Algum acadêmico ainda vai produzir uma tese sobre o custo do lobby acadêmico para a economia do país.

Na economia, em especial, o lobby acadêmico é usado há décadas. Seu objetivo é criar, dentro de universidades, justificativas teóricas para a distribuição de benesses públicas a determinados grupos de empresas.

Se há uma justificativa “acadêmica”, então não é crime dar juro abaixo da inflação para montadoras multinacionais lucrativas, não é crime baixar os juros na marra (mesmo que a inflação suba) nem é crime estimular a demanda quando a inflação está beirando dois dígitos.

O primeiro efeito do lobby é justificar esse tipo de política. O segundo é criar uma horda de lobistas involuntários: pessoas que aprenderam na escola que não faz mal estimular a demanda com inflação alta.

Sem as teorias pró-montadoras e pró-BNDES, Dilma Rousseff talvez não tivesse armado a bomba econômica que deixou de presente para si mesma.

Para muitos grupos – depois de décadas usando essas teorias para conseguir empréstimos subsidiados ou barreiras à importação – parece natural usa-las para se descolar da crise econômica.

É por isso, provavelmente, que vemos Lula, Ciro Gomes, Márcio Pochman e outros indo à TV dizer que o governo tem que baixar juros e liberar mais crédito. Eles sabem que isso traria a inflação de vota em poucos meses, sabem que, com o tipo de indexação de contratos que temos no Brasil e com a inflação já beirando os 10%, esse tipo de medida seria o fim do mundo da estabilidade de preços como o conhecemos.

Mas, ainda assim, eles defendem o incentivo ao consumo. Minha tese é que defendem porque sabem que o governo não será insano a ponto de fazer o que propõem e – propondo essas coisas – eles poderão se dissociar da crise sem causar tantos estragos.

Mas a história começa a se complicar quando o coro pela demissão do ministro da Fazenda (que seria trocado por alguém a favor das políticas de Lula) ganha a primeira página do Valor Econômico.

Políticos brasileiros como Sarney, Collor e a própria Dilma já cometeram políticas que, vistas em retrospecto, são claramente delirantes. Com os incentivos políticos certos, nossos representantes em Brasília são capazes de praticamente qualquer coisa.

Lula e afins podem estar – intencionalmente ou não – nos empurrando para uma política econômica à Hugo Chaves – com hiperinflação e estagnação permanente.

Tomara que ninguém os escute e que seu discurso só sirva para – na próxima eleição – eles dizerem que tinham uma fórmula mágica contra a crise mas ninguém a adotou “porque queriam beneficiar os banqueiros”, como disse Ciro Gomes.

Para onde vamos?

Para onde vamos?

PS. No caso de Ciro, ele sabe que os preços livres, os não controlados pelo governo, também subiram acima do teto da meta do Banco Central (6,5%) nos últimos 12 meses, sabe que a inflação não é só o aumento dos preços da gasolina e da energia, sabe que o repasse eterno de aumentos – não contido pela política monetária – leva à aceleração da inflação e à alta generalizada de preços (que empobrece os assalariados). Em suma, ele sabe que, deixada solta, a inflação cresce.

Anúncios

No vídeo anexo à matéria neste link, o presidente da MCM Consultoria, Cláudio Adílson Gonçalves, lembra que o “povo na rua”, em grandes protestos, poderia pressionar o Congresso e acabar com o impasse que trava a política brasileira hoje em dia.

Mas, se depender disso, o impasse vai continuar.

Depois de ser dispersado a cacetadas, atingido por balas de borracha, de inalar gás lacrimogêneo e de ver supostos organizadores de protestos serem autuados e presos em tempo recorde, ninguém quer mais protestar.

Se ainda tivesse adiantado alguma coisa… Mas Dilma, Alckmin, Pezão, Beto Richa e outros se reelegeram.

Não há liberdade de manifestação no Brasil. Mas, se enfrentar a repressão aos protestos tivesse mudado alguma coisa, talvez alguém ainda se arriscasse.

Cláudio Adílson se orgulha de prestar consultoria à ministra Katia Abreu, líder ruralista ultraconservadora.

Os conservadores, que comemoraram o espancamento de manifestantes em 2013 (quando se acreditava que os protestos afetariam as eleições de 2014) não podem, agora, torcer para que as passeatas voltem.

E não torcem. Alguns deles, até hoje, se esforçam para tipificar a participação em protestos – ou a quebra de uma vidraça – como ato de terrorismo.

Resumindo: depois de reprimir protestos – com violência – não dá para clamar por eles como solução para os problemas da política brasileira.

A inflação vai espremer os salários, o desemprego vai aumentar, mas o povo não vai voltar para as ruas, nem que a Globo passe Anos rebeldes de novo em horário nobre.

O povo, escultor egípcio ultra conservador anônimo, 2500 A.C.

“O povo”, escultor egípcio ultraconservador anônimo, 2500 A.C.