Governo x tautologia

outubro 18, 2015

Tudo que é insustentável, alguma hora, acaba.

Aparentemente redundante, a frase acima tem uma pequena maldade: o “alguma hora”.

Discípulos de Milton Friedman defendem a teoria (nunca provada) das expectativas racionais. Segundo ela, as pessoas tomam decisões usando toda a informação disponível e olhando para frente, para o futuro. Assim, se estão num barco prestes a afundar ou em um governo prestes a cair, tratam – imediatamente – de mudar para uma posição em que fiquem melhor (ou mais seguras) se o que estão prevendo – de fato – acontecer.

Se for só isso, vão todos para o mar, no caso do barco afundando, e para a oposição, no caso do governo em queda.

Mas não é só isso. O caso clássico de insustentável que durou 70 anos é a União Soviética. Ao longo de décadas, diplomatas, filósofos e escritores como George KennanFriedrich Hayek e Mikhail Bulgacov listaram os motivos porque a União Soviética era inviável. E ela caiu pelos motivos que eles listaram. Mas demorou 70 anos.

O que manteve o regime? O que fez com que não desabasse sob o peso da desorganização econômica causada pelo controle de preços (Hayek)? Por que não caiu com a ineficiência dos favorecimentos e idiossincrasias dos burocratas que tinham poder quase absoluto (Bulgacov)? Como resistiu à perseguição de alguns de seus melhores técnicos e pensadores como o próprio Bulgacov? Como o povo que produziu – e lia – Dostoievski aguentou uma ditadora daquele tipo (Kennan)?

O problema é que havia uma forte estrutura estatal empenhada em se manter no poder – mesmo a um custo alto.

A História não é mecânica e previsível. Embora dissesse que acreditava na História mecânica à Marx, o que o o governo russo fez foi nadar contra a corrente por 70 anos. Mataram gente, censuraram opositores, fizeram o diabo (como alguém já disse) para conservar o poder.

São as pessoas fazem a História: ela não está dada. Mas, mesmo fazendo o diabo, não dá para sustentar o insustentável para sempre. Não dá para brigar com a tautologia – dá, no máximo, para adiar o ajuste.

Resumindo: acho que o governo cai. Mas pode demorar. Eles ainda têm poder e capacidade para tomar muitas decisões (destrutivas) que lhes dêem uma sobrevida.

Os exemplos disso são próximos: os governos da Venezuela e da Argentina estão acabando com a economia de seus países em nome da manutenção do poder. O daqui é perfeitamente capaz de fazer o mesmo.

Hora de abandonar o barco.

Hora de abandonar o barco.

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