Uma das boas partes da longa entrevista do ex-presidente Ernesto Geisel ao Centro de Documentação da FGV é a descrição do processo que o levou à presidência da República. Em um caso atípico de ditadura com alternância no poder, é curioso ver os critérios dos generais para escolher seu futuro chefe.

O lobby para indicar Geisel foi feito por seu irmão, o então ministro do Exército Orlando Geisel. Mas o lobby sozinho não garantiria a presidência. Para ter o apoio das Forças Armadas, era importante que Geisel não demonstrasse apego demais ao poder. Gente com muito gosto pelo poder não deve ter poder demais. Militares – que passam a vida sob uma hierarquia rigorosa – entendem isso perfeitamente. Era importante então que Geisel não se mostrasse ansioso nem manobrasse ostensivamente para ocupar a presidência. Isso -curiosamente – diminuiria o apoio a ele entre os generais.

O governo Dilma sempre lembra um pouco o do general-presidente, seja pelo intervencionismo excessivo, seja pela má política econômica. Mas lembrei da história acima por conta de uma notícia que ajuda a ver a diferença entre os dilmistas e o velho general-presidente. Para os dilmistas, ostentar poder é motivo de orgulho.

Foi assim que hoje, involuntariamente, o ex-ministro da Fazenda e “amigo da rainha” Guido Mantega me convenceu a apoiar o impeachment de Dilma.

Como ele fez isso? Mantega obrigou dois empresários paulistas a se retratarem, a redigirem pedidos formais de desculpas por terem o ofendido em público. Para não gastar fortunas com processos na Justiça, os empresários enviaram o pedido – exigido judicialmente pelo ex-ministro.

O processo contra os dois, por calúnia, injúria e difamação, foi movido porque, há alguns meses, eles xingaram – em um restaurante de luxo em São Paulo – o ex-ministro de ladrão, palhaço e sem vergonha.

A demonstração de força da exigência judicial de desculpas combina com os gritos com que a ex-chefe de Mantega é conhecida por tratar quem trabalha com ela.

Gente que gosta demais de poder não deveria ter muito.

Mas isso é uma racionalização. Na verdade, Mantega me convenceu a defender o impeachment porque acho intolerável que – depois do estrago que fez na economia do país – ele ainda tenha qualquer tipo de poder, principalmente o de “amigo do rei” – que é, possivelmente, o segundo posto na hierarquia federal brasileira desde os tempos do império.

Se não podemos xingar Mantega em público, podemos, pelo menos, promover o impeachment de sua chefe?

A mistura de gestão temerária e arrogância que os dois personificam me faz querer ver o governo cair, mesmo que seja para outro grupo de políticos mal intencionados e sedentos por poder assumir no lugar.

O fim está longe? Quanto tempo falta para a crise passar?

O fim está longe? Quanto tempo falta para a crise passar?

Rumo à renda zero

setembro 5, 2015

Alguns economistas têm lembrado da ideia de regressão à média para projetar que o país pode voltar a crescer em 2017. A ideia é simples: depois de piorar muito, a economia pode ter mais espaço para melhorar do que para continuar piorando.

Teríamos crescimento em 2017 por ter como comparação um 2016 já muito ruim.

Mas, além de simplificar demais, isso é deixar de lado o problema que nos levou à crise atual.

O governo Dilma tem um histórico de contrariar princípios básicos de economia em nome de pequenos ganhos de curto prazo. Ele fez isso rotineiramente nos últimos quatro anos e é perfeitamente capaz de continuar fazendo (principalmente em datas próximas a eleições).

É pouco provável que 2016 seja o fundo do poço. Com incentivos ruins no longo prazo, o fundo do poço não existe. Para cair do Império romano para a Idade média, basta insistir nos erros certos por um período de tempo suficientemente longo.

Em 1776, Adam Smith descreveu como – dado um determinado conjunto de regras – podíamos contar com o egoísmo do próximo para aumentar a renda da nação.

O problema (um dos problemas) é que estão jogando fora esse conjunto de regras.

Os incentivos hoje são para ser amigo do rei, para pedir juros com taxas especiais no Banco do Brasil, não para produzir.

Produzir, na prática, é muito arriscado. Sabemos que as trajetórias da dívida pública e do sistema político não são sustentáveis e que – de uma hora para outra – pode haver algum tipo de mudança nas regras do jogo.

É melhor esperar para ver.

Os incentivos estão distorcidos e o governo não parece muito disposto a lidar com isso – prefere continuar negociando benesses no varejo. Seu histórico indica que pode nem ser capaz de entender o que está acontecendo.

A crise promete ser longa.

Ruínas à frente.

Ruínas à frente.