orçamento feito do zero”, propôs.

Mas a principal dessas vinculações é a que garante um orçamento estável e previsível para a Saúde pública.

Com todo o discurso pró-capital humano, economistas de mercado querem agora cortar verba da saúde e da educação?

Porque não propõem cortar o funding do BNDES?

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2 Respostas to “O lobby do ensino privado”

  1. Caio said

    Eu acho engraçado você falar bastante de conflito de interesses e sutilmente a suposta “manipulação da mídia” quando na verdade você também faz isso ao citar o Insper e o Instituto Kroton na mesma frase, dando a entender que há uma relação entre eles e que o Insper quer repasse do Fies, quando na verdade este é um instituto independente e sem fins lucrativos, e com orgulho, sem relações com o governo (e por isso não está interessado em repasses). Não fale de manipulação quando esta está mais perto do que você imagina.
    Quanto ao ensino superior pago você deveria se informar mais pois a maioria dos alunos das universidades publicas poderia pagar pelo ensino, e isso é um problema que vai além do âmbito de resolução da política de cotas. As universidades públicas não são, verdadeiramente, meritocráticas, favorecem alunos ricos de escolas e cursinhos particulares.

    • rmoraes said

      Prezado Caio,

      Estudei em duas faculdades, uma pública e a outra, o Ibmec (cuja versão paulista deu origem ao Insper). O perfil dos alunos é muito diferente. A renda média da família de um aluno de uma universidade pública é assustadoramente menor que a de um do Ibmec.

      Não acho ilegítimo fazer lobby, todas as empresas de grande porte fazem. Mas acho que os lobistas deveriam indicar mais claramente que representam os grupos que os contratam ou a que estão, de alguma forma, associados.

      Só para registo: não insinuei relação entre Kroton e Insper: não tenho notícia de que exista. Todas as faculdades privadas querem mais demanda por seus cursos (logo, mais Fies). Não estou manipulando nada, apenas pedindo que economistas liberais (que esperava que me representassem) façam propostas minimamente isentas – se é que querem ocupar o enorme espaço aberto para propostas de políticas públicas nesse período de crise.

      Mas, com um discurso contra a educação pública, só conseguirão o repúdio do público.

      Por último, não posso afirmar que alunos de escolhas particulares não tenham vantagem na competição por vagas em universidades públicas. Mas estive em uma e sei que há alunos das origens (escola e faixa de renda) mais diferentes. E, ainda que não fosse assim, isso não seria razão para atacar um dos últimos bastiões da pesquisa e do ensino de qualidade no país – como tantos economistas têm atacado.

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